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Lixo eletrônico: o planeta Terra em perigo
MAIO 2019
 
 
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O termo lixo eletrônico se refere a eletroeletrônicos ou partes desses aparelhos que deixam de ter utilidade por defeito ou por estarem obsoletos. O lixo eletrônico (ou resíduo tecnológico, e-waste, em inglês) possui uma grande quantidade de substâncias prejudiciais ao ambiente e ao homem, devido ao fato de que os equipamentos eletrônicos são uma das mais conhecidas fontes de metais pesados, materiais tóxicos e poluentes orgânicos do lixo urbano. Devido à velocidade com que a tecnologia está mudando, as pessoas trocam seus aparelhos a intervalos cada vez mais curtos. Só nos Estados Unidos, por exemplo, estima-se que cerca de 30 milhões de computadores sejam descartados anualmente.

Lixo e tecnologia são palavras que caminham juntas. Não conseguimos viver sem tecnologia no nosso dia a dia. Estamos contaminados pela eficiência e rapidez com que celulares e computadores abreviam nossas tarefas no trabalho em casa, no trânsito, na escola, enfim, até nas nossas férias. Embora facilitem o nosso dia a dia, não pensamos o quanto uma bateria de celular ou de notebook pode poluir o solo ou os lençóis freáticos, ou mesmo os demais componentes como plástico e metais pesados. Nossa preocupação está geralmente em nos mantermos atualizados, melhor ainda, conectados, quando nos referimos à tecnologia.



Causas determinantes
Para ir um pouco mais além, estamos muito enganados quando pensamos que apenas os equipamentos de alta tecnologia como computadores, câmeras e celulares poluem o nosso planeta. Rádios, TVs, aparelhos de som, aparelhos elétricos, todos os tipos de lâmpadas e etc, também contêm inúmeros elementos altamente poluentes. No entanto, o que acontece com os eletrodomésticos, que costumam ser utilizados por muitos anos, não acontece com celulares, notebooks e televisores. Esses itens são trocados com muita frequência em 80% das residências. Mas por quê? Ao mesmo tempo em que o consumidor dá importância para a durabilidade de geladeiras e máquinas de lavar, por exemplo, ele também dá uma maior importância para a aquisição de novas tecnologias como aparelhos digitais. Aproximadamente 50% das trocas de aparelhos digitais, celulares e eletroeletrônicos não foram efetuadas por desgaste ou mau funcionamento do produto, mas porque o novo era mais atual, mais moderno, melhor ou com mais funções. Ou seja, não havia necessidade de troca, o que contribui significativamente para o aumento do lixo eletrônico.

O que tem dentro e fora de um computador?
Não temos a menor noção da diversidade de materiais que compõem um computador ou um celular se olharmos superficialmente. Em seu interior contém, inclusive, vários materiais nobres como ouro, platina, etc., que acabam indo para o lixo, podendo contaminar a água do subsolo, o próprio solo e a atmosfera, caso sejam queimados. Segundo dados do Programa Ambiental das Nações Unidas, um computador ou aparelhos eletrônicos são feitos de: metal ferroso: 32%, plástico 23%, metais não ferrosos como chumbo, cádmio, berílio; mercúrio: 18%; vidro: 15%; placas eletrônicas que contêm ouro, platina, prata e paládio: 12%. Agora, preste atenção o que participa de uma tonelada de sucata eletroeletrônica mista: ferro: entre 35% e 40%; cobre: 17%; chumbo: entre 2% e 3%; alumínio: 7%; zinco: 4% a 5%; ouro: 200 a 300 gramas; prata: 300 a 1000 gramas; platina: 30 a 70 gramas; fibras plásticas: 15%; papel e embalagens: 5%; resíduos não recicláveis: entre 3% e 5%. Aproximadamente 94% dos materiais contidos nos aparelhos eletroeletrônicos podem ser reciclados.

Doenças constatadas
Para agravar o problema de geração desse tipo de lixo, além das trocas de equipamentos motivadas pela propaganda e novas tecnologias, e assim como já acontece nos países desenvolvidos como EUA, Japão entre outros, no Brasil inicia-se o descarte de equipamentos em perfeito estado. Como consequência, temos um dos mais graves dos problemas de geração de lixo eletroeletrônico. O catador de lixo abandona a captação de plástico, papelão e latas de alumínio para desmontar os equipamentos eletroeletrônicos em busca, principalmente, de cobre, porém, sem conhecimento dos perigos inerentes a esses desmontes e sem os equipamentos de proteção individual adequados. Sendo assim, tem contato direto ou indiretamente com substâncias nocivas à sua saúde.

Como já visto, é comum encontrar em um celular ou computador mais dezenas de elementos químicos diferentes. Alguns deles apresentam-se como vetores de dermatites e outros mais nocivos à saúde, provocando cânceres, enfisemas (infecções nos pulmões) e alterações neurológicas e cromossômicas. Os danos causados pelos componentes tóxicos são diversos. A seguir estão as principais doenças que podem ser causadas pelos elementos mais comuns encontrados nos eletrônicos que usamos no dia a dia:

Chumbo: causa danos ao sistema nervoso e sanguíneo. Em baixas concentrações, ele age no sistema nervoso, renal e hepático, causando intoxicações crônicas. Níveis elevados podem causar vômito, diarreia, convulsão, coma ou até mesmo a morte. Está presente em circuitos impressos e baterias.

Mercúrio: causa danos cerebrais e ao fígado. Está presente em computadores, monitores e Tvs de tela plana.

Cádmio: causa envenenamento, danos aos ossos, rins e pulmões. Está presente em computadores, monitores de tubo antigos e baterias de laptops.

Arsênico: causa doenças de pele, prejudica o sistema nervoso e pode causar câncer no pulmão. Está presente nos celulares.

Belírio: causa câncer no pulmão. Está presente em computadores e celulares.

Retardantes de chamas (BRT): causam desordens hormonais, nervosas e reprodutivas. Está presente em diversos componentes eletrônicos para prevenir incêndios.

PVC: se queimado e inalado, pode causar problemas respiratórios.  Está presente em fios para isolar corrente.

A contaminação por esses elementos pode ser pelo contato direto, no caso de pessoas que manipulam diretamente as placas eletrônicas e outros componentes perigosos dos eletrônicos nos lixões a céu aberto. Também pode acontecer de forma acidental. Quando um eletrônico é jogado em lixo comum e vai para em um aterro sanitário, há grande possibilidade de que os componentes tóxicos contaminem o solo e cheguem até os lençóis freáticos, afetando também a água. Se essa água for usada para irrigação ou para dar de beber ao gado, por exemplo, seja pela carne ou pelos alimentos, esses elementos podem chegar até o homem.


O que fazer para diminuir o lixo eletrônico
Para descartar equipamentos eletrônicos é necessário possuir uma pequena instrução da maneira correta para isso, conseguindo colocar determinados gêneros em seus locais adequados para que eles possam ser reciclados ou possuam a devida finalidade, sem que afetem o meio ambiente ou acabem por prejudicar gravemente a natureza e todos os seres que a habitam. Devido ao descarte incorreto do lixo eletrônico que muitas pessoas ainda realizam, jogando-o em lixeiras comuns e misturando-o aos outros objetos de consumo, ainda há muitos prejuízos que são aplicados à natureza devido a essa prática, causando consequências à toda a população e podendo agravar os resultados ao longo do tempo para o nosso planeta.

Então, o que podemos fazer para diminuir o descarte do lixo eletrônico? Existem muitas maneiras de evitar que isso aconteça. Abaixo estão algumas delas.

1. Procurar locais de descarte correto. A maioria das cidades possui algum local próprio para o descarte de eletrônicos, seja para reutilização ou para reaproveitamento de suas peças. Deve-se entrar em contato com entidades com foco em reciclagem e informe-se sobre essa possibilidade. Ao descartar os seus eletrônicos, é preciso certificar-se de que estejam limpos e sem nenhuma peça solta. Deve-se enrolar fios em torno dos aparelhos, de modo que não se soltem nem quebrem. Assim, eles ficam melhor conservados para depois serem reaproveitados.

2. Parar de se render ao apelo publicitário.Trocar de celular ou de computador todo ano (a não ser que seja estritamente necessário para o seu trabalho) não faz o menor sentido se ele estiver funcionando e servindo às suas necessidades. Dessa forma evita-se gastar dinheiro e poluir o meio ambiente.

3. Verificar se é necessário trocar o computador. Se for imprescindível, deve-se comprar um novo, porém, é interessante doar o antigo para uma pessoa que precise dele, um amigo, uma instituição etc.

4. Estender a vida útil dos equipamentos. No caso dos computadores, por exemplo, muitas vezes a lentidão se deve aos arquivos perdidos e lixo deixado pelo sistema operacional. Os vírus também podem deixar o computador lento. Uma solução seria fazer um backup dos arquivos e depois formatar o computador, reinstalando novamente o sistema operacional. Passar um antivírus antes de formatar a máquina pode resolver o problema sem a necessidade da formatação.

5.Doar para museus. Se está se descartando algum tipo de dispositivo muito antigo, pode ser que existam instituições interessadas em obtê-lo. Computadores e outros aparelhos de décadas passadas já podem ser considerados artigos de museu. Deve-se buscar informações sobre esse tipo de coleção na cidade ou estado e entrar em contato para saber a melhor forma de doar. Em vez de simplesmente jogar fora, é importante contribuir para a cultura da sua região deixando os museus ainda mais completos.

6. Desfazer-se do equipamento. Deve-se vender o computador ou as peças separadamente (no caso de desktops pode-se vender separadamente a CPU, monitor, teclado, mouse, caixas de som ou mesmo peças individualmente) por um preço mínimo, a fim de que alguém possa reaproveita-lo. Sites de leilão também pode ser uma boa alternativa.

7. Bateria. Os principais fornecedores desse produto têm urnas em todas as lojas das operadoras e oficinas autorizadas para o descarte das baterias.

8. Logística reversa. Muitas empresas fabricantes de eletrônicos e operadoras de celular já recebem de volta os aparelhos usados. Deve-se ligar para a operadora ou mesmo ir até a loja onde o novo equipamento foi adquirido para se informar.

9. Preservação do meio ambiente. Utilizar como critério de compra, além do preço, a responsabilidade que a empresa assume com o meio ambiente.


Lixo eletrônico no Brasil
O Brasil produz 366 milhões de toneladas de lixo por ano. Desse total, 137 mil são de TVs, 96.8 mil de PCs, 115 mil de geladeiras e 17 mil de impressoras. Esses dados são do Global E-waste Monitor 2017, relatório internacional elaborado pela Universidade das Nações Unidas (UNU), em parceria com União Internacional das Telecomunicações (UIT) e a International Solid Waste Association (ISWA – Associação Internacional de Resíduos Sólidos), que no Brasil é representada pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). O Brasil produz 36% do lixo eletrônico da América Latina. Somos o segundo maior gerador desse tipo de resíduo no continente americano, atrás apenas dos Estados Unidos, que produziram 6,3 milhões de toneladas de lixo eletrônico no mesmo período. Segundo a entidade, boa parte desse volume não é reciclado e tem destinação inadequada, indo parar em lixões a céu aberto, contaminando o meio ambiente e a saúde das pessoas.

Lixo eletrônico na América Latina
A América Latina gerou 9% dos resíduos eletrônicos do mundo em 2014, a maioria no Brasil (37%), enquanto Chile e Uruguai foram os maiores produtores per capita desse tipo lixo na região. Um estudo da Associação de Empresas da Indústria Móvel (GSMA) e da Universidade das Nações Unidas adverte que a quantidade desses resíduos está crescendo no mundo, superando as 40 milhões de toneladas em 2014, e que nos próximos quatro anos subirá entre 5% e 7% por ano na América Latina.

Na mesma linha, o documento E-Waste na América Latina: análise estatística e recomendações de política pública ressalta que 9% do lixo eletrônico produzido na região corresponde a 3,9 milhões de toneladas e se prevê que esse número chegue a 4,8 milhões de toneladas até 2018. O Brasil é seguido de longe na lista pelo México (958 mil toneladas), Argentina (292), Colômbia (252), Venezuela (233), Chile (176) e Peru (147), segundo o relatório da GSMA e do Instituto para o Estudo Avançado da Sustentabilidade da Universidade das Nações Unidas. Por outro lado, abaixo das 75 mil toneladas, aparecem Equador (73), República Dominicana (57), Guatemala (55), Bolívia (45), Costa Rica (36), Paraguai (34), Uruguai (32) e Panamá (31).

Em termos per capita, Chile e Uruguai são os países que mais lixo eletrônicoproduzem por pessoa, com 9,9 e 9,5 quilos, respectivamente, enquanto a média na América Latina é de 6,6 quilos, dos quais, segundo o estudo, 29 gramas correspondeu a telefones celulares.

Os resíduos eletrônicos gerados por telefones celulares representam menos de 0,5% do peso total do lixo eletrônico no mundo e a mesma proporção se repete na América Latina.


Lixo eletrônico no mundo
Cerca de 7 bilhões de seres humanos produzem anualmente 1,4 bilhão de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) — uma média de 1,2 kg por dia per capita. Quase a metade desse total é gerada por menos de trinta países, os mais desenvolvidos do mundo. Quanto ao lixo eletrônico, o mundo todo atingiu 44,7 milhões de toneladas em 2016, um aumento de 8% em relação ao ano anterior. O volume de todos os materiais descartados anualmente pesa o equivalente a 4,5 mil torres Eiffel.

A pesquisa mostra que apenas 20% dos resíduos eletrônicos descartados foram reciclados, a despeito do alto valor agregado dos materiais que compõem alguns equipamentos, como ouro, prata, cobre, platina, paládio e outros materiais recuperáveis. Segundo estatísticas, a geração de lixo eletrônico global deve aumentar em torno de 17% e superar a marca de 50 milhões de toneladas por ano até 2021.


Países "Lixões"
Por incrível que pareça já existem países virando depósito de lixo tecnológico dos países ricos, como é o caso de Gana, na África. O lixo depositado lá, cuja existência foi denunciada pela ONG Greenpeace, é composto por celulares, aparelhos de TV, computadores etc. O Greenpeace também já havia identificado depósitos do mesmo tipo na China, Índia e Nigéria. Além da contaminação do solo e prejuízos à agricultura e aos lençóis subterrâneos de água, esse lixo eletrônico também afeta crianças e adultos que trabalham nos lixões em busca de materiais que possam ser vendidos. Uma situação iminentemente absurda, principalmente se considerarmos que, segundo o Greenpeace, esse lixo vem de países como Alemanha, Suíça e Holanda, dentre outros que se enquadram no ranking de países ditos “civilizados”.

A ausência qualquer política transparente de lixo eletrônico em Gana torna ainda mais assustadora a situação no país. O grande volume de lixo eletrônico descartado em nações desenvolvidas é enviado para países em desenvolvimento, expondo a população a problemas de saúde e de pessoas despreparadas para enfrentar a situação decorrente disso. É até mais surpreendente que, apesar da ampla divulgação dos temas ambientais no mundo globalizado de hoje, os políticos ganeses raramente façam deles um tópico de campanha. Mas o meio ambiente é assunto de direitos humanos, assim como a liberdade de expressão, e já é tempo de os países desenvolvidos enfrentarem decididamente esse problema, sob o risco de vê-lo crescer cada vez mais.


Política Nacional de Resíduos Sólidos
No Brasil, o assunto lixo eletrônico, geralmente, ainda não possui grande atenção da sociedade. Apesar de ser um assunto regulamentado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), por intermédio da Lei 12305 de 2010, pouco ou quase nada progrediu em relação ao tema. Percebe-se uma falta de interesse pelo poder público, já que ações e penalidades que deveriam ser feitas não existem ou são inócuas.

A PNRS é uma lei que procura organizar a forma com que o país lida com o lixo e exigir dos setores públicos e privados transparência no gerenciamento de seus resíduos. Foi um marco no setor por tratar de todos os resíduos sólidos (materiais que podem ser reciclados ou reaproveitados), sejam eles domésticos, industriais, eletroeletrônicos, entre outros, e também por tratar a respeito de rejeitos (itens que não podem ser reaproveitados), incentivando o descarte correto de forma compartilhada ao integrar poder público, iniciativa privada e cidadão.

A PNRS tinha o prazo inicial estipulado para implantação em 2014. Mas como os municípios não conseguiram cumprir o prazo foi aprovado na Câmara de Deputados mais quatro anos, por meio da Medida Provisória 651/14. Assim, esse prazo venceu em 2018. No entanto, como o descaso reina no cumprimento da PNRS e nenhum órgão municipal avançou nesse assunto, o PLS 425/2014 recebeu emenda estabelecendo prazos diferenciados para o fim dos lixões, de acordo com a realidade dos municípios. Serão quatro novos prazos anuais, de 2018 a 2021, além da previsão de a União editar normas complementares sobre o acesso a recursos federais relacionados ao tema.

Como no Brasil não se fala ou pouco se fala sobre lixo eletrônico, é bom lembrar com que descaso a atual legislação ambiental do estado de São Paulo (2008), que trata especificamente dos resíduos sólidos, não cita os equipamentos eletrônicos. E na esfera da legislação nacional a resolução que trata do assunto está em revisão há cerca de quatro anos no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).


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