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Bullying e Cyberbullying
OUTUBRO 2018
 
 
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 BULLYING E CYBERBULLYING
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Etimologicamente a palavra bullying aponta sua origem na língua inglesa e se tipifica como um substantivo derivado do verbo bully que significa "machucar ou ameaçar alguém mais fraco para forçá-lo a fazer algo que não quer", segundo Cambridge Advanced Learner's Dictionary. No Brasil, o Grande Dicionário Barsa da Língua Portuguesa indica a palavra "bulir" como correspondente a "apoquentar, mexer com, tocar ou causar incômodo”.

Dentre suas principais características pode-se mencionar a agressão física ou psicológica, sem motivação clara, geralmente praticada por grupo de pessoas contra um indivíduo ou mais. O termo está associado ao abuso de poder em ambientes, como no trabalho, quando alguém em posição subalterna sofre situações humilhantes ou entre alunos, crianças ou adolescentes, em escolas.

A prática pode desencadear traumas e baixa autoestima nas vítimas e é caracterizada por ocorrer repetidas vezes. A intimidação também acontece por meio virtual, nas redes sociais, sendo chamada de cyberbullying.

Pioneiro e fundador da pesquisa sobre as consequências do bullying, referência científica e na sociedade em geral, o Dr. Dan Olweus (1931) recebeu uma série de prêmios por seu trabalho de pesquisa e intervenção, incluindo as "distintas contribuições para Políticas Públicas para Crianças" prêmio pela Sociedade de Pesquisa em Desenvolvimento Infantil (Srcd). O Cientista sueco foi o responsável por definir pontos essenciais do bullying nas escolas em três pilares: o comportamento agressivo e negativo, sua execução repetida e maior ocorrência em relacionamentos onde há desequilíbrio de poder.


Breve histórico mundial do bullying escolar
O bullying ganhou maior atenção das escolas, pais e até de governos quando a violência praticada nos corredores e pátios escolares começou a desencadear reações muito mais violentas e radicais. A exemplo, pode-se citar os colegas Eric Harris e Dylan Klebold, que, no dia 20 de abril de 1999, entraram na escola em que cursavam o ensino médio, o Instituto Columbine, nos Estados Unidos e mataram 14 pessoas, deixando outras 23 feridas. Logo após o incidente, cometeram suicídio.

No Brasil, em 27 de janeiro de 2003, na escola estadual Coronel Benedito Ortiz, em Taiúva, na Bahia, o protagonista foi o ex-aluno Edmar Aparecido Freitas que invadiu a escola armado de um revólver calibre .38, atirou ao menos 11 vezes, feriu oito pessoas e em seguida cometeu suicídio. Segundo estudantes ouvidos pela Polícia Civil da Bahia, na época, Ortiz era vítima de humilhações. Obeso, era chamado de "gordo". Fez, então, um rigoroso regime para tentar se livrar do assédio, entretanto permanecia sempre quieto e calado.

A partir daí percebe-se que o bullying, praticado no ambiente pedagógico de ensino, possui várias definições explícitas, porém a mais impetrante e cruel é a capacidade de gerar infortúnio psíquicos e até físicos, irreversíveis, na vida de outrem. Além disso, é importante ressaltar que essa prática apresenta-se de forma direta, como humilhação, ridicularização e agressões físicas repetitivas e indireta, quando o foco do assédio visa o isolamento das vítimas o que acontece por meio de comentários maléficos compartilhados, socialização indiferente, ou até a intimidação de outras pessoas próximas da vítima.


Práticas do bullying na escola
O Ibge (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) realiza, em diversas cidades do país, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), em parceria com o Ministério da Saúde e com o apoio do Ministério da Educação. Um dos objetivos da pesquisa, por exemplo, diz respeito ao conhecimento de fatores de risco e proteção à saúde dos adolescentes, dentre eles as práticas do bullying.

Realizada em 2009, a primeira Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, feita com uma amostra de escolares das capitais brasileiras, do 9º ano do ensino fundamental apontou que 5,4% dos estudantes teriam sofrido bullying quase sempre ou sempre nos últimos 30 dias. Em 2012 a segunda edição da PeNSE, mostrou o crescimento para 6,8% nas capitais, o que correspondeu a um aumento de 25%.

Em 2015, ano que simboliza um marco na legislação nacional com a criação da Lei 13.185/15 - Lei Antibullying - o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) revelou, segundo relatório de discentes com 15 anos participantes da avaliação, que, no Brasil, 17,5% sofriam alguma das práticas características de bullying "algumas vezes por mês"; 7,8% disseram ser excluídos pelos colegas; 9,3%, ser alvo de piadas e 3,2%, empurrados ou agredidos fisicamente.

Em 2017, a ONU, por meio de pesquisa com 100 mil crianças e jovens de 18 países argumentou que, em média, metade deles sofreu algum tipo de bullying por razões como aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem. No Brasil, o percentual foi de 43% o que demonstra a necessidade de maior fiscalização e informação sobre as práticas do bullying nas escolas em conjunto à comunidade.


Bullying na legislação nacional
O Programa de Combate à Intimidação Sistemática foi instituído pelo governo federal, ainda em novembro de 2015, com a assinatura da Lei Federal nº 13.185, conhecida por Lei Antibullying, que estabelece algumas medidas para tentar acabar com a prática do bullying nas escolas. Conforme versa a lei, o bullying caracteriza-se por “todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas”.

Um dos pontos instituídos pela Lei Antibullying é a responsabilidade primária das escolas, agremiações e clubes recreativos no que se refere ao desenvolvimento de medidas preventivas, de conscientização, diagnose e combate a esse tipo de intimidação sistemática, nos termos do art. 5º da lei referente. Por outro lado, o texto destaca a modalidade de agressão cyberbullying quando a violência e os ataques são praticados em contexto virtual informando à necessidade de preparo dos docentes para, também, combaterem este tipo de intimidação no mundo digital.

No presente, sobre o combate à intimidação repetida, ainda em 2018, O presidente Michel Temer (1940) sancionou a lei nº 13.663, de 14 de maio de 2018, que altera o artigo 12 da Lei nº 9.394 de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). O texto de reafirmação do combate ao bullying nas escolas brasileiras trouxe atualizações importantes, apesar de ainda não ter demonstrado os resultados e benefícios aguardados.


Cyberbullying!
Como o próprio nome propõe, o cyberbullying pode ser traduzido para o português como assédio virtual e definido como ato de ferir ou constranger pessoas mediante a utilização da internet, smartphones e outros dispositivos através de mensagens, imagens e até vídeos.

Praticar cyberbullying significa usar o espaço virtual para intimidar e hostilizar um colega de escola, professores, ou mesmo desconhecidos, difamando, insultando ou atacando covardemente.

O surgimento desse tipo de assédio virtual está atrelado ao advento das redes sociais e tem enorme dimensão de perigo devido o fato da internet ter uma conexão a nível planetário, o que por consequência acelera o seu potencial de propagação de conteúdos. Outro fator que empodera os agressores que se valem do assédio virtual é a facilidade do anonimato nas redes por meio de perfis falsos.

O cinema moderno retratou a temática cyberbullying no longa Cyberbully que é um filme estadunidense de 2011 dirigido por Charles Binamé (1949) e estrelado por Emily Osment (1992). O qual, conta a história de uma garota que ganha um computador e sofre de cyberbullying após se tornar membro de uma rede social.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, em 2018, colocou o Brasil como o segundo país com a maior incidência de cyberbullying no mundo e aponta que em 65% dos casos, as redes sociais foram usadas. Após, aparecem os smartphones representando 45% das ocorrências. Porém, engana-se quem pensa estar protegido pelo suposto anonimato na internet, pois já é possível monitorar e encontrar quem deflagrou iniciativas classificadas como bullying identificando quem as tenha compartilhado.


Combate ao Bullying e Cyberbullying
Celebrado no dia 20 de outubro, o Dia Internacional de Combate ao Bullying é um alerta mundial para os problemas dessa natureza. Nesta data é promovida a conscientização da população, de todo o mundo, para esta forma de violência, estratégias para apoio e incentivo às vítimas bem como divulgados canais de denúncia para estas graves situações, visto que lutar contra a intimidação sistemática não é uma tarefa superficial, nem de um grupo de pessoas, mas sim de um nível mais profundo e de responsabilidade de todos.

No que se refere a família, sabe-se que é a maior aliada na construção do processo educacional e de desenvolvimento humano. Mediante isto é possível sugerir que os pais questionem seus filhos, diariamente, sobre o dia na escola pois através das respostas percebem-se comportamentos como tristeza ou desmotivação pelos estudos, o que pode ser indicativo de problemas como bullying.

O papel da escola nessa luta se identifica como fundamental pois esta pode desenvolver metodologias, atividades ou oficinas que foquem na temática do bullying e cyberbullying. Além do mais, as instituições de ensino têm a capacidade de preparar o corpo docente para identificar e lidar com as problemáticas apresentadas no cotidiano escolar e em ambientes virtuais.

Assim, diante o exposto, é evidente que tanto o bullying quanto cyberbullying, podem ser minimizados através do engajamento de todos. Dentro das escolas, trabalho ou até família. Seja a manifestação virtual ou não, por meio da denúncia de agressão, cuidado ao partilhar dados pessoais, compreensão e respeito às diferenças este cenário pode ser transformado.


Para saber mais, leia também:
Bullying na escola por Içami Tiba .

Redes Sociais no Brasil.