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11 de setembro, o dia em que o mundo parou
 
 
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 A NOVA FACE DO TERROR
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O consulado britânico em Istambul sofreu um atentado terrorista em novembro de 2003

Os atentados de 11 de setembro de 2001 inauguraram um novo tipo de terrorismo capaz de causar a morte de civis em massa e de atacar em qualquer lugar do planeta. Nunca antes uma ação terrorista havia provocado um massacre com essas características nem havia atingido tão diretamente o centro do imperialismo econômico e militar norte-americano.

A Al Qaeda cumpriu seu objetivo: instaurou no mundo um profundo sentimento de insegurança. Mesmo o gigantesco poder bélico dos Estados Unidos não conseguiu eliminar esse medo. Os atentados de grupos vinculados à rede de Osama bin Laden não tiveram fim. Alguns ocorreram em países onde não havia antecedentes desse tipo de violência, como Inglaterra, Egito, Turquia, Marrocos, Peru e Quênia. O mais próximo e de maior impacto, no entanto, foi o de Madri, em 11 de março de 2004, dois dias antes das eleições. Naquele dia, quatro bombas explodiram simultaneamente nas estações ferroviárias de Atocha, Santa Eugenia e El Pozo, em Madri. Os atentados causaram a morte de 189 pessoas e feriram 1.463, números que poderiam ter sido muito maiores se uma das ações terroristas, que pretendia destruir um trem inteiro na estação de Madri, não tivesse falhado.

Hoje, portanto, o que mais preocupa os analistas não é o fato de a Al Qaeda ter células em pelo menos 34 países, mas o grau inusitado de violência que a organização é capaz de usar contra alvos civis e que a diferencia de outros grupos terroristas que até a atualidade causaram números menores de mortos.


HISTÓRIA DO TERROR
A palavra “terrorismo” teve origem na França durante o Reino do Terror, período que se seguiu à Revolução Francesa de 1789, embora a história registre atividades terroristas desde os tempos do Império Romano. Em seu livro Uma história do terrorismo, Walter Laqueur define esse tipo de ação violenta como “o uso calculado da violência ou da ameaça de violência para infundir medo; propõe-se a forçar ou intimidar governos ou sociedades, para atingir metas que são geralmente políticas, religiosas ou ideológicas”.

Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as práticas terroristas se disseminaram pelo mundo e foram usadas, por exemplo, por movimentos anticolonialistas no Vietnam e na Argélia. Na década de 1970, o terrorismo se disseminou pela Europa (ETA, na Espanha; IRA, na Irlanda do Norte; Brigadas Vermelhas, na Itália) e por quase toda a América Latina (Sendero Luminoso, no Peru) e era comum entre grupos palestinos em sua luta contra Israel (Setembro Negro e OLP). Surgiram então terroristas que alcançaram notoriedade pública, como o venezuelano Carlos (chamado o Chacal) e o palestino Abu Nidal (1937-2002). Diferente do terrorismo da década de 1970, que tinha objetivos políticos, o da Al Qaeda tem um forte componente religioso, já que seus militantes fanáticos se consideram a vanguarda da guerra santa (jihad) contra a decadência ocidental.


AMEAÇA EM ESCALA GLOBAL
Al Qaeda significa “a base” e denomina um grupo de militantes muçulmanos originários de diversas regiões do mundo árabe que se alistaram para lutar ao lado dos talibãs no Afeganistão. Foi criada e financiada por Osama bin Laden, saudita que se estabeleceu em território afegão, onde lutou nas décadas de 1970 e 1980 contra a ocupação soviética.

Bin Laden apoiou com sua fortuna pessoal o regime dos talibãs, que tomou o poder no Afeganistão, em 1996. Os talibãs nem sempre foram inimigos dos EUA. Na década de 1980 eles eram descritos por Washington como os freedom fighters (guerreiros da liberdade) que lutavam contra a ocupação soviética. Uma mostra da relação de amizade entre os EUA e os talibãs está no filme Rambo III, no qual o herói representado por Sylvester Stallone viaja para o Afeganistão no intuito de ajudar os freedom fighters na sua luta contra a URSS e para resgatar um coronel norte-americano seqüestrado pelas forças russas.

Os talibãs, porém, sempre pregaram uma interpretação ultrafundamentalista do Islã, mesmo na época em que eram companheiros de lutas dos norte-americanos.

Tempo depois, o líder da Al Qaeda designou os Estados Unidos como o grande inimigo devido ao apoio norte-americano ao Estado de Israel e ao envio de tropas norte-americanas ao golfo Pérsico durante o primeiro conflito com o Iraque, em 1991. Esse ódio não nasceu em defesa do regime de Hussein, a quem sempre rejeitou por ser um governo laico, mas de sua certeza de que os norte-americanos profanaram o território santo ao se instalarem na Arábia Saudita, país onde fica Meca, o lugar mais sagrado do Islã — na mesma época, nos EUA, os antigos freedom figthers passaram a ser chamados de terroristas.

A posição de Bin Laden contra os EUA passou a ser partilhada por outros setores extremistas do mundo muçulmano, que não aceitam o objetivo de Washington de instaurar sistemas de governo semelhantes aos ocidentais (democracias, separação entre Estado e religião, economia de mercado etc.). Sua reação à ingerência ocidental não poderia ser mais violenta.

A Al Qaeda não tenta negociar nada. Não tem um braço político e limita-se a exigir a retirada dos Estados Unidos do mundo muçulmano e o desaparecimento de Israel. “Os terroristas de antes queriam a adesão de muitas pessoas, mas não provocar massacres”, garante Matthew Levitt, acadêmico especializado em estudos do terrorismo no Instituto de Washington de Política do Oriente Médio, e acrescenta: “A Al Qaeda quer matar o maior número possível de pessoas”. A organização também não escondeu sua disposição de usar armas de destruição em massa, nucleares e químicas, em seus atentados.

Outra característica particular da Al Qaeda é sua estrutura hierárquica enxuta, já que se organiza em torno de uma série de grupos afins que atuam com total independência. Foi o que ocorreu em 2002 em Bali (Indonésia), onde os organizadores do terrível atentado que matou 202 pessoas disseram que “se inspiraram” em Osama bin Laden. Assim, a Al Qaeda expande sua campanha de terror para lugares onde, antes de 11 de setembro de 2001, esse tipo de violência era desconhecido.“Estamos tratando com uma bestialidade muito diferente da que enfrentávamos antes”, disse Levitt. O analista, que colabora com o FBI, a polícia federal norte-americana, assegura: “o que temos agora não é uma ameaça terrorista nacional. É muito mais global e não simplesmente política. Tem um componente muito mais ideológico e teológico”.