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Pílula anticoncepcional masculina
MAIO 2019
 
 
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Já faz algum tempo que a indústria farmacêutica vem buscando uma solução oral de anticoncepção para os homens. Entretanto as soluções existentes até pouco tempo atrás traziam efeitos colaterais indesejados o que as tornavam inviáveis comercialmente. Um novo medicamento divulgado recentemente promete mudar este prognóstico e a tão sonhada pílula anticoncepcional masculina está cada vez mais próxima de se tornar realidade.

Uma nova versão do medicamento, chamado de 11-beta- MNTDC foi aplicada em humanos e teve resultados bastante interessantes em relação a tolerância por parte dos homens que ingeriram a pílula e sua segurança no organismo.

O medicamento desenvolvido na Universidade Washington School of Medicine, pela equipe da pesquisadora PhD Stephanie Page é uma imitação sintética da testosterona, porém não possui concentração necessária para a produção de espermatozoides.

O estudo foi publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism e nos testes realizados com 40 homens saudáveis foi observado uma diminuição significativa na produção de espermatozoides durante o período de testes, que durou exatamente 28 dias. Durante todo o teste os efeitos colaterais apresentados foram pequenos se resumindo a dores de cabeça, fadiga e acne.

Os pesquisadores ressaltam que mesmo com a administração do medicamento a libido dos pacientes se manteve, na maioria dos casos, sem alteração, o que era um grande problema com os medicamentos testados anteriormente.

Este medicamento é um “irmão” de uma outra pílula masculina que está em fase de testes, o chamado DMAU, também avaliado pela equipa da PhD Stephanie Page e que tem mostrado resultados promissores.

A ideia agora é unir estes dois medicamentos e tentar extrair o que há de melhor em cada um deles. A pesquisadora acredita que um medicamento eficiente e disponível no mercado, com todos os níveis de segurança devidamente testados, será completamente possível em cerca de dez anos, ou seja, em 2029. Segundo Christina Wang, pesquisadora do Centro Biomédico de Los Angeles e do Centro Médico da UCLA (University of California – Los Angeles) o resultado dessas pílulas, que combinam duas atividades hormonais distintas de uma vez só, permitiria a diminuição do número de espermatozoides ao mesmo tempo que preservaria a libido dos usuários.

Os pesquisadores ressaltam que a droga poderia levar de 60 a 90 dias para atuar realmente como contraceptiva, eliminando completamente a produção de espermatozoides. Novos testes estão sendo realizados neste sentido e pretende-se verificar a completa supressão espermática em breve.  A partir dessa comprovação os pesquisadores irão realizar novos testes com casais sexualmente ativos.

Um dos maiores desafios para que a pílula chegue ao mercado e se transforme em um sucesso, segundo outros estudos, é a adesão masculina a métodos anticonceptivos. Segundo alguns pesquisadores a incapacidade de um homem ter filhos, mesmo que seja de forma periódica, pode afetar a autoimagem de diversos homens. Além disso, é comum que homens, diferente das mulheres, se comprometam menos com ações preventivas de doenças, ainda mais se relacionadas a sua capacidade reprodutiva.



Outros estudos sobre anticonceptivos masculinos
Métodos anticonceptivos masculinos já existem e são basicamente relacionados aos preservativos e a vasectomia, algo semelhante a pílula masculina ainda não existe apesar dos inúmeros esforços para o desenvolvimento destes tipos de métodos, muitos medicamentos, pomadas e outros mecanismos já foram citados na literatura científica, entretanto nenhum deles se mostrou absolutamente eficaz ou sem efeitos colaterais.

Além do 11-beta- MNTDC e do DMAU publicados este ano, algumas outras drogas têm mostrado um grande potencial para atuar como anticonceptivos masculinos reversíveis e de uso de médio prazo. Um dos potenciais medicamentos é o chamado Vasagel, cuja ação se assemelha a uma “vasectomia reversível”. Neste caso, o tratamento não é hormonal, os indivíduos estudados recebiam o medicamento diretamente nos “ductos deferentes” (canal que leva os espermatozoides dos testículos até a uretra), impedindo a ejaculação com espermatozoides no sêmen. Em um estudo publicado na Basic and Clinica Andrology, realizado por pesquisadores do Centro de Pesquisa California National Primate, nos Estados Unidos, ficou evidente a eficácia do medicamento para a contracepção e da reversibilidade do método. Neste caso o Vasagel não foi testado em humanos, mas em coelhos e macacos. No caso dos macacos a aplicação do medicamento foi acompanhado durante dois anos, enquanto os animais vivam livres e na presença de fêmeas férteis, passando assim por pelo menos um período reprodutivo. Os resultados foram surpreendentes, durante o período de estudo nenhum macho tratado com o Vasagel conseguiu engravidar uma fêmea, normalmente a taxa de concepção e de cerca de 80% em populações sem nenhum tipo de tratamento. Além disso, poucos efeitos colaterais foram percebidos nos indivíduos testados, apenas um dos animais apresentou um granuloma espermático. A reversibilidade do método foi testada apenas em coelhos e o resultado foi um sucesso, todos os coelhos voltaram a ejacular a partir de um tratamento feito à base de bicarbonato de sódio.

Apesar dos resultados positivos em cobaias o medicamento deve demorar para chegar ao mercado, estudos sobre a ficaria em seres humanos, o tempo de duração em que o tratamento seria eficiente e sua reversibilidade depois de longos períodos ainda estão sendo estudados. Segundo os pesquisadores somente após estas etapas serem desvendadas será possível se fazer uma previsão sobre a disponibilidade do tratamento para seres humanos.

Um outro projeto parecido foi desenvolvido por cientistas da Universidade de Nanchang na China, da mesma fora que o estudo anterior, ainda não foi testado em humanos, somente em cobaias, nesse caso ratos. Um hidro gel de alginato de cálcio foi aplicado no ducto deferente das cobaias, formando uma barreira física para os espermatozoides. Este hidrogel continha nanopartículas de ouro que eram teoricamente desbloqueadas com a irradiação de luz infravermelha. Durante os dois meses de estudo, segundo os pesquisadores, os animais se tornaram incapazes de se reproduzir. Nos testes em ratos, o hidrogel foi completamente dissolvido na exposição sobre determinados comprimentos de onda. Da mesma forma que o Vasagel, não existe previsão para a liberação deste tipo de medicamento para seres humanos.


O que já havia sido feito
Os estudos sobre anticoncepcionais masculinos são antigos, entretanto, como a fisiologia dos homens, em relação aos processos reprodutivos, são muito diferentes das mulheres, dependendo de variações hormonais diárias de autorregulação, sempre foi um grande desafio produzir um medicamento com características contraceptivas para homens. Todos os medicamentos testados anteriormente ou não eram eficientes, ou traziam efeitos colaterais indesejados, ou ainda, diminuíam significativamente a libido masculina. Injeções hormonais foram testadas de várias maneiras, tendo grande sucesso no bloqueio da produção de espermatozoides.

Um dos estudos mais conhecidos foi financiado pela ONU (Organização das Nações Unidas), que envolveu 320 homens em idade reprodutiva. Estes, recebiam uma injeção de um tipo de testosterona sintética misturado com outra substância, o enantato de noretisterona, um derivado dos hormônios femininos estrógeno e progesterona. Após 24 semanas de testes, cerca de 85% dos homens tinham contagens de espermatozoides que os incluía como inférteis. O estudo parecia um sucesso até o momento das análises dos efeitos colaterais que o medicamento causava. A maior parte das pessoas que participaram dos estudos relataram um aumento de casos de acnes, cerca de 15% dos participantes do estudo relataram dores musculares, nos testículos e suores noturnos. Além disso, foi relatado por cerca de 20% dos homens tiveram alterações comportamentais, que influenciaram a libido ou algum outro tipo de transtorno em relação ao humor, o que era inesperado pelos cientistas.  Em uma segunda fase do estudo os efeitos colaterais se mostraram ainda maiores, fazendo com que os estudos fossem suspensos.

De qualquer maneira, os últimos estudos têm demonstrado resultados satisfatórios em relação a possibilidade de produção de um anticonceptivo masculino, reversível e com poucos efeitos colaterais. Obviamente estes medicamentos não substituem o uso de preservativos, tendo em vista que seus efeitos são única e exclusivamente sobre a concepção, não envolvendo no caso a prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis. A educação sexual, o planejamento familiar e o conhecimento sobre as formas de prevenção de doenças e de contracepção que existem atualmente continuam sendo imprescindíveis para qualquer pessoa que tenha uma vida sexual ativa.


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