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Turismo na Amazônia
DEZEMBRO 2020
 
 
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 AMAZÔNIA
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O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, é um símbolo da era de ouro da borracha e, atualmente, casa oficial da Orquestra Sinfônica do Estado do Amazonas

A Amazônia enquanto destino turístico vem sofrendo transformações. Isso se deve às novas representações e ao imaginário em torno do que significa a Amazônia, os quais moldam o contexto em que este turismo é difundido. Além disso, o próprio turista se modifica: pouco a pouco, ele deixa de ser o turista aventureiro ou apenas interessado em adquirir produtos na Zona Franca de Manaus e torna-se ambientalmente politizado e, por sua vez, mais local. A Amazônia é destino, cada vez mais, de estrangeiros, mochileiros e brasileiros à procura de ecoturismo e turismo sustentável.

Falar sobre o turismo na Amazônia envolve, portanto, refletir sobre os sistemas político-econômicos e culturais do mundo contemporâneo, os quais entrelaçam processos de globalização que acarretam efeitos heterogêneos, seja nos visitantes, seja nas populações que recebem os turistas.

É preciso perceber como as políticas públicas para o setor têm sido planejadas e implementadas ao longo dos anos como vetor de desenvolvimento, seja no nível regional, estadual ou mesmo municipal e como vem sendo associadas, em sua grande maioria, à lógica do mercado. No caso específico da Amazônia, há ainda de se mencionar que, na atualidade, as estratégias de desenvolvimento ligadas ao turismo também apresentam um viés ambientalista, atrelado ao discurso do desenvolvimento sustentável que, em alguns casos, torna-se apenas um novo marketing.

Uma visita à Amazônia para conhecer e valorizar seu patrimônio histórico, artístico, cultural ou ambiental não deve estar dissociada da compreensão do funcionamento do turismo nessa região: suas motivações e transformações.


O VALOR DA AMAZÔNIA

A Amazônia é um dos maiores patrimônios naturais do Brasil, aglomerando mais da metade das florestas tropicais do planeta. Foi eleita, em 2011, pela Fundação New7Wonders e de acordo com as recomendações do Panel of Experts da UNESCO, uma das Sete Novas Maravilhas da Natureza. Assim sendo, apesar da Amazônia contemplar 8 países, incluindo Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela, é para o Brasil que se dirige o maior número de turistas interessados em contemplar de perto os encantos e espetáculos de sua rica biodiversidade. É importante não confundir a Amazônia, enquanto bioma com a Amazônia Legal, uma lei que define politicamente os estados brasileiros (englobando a totalidade dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Estado do Maranhão) que pertencem à região e que podem incluir outros biomas, como é o caso de uma pequena porção de cerrado e do pantanal. O relevante aqui é que o conceito de Amazônia Legal, uma estratégia de integração para o desenvolvimento regional, tem impactos no turismo, conforme veremos mais adiante.

A Floresta Amazônica foi, por muito tempo, um destino que atraía, em sua maioria, olhares internacionais, motivados pela descoberta do exotismo amazônico, alimentado pela biodiversidade da flora e fauna, pelas tribos indígenas ou ainda pelos fenômenos naturais como o encontro dos Rios Negro e Solimões. A maior floresta brasileira apareceu como um novo espaço que poderia fazer parte dos circuitos turísticos mundiais e fez parte das estratégias de integração política nacional da década de 1970 para gerar investimento local quando o Estado brasileiro autoritário elaborou o Primeiro Plano de Turismo na Amazônia. No entanto, visitar a floresta e ter contato com as comunidades locais é algo que se tornou comum e acessível apenas mais recentemente.

Nesse primeiro contexto, foram disponibilizados recursos financeiros através da abertura de linhas de financiamento nacionais e internacionais para empresas e obras turísticas. A idealização da Amazônia como um produto turístico único no mundo tinha como ponto de partida o mercado europeu e norte-americano. No entanto, tal estratégia ficou restrita à lógica de polos e centros turísticos, os quais interligavam as “supostas atrações” (rio-fauna-flora) a uma infraestrutura (hotéis, agências bancárias, restaurantes, estradas, postos de gasolina, etc.) extremamente cara e que, além disso, evitava o contato entre turistas e populações residentes.

Foi assim que as capitais Manaus, Belém, Porto Velho, Boa Vista foram conectadas nesse projeto de integração pela via do turismo e, quando posteriormente, também a Zona Franca de Manaus se somou ao Projeto como fator de mobilização de empresas e pessoas para o consumo, por meio de vantagens fiscais que incentivaram a implantação de marcas internacionais, incentivando o turismo para a região.

Com exceção de alguns poucos aventureiros ou de brasileiros ricos e empresários, a maioria dos turistas locais nem cogitavam a ideia de passar alguns dias em meio à mata. A falta de estrutura dos hotéis mais simples e dos meios de transporte locais somados aos custos internos exorbitantes das passagens aéreas espantavam esses viajantes.

Atualmente tudo isso mudou e, está cada vez mais fácil e cômodo fazer um tipo de turismo mais econômico, sustentável na Amazônia e que valoriza as populações locais. A cada ano que passa, a estrutura de hotelaria na região é mais diversa, assim como a qualidade dos serviços.

Hoje, para quem vai a Amazônia para praticar turismo, provavelmente se hospedará em pousadas de selva que existem na região ou ainda buscará por alternativas como os barcos navegam pelo famoso Rio Negro e fornecem acomodação. Mas isso não quer dizer que ainda não haja um tipo de turismo que privilegie aqueles que podem pagar mais para ter acesso as “zonas mais privilegiadas”.

O maior incentivo ao turismo no Brasil se deu a partir dos anos 2000, com a criação e a implementação do Programa Nacional de Municipalização do Turismo - PNMT, estratégia por meio da qual muitos municípios passaram a vislumbrar no turismo uma alternativa para o desenvolvimento local, criando uma maior perspectiva em relação à atividade, especialmente com mobilizações e articulações que resultaram na elaboração de Conselhos de Turismo, Planos e Fundos Municipais de Turismo.


AMAZÔNIA LEGAL

O conceito de Amazônia Legal foi instituído pelo governo brasileiro como forma de planejar e promover o desenvolvimento social e econômico dos estados da região amazônica, que historicamente compartilham os mesmos desafios econômicos, políticos e sociais. . Essa campanha nasceu da necessidade do governo de planejar e promover a integração da região, inclusive no que diz respeito ao progresso do turismo. Nesse plano, a Amazônia Legal representou uma tentativa de hierarquização multiescalar dos lugares potenciais a serem visitados. A partir de uma lógica de polos e centros turísticos, um critério de avaliação subjetivo foi colocado em prática, permitindo assim definir a oferta turística amazônica seguindo um modelo centro - periférico. Foram primeiramente privilegiadas as cidades de Manaus, Santarém, Belém e São Luiz como polos turísticos. Com exceção da última capital, todas estas cidades são banhadas pelo rio Amazonas, representando assim a geografia turística das margens do rio Amazonas. A periferia da hierarquização turística ficou representada pelas capitais de Rio Branco, Boa Vista, Macapá, Cuiabá e Porto Velho, localizadas nas regiões de fronteiras, sejam elas com países vizinhos ou com os outros estados brasileiros.

Dentre os estados que fazem parte da Amazônia Legal, o Amazonas, de acordo com o Ministério do Turismo, “com uma área territorial de 1.559.161,682 quilômetros quadrados, é banhado pela bacia hidrográfica amazônica, e responde por aproximadamente 20% da água doce do planeta e se tornou recordista da maior cobertura vegetal tropical do planeta”.

“É exuberante em questões como manifestações de vida, desde a microscópica até a gigantesca, e vem ao longo dos anos revelando cada vez mais seu potencial para geração de riquezas por conta de suas diversidades naturais, e pelo contato direto que proporciona com a natureza, o atrativo que se destaca nos roteiros do Amazonas é o ecoturismo”. (Ministério do Turismo, Brasil, 2017).


MUDANÇAS NO TURISMO AMAZÔNICO: O ECOTURISMO E A PARTICIPAÇÃO DAS COMUNIDADES LOCAIS

O turismo ecológico é determinante para o desenvolvimento dos municípios do Amazonas. Como exemplo, podemos citar a cidade de Manaus que oferece aos turistas traslados em barcos por estreitos igarapés ou até grandes rios. Além disso, também há o interesse pelo contato com tribos indígenas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, por exemplo, onde existem seis comunidades que vivem em um santuário natural preservado e que abrem as portas para o visitante conhecer as belezas e cultura locais.


Os traslados na Amazônia são feitos na maioria das vezes em barcos. Foto: Luis Deltreehd via Pixabay.

Os programas regionais de desenvolvimento do turismo surgiram na metade da década de 1990, interior da política nacional de turismo do governo federal. Comparando-as ao restante do país, as políticas de turismo para a região amazônica distinguem-se das outras pela opção de turismo ligado ao cenário natural, popularmente denominado de ecoturismo. No caso da região amazônica, o turismo associado à natureza vem se tornando uma realidade com múltiplas vertentes: de hotéis de selva (FARIA, 2001), turismo em parques nacionais e turismo de base comunitária (SANSOLO, 2007).

O Programa Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT) representou um novo paradigma. Para a região com a descentralização do poder público e a participação da sociedade civil organizada (EMBRATUR,1999). O ecoturismo na região da Amazônia brasileira gera experiências diferentes para turistas e benefícios sociais, econômicos e ambientais para população das áreas visitadas.


A DIVERSIDADE DO TURISMO NA AMAZÔNIA NA ATUALIDADE

Por seu valor paisagístico, o Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - considera o Rio Negro um patrimônio nacional. Em destaque está o volume e a vazão dos dois rios - Negro e Solimões - no momento em que se encontram. Sua força e grandeza expressivas dão a este momento o título de maior encontro de águas do mundo, já que são mais de dez quilômetros do ponto de encontro até a diluição total das águas. Os primeiros 3 quilômetros são marcados por uma linha quase rígida onde, à margem esquerda estão as águas claras e barrentas do Solimões e a direita, as escuras e transparentes do Rio Negro.


Encontro das Águas dos Rio Negro e o Rio Solimões, Amazônia. Foto: idua_japan via VisualHunt.

Ademais, nos municípios de Presidente Figueiredo e Anavilhanas existem mais de cem cachoeiras, corredeiras e grutas, possibilitando a prática de diversos esportes. Em Presidente Figueiredo, pode-se realizar um passeio de barco onde é possível ver de perto santuários de papagaios, vilas ribeirinhas e redutos de macacos guaribas, durante o trajeto. Este mesmo percurso leva até o Parque Nacional de Anavilhanas um arquipélago com cerca de quatrocentas ilhas naturais.

Além do mais, um dos atrativos naturais mais conhecidos no Amazonas é a praia fluvial de Ponta Negra, às margens do rio Negro e que fica a treze km do centro de Manaus. Além de aproveitar os diversos bares e restaurantes, a praia oferece um calçadão que possibilita a prática da caminhada, corrida e esportes.


Vista da Praia de Ponta Negra, Manaus – AM. Foto: Alex Lanz via VisualHunt

Por outro lado, o Ministério da Cultura afirma que “o Amazonas conta com vida cultural intensa e características muito especiais, que se expressam na alegria do povo e nas raízes do folclore regional”. (Ministério do Turismo, Brasil, 2017). Este é o caso de Parintins, onde em junho, realizam-se os festejos do “Festival Folclórico em Parintins”, um dos maiores eventos de cultura popular do Brasil, com duração de 3 dias e que atrai turistas do país e do mundo inteiro.

Sem perder sua essência e dinamismo, os eventos ligados à tradição e cultura amazonense vem se renovando e se adaptando aos novos tempos de globalização. Por exemplo, a disputa entre os bois-bumbás Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul).

De acordo com Virgínia Barbosa, Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco, “os bois-bumbás de Parintins têm sua origem no Nordeste do Brasil, mas como a região amazônica recebeu muitos imigrantes nordestinos, com eles vieram suas manifestações culturais que foram incorporadas e adaptadas pela população nortista, inclusive com lendas, rituais, música e danças indígenas, além de figuras mitológicas como pajés e feiticeiros”. (BARBOSA, 2009)

Em outra vertente, há as atrações históricas. Durante a fase áurea da borracha, entre 1879 e 1912, a cidade de Manaus passou por um grande desenvolvimento econômico, social e cultural que até hoje pode ser observado. Entre as atrações turísticas mais visitadas estão o teatro Amazonas, inaugurado em 1896, símbolo da era de ouro da borracha e, atualmente, é a casa oficial da Orquestra Sinfônica do Estado do Amazonas e o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, tombado em 1987, e um dos exemplares de arquitetura de ferro sem similar em todo o mundo.


Mercado Municipal Adolpho Lisboa, Manaus - AM. Foto: Alex Lanz via Visualhunt.

Hoje, é um dos mais importantes centros de comercialização das diversidades regionais do Amazonas. Ainda se destacam o Centro Cultural Palácio Rio Negro, um dos mais célebres exemplares da arquitetura da Belle Époque amazonense, sede atual do governo e antiga residência de um dos barões da cultura borracheira e, o Centro Cultural dos Povos da Amazônia que oferece ao público uma das coleções mais importantes etnográficas do Brasil. A proposta do Centro Cultural é o relacionamento do homem amazônico com o meio ambiente o que influencia, propaga e diversifica a cultura nativa.

Além disso, tem-se o Museu da Amazônia. Criado em janeiro de 2009, o Musa é um museu vivo localizado na Reserva Florestal Adolpho Ducke, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, em Manaus. A Reserva Florestal Adolpho Ducke é uma das poucas florestas primárias em área urbana do mundo. O MUSA, como também é conhecido, oferece passeio guiado em mais de 3 quilômetros de trilhas em meio a árvores centenárias, atividades de contemplação da natureza e uma torre de observação.


Foto: Alex Lanz via VisualHunt.


DANOS DO TURISMO NA AMAZÔNIA

Há de se mencionar que, ao longo de todos esses anos, a construção dessa infraestrutura para o turismo na Amazônia não é isenta dos danos causados ao ambiente uma vez que, de alguma forma, descaracterizam a região. Os principais impactos já começam pela introdução dessa infraestrutura que mesmo feita com muito planejamento alterou o espaço natural e consequentemente o convívio animal.

Vale destacar que construções edificadas em áreas que não são urbanizadas, além de outras estruturas, representam um grande risco de desestabilização dos ecossistemas. Apesar da importância do crescimento para o turismo e outras áreas, esses empreendimentos quase sempre causam danos irreparáveis à natureza.

Dentre os principais problemas gerados a partir do ‘turismo ilegal’ ou ‘predatório’ estão: aumento da geração de resíduos sólidos devido ao aumento de pessoas circulando na região, considerável aumento da demanda de energia elétrica, maior tráfego de veículos, o que causa redução da qualidade do ar, alterações no estilo de vida das populações nativas. Além dessas consequências, há também o aumento sazonal de população (os veranistas), o que implica danos em algumas áreas, sobrecarrega a infraestrutura e também na convivência com a população nativa.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES DA BNCC
EM13CNT206, EM13CHS202, EM13CHS206, EM13CHS305, EM13CHS604