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As tensões entre EUA e Irã e a morte de Qassem Soleimani
JANEIRO 2020
 
 
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 O ATAQUE
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No dia 3 de Janeiro de 2020, um drone militar norte-americano MQ-9 Reaper fez um ataque ao aeroporto de Bagdá, capital do Iraque, deixando várias pessoas mortas, entre elas o líder militar iraniano Qassem Soleimani. Sua morte foi duramente recebida pela comunidade iraniana, e diversos funerais, com a participação de milhares de pessoas, demonstrando a força de sua imagem não apenas no Irã, mas em todo o Oriente Médio. Este ataque provocou uma onda de temor na comunidade internacional, que viu neste ato americano um possível estopim para uma nova guerra no Oriente Médio. Durante a semana do ataque, redes sociais conviveram com diversas postagens que especulavam a respeito da possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Para vários analistas e profissionais do meio jornalístico, entretanto, tal tomada de decisão pelos norte-americanos não seria capaz de promover um conflito em escala mundial, mas poderia desencadear mais uma guerra no conturbado cenário do Oriente Médio. Porém, mesmo com a resposta iraniana, ao lançar diversos mísseis sobre bases americanas no Iraque, no dia 8 de Janeiro de 2020, não houve uma escalada concreta da violência na região. Esta ação norte-americana, ao provocar a morte de um líder militar acusado de comandar e instigar ações terroristas na região, entretanto, não foi um ato isolado do governo dos Estados Unidos, mas fruto de um cenário de tensões entre os dois países que já atravessa mais de meio século.

O cenário
O Irã é um país do Oriente Médio que descende diretamente do antigo Império Persa, surgido ainda na Antiguidade. Possui a segunda maior população da região, com mais de 81 milhões de habitantes, sendo estes habitantes majoritariamente da etnia persa, diferentemente da maioria árabe que circunda o país. Seu idioma é o persa ou farsi, e a religião predominante é o islamismo, da vertente xiita, principal herança da presença árabe na região, datada da época medieval.

Desde a fundação do Império Persa na Antiguidade até o século XX, o Irã foi alvo de inúmeras disputas e invasões, tendo passado pelo domínio de várias outras nações. A moderna história do Irã pode ser iniciada no princípio do século XX, quando a Revolução Constitucional de 1905 - 1921 depôs a Dinastia Qadjar, de origem turca, criando no país uma monarquia constitucional. No período inicial desta monarquia constitucional, ainda em 1908, foi descoberto o petróleo na região, que passou a ser explorado por uma recém-criada companhia, a Anglo-Persian Oil Company. Esta extração configura o início da exploração petrolífera no Oriente Médio, que configura até a atualidade a principal fonte de riquezas na região e o mais marcante elemento de interesse de outras nações sobre aquela área. Em 1914, o governo britânico ampliou seu controle sobre a Anglo-Persian Oil Company, ao obter a posse de 51% das ações da empresa e abarcando a maior parte dos lucros provenientes do comércio deste produto e marcando uma ampliação da exploração internacional do recurso.

Em 1941, o Irã foi invadido, no contexto da Segunda Guerra Mundial por forças dos Aliados, cujo objetivo era a proteção às fontes de petróleo, que configuravam uma matéria-prima essencial para o desenvolvimento do conflito. Essa invasão provocou a queda do governante Reza Xá Pahlavi, primeiro monarca da dinastia Pahlavi, cujas relações com a Alemanha, mesmo após a ascensão dos nazistas ao poder, eram bastante próximas. O governante abdicou em nome de seu filho, Mohamed Reza Pahlavi, cujo governo se estendeu até o ano de 1979. Durante a administração de Mohammed Reza Pahlavi, em 1951, ascendeu ao poder o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh, em virtude de uma coalização e forças oposicionistas ao governo. Mossadegh foi responsável, logo no início de sua gestão, pelo processo de nacionalização das empresas petrolíferas que atuavam no Irã, tal como a Anglo-Iranian Oil Company (o nome foi modificado após o Irã deixar de se chamar Pérsia, em 1935) em uma ação de cunho nacionalista e anti-imperialista. Tal nacionalização gerou indisposição do primeiro-ministro não apenas com o xá, mas em especial com as potências estrangeiras, como Estados Unidos e Grã-Bretanha. Foi cogitado um embargo ao petróleo iraniano no mercado internacional, mas os norte-americanos entendiam que esta ação poderia aproximar o Irã da União Soviética, no contexto da Guerra Fria. Desta forma, a situação sustentou-se até 1953, quando articulações promovidas pela CIA (agência de inteligência norte-americana) levaram a um golpe que depôs Mossadegh.

Deste momento em diante, as relações entre Irã e Ocidente, principalmente com os Estados Unidos, tiveram uma aproximação maior, uma vez que o governo norte-americano apoiava a autocracia instalada por Mohammed Reza Pahlavi. Esta situação levou não apenas a um maior relacionamento econômico, mas também a uma ocidentalização cada vez mais intensa dos costumes e da cultura iraniana. Junto a isso, uma intensa violência política exercida pela Savak (polícia secreta a serviço do xá) marcou este período, com prisões, torturas e mortes de oposicionistas, além da censura, aliado a um quadro de pobreza e inflação, que serviram para reunir grupos de esquerda, movimentos estudantis e grupos religiosos conservadores, cuja principal liderança era o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902 – 1989).

O aiatolá Khomeini, por se mostrar enquanto uma liderança que ameaçava o poder do xá, foi exilado em 1965, e do exterior passou a organizar a oposição ao governo. A insatisfação do povo iraniano, insuflado pelas falas do aiatolá, levou a um movimento que derrubou o xá Mohammed Reza Pahlavi em fevereiro de 1979, no contexto da Revolução Iraniana. O movimento foi responsável por repatriar o aiatolá Khomeini e colocar fim à monarquia iraniana, criando a República Islâmica do Irã. Este foi o momento no qual as relações com o mundo ocidental ficou absolutamente abalada, mas o rompimento das relações diplomáticas entre o Irã e os Estados Unido ocorreu em definitivo quando, em novembro de 1979, houve a invasão da embaixada norte-americana em Teerã. Esta ocupação durou 444 dias, tendo sido os reféns libertados apenas em Janeiro de 1981. Foi após a subida dos conservadores religiosos ao poder que a figura de Qassem Soleimani ganhou destaque dentro da política e das forças armadas do Irã.


Quem foi Qassem Soleimani
O general Qassem Soleimani nasceu em 11 de Março de 1957, na vila de Qanat-e Malek, na província de Kerman. Era filho de Hassam Soleimani e Fatemeh Soleimani, um casal de agricultores empobrecidos do sudeste iraniano. Ao terminar os estudos, Qassem Soleimani mudou-se para a cidade de Kerman, onde trabalhou na construção civil para auxiliar o pai no pagamento de suas dívidas. Posteriormente, tornou-se empreiteiro da Kerman Water Organization. Durante este período, tornou-se praticante de artes marciais, ao mesmo tempo em que frequentava constantemente os cultos religiosos liderados por Hojjat Kamyab, que teria sido responsável por instigar no jovem Soleimani a ideia de que era possível uma revolução islâmica no país.

Em 1979, quando os protestos se avolumaram no Irã, o xá Mohamed Reza Pahlavi acabou sendo deposto, passando o país à liderança do aiatolá Khomeini. Neste contexto, foi criado o Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica, também conhecido como Guarda Revolucionária Iraniana. Esta força militar possui seu próprio ministério, unidades terrestres, aéreas e navais, e conta com um efetivo atual de cerca de 120 mil combatentes, sendo uma organização paralela ao exército iraniano. Qassem Soleimani alistou-se nessa força já em 1979, tendo sido, logo de início, enviado ao noroeste do país para combater os curdos que viviam nesta região. A população curda representa 7% do total da população iraniana, e há um longo tempo reivindicam para si a formação de um país, sendo combatidos pelo Irã, Iraque, Turquia e Síria. O aiatolá Khomeini, em agosto de 1979, iniciou um processo para tentar barrar as reivindicações curdas e estabelecer o efetivo controle iraniano sobre esta região, o que originou um conflito que se estendeu até 1982. Em meio a este conflito, no ano de 1980, o Irã foi atacado pelo Iraque, o que iniciou uma nova guerra.


Na Guerra Irã-Iraque
A guerra entre Irã e Iraque iniciou-se em Setembro de 1980 e perdurou até Julho de 1988. Vários são os elementos que podem ser apontados como causadores dessa guerra, como a disputa pela região do Chat Al Arab, um rio que liga o interior do Oriente Médio ao Golfo Pérsico, formando uma importante saída para o mar, ou mesmo a questão religiosa, uma vez que a Revolução Iraniana instalou o país um governo xiita, sendo que os iraquianos são, em sua maioria, da vertente sunita, tal como seu líder à época, Saddam Hussein (1937 – 2006). O presidente iraquiano temia que a parcela xiita de sua população tomasse a Revolução Iraniana como um exemplo e iniciasse um movimento para derrubá-lo do poder. Também entram como motivos deste conflito o auxílio que, antes da subida de Khomeini ao poder, o governo iraniano deu aos rebeldes curdos, em virtude de disputas territoriais sobre a região do Cuzistão, que era ambicionada pelos iraquianos. Somado a isso, houve ainda um significativo apoio de governos estrangeiros, tal como o dos Estados Unidos, para Saddam Hussein, com o intuito de derrubar o governo islâmico que se estabelecera no Irã.

Contrariando normas internacionais, não houve uma declaração formal de guerra, e o conflito se iniciou com ataques iraquianos ao território do Irã, buscando tirar vantagem das convulsões causadas ainda pela Revolução de 1979. O governo de Khomeini havia executado muitos dos antigos oficiais, partidários do governo deposto, e isto havia enfraquecido suas forças armadas. A estratégia iraquiana, porém, não obteve o sucesso esperado, pois serviu como fator de fortalecimento para o governo de Khomeini e a invasão surpresa terminou por unificar os iranianos em torno de um inimigo externo comum.

As batalhas se seguiram com ofensivas e contraofensivas, não havendo nenhuma conquista ou vitória que pudesse colocar fim ao conflito. Muitas instalações petrolíferas foram atacadas ao longo dos combates, o que, além de gerar um choque no preço do petróleo, trouxe também um grande impacto ambiental. Junto a isso, houve grande custo humano, não havendo um consenso sobre o número de mortos na guerra, mas se estima que aproximadamente um milhão de pessoas tenha perdido a vida. A guerra provocou também uma enorme polêmica dentro dos Estados Unidos, uma vez que foi comprovado que durante o conflito, embora apoiasse e financiasse o regime de Saddam Hussein na luta contra os iranianos, os norte-americanos também venderam armamentos ao Irã. O esquema ficou conhecido como Irã-Contras, e funcionou com a intermediação de Israel, que repassava aos iranianos as armas e pagava por elas com o dinheiro vindo do governo de Khomeini. Esta estratégia, que abalou a imagem de Ronald Reagan (1911 – 2004) ao ser divulgada pela mídia norte-americana, buscava facilitar as negociações para a libertação de reféns americanos nas mãos do Hezbollah, que possuía o apoio da Guarda Revolucionária Iraniana. O caso terminou com a prisão de 11 funcionários do governo federal norte-americano, que posteriormente foram anistiados.

Ao final de oito anos de conflito, com as economias exauridas, suas cidades em ruínas e profundamente endividados, os países assinaram um cessar-fogo, sem que tenha surgido um vencedor. Em meio a este conflito, a figura de Qassem Soleimani ganhou notoriedade, pois logo no início da guerra fora enviado ao front com a missão de garantir suprimento de água aos soldados, em uma missão que deveria durar 15 dias. O então empreiteiro terminou por voluntariamente integrar as tropas que estavam no campo de batalha, e ganhou destaque por participar com sucesso de diversas missões de reconhecimento para além das linhas de defesa iraquianas. Em virtude da sua reconhecida coragem no campo de operações, acabou por ser designado comandante de uma brigada, que participou de várias missões. Durante ainda esta guerra surgiu a Força Quds, idealizada pelo aiatolá Khomeini e cuja função, ao se tornar um ramo especial da Guarda Revolucionária Iraniana, era espalhar a proposta da Revolução Islâmica por outras nações. O general Soleimani tornou-se, mais tarde, em 1998, chefe desta força, função na qual permaneceu até sua morte.


Guerra Civil no Líbano
Enquanto se desenvolvia o conflito entre Irã e Iraque, uma outra guerra acontecia em paralelo no Oriente Médio: a guerra civil libanesa, ocorrida entre 1975 e 1990 . Essa se iniciou como consequência dos conflitos envolvendo Israel e os palestinos, pois muitos refugiados muçulmanos passaram a buscar abrigo nas terras do Líbano. Esta migração provocou uma importante transformação demográfica, que afetou diretamente o sistema político libanês. Este governo era formado a partir da presença de um presidente (escolhido entre os cristãos maronitas), um primeiro-ministro (oriundo do grupo muçulmano sunita) e um presidente do Parlamento (vindo do grupo muçulmano xiita). A grande presença de muçulmanos sunitas vindos da região da Palestina fez com que os sunitas libaneses desejassem um novo recenseamento da população do país e, com isso, buscavam fazer prevalecer seus interesses políticos. Por conta desta pretensão, os cristãos maronitas ficaram bastante insatisfeitos e isso levou, entre todos os grupos étnico-religiosos da população libanesa, a formação de milícias, que passaram a se enfrentar com grande violência após o assassinato de quatro integrantes das Falanges, a milícia cristã maronita. A partir disto, o conflito foi tomando proporções cada vez maiores dentro do território libanês.

Enquanto estes combates internos transcorriam, intervenções estrangeiras também passaram a ocorrer, tal como a invasão síria em 1976, solicitada pelo então presidente libanês Suleiman Frangieh (1910 – 1992). A presença síria ampliou a força dos maronitas, e amplificou a violência do conflito. Anos mais tarde, em 1979, foi a vez de tropas israelenses intervirem na guerra, buscando atacar palestinos e sírios, e agindo de forma discreta, de modo a fazer parecer com que os atentados fossem fruto da própria guerra. Em resposta a esta presença israelense, originou-se um grupo paramilitar denominado Hezbollah, cuja legitimidade enquanto força de resistência é aceita por parte da comunidade muçulmana no Oriente Médio, mas classificado enquanto organização terrorista por nações ocidentais. O surgimento do Hezbollah está intimamente ligado ao contexto iraniano uma vez que suas lideranças foram inspiradas pela atuação do aiatolá Khomeini, e suas forças treinadas por membros da Guarda Revolucionária Iraniana, além de receber ajuda financeira do governo iraniano. Desta forma, os ataques do Hezbollah contra alvos israelenses auxiliaram no aumento dos desentendimentos entre Estados Unidos e Irã.


1988
No dia 8 de Janeiro de 2020, o voo PS752 da Ukraine International Airlines foi derrubado em território iraniano. O abate do avião foi causado pelo lançamento de um míssil, pois a aeronave fora confundida com um alvo militar ao voar próximo de uma base da Guarda Revolucionária Iraniana. Todos os 176 ocupantes do avião morreram, em um incidente classificado pelo presidente do Irã, Hassan Rohani (1948) como “imperdoável”, embora as autoridades iranianas tenham demorado três dias para assumir a real causa do evento.

Este acontecimento trouxe à tona um outro acidente aéreo, ocorrido em 1988, quando um navio militar americano disparou dois mísseis e derrubou, também por engano, uma aeronave da Iran Air, o que causou a morte das 290 pessoas a bordo do voo 655. A perspectiva de que os Estados Unidos houvesse realizado o ataque intencionalmente demonstrou ao governo do Irã que a participação norte-americana na guerra contra o Iraque poderia atingir uma proporção fora de seu controle, o que motivou o governo de Teerã a sugerir um cessar-fogo, aceito pouco tempo depois.


A década de 1990
A década de 1990 marcou algumas mudanças importantes na região do Oriente Médio. O Iraque, que havia sido financiado pelos Estados Unidos na guerra contra o Irã invadiu, em Agosto de 1990, o território do Kuwait. A justificativa para essa ação foi a alegação de que o Kuwait estava praticando preços para o petróleo abaixo daqueles estabelecidos pelo mercado, o que prejudicava a economia iraquiana, já combalida pelo conflito anterior. Desta forma, Saddam Hussein ordenou a invasão do território kuwaitiano, anexando-o, o que incomodou profundamente os interesses dos Estados Unidos. Sob a alegação de que a invasão iraquiana feria a soberania e a integridade territorial do Kuwait, além da acusação de uso pelos iraquianos de armas químicas e biológicas, os norte-americanos lideraram uma coalização que estabeleceu o dia 15 de Janeiro de 1991 como prazo máximo para a retirada das forças iraquianas do Kuwait. Como tal recuo não aconteceu, iniciou-se a chamada Guerra do Golfo, que perdurou até o final de Fevereiro de 1991, já que as tropas iraquianas não tinham poder bélico suficiente para manter posições contra o ataque da coalização. Houve a liberação do Kuwait e tropas norte-americanas invadiram o Iraque, porém não conseguiram depor o presidente Saddam Hussein.

Este conflito foi responsável pelo aumento da presença militar norte-americana na região, particularmente na Arábia Saudita, grande aliada dos Estados Unidos no Oriente Médio. Esse fato, somado aos recorrentes incidentes entre Israel e palestinos, fez com que diversos grupos terroristas começassem a se fortalecer, tomando os norte-americanos enquanto alvos primordiais. Ao mesmo tempo em que as relações dos Estados Unidos com os iraquianos ruíam e sua imagem tornava-se cada vez mais detestada no Oriente Médio, o Irã começou a se tornar uma potência na região, rivalizando com os sauditas enquanto influência sobre o mundo árabe. Fruto destes desentendimentos são os atentados terroristas que passaram a atingir alvos norte-americanos pelo mundo, como o ataque ao World Trade Center em 1993, às embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia, em 1998 e ao contra-torpedeiro USS Cole em 2000.

Neste período, a atuação dos governos norte-americanos foi a de ampliar sanções contra o Irã, que já vinham ocorrendo desde a Revolução. A atuação do presidente Bill Clinton (1946) foi bastante severa neste sentido, ao proibir que empresas norte-americanas investissem na produção de petróleo e gás natural no Irã.

Com o passar do tempo, essa situação aprofundou as rivalidades entre as duas nações, fazendo com que o Irã se aproximasse dos inimigos dos norte-americanos. Neste contexto, em 1998, é que Qassem Soleimani passar a liderar a Força Quds. Esta ramificação da Guarda Revolucionária estabeleceu contatos mais próximos com grupos classificados como terroristas e financiou e organizou suas atividades, transformando Soleimani em peça fundamental no jogo militar da região.


O ataque de 11 de setembro de 2001
Em 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram o maior atentado terrorista já praticado, quando quatro aviões comerciais norte-americanos foram sequestrados por terroristas ligados à Al-Qaeda. Duas aeronaves foram lançadas contra as torres do World Trade Center, a terceira foi derrubada no prédio do Pentágono e a quarta foi abatida pela força aérea americana antes de atingir seu alvo. O ataque, efetuado sob a liderança de Osama Bin Laden (1957 – 2011), deixou mais de três mil vítimas, e fez com que o presidente George W. Bush lançasse a chamada Guerra ao Terror, um conjunto de operações destinado a combater e eliminar as ameaças terroristas. Nesta época os iranianos cogitaram oferecer apoio aos Estados Unidos na caçada aos envolvidos no atentado contra o World Trade Center, uma vez que as diferenças religiosas entre membros da Al-Qaeda (sunitas) e do governo iraniano (xiita) tornavam esta relação insustentável. Mas durante seu pronunciamento sobre a Guerra ao Terror, George W. Bush citou a existência de um conjunto de inimigos dos Estados Unidos denominado enquanto Eixo do Mal, e incluiu o Irã entre estes membros. A fala do presidente acabou por afastar as pretensões de uma aproximação por parte do Irã, que passou a se aproximar ainda mais dos inimigos diretos ou indiretos dos norte-americanos.

É a partir deste momento que, principalmente através da ação do general Soleimani, o Irã aproxima-se e passar a apoiar grupos como o Hamas, em suas ações na Palestina ou os houtis, na sua atuação no Iêmen, além de sua já antiga relação como Hezbollah. Também nesta época, em 2007, Soleimani foi cotado para assumir a chefia da Guarda Revolucionária, após a saída de Yahya Rahim Safavi do cargo, o que não se concretizou. No ano seguinte, ajudou a mediar um acordo de paz entre o Exército Mahdi e o governo iraquiano, acalmando a situação naquele país. O Exército Mahdi é uma milícia xiita, surgida durante o período no qual houve a invasão americana no Iraque, com o objetivo de combater a coalização estrangeira além de lutar contra o governo de viés sunita, o qual foi acusado pelo líder da milícia de colaborar com os norte-americanos. O grupo foi criado por Moqtada Al-Sadr (1973) e este anunciou, no dia 4 de Janeiro de 2020, que a milícia voltaria a se organizar e atuar no Iraque após a morte de Qassem Soleimani.

A Guerra ao Terror levou os Estados Unidos a invadir o Afeganistão e o Iraque, em busca de Osama Bin Laden e também sob a alegação que os iraquianos estariam produzindo armas de destruição em massa. A prolongada ação norte-americana no Iraque~, iniciada em 2003, fez com que a situação do país árabe se deteriorasse ainda mais, tanto do ponto de vista político quanto econômico. Isso abriu uma brecha para que surgisse um movimento revolucionário dentro do Iraque conhecido como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), cuja atuação foi ainda mais favorecida pela eclosão da Primavera Árabe, em 2010.


A Primavera Árabe e a Guerra Civil na Síria
Denomina-se enquanto Primavera Árabe o conjunto de movimentos populares iniciados no Oriente Médio no final de 2010, a partir dos protestos que se formaram contra o governo da Tunísia. O protesto do jovem Mohammed Bouazizi (1984 – 2011), que ateou fogo ao próprio corpo após ter produtos que vendia confiscados peal polícia, fez com que uma onda de protestos contra o governo ditatorial instalado no país se espalhasse com grande rapidez, ao serem veiculadas estas imagens em redes sociais por meio da internet. Este movimento conseguiu não apenas derrubar o presidente tunisiano Zine El Abidine Ben Ali (1936 – 2019), que estava no poder desde 1987, mas também inspirou diversos outros movimentos no Norte da África e no Oriente Médio.

No caso da Síria, o presidente Bashar Al Assad também enfrentou protestos contra seu governo, mas uma parcela significativa da população ainda o apoiava, o que fez com que eclodisse uma guerra civil no país, ainda em andamento. Isto causou uma profunda instabilidade política, com vários grupos diferenciados lutando para fazer valer seus interesses. Credita-se a Qassem Soleimani a elaboração e entrega de um plano militar ao presidente sírio que fez com que as forças do governo sírio conseguissem se organizar e combater os rebeldes oposicionistas, a partir de 2012.

O conflito, ao enfraquecer a capacidade de defesa da Síria, foi fundamental para que as ações do ISIS se estendessem para essa região, dominando várias localidades. O ISIS surgiu em 2003 no Iraque, sob a liderança do jordaniano Abu Musab Al-Zarqawi (1966 – 2006), muçulmano da vertente sunita, que chefiava um grupo denominado Jamaat al-Tawhid wal-Jihad, e cujas ações se intensificaram no Iraque após a ação norte-americana, atacando grupos xiitas dentro do país. Aos poucos, este grupo reuniu-se com outras organizações até tomar a forma e adotar o nome pelo qual ficou conhecido. Com o conflito sírio, o ISIS conseguiu a tomada de vários pontos no seu território, além daqueles que já dominava no Iraque.

Em 2014, em resposta à convocação do aiatolá Ali al-Sistani, importante clérigo xiita do Iraque, uma grande quantidade de jovens se apresentou para lutar contra os radicais sunitas. Coube a Qassem Soleimani e sua Força Quds o papel de treinamento e capacitação destes homens para a luta. A ofensiva destes jihadistas teve papel fundamental no enfraquecimento do ISIS, embora o grupo não tenha sido completamente eliminado.

No que diz respeito à Síria, a estratégia traçada por Soleimani garantiu a retomada de áreas perdidas para os rebeldes e a manutenção no cargo do presidente Bashar Al-Assad, reforçando a imagem de Soleimani enquanto militar brilhante.


Uma quase pacificação
Em 2009, subiu ao poder nos Estados Unidos o presidente Barack Obama (1961), advogado e primeiro afrodescendente a governar o país. Sua administração foi marcada pela herança de problemas econômicos, pela reforma do sistema de saúde, pela garantia de direitos ao grupo LGBT e pela mudança de rumo em relação a política externa. Neste campo, tornaram-se notáveis os esforços no sentido da cooperação e do encerramento de guerras, embora tenha continuado a tomar medidas para combater o terrorismo. Quanto a este ponto, lembra-se que sua gestão foi responsável pela morte de Osama Bin Laden, em 2011, fato amplamente noticiado pela mídia internacional e comemorado dentro dos Estados Unidos.

Com relação ao Irã, em meio ao processo de eleição presidencial do país, Barack Obama assinou um novo pacote de sanções, endurecendo ainda mais as relações entre essas nações. Porém, em 2013, a eleição do moderado Hassan Rouhani fez com que o Irã buscasse uma melhoria no relação com os países ocidentais, o que levou representantes iranianos e norte-americanos a uma reunião bilateral e, no dia seguinte, a um contato telefônico entre Obama e Rouhani. Este fato marcou um ponto de alto de reaproximação entre os países desde o rompimento das relações diplomáticas em 1979.

Em julho de 2015, um novo passo foi dado no sentido da diminuição das tensões, com a assinatura de um acordo nuclear entre o Irã e o grupo P5+1, composto pelos países membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha. A assinatura desse acordo, que permitia ao Irã enriquecer urânio para fins pacíficos, encerrou uma série de sanções impostas aos país, desbloqueando bilhões de dólares em bens que estavam congelados. A decisão foi tomada após a Agência Internacional de Energia Nuclear se assegurar que o Irã possuía objetivos pacíficos de enriquecimento de urânio. Foi também negociado que caso o Irã desrespeitasse o acordo, as sanções poderiam ser impostas novamente. Este acordo segue na esteira do que já havia sido firmado entre Irã, Turquia e Brasil em 2011, quando os iranianos passaram a mandar seu urânio para ser enriquecido em território turco, com a finalidade de desenvolver um reator para auxiliar em pesquisas médicas.


A retomada das tensões
Todo esse quadro de reaproximação e diminuição das tensões foi abalado em 2017, quando o presidente Donald Trump (1946) assumiu o poder no Estados Unidos. Embora sua linha de ação com relação à política externa permaneça relativamente imprecisa, Trump anunciou que tomaria medidas duras no combate ao terrorismo, além de buscar controlar com maior afinco a imigração para os Estados Unidos. Desde o princípio de sua gestão, o presidente norte-americano faz críticas severas ao Irã, retomando em grande parte a Doutrina Bush a respeito do Eixo do Mal, e do perigo representado pelo Irã no Oriente Médio.

Também criticou severamente o acordo nuclear de 2015 do qual retirou os Estados Unidos em Mio de 2018. Essa atitude serviu para reacender as tensões entre os países, particularmente após os ataques que milícias iraquianas, apoiadas pelo governo do Irã, passaram a realizar contra bases norte-americanas no final de 2019. O ponto culminante deste processo, que levou Donald Trump a autorizar o ataque que matou Soleimani, foi o atentado contra a embaixada norte-americana em Bagdá, no dia 31 de Dezembro de 2019. Essa ação é uma resposta aos ataques que os Estados Unidos vem realizando contra as milícias Kata’ib Hezbollah, lideradas por Abu Mahdi al-Muhandis (1954 – 2020), que atuaram nos conflitos do Iraque e na Guerra Civil da Síria contra as forças de coalizão lideradas pelos Estados Unidos.

O ataque executado em Bagdá pelos norte-americanos vitimou tanto Qassem Soleimani quanto Abu Mahdi al-Muhandis, e a justificativa do presidente Donaldo Trump tinha como base a premissa de que a morte de ambos se justificava pelo conhecimento dos Estados Unidos a respeito de novos atentados terroristas que estavam sendo planejados contra quatro embaixadas norte-americanas. Este argumento foi apresentado no pronunciamento realizado pelo presidente no dia 8 de Janeiro de 2020. Neste mesmo dia, o governo iraniano lançou 22 mísseis contra bases norte-americanas no Iraque, não causando nenhuma morte. Anteriormente, na noite do dia 4 de Janeiro de 2020, o presidente Trump havia anunciado que caso as retaliações iranianas cruzassem a “linha vermelha”, ou seja, causassem a morte de americano, havia 52 alvos já pré-estabelecidos para serem atacados no território iraniano. Trump simbolicamente usou o número 52 relembrando a quantidade de reféns que ficaram sob domínio dos iranianos na crise da embaixada em 1979.

No dia 12 de Janeiro de 2020, o Secretário de Defesa norte-americano Mark Esper (1964) contradisse o presidente e afirmou que não tinha conhecimento de nenhum plano do Irã para atacar embaixadas norte-americanas. Também nesse dia, novos ataques iranianos atingiram uma base iraquiana que abriga forças norte-americanas na região. Desta vez, quatro militares iraquianos morreram.

No momento, embora respostas militares tenham sido dadas pelo Irã, analistas internacionais não parecem acreditar no desenvolvimento de uma guerra, pois após o ataque o presidente Donald Trump vem gradativamente baixando o tom das discussões e inclusive se dispondo a negociar com os iranianos um novo acordo nuclear, tal como dito em uma declaração à imprensa no dia 13 de Janeiro de 2020. Desta maneira, serão os próximos meses que dirão qual o rumo que esta tensão seguirá.


Para saber mais