ENTENDER O MUNDO/ATUALIDADES
Coronavírus chinês
JANEIRO 2020
 
 
Conheça
#FFFFFF
    ARTIGO      
 O RISCO DE UMA PANDÊMIA
Imprimir Enviar Guardar
 
Recentemente o mundo acordou alarmado com a possibilidade de uma grande pandemia causada pelo novo Coronavírus. A nova variedade deste microorganismo, conhecido por atacar o sistema respiratório, surgiu na China e se espalhou a partir da região da cidade de Wuhan. Este vírus pertence a um grupo maior, conhecido desde o início da década de 60 é um vírus de cadeia de RNA simples de sentido positivo, ou seja, capaz de realizar síntese de proteínas virais diretamente a partir de seu material genético. Estes vírus podem causar sintomas simples como os de simples resfriados ou apresentar complicações mais graves, podendo levar à morte. Doenças causadas pelo Coronavírus não são exatamente uma novidade, estes vírus foram responsáveis por duas epidemias graves em um passado recente, como o SARS (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda grave), que matou 774 pessoas das 8098 pessoas infectadas na china entre 2002 e 2003 e pela MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que matou 858 pessoas das 2494 infectadas.

O novo Coronavírus chinês, entretanto, tem se alastrado de forma mais rápida que suas vertentes anteriores, pelo menos 2700 pessoas já foram diagnosticadas com o vírus em um período de 2 meses, e mais de 100 mortes já foram registradas em decorrência de complicações respiratórias causadas pela doença, números estes que continuam aumentando a cada dia. Especula-se que a contaminação humana pode ter sido causada pela ingestão de animais como morcegos e serpentes, tendo em vista que esta família de vírus pode ser encontrada facilmente nestes animais. Entretanto, não existe um consenso científico sobre a origem da doença, já que estes microorganismos são encontrados em diversos vertebrados distintos. Mutações em Coronavírus já haviam sido detectadas anteriormente, o que permitiria o surgimento de novas vertentes virais em diversos tipos de hospedeiros, fazendo com que o vírus possa passar de um animal para outro, podendo assim, chegar aos seres humanos. Diferente das outras epidemias do passado, já foi comprovado que o novo Coronavírus chinês pode ser passado através de seres humanos de forma sustentada, o que aumenta a chance de uma grande pandemia. A transmissão pode acorrer pelo ar por meio de espirros e de tosses de pessoas que contraíram o vírus, ou ainda pelo contato com objetos ou superfícies contaminadas.

Pela facilidade de transmissão e pelo tempo de incubação assintomático do Coronavírus, que pode chegar a até 14 dias, a capacidade de transmissão do vírus é ampliada. Devido a isto, autoridades chinesas tomaram medidas drásticas de contenção, restringindo o transporte de pessoas das cidades mais afetadas para outros locais, além de alterar as datas de comemorações importantes como o Ano Novo chinês para evitar aglomerações. Outras medidas tem sido tomadas pelo governo chinês, como o controle de temperatura de pessoas nas ruas das cidades mais afetadas, qualquer pessoa com febre tem sido isolada e avaliada, além da suspensão de transporte público nos locais mais afetados. A venda de animais silvestres também foi proibida em todo o país.

Outros países também têm tomado medidas para evitar a entrada do vírus em seus territórios. O departamento de Estado dos Estados Unidos emitiu recentemente um comunicado aos seus cidadãos para que avaliassem a real necessidade de uma viagem à China neste período. Além disso o país está organizando um voo que partirá da cidade de Wuhan para São Francisco que pretende retirar de cidadãos americanos e diplomatas das regiões mais afetadas. Outros países, como a França, Japão e Coréia do Sul, por exemplo, também estão verificando formas para retirar seus cidadãos das áreas mais afetadas em voos fretados particulares.

Independente do esforço, o que tem se observado é um aumento no número de casos e de países na qual a doença foi detectada. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), o risco global da doença se espalhar é alto, sendo já considerado na China uma emergência de saúde pública. Esta classificação, segundo autoridades da OMS estão relacionadas a vários aspectos, como a gravidade da doença, sua disseminação e a capacidade dos países de lidar com o problema. Entretanto as autoridades ressaltam que apesar do alto risco global, ainda não é necessário se gerar demandas de ações globais coordenadas para conter o avanço do Coronavírus. Até o momento, além da China, pelo menos outros 14 países já tiveram casos confirmados da doença, totalizando um número de 37 confirmações, número que sem dúvida irá aumentar nos próximos dias.

No Brasil diversos casos de pessoas infectadas pelo novo Coronavírus chinês já foram descartados, entretanto, no dia 28 de janeiro um novo caso de suspeita tem sido investigado pelo Ministério da Saúde. Trata-se de uma estudante de 22 anos que retornou da região de Wuhan no dia 24 de janeiro e que apresenta sintomas compatíveis com a doença. Segundo o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta a estudante está isolada em um hospital de alta organização na área de infectologia e passa bem. Todas as pessoas que tiveram contato com a estudante estão sendo monitoradas, bem como outros viajantes que se encontravam no voo entre Brasil e China. Como nos Estado Unidos, o Ministério da Saúde tem orientado brasileiros a viajar para a China somente em casos de extrema necessidade.


O que é o novo Coronavírus Chinês e quais os riscos
Nomeado oficialmente de 2019-nCoV, a nova vertente deste microorganismo pode causar infecções respiratórias agudas e levar pessoas infectadas, principalmente idosos com outros problemas respiratórios, ao óbito. Em geral os sintomas iniciais da doença são mais brandos do que aqueles causados pela SARS ou pela MERS, iniciando-se com febre e tosse, podendo desencadear problemas respiratórios mais sérios. Normalmente as infecções causadas pelos Coronavírus causam doenças respiratórias brandas, semelhantes a resfriados. Os mais conhecidos e que circulam praticamente no mundo todo são o alpha coronavírus 229E e NL63, além do beta coronavírus OC43 e HKU1.

Estes vírus infectam principalmente crianças, mas não possuem agravantes em seus sintomas, como tosse, coriza, dor de garganta e febre, tendendo a desaparecer rapidamente. Em alguns casos estes vírus podem ainda comprometer as vias respiratórias inferiores, causando quadros típicos de pneumonia, principalmente em idosos ou em pessoas com sistema imunológico comprometido. O tempo de incubação do novo Coronavírus chinês varia de 2 a 14 dias, e sua transmissão pode ser realizada antes mesmo de aparecer os sintomas. Além dos sintomas comuns apresentados pelos outros coronavírus mais comuns, esta nova variedade pode apresentar falta de ar e dificuldades para respirar. Em casos mais graves os pacientes podem apresentar pneumonia, síndrome respiratória aguda e insuficiência renal. Alguns pacientes em estado grave apresentaram ainda lesões invasivas nos pulmões.

Os coronavírus fazem parte da família Coronaviridae e recebem este nome devido ao seu formato, já que possui diversas espículas em sua superfície fazendo com que ele se assemelhe a uma coroa. São vírus compostos por apenas uma única molécula de RNA envolta por um nucleocapsídeo helicoidal. Além dos coronavírus que afetam o sistema respiratório, também são conhecidas espécies que podem causar problemas gastrointestinais em animais e seres humanos. De uma forma geral são encontrados mais comumente em roedores e morcegos, porém já foram identificados em diversos outros tipos de vertebrados. Vale ressaltar que é um grupo bastante difundido de vírus e que a maioria das pessoas já tiveram contato com formas mais brandas destes microorganismos sem que sintomas mais graves tivessem aparecido. Ao total eram conhecidos seis tipos distintos de coronavírus, sendo que quatro destes subtipos são inofensivos. Os outros dois mais perigosos foram exatamente aqueles causadores da SARS e da MERS, o novo Coronavírus chinês é mais um destes subtipos letais que surgiram devido a mutações específicas em coronavírus animais. Além dos coronavírus, são conhecidos outros vírus que atacam o sistema respiratório, como os vírus influenza bastante conhecidos devido aos surtos de gripe H1N1 e H5N1.


O que tem sido feito para conter o avanço do vírus
Diversas autoridades mundiais de saúde têm destacado a importância da implantação de “medidas de barreira” para se tentar evitar a proliferação do vírus pelo mundo. Estas medidas já foram aplicadas em outros casos de doenças virais com risco de pandemia, como o caso da gripe H1N1 e se mostraram muito eficientes. As principais medidas seriam lavar as mãos com frequência, tossir ou espirrar em lenços e evitar tocar o rosto em suspeita de contaminação. Além destas medidas básicas, na china o governo tem distribuído máscaras para as pessoas na tentativa de evitar a proliferação do vírus. Em todos os casos suspeitos os pacientes devem ser isolados e tratados por agentes de saúde devidamente protegidos. No advento do SARS e da MERS um grande número de pessoas contaminadas estava entre agentes de saúde.

Além das medidas protecionais básicas um grande esforço para o desenvolvimento de uma vacina tem sido realizado por órgãos de saúde em todo o mundo. Recentemente a CEPI (Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias), um grupo internacional de combate a doenças infecciosas, anunciou a disponibilização de um fundo para apoiar três programas de desenvolvimento de vacinas contra o novo coronavírus chinês. A empresa norte americana Moderna Therapeutics também divulgou recentemente um esforço para tentar desenvolver uma vacina contra o coronavírus. Para tal, a empresa sediada em Cambridge, Massachusetts, em conjunto com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, pretende usar uma técnica já conhecida para outros vírus na qual o RNA viral é impedido de transitar entre o núcleo da célula infectada e o citoplasma, impedindo assim que os processos de tradução das proteínas virais ocorram. Esta técnica já foi utilizada para os vírus influenza e obteve resultados clínicos bastante satisfatórios. Após o desenvolvimento da vacina a empresa pretende iniciar os testes clínicos o mais rápido possível, segundo cientistas o prazo previsto gira em torno de três meses.

Até o momento os países afetados pela doença e com casos confirmados são China, Tailândia, Austrália, Malásia, Singapura, França, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, Vietnã, Arábia Saudita, Nepal e Canadá. O caso do Brasil ainda não foi confirmado. Segundo especialistas a doença não tem se demonstrado como mais perigosa que o SARS, que apresentou uma taxa de mortalidade de cerca de 10% das pessoas infectadas. Entretanto, autoridades de saúde da China tem ressaltado que a capacidade de propagação do vírus tem se reforçado, algumas estimativas computacionais, baseadas em epidemias anteriores, realizadas por cientistas do Colégio Imperial de Londres indicam que a taxa de transmissão pode chegar a três pessoas a partir de cada pessoa infectada. Em Wuhan, os chineses estão construindo um hospital em ritmo acelerado que contará com mil leitos para atender as pessoas que contraírem a doença, além de lançar oito projetos de pesquisa para tentar lidar com a propagação do vírus. Não se sabe ainda se a epidemia será controlada em tempo hábil, porém, autoridades de saúde indicam que não existe motivo para pânico, todas as medidas, que já foram eficientes no passado recente, estão sendo tomadas em tempo recorde e que a chance de uma pandemia ainda é pequena. Não se sabe ainda se surto será persistente ou se desaparecerá em pouco tempo como outras doenças virais, cientistas são unanimes em dizer que somente novos estudos do 2019-nCoV serão capazes de dizer se pessoas já infectadas irão gerar uma resposta imune definitiva ou se serão capazes de serem infectadas mais de uma vez.


DIVULGAÇÃO E MEDIDAS DE CONTENÇÃO
O Johns Hopkins Center for Systems Science and Engineering (CSSE) construiu e está atualizando regularmente um painel para rastrear a disseminação mundial do surto do Coronavirus (2019-nCov). O site tem estatísticas e um mapa. É possível baixar os dados gratuitamente.

Um fantástico trabalho internacional de divulgação, informação e medidas de contenção.

Acesse o painel aqui: Wuhan Coronavírus (2019-nCoV) Global Cases (by Johns Hopkins CSSE)


Coronavírus
FOTO: AGÊNCIA BRASIL/TYRONE SIU


LEIA TAMBÉM