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Impactos do luto na saúde
MARÇO 2019
 
 
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Hoje é dia de tratar de um importante assunto: O luto. Aquele momento que todo mundo está sujeito a passar, mas que pouca gente fala sobre. A morte é assunto daqueles que uma hora bate a nossa porta. E se minha mãe morrer? E se meu filho morrer? Essas são algumas das perguntas que nos tiram o chão e que, por mais que estejamos cientes de que uma hora pode acontecer, quando acontece não sabemos bem como lidar.

Antes de mais nada, é importante deixar claro que nenhuma perda é igual a outra. Cada perda é experiência única e individual. E as consequências desse processo na saúde do indivíduo também são diferentes.

Segundo Marcela Bianco, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos”), o luto é um processo que precisa ser vivido para ser superado. “Todos nós, quando sofremos uma perda, temos um momento de “choque” inicial. Essa reação acontece porque nosso ego não é capaz de absorver a realidade da notícia e, por defesa, há uma paralisia das emoções e da capacidade de perceber o entorno. Em geral, essa reação pode durar minutos, horas ou dias e a pessoa tem a tendência a manter a vida interior rica de ilusões em relação ao ser que partiu”, explica a profissional.



SINTOMAS
A psicóloga conta ainda que o choque pode desencadear um verdadeiro “apagão” de consciência ou reações corporais como tremores, desmaios, vômitos e diarreias. A pessoa também pode estar em choque quando apresenta reações aparentemente frias e indiferentes ao que está acontecendo. A orientação dela é para respeitar esse momento. “E se você estiver ao lado de alguém em choque acolha a pessoa enlutada, que aos poucos irá conseguir ir compreendendo a realidade”, pondera a profissional.

No emocional, a gente sabe que o luto causa um grande impacto. Pode chegar até a um estresse emocional. Mas, e no corpo físico? Quais os impactos para a saúde?

Especialistas no assunto e pessoas que viveram o luto concordam. Os sintomas mais comuns são: falta de apetite, insônia, resistência baixa, infecções frequentes, taquicardias e problemas digestivos. Esses são alguns dos sintomas, mas novamente é importante lembrar que as reações variam de pessoa para pessoa, a depender também do vínculo existente entre quem fica e quem partiu.


LUTO E SAÚDE
A ciência já provou que o luto afeta a saúde. A psicóloga belga Emmanuelle Zech, autora do livro “A Psicologia do Luto”, afirma que há estudos que mostram aumento de casos de depressão e mortalidade, de dificuldades que levam ao desenvolvimento de estresse pós-traumático e ansiedade”. Ela acrescenta que outros sintomas provocados pelo luto são: tristeza profunda, sentimento de culpa, arrependimento ou somatização.

Ela explica ainda que nem todo mundo que perde uma pessoa muito próxima e querida desenvolve algum problema de saúde. Mas, muitos passam semanas, meses e até anos cabisbaixo e tristonho.


SENTIMENTOS
Os mais diversos sentimentos podem surgir de um luto! Tristeza, raiva, revolta, alívio, culpa, medo, impotência, ansiedade… enfim, as mais profundas emoções podem ser despertadas. O luto é um processo doloroso e é preciso fazer um verdadeiro trabalho de superação.

A expressão emocional é fundamental para que a pessoa possa digerir a realidade da perda. Falar do assunto com amigos e familiares é um caminho sempre muito indicado. Profissionais da psicologia orientam que não se evite o contato com o sofrimento. E tem mais, a dica é procurar as pessoas realmente disponíveis emocionalmente para contar sobre o que está sentindo. Todo sentimento é legítimo e merece ser respeitado e acolhido.


CHORE SUA DOR
Escolher não sofrer não é legal! O luto é uma experiência altamente dolorosa e que realmente abala qualquer estrutura. Bloquear, inibir ou adiar o seu luto não irá ajudar. Chorar, falar somente sobre o luto, limitar a sua vida a esse acontecimento por um tempo é natural e faz parte do processo de assimilação da realidade. Digerir esse momento lentamente é o caminho para retomar a vida.

E A DOR DO OUTRO?
Quando o outro sofre uma perda é comum ficarmos relativamente impotentes frente ao que ele está sentindo. Não podemos apagar o que aconteceu e nem evitar a avalanche de reações e sentimentos que surgem a partir do luto. Estar ao lado da pessoa, manter-se presente, escutá-la e acolhê-la emocionalmente. Essas são algumas atitudes que você pode ter e que são de extrema importância neste momento.

É natural que a pessoa em luto sofra por um tempo, que tenha dificuldade para encarar a realidade, que sinta vontade de ficar isolado, que a vida perca o gosto e a graça. Isso faz parte do processo.


NA PRIMEIRA PESSOA
Tomo a liberdade de usar a primeira pessoa em alguns momentos aqui nesse texto. Assim, o assunto ganha novas experiências de vida, e de morte. Ah, a morte! Desde muito cedo convivemos com ela. É comum relatos de pessoas que vivenciaram o luto logo na infância. E essa experiência, segundo a Antroposofia, costuma deixar marcas para o resto da vida.

Eu vivenciei o luto de importantes homens da minha família. Era ainda uma menina com pouco mais de 8 anos quando chorei a perda do meu avô materno. Como éramos ligados! Depois, pouco tempo depois, se foram: um tio paterno vítima de acidente de carro, o bisavô já com mais de noventa anos e o avô paterno com graves problemas de saúde. É ou não uma sequência de mortes de homens importantes na vida de uma criança.

Assim, com meses entre uma morte e outra, a criança virou moça. E a moça chorava escondida de saudade dos homens da família. Quem nunca chorou escondido? Vergonha? Será que precisa mesmo?

Hoje choro ao escrever o texto e relembrar disso tudo. Mas, as lagrimas escorrem também pelas mortes dos últimos tempos. A filha de uma amiga, a avó paterna e a avó materna. Ah! Essas mulheres, que mulheres. Fortes, guerreiras, carinhosas.

São mães que perdem os filhos, filhos que enterram a mãe. Avós que, enfim, descansam em paz. Paz?! Cadê aquele colo de paz? Passar pelo bairro onde minha avó morava e lembrar dos momentos ali vividos é ao mesmo tempo dolorido e gratificante. Foram tantas experiências, tantos cafés da tarde na companhia daquela pessoa que transbordava amor.

Perder alguém que tanto amamos é sofrido. Dói lá no fundo da alma. Neste caso, o luto se estende, pode durar meses, anos. E o sentimento pode ficar guardado em meio aos corres da vida. Trabalho (ou falta dele), contas a pagar, compromissos, família crescendo ... um ano se foi. Como passa rápido. E sempre que a lembrança aperta no coração, mentalizo uma linda flor e ofereço a ela. A elas. A eles também.

Mas, tem uma dica muito importante: ninguém precisa passar por isso sozinho. Consolar a dor com pessoas que confiamos e nos sentimos à vontade é um importante caminho para a superação.


PERDER A MÃE NA INFÂNCIA
Já pensou nisso? Eu conheço uma mulher forte e carinhosa que perdeu a mãe ainda na infância. Tenho certeza que esse fato marcou a vida dela e marca a vida de quem perde logo cedo a pessoa mais importante ... da vida!

Segundo a pesquisadora Maria Júlia Kovács, do Instituto de Pscicologia da USP (Universidade de São Paulo), “o processo de luto tem sofrido algumas formas de interdição, principalmente na sociedade ocidental, sendo valorizadas cada vez mais as atitudes discretas e os silenciamentos, o que tem acabado por suprimir a expressão do luto. Assim, muitas pessoas passam a apresentar um comportamento socialmente aceitável, contrariando suas necessidades psicológicas, ficando prensadas entre o peso do sofrimento e o interdito da sociedade”.

A pesquisadora explica ainda que a morte da mãe na infância pode ser uma das experiências mais impactantes que uma criança pode vivenciar, especialmente por haver uma importante dependência física e emocional do genitor falecido por parte da criança. Dessa forma, pelos valores veiculados na sociedade ocidental e pela complexidade da experiência da perda da mãe na infância, tem-se observado dificuldades nessa situação de vivência de luto.


NA LATA
“Se por um lado nos deparamos com a dificuldade de enfrentar as mudanças que ocorrem em nosso corpo, e num mundo atual onde a preservação da juventude, o culto ao belo é uma constante, seria muito natural não estar à vontade diante dos restos do cadáver. Tanto é assim que hoje instituímos a necromaquiagem para atenuar o desconforto da visualização da morte nos funerais”, explica a pesquisadora da USP.

Muitos povos antigos instituíram a mumificação como estratégia de preservação do corpo, guardando no seu interior o coração para um eventual retorno à vida. Maria Julia explica que também instituímos a cremação o que nos poderia aliviar o desconforto da decomposição do cadáver.

“Mas temos que nos preocupar com os sentimentos de familiares em relação ao corpo do ente querido e até do moribundo que talvez não se sinta confortável diante da expectativa de ser cremado. Será que ele sentirá alguma coisa? Além disso, princípios religiosos poderão desaconselhar a cremação”, conta ela.


DISTANTE DA MORTE. SERÁ?
“Por conta dessa dificuldade de viver com a separação, a melancolia, o luto, ... o homem tem procurado se distanciar o mais possível da morte”, explica a pesquisadora.

Especialistas na temática afirmam que para não ter que viver com a morte, preferimos reprimir a vida, limitá-la e restringi-la de múltiplas maneiras, dentro de nós e ao nosso redor.

Isso é bem verdade. Eu acho. Nesse um ano sem minha avó posso dizer que reprimi muitos sentimentos. Guardei mesmo em meio a tantas outras demandas que surgiram no caminho e desviaram a atenção. Mas, o sentimento fala bem alto quando o coração ainda anda apertadinho. Por isso o tema aqui está sendo tratado por quem vive, viveu e, claro, por quem estuda o assunto.

Maria Julia Kovács é referência no tema do luto. Segundo ela, a “morte tem sido objeto de produção artística, romanceada em trabalhos magníficos como Romeu e Julieta de Shakespeare, apresentada também de forma melódica e em ballets clássicos; as várias óperas em que a cena de morte se faz presente e impacta; a produção dos grandes pintores que deixaram seus registros sobre a maneira de se ver a morte”.

E isso é muito importante. Processar as perdas faz parte da vida. Da evolução. Independentemente da religião, do credo e dos medos, todos vivenciaremos alguma perda.


RELATO DE MÃE
Eu sou mãe. Na minha segunda gestação vivenciei momentos muito prazerosos em contato com outras gestantes. Uma delas é uma amiga de tempos, que também gestava uma menina. Luiza nasceu dois meses depois da Flora, a minha filha. Bem próximas, eu e a mãe de Luiza vivenciamos um pós-parto amparadas por outras mulheres.

Eis que a vida toma caminhos não tão esperados. Luiza teve um câncer e aos dois anos, depois de muita luta e resistência, nos deixou. Seguiu seu caminho.

Dois anos depois e muita entrega a esse luto, a mãe dela conta aqui o que ela entende que são os impactos do luto na saúde.

Mariana, mãe da Luiza, é psicóloga e prefere nos dar respostas auto-referenciadas, afinal, segundo ela, os impactos são bastante particulares às condições de enfrentamento de cada um. Condições essas que não são melhores ou piores, apenas possíveis.

“O luto, como reação à perda anunciada e vivida, me revelou a realidade da impermanência (para além dos discursos bonitos reproduzidos a torto e a direita por aí) de forma crua e cruel. E me apresentou duas alternativas: sucumbir ao medo, dor, ausência de sentido ou me reinventar e seguir. Por aqui eu sigo. A reinvenção brotou natural e forçadamente (bem assim)”, conta ela.

E ela acrescenta: “validados os cinco estágios do luto da Kübler-Ross (psiquiatra suíça), afirmo que conheci a fundo cada um deles. Vivi todos e sigo esbarrando em alguns. Neguei, senti raiva, barganhei, deprimi e aceitei. Não necessariamente nessa ordem e lembrando que o meu luto foi o antecipatório (que se inicia frente ao anúncio de perda iminente)”.

Para Mariana, o maior impacto do luto que ela ainda vive é o surgimento, (re)conhecimento e acolhimento de uma nova forma de ser e se relacionar com o mundo. “De uma nova Mariana. Dona de um corpo frágil e cansado; de um coração em grande parte do tempo apertado e de uma garganta de laringe estreita. Dona de uma saudade que não cabe. Mais introspectiva, seletiva - escolhendo com ainda mais critério onde e quando investir minhas energias. Mais séria - talvez pela tristeza...Ainda mais empática e disponível às dores profundas do ser humano. Mais pé no chão. Menos arrogante (assumi meu tamanho e impotência) e mais humilde. Mais forte - não sei se mais forte, mas mais consciente da minha força e dos meus recursos internos p/ seguir. Menos tolerante, quase que intolerante às superficialidades e plasticidade das relações. Mas mais tolerante aos limites e dificuldades alheias (e meus também). Mais atenta e entregue à quem se apresenta com verdade e coragem de ser o que é. E completamente evasiva nas situações contrárias. Mais crítica. Talvez mais chata (sim, mais chata!). Sorrindo quando o sentimento dentro provoca o sorriso. Calando quando não tenho ou não sei o que dizer. Certamente mais calada. Muito mais conectada com a natureza. Com Deus. Com o que não consigo explicar mas sinto e confio. Completamente mais aberta e confortável à falta de explicações, ao não saber. Mais sensível (uma canceriana se auto avaliando como mais sensível...pensa?). Mas no geral, apesar da dor e tristeza, essa nova Mariana me agrada muito mais que a de antes. E eu agradeço a minha filha Luiza por mais isso”.

E eu agradeço ao leitor que chegou até aqui e que, muito provavelmente, reviveu alguma perda. Se chorou ou engoliu o choro, se escorreu lagrima ou não. Não importa. Importa mesmo é saber que guardar a tristeza de nada adianta. Afinal, o luto é um processo que precisa ser vivido para ser superado.


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