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O movimento antivacina e suas consequências
OUTUBRO 2019
 
 
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 O QUE É O MOVIMENTO ANTIVACINA
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O movimento antivacinação é um fenômeno relativamente novo que tem preocupado o mundo científico, segundo um relatório recente da organização Mundial de Saúde (OMS), o crescimento deste fenômeno configura um dos dez maiores riscos atuais sobre a saúde global. O movimento teve início em 1998, a partir de um estudo publicado na revista científica The Lancet pelo médico britânico Andrew Wakefield. No estudo, Wakefield relacionava o aparecimento de autismo com a vacina tríplice viral. A partir da publicação e de uma grande reação da imprensa inglesa, foi detectado um grande medo na população sobre a segurança das vacinas, fator este compartilhado de forma viral nas redes sociais da Inglaterra, o que, por sua vez, resultou em uma queda alarmante no número de vacinações no país. Rapidamente as notícias se espalharam pelo mundo, dando início a um movimento antivacina liderado por diversas entidades. Apesar da publicação do estudo ter sido realizada em uma revista científica de respeito, estudos posteriores mostraram que o estudo realizado por Wakefield não tinha fundamento, bem como o médico não possuía autorização para a realização de testes clínicos. Posteriormente ainda, foi descoberto que o pesquisador havia manipulado dados para beneficiar sua teoria.

Em 2004 a revista The Lancet reconheceu o erro e se retratou publicamente. A partir daí a pesquisa foi desmentida diversas vezes pelas autoridades científicas inglesas, porém, o estrago já havia sido feito.

Apesar do esforço de autoridades científicas, o movimento antivacina continua crescendo e conquista, graças a sua divulgação em redes sociais, cada vez mais adeptos. Entretanto o problema que estamos enfrentando não afeta somente adeptos do movimento. Existe um temor real de entidades médicas sobre a reintrodução de doenças que já estavam praticamente erradicadas devido ao esforço contínuo e coordenado das autoridades com a melhor forma de prevenção de doenças que conhecemos atualmente: a vacinação.

Segundo a OMS, os movimentos antivacina são tão, ou mais, perigosos quanto os agentes patogênicos combatidos pelas vacinas. Doenças como o sarampo e a poliomielite já demonstram um aumento de casos em diversos países, principalmente pela não vacinação de crianças por pais que acreditam que as vacinas podem causar outros tipos de doenças quando aplicadas. Segundo a organização a compreensão dos motivos da não vacinação envolvem vários aspectos, que vão de aspectos religiosos à divulgação de notícias falsas que repercutem de forma viral pela internet. Aspectos como a falta de acesso à vacina também são verdadeiros, porém, neste caso, não por uma escolha pessoal.

Além da desconfiança sobre as vacinas existem outros aspectos, nada confiáveis, que reforçam o movimento antivacina. Uma pesquisa publicada recentemente pela revista Vaccine, relata que existe, por exemplo, grupos de redes sociais denominados anti-vax. Estes grupos divulgam notícias constantemente sobre a “farsa das vacinas”, não é difícil encontrar textos sobre a não existência de doenças como a poliomielite, bem como de remédios alternativos como iogurtes para tratamento de HPV. No Brasil o movimento também cresce de forma alarmante. O país sempre foi uma referência mundial em seus programas de vacinação e as metas de vacinação de 95% da população não foram alcançadas nos últimos dois anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, a vacina tetra viral – que previne contra caxumba, sarampo, rubéola e varicela – atingiram a menor cobertura dos últimos anos em 2017. Neste ano foram vacinados apenas 70% do público-alvo, e o país colhe hoje os resultados desse processo, 43 cidades – localizadas principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia – já detectaram surtos ativos de sarampo.

Ainda segundo o Ministério da Saúde, anualmente são aplicadas em torno de 300 milhões de doses de 25 tipos diferentes de vacinas em todo o território brasileiro. Não existe falta de vacina e nem acesso às mesmas e, segundo especialistas, a diminuição da cobertura está relacionada diretamente com os movimentos antivacinas que se espalharam pela internet.


O QUE TEM SIDO FEITO?
Várias atitudes têm sido tomadas para tentar coibir a crença crescente na falta de segurança das vacinas. Nos Estados Unidos, o presidente da Academia Americana de Pediatria (AAP), Kyle Yasuda, escreveu uma carta às grandes empresas de tecnologia como Google, Facebook e Pinterest, explicando sobre a divulgação de informações falsas, bem como sobre a robustez dos estudos científicos sobre a segurança das vacinas e sobre os riscos da não vacinação da população. As empresas se comprometeram a criar mecanismos para evitar a proliferação destas falsas notícias. Recentemente a AAP conseguiu ainda uma nova vitória contra o movimento antivacina. Em setembro de 2018, foi publicada uma lei que permite que pediatras americanos se recusem a atender crianças não imunizadas. No Brasil o professor Dr. Carlos Graeff, do grupo de parasitologia da PUC do Rio Grande do Sul destaca sobre a necessidade das autoridades brasileiras iniciar um movimento de divulgação sobre a utilidade das vacinas, e que a partir dados científicos seja realizada uma ação para esclarecer a população sobre a segurança das vacinas e os benefícios do processo de vacinação, ressaltando ainda o nome de grandes cientistas brasileiros que foram responsáveis pela descoberta e popularização das vacinas.

É necessário que, além das autoridades, profissionais de saúde utilizem todas as estratégias disponíveis para desmistificar notícias falsas, disseminar informações verdadeiras e denunciar qualquer tipo de irregularidade às autoridades competentes.

Antivacina
Uma mulher segura um cartaz que diz “meu filho, minha responsabilidade” durante um protesto antivacina em frente ao escritório presidencial na Ucrânia em agosto de 2019. O governo ucraniano passou uma lei que bane crianças não vacinadas das instituições educacionais e as obriga a estudar de casa. Os pais pediam para que as crianças parassem de ser discriminadas e que pudessem voltar a frequentar as escolas públicas. Fonte: Sergii Kharchenko/NurPhoto/AFP.


O QUE DIZEM OS ANTIVAXXERS
Os estudos publicados por Wakefield são até hoje a maior influencia dos movimentos antivacina. Entretanto diversas outras crenças sobre os riscos das vacinas se espalham por sites e redes sociais. Os antivaxxers atuais estão ligados também a grupos religiosos, veganos e conspiracionistas de todas as formas. Ao se navegar por sites em prol do movimento antivacina fica claro que existe um aparelhamento do processo de desinformação, bem como, a base científica tomada por todos é apenas o estudo fraudulento de Wakefield.

Outro fator que reforça os movimentos antivacina é a adesão de celebridades que se sentem na obrigação de expressar as suas ideias publicamente. A atriz de Hollywood Jenny McCarthy, afirma categoricamente que seu filho, Evan, “contraiu” autismo devido às vacinas que tomou, fato também divulgado pelo comediante Jim Carrey, ex-companheiro de Jenny. Outros famosos como Robert de Niro, Alicia Silverstone e Charlie Sheen, também engrossam as vozes dos antivaxxers. Em 2014 até o presidente americano Donald Trump se manifestou em favor do movimento, relacionando a vacinação com o autismo, afirmando erroneamente que existiam muitos casos deste tipo no país.

Apesar da maior parte das discussões dos grupos antivacinas serem pautadas em informações falsas, existe uma grande discussão, apoiada até mesmo por pessoas contra o movimento, sobre a liberdade dos pais de escolherem ou não vacinar seus filhos. Nos Estado Unidos, por exemplo, o princípio da liberdade individual tem raízes muito profundas e muitos protestam sobre a imunização obrigatória, dizendo que isto fere a constituição do país. Apesar disso, três estados – a Califórnia, Virgínia do Oeste e Mississipi – exigem carteiras de vacinação atualizadas como requisito obrigatório para matricular as crianças na escola. No Brasil, não imunizar crianças é proibido por lei e em todos os estados e é obrigatória a apresentação da carteira de vacinação na hora de matricular as crianças na escola. Inclusive, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê multas e processos para os pais que não imunizarem seus filhos.

Apesar da discussão sobre as liberdades individuais serem um tema importante, e que deve ser respeitado nas sociedades atuais, não existe dúvida que, quando se trata de imunizações, a discussão deve ser bem mais ampla, afinal, uma pessoa não imunizada representa um risco real de contaminação de outras pessoas, o que por sua vez pode fazer com que doenças que eram absolutamente controladas se tornem uma ameaça novamente. Este fato já está sendo sentido em alguns lugares do planeta, como os surtos de sarampo e varicela que têm acometido a população brasileira, por exemplo.

Outra vertente de discussão dos antivaxxers é que o início da imunização de crianças, feito ainda nas fases iniciais de vida, poderiam sobrecarregar seu sistema imunológico. Segundo apoiadores dos movimentos anti-vax, a administração de várias vacinas de forma simultânea (em média uma criança deve receber cerca de 30 vacinas até os dois anos de idade) em conjunto com agentes utilizados na fabricação das mesmas – como alumínio, timerosal e albumina purificada –, resultaria em uma confusão do sistema imunológico e, consequentemente, o resultado disso seria a ineficiência do processo de imunização. Além disso, dizem os defensores do movimento, a interação destas vacinas poderia acarretar no aparecimento de doenças ainda mais graves do que aquelas que se pretendia imunizar. Algumas vertentes insistem em dizer que o problema não está na vacinação, mas no período em que ela ocorre, defendendo uma imunização mais tardia de crianças devido ao sistema imunonlógico estar mais “maduro”.

Cientificamente falando, o raciocínio não tem nenhum tipo de embasamento; toda criança nasce com o sistema imunológico funcional e absolutamente capaz de reagir aos antígenos. Estudos demonstram que essa capacidade já é relevante mesmo antes do bebê nascer e que a capacidade de reação do sistema imunológico é infinitamente maior do que o defendido pelos adeptos dos movimentos antivacina.


MAS AFINAL, QUAL É O NÍVEL DE SEGURANÇA DAS VACINAS?
Que algumas vacinas podem causar alguns efeitos adversos, como náuseas e dor de cabeça, por exemplo, o que não é segredo pra ninguém, porém, os benefícios da utilização das vacinas é muito maior do que o desconforto que algumas delas podem gerar. O desenvolvimento de uma vacina é resultado de anos de pesquisa e de diversos processos experimentais. O nível de segurança de uma nova vacina é testado por anos com protocolos extremamente rígidos de controle, publicações científicas e análises.

Normalmente, uma vacina é produzida a partir de estudos, sobre um determinado vírus ou bactéria patogênica, que determinem características viáveis de serem reconhecidas e combatidas pelo sistema imunológico. A partir dessa definição todos os processos de multiplicação desta característica ou de atenuação dos organismos são padronizados e testados exaustivamente em laboratório para verificar seus níveis de segurança e sua eficácia. Se os resultados dessa primeira fase forem satisfatórios, dá-se inicio a fase de testes em animais. Todos os tipos de respostas imunológicas são medidos em cobaias, bem como os efeitos adversos e colaterais que podem ser provenientes das vacinas. Se tudo ocorrer bem e os resultados estiverem dentro de um nível de segurança e eficácia estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), se iniciam os testes em humanos.

Nesta etapa, são realizadas mais quatro fases de ensaios clínicos, sempre seguindo protocolos rígidos de análise. As duas primeiras fases são realizadas em grupos pequenos de pessoas adultas em que são avaliadas a segurança e a eficácia das vacinas em seres humanos. Somente se os resultados forem positivos nas duas primeiras fases é que os estudos proseguem para as fases seguintes, em que é avaliado um número maior de pessoas, podendo incluir crianças quando necessário. Outras variáveis também são analisadas nesta fase; como os melhores métodos de aplicação, os custos envolvidos no processo de fabricação e suas respectivas campanhas de vacinação, a viabilidade de uso, entre outros aspectos. Todos os resultados obtidos são amplamente divulgados em estudos científicos. Somente após essas fases é que a vacina é liberada para a quarta fase, que consiste na comercialização para a população, na qual novos estudos clínicos são realizados para confirmar a segurança e eficácia da vacina em amostras maiores, bem como permitir a observação de novos resultados e ajustes nos procedimentos dos esquemas vacinais, por exemplo, determinando-se o número de doses necessárias para a imunização efetiva da população. No Brasil, todas estas fases são regulamentadas pela ANVISA, que analisa todos os dados da pesquisa, muitas vezes realizadas por décadas antes de sua liberação, observando a eficácia e a segurança da vacina em dados obtidos com milhares de pessoas.

Desta maneira fica claro que a vacina ainda é a melhor maneira de se prevenir doenças e, muitas vezes, é a melhor maneira de salvar vidas. Não existe nenhum dado científico comprovado no mundo até o momento que nos permita afirmar o contrário disso.


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