ENTENDER O MUNDO/ATUALIDADES
Manipulações e experimentos cerebrais
MAIO 2019
 
 
Conheça
#FFFFFF
    ARTIGO      
 A REGENERAÇÃO DOS CÉREBROS DE PORCOS MORTOS
Imprimir Enviar Guardar
 
Recentemente, um trabalho publicado na revista Nature, por pesquisadores da Universidade de Yale, criou um rebuliço na comunidade científica. No artigo, os cientistas afirmam que foram capazes de restaurar algumas atividades cerebrais de porcos mortos e decapitados por um período de pelo menos 10 horas. O estudo, chefiado pelo neurocientista Nenad Sestan, foi realizado com intuito de restaurar a circulação o cérebro de porcos recém-decapitados e tentar, assim, reestabelecer algumas funcionalidades celulares do tecido nervoso. Para tal, os cientistas buscaram as cabeças de porcos em frigoríficos da região. Assim que a morte cerebral dos porcos era determinada, sua cabeça era retirada e o cérebro discecado. Após quatro horas (período suficiente para falta completa de oxigênio) os cérebros eram ligados a um sistema denominado BrainEx que bombeava sangue sintético e outros compostos para o cérebro morto. A partir disso os cientistas conseguiram reativar algumas atividades cerebrais por várias horas com sucesso.

Apesar do experimento parecer bizarro, várias precauções foram tomadas pelos pesquisadores em relação as questões éticas envolvidas no projeto, sendo o mesmo aprovado pelo Comitê Institucional de Cuidados e Uso Animal da Universidade de Yale e pelo grupo de trabalho de Neuroética dos Institutos Nacionais de Saúde do EUA (NIH). Os cientistas ressaltam que foram tomadas precauções para que os cérebros não pudessem exibir nenhum tipo de sinal de consciência. Além disso, os avanços que este tipo de estudo pode trazer em um futuro breve vale todo o esforço. Segundo Sestan, a partir dos resultados obtidos seria possível criar novos modelos para o tratamento de lesões cerebrais causadas por falta de oxigênio e até mesmo acidentes vasculares cerebrais.

Por outro lado o experimento abra a discussão para outros aspectos éticos, como, por exemplo, em que hora seria possível se declarar a morte, o que poderia influenciar nos processos de doação de órgãos de forma negativa. O que Sestan afirma, é que o experimento foi realizado para compreender quais as lesões cerebrais devido a processos de anoxia, ou seja, quando falta oxigênio em áreas do cérebro, ocorreriam mesmo depois da morte. Porém os resultados obtidos foram muito além disso, e assim que as perfusões sintéticas de sangue começaram a circular pelo cérebro, mesmo depois de 4 horas de anoxia, algumas células restauraram sua funcionalidade, diminuindo o inchaço cerebral natural do cérebro que ocorre após a morte, reestabeleceram algumas sinapses nervosas e preservou os vasos sanguíneos cerebrais. Segundo os cientistas, apesar dos resultados positivos a níveis celulares, atividades cerebrais de alto nível não foram detectadas, indicando a ausência completa de qualquer de sinais de consciência ou de funcionalidades de alta escala. De qualquer maneira, o experimento demonstra que o cérebro pode restaurar a microcirculação, sua atividade celular e conexões nervosas após um período de morte prolongado, coisas nunca imaginadas até então.



Quais os problemas éticos do estudo
Obviamente uma das grandes vantagens do estudo seria a possibilidade de estudo do funcionamento cerebral em um cérebro grande e estruturado é um grande passo para ciência, porém assim que o estudo foi publicado várias especulações começaram a surgir. A possibilidade, por exemplo, de restaurar cérebros criopreservados ou reviver indivíduos foram um dos primeiros aspectos a serem discutidos, porém, segundo os cientistas isto não passa, ainda, de ficção científica. Alguns pesquisadores ressaltam que retomar atividades cerebrais poderia interferir no conceito de morte em várias nações ocidentais. Segundo Kerry Bowman, da Universidade de Toronto o estudo interfere diretamente neste conceito e poderia abrir um grande preceito ético sobre o assunto.  Bowman ressalta ainda, que os animais poderiam ser mantidos experimentalmente, em um futuro próximo, em um campo indefinido entre a vida e a morte para que os experimentos fossem concluídos.

A professora de filosofia e direito Nita Farahany ressalta, em um comentário na revista Nature, que o estudo poderia cruzar uma barreira cinzenta para o cérebro destes animais, com uma natureza não viva, mas também não completamente morta e que qualquer avanço nesta área deveria passar por processos regulatórios mais severos, incluindo novas técnicas de eletroencefalograma para detectar sinais de consciência e determinação de quais espécies poderiam ser utilizadas para o estudo em questão. A Professora sugere ainda a utilização de bloqueadores de atividades neuronais durante o experimento até que os resultados sejam mais seguros sobre o retorno da atividade cerebral.

Outros especialistas em bioética afirmam ainda que a possibilidade de recuperação de pacientes com morte cerebral poderia resultar em um conflito sobre as chances de doação de órgãos tendo em vista que a detecção de morte cerebral não seria mais um limite para a morte. Os cientistas da BrainEx não concordam com a medida e minimizam os impactos e implicações éticas do estudo. Segundo eles o sistema não está nem perto de restaurar a atividade cerebral de forma completa e que isto provavelmente, pelo menos em um curto espaço de tempo, seria praticamente impossível.


Outros experimentos envolvendo o cérebro
Um outro estudo publicado na revista Nature´s Scientific Reports também chamou atenção em relação a processos de manipulação cerebral. Uma equipe de cientistas chineses afirma que conseguiram criar um recurso para que seres humanos manipulassem o cérebro de roedores através de um sistema sem fio. A tecnologia chamada de Brain to Brain (BBI) pelos pesquisadores seria capaz de captar comandos cerebrais humanos através de um computador e transmiti-los para o cérebro de um roedor, dando instruções específicas de movimento para estes animais.

Este procedimento seria possível através do implante de duas seções de eletrodos no cérebro do roedor. A partir disso o animal foi condicionado a fazer determinados movimentos a partir de um receptor que recebia as instruções via ondas, entretanto, neste primeiro momento, o “controlador” humano ainda não estava presente. A partir destes passos iniciais os testes se iniciaram a partir de um labirinto com oito saídas em forma de asterisco. Neste momento o controlador humano, utilizando-se de um dispositivo de eletroencefalograma (EEG) conectado a um computador começou a emitir ondas cerebrais para a máquina que decodificava os sinais e as modelava para transmiti-las ao roedor.

Segundo os pesquisadores, os comandos básicos de movimentos, como a determinação de direção, ou seja, direita, esquerda, para frente ou para trás são fáceis de ser codificados a partir das ondas cerebrais emitidas pelo ser humano para o equipamento de EEG. Porém, a codificação para que o roedor entendesse o comando tem que ser codificada de forma diferente. As ondas transmitidas diretamente para o cérebro do animal chegavam, por exemplo, como um “piscar de olhos”, que os direcionava para o local que havia sido pensado pelo controlador humano. O tempo de movimentação do roedor para achar a saída do labirinto (só existia uma entrada e uma saída entre as oito possibilidades) foi em média de três minutos para conseguir achar a saída, tempo muito mais expressivo do que aquele obtido quando os ratos não eram controlados. O “rato Ciborgue” como os cientistas chineses chamaram, foram submetidos a outros testes mais complexos, com rotas predeterminadas, conseguindo ter sucesso em cerca de 90% dos casos.

Os cientistas ressaltam que a intenção do estudo, que já vinha sendo testado com outros animais e outros objetivos desde 2013, seria a possibilidade de utilizar este controle cerebral em missões de buscas e resgastes, já que estes animais teriam acesso a locais não cessíveis e perigosos para os seres humanos.

Em um outro estudo impressionante, publicado recentemente por neurocientistas da Universidade Cornell, em Nova York, foi possível criar uma conexão cerebral entre três pessoas distintas, que possibilitou que elas compartilhassem seus pensamentos na elaboração de estratégias para determinar o movimento de peças de um jogo no estilo de Tetris. O experimento fez parte de uma pesquisa denominada BrainNet, semelhante ao que foi desenvolvido pelo BBI. Neste experimento os cientistas utilizaram um eletroencefalograma ligado a um computador para registras sinais cerebrais e uma tecnologia de estimulação magnética transcraniana para fornecer uma conexão não invasiva ao cérebro humano.  Segundo os pesquisadores a tecnologia seria capaz de criar uma espécie de rede social de mentes conectadas em tempo real. Os receptores de sinais cerebrais poderiam ainda identificar quais sinais seriam mais corretos e quais remetentes teriam maior confiabilidade para lidar com determinados tipos de cenários.

Não se sabe ao certo onde estes métodos de manipulações cerebrais poderiam chegar. De qualquer maneira, o processo de transferência de informações cerebrais entre diferentes espécies, ou mesmo entre os próprios seres humanos também trazem à tona discussões éticas importantes. Quais as consequências reais destes processos e até onde a transferência de informação obedeceriam a limites mínimos de convivência e de privacidade? Um outro fator ainda a ser discutido é se este tipo de manipulação cerebral poderia ainda trazer algum tipo de dano as conexões neurais sem que percebêssemos isso a tempo de reverter a situação. O que sabemos até agora é que o cérebro é um órgão complexo com cerca de 100 trilhões de conexões e qualquer tentativa de compreensão de seu funcionamento ainda passa por um campo de tentativas e teorias complexas e com resultados superficiais. Até onde poderemos e devemos chegar com este conhecimento é a pergunta que deve nortear o futuro das pesquisas.


Para saber mais, leia também