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Alfabetização: qual é a idade ideal para começar?
MARÇO 2018
 
 
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Saiba qual é a idade ideal e quais são os métodos utilizados para ensinar a ler e escrever.

Dominar a leitura e a escrita é um momento de profunda importância no desenvolvimento das crianças. No entanto, há certa discussão sobre o momento ideal para iniciar o processo de alfabetização, o qual corresponde a dominar o código alfabético e completar o processo de aquisição da escrita. Existe inclusive uma diferença etária entre países como Brasil, França e Reino Unido em função da complexidade ortográfica de cada língua (português, francês e inglês). No Brasil, nas escolas públicas e em boa parte das instituições de ensino privadas, a alfabetização começa aos seis anos de idade e, em razão da constituição da língua portuguesa, pode ser realizada no período de um ano.

Na França, segundo o doutor em educação João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, “crianças ainda apresentam dificuldades no processamento ortográfico até o fim do segundo [ano do fundamental]”. Oliveira afirma que nessa língua “uma palavra com o som ‘ô’ pode se escrever o, ô, ot, au, eau, eaux”. Essa semelhança produz certa dificuldade e, em razão disso, a alfabetização começa mais cedo. O mesmo ocorre no Reino Unido, onde as crianças iniciam o processo de alfabetização aos cinco anos de idade. No português, casos de semelhança sonora entre sílabas grafadas de forma diferente são mais raros, o que, segundo Oliveira, facilitaria o ensino.

Para o Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC), crianças de 4 e 6 anos completos até o dia 31 de março que vivem no Brasil devem estar todas matriculadas na pré-escola e no ensino fundamental, respectivamente. Em razão disso, o governo indica que todas as crianças que estão no primeiro ano do ensino fundamental, ou seja, aos seis anos de idade, devem iniciar o processo de alfabetização.

De acordo com o Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014, todas as crianças em escolas no Brasil devem ser alfabetizadas até, no máximo, o final do 3° ano do ensino fundamental. Também é importante frisar que alfabetização adequada não está necessariamente vinculada à alfabetização precoce. O ideal é estar atento às curiosidades de cada criança. Algumas começam a se interessar pelas letras e palavras mais cedo, porém, o importante é que, aos seis anos, o processo de alfabetização seja iniciado para as todas as crianças no Brasil.

O PNE surgiu para consolidar o direito a ler e escrever. Conforme a Unesco, “a alfabetização é um direito humano fundamental e a base para a aprendizagem ao longo da vida”. A instituição ligada à ONU acredita que a alfabetização é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento social e “um instrumento de capacitação para melhorar a saúde, a renda e o relacionamento com o mundo”. Apesar disso, o Brasil ainda convive com uma taxa de analfabetismo muito elevada – segundo dados de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente de 13 milhões de brasileiros não sabem ler e escrever. Somam-se a esse grupo os analfabetos funcionais, aquelas pessoas que reconhecem letras e números, ou seja, são tecnicamente alfabetizados, mas são incapazes de compreender textos simples.

Como o processo de alfabetização das crianças é importantíssimo em qualquer país, várias metodologias lutam para se tornar a predominante. Em função disso, as polêmicas sobre os métodos ideais para a alfabetização não se restringe ao Brasil, é um assunto global. Nos Estados Unidos, nos anos 1980, essa disputa chegou a ficar conhecida como taxada por “reading wars” (guerras de leitura). Em razão disso buscaremos esclarecer quais são os métodos mais difundidos e utilizados no processo de alfabetização das crianças brasileiras.


Métodos de alfabetização
Há dois grupos principais de métodos de alfabetização: o sintético e o analítico. Para muitos educadores, o importante é estar atento a todas as hipóteses e processos de alfabetização sem reduzir esse ato a apenas um método pedagógico.

Segundo a professora emérita da Faculdade de Educação (FAE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares, do ponto de vista cognitivo, quando a criança encontra-se em um estágio pré-silábico, ela ainda não se deu conta que a escrita é um registro dos sons das palavras. Ao ultrapassar esse estágio a criança ganha consciência fonológica ao perceber a cadeia sonora presente em cada palavra, isto é, as sílabas (consciência silábica). Em seguida vem a consciência fonêmica, que ocorre quando a criança compreende as diferenças representadas por cada letra e cada fonema.


Fazem parte do sintético os métodos:


1- Método alfabético e de soletração
É o método mais antigo. Atualmente, o famoso “bê a bá” é considerado superado pela maioria dos educadores. Esse método leva a criança a decorar as letras do alfabeto. Depois, em letras isoladas. Na sequência, elas aprendem a decorar todas as combinações silábicas possíveis para chegar finalmente às palavras.

A principal crítica a esse método reside na falta de sentido da recitação de sílabas e letras, as quais são cantadas ou repetidas fora de contexto.


2 - Método fônico
Conhecido como fônico ou fonético, esse método enfatiza a relação direta entre o som e a fala, isto é, entre o fonema e o grafema. É um método que surgiu como uma opção à soletração.

Nele, a criança aprende a identificar os segmentos de som (fonemas) que formam uma palavra. Portanto, o objetivo é apresentar para a criança a relação entre os sons que ela ouve e as letras utilizadas para representar esses mesmos sons. Portanto, é impossível negar que do ponto de vista cognitivo e linguístico, para aprender a ler é preciso estabelecer e entender a relação entre os sons e os grafemas (as letras).

O ensino vai dos sons mais fáceis para os mais complexos e deve sempre enfatizar a relação som/letra. Esse método começou a ser utilizado no Brasil por volta de 1880.


3 - Método silábico
Espécie de método fônico aprimorado. No método silábico, acredita-se que a consoante só pode ser dita quando apoiada a uma vogal, em razão disso, são as sílabas e não as letras as unidades linguísticas que devem ser utilizadas primeiramente no processo de alfabetização.

Fazem parte do grupo do método analítico ou global:


1 – Palavração
Nesse método a palavra é apresentada para um aluno ao lado de uma imagem. Por exemplo, a palavra “casa” será acompanhada de uma imagem de casa. Somente depois, a palavra é decomposta e mostrada em sílabas para o aluno.

2 – Sentenciação
Enfatiza a sentença, ou seja, a frase. Depois que ela é compreendida, o professor ou professora decompõe essa unidade em palavras e, por último, separa as palavras em sílabas. Assim, os alunos partem da compreensão da sentença, isto é, do enunciado em sentido completo, também conhecido por unidade mínima de comunicação, para chegar às palavras, às sílabas e finalmente às letras.

3 – Método global
Esse método parte do texto até chegar no fonema. Apresenta fábulas, historietas, poemas e contos, ou seja, textos com começo, meio e fim para as crianças primeiro. De certa forma, esse método reúno uma série de métodos analíticos, porém sempre com a intenção de ir do todo para as partes.

Letramento
Significa aprender a produzir textos. Busca ensinar a ler, compreender e ajustar o texto que está sendo escrito e para quem ele será dirigido. Portanto, é possível afirmar que toda criança se alfabetiza em um contexto de letramento, pois ele seria o aprendizado inicial da língua escrita.

Para a professora Magda Soares, criadora desse conceito, é importante, ao mesmo tempo, alfabetizar e letrar, ou seja, é preciso que a criança aprenda a ler e escrever em situações reais de escrita. Esse método visa desenvolver práticas de leitura e escrita.


Letra cursiva versus letra bastão
Resta ainda a polêmica entre o uso da letra bastão (também conhecida como letra de forma) e letra cursiva nos primeiros anos escolares. Muitos educadores acreditam que a letra cursiva é ineficaz e ultrapassada; outros, que nada supera lápis, papel e a agilidade adquirida com a prática da escrita com letra cursiva. Em um primeiro momento, a criança é alfabetizada com letra bastão. Em seguida, o ensino da letra cursiva é feito para garantir mais velocidade nas anotações.

Um dos principais argumentos dos críticos da letra cursiva reside na descrença de ela seria capaz de incrementar a cognição. Para a educadora Francisca Paulo Toledo Monteiro, “os japoneses não escrevem em letra cursiva e, nem por isso, deixaram de desenvolver a cognição. Existem muitas maneiras de desenvolver a cognição”.

Em alguns Estados norte-americanos, como Indiana, o ensino de letra cursiva está caminhando para desaparecer completamente. Antigamente, alunos eram obrigados a passar horas fazendo exercícios em cadernos de caligrafia. Hoje, com a introdução da letra bastão e a presença cada vez maior da tecnologia na vida das crianças essa necessidade tornou-se menor.

Há também educadores que defendem a tese de que a letra bastão aproxima mais a criança da relação entre as letras e os fonemas, o que não ocorre com a letra cursiva porque na maioria dos casos os textos que essas crianças acabam lendo é representada por letras bastão nos livros de alfabetização. Os mesmos críticos da letra cursiva também defendem que o ensino desse tipo de escrita torna ainda mais difícil o processo de alfabetização já que crianças, além de aprender o código da língua escrita, ou seja, a relação entre fonema e grafema, são também obrigadas a desenvolver habilidades motoras específicas para dominar a letra cursiva.

Os defensores da letra cursiva, por sua vez, acreditam que dominá-la ajuda os estudantes a tornar a escrita e a leitura mais fluentes, o que facilita a acompanhar e anotar os conteúdos. Para esses especialistas, a letra cursiva também oferece noções de espaço e melhora a coordenação motora.