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Avanços tecnológicos
OUTUBRO 2016
 
 
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Nanotecnologia é a ciência que planeja e desenvolve produtos e técnicas que utilizam partículas minúsculas, do tamanho de nanômetros.

O século 21 tem sido pródigo em inovações de natureza técnica, em especial, as representadas pela sigla NBIC, acrônimo em inglês para Nanotecnologia, Biotecnologia, Tecnologia da Informação e Ciência Cognitiva.

Os progressos alcançados por estas áreas do conhecimento e da técnica têm provocado dúvidas e inquietações e levado muitos a questionar: o que os futuros avanços tecnológicos nos reservam? Que desafios eles trazem em termos éticos e morais? Esses avanços serão benéficos para a humanidade?


Tecnologia: uma perspectiva histórica
Desde que o ser humano desenvolveu as primeiras técnicas agrícolas, ainda no chamado Período Neolítico, por volta do décimo milênio antes de Cristo, e deixou de vagar sob a forma de povos nômades, tornando-se capaz de produzir e estocar alimentos e estabelecendo os primeiros povoados fixos – embriões das futuras cidades –, a aplicação do conhecimento para fins práticos tem desempenhado um papel cada vez mais presente na vida cotidiana. Do desenvolvimento da pólvora, no século 13, à manipulação da energia nuclear, no século 20, passando pela invenção da imprensa, no século 15, e o motor a vapor, no século 18, a tecnologia tem refletido e moldado a vida de todos na Terra. Todos esses avanços tecnológicos foram fruto da interação da tecnologia com a sociedade e a cultura dos tempos em que aqueles avanços surgiram, isto é, o desenvolvimento de uma tecnologia – entendida como o modo como as coisas são produzidas ou obtidas – não é algo que se dá de forma neutra e desconectada do meio social e histórico em que surge.

A tecnologia e a história tem, de fato, moldado uma à outra de forma inextricável. Essa interação mostra que, ao contrário do que se costuma divulgar, a tecnologia não é algo inerte que seguiria apenas seu desenvolvimento lógico interno, destinada a produzir as maravilhas técnicas com as quais nos deleitamos – ou imaginamos nos deleitar – ou produzimos nossa vida material. Ela é moldada por fatores sociais e culturais e seu sucesso depende, em parte, da ação de indivíduos, grupos e organizações interessadas em que ela caminhe para um objetivo ou outro e, em parte, das limitações inescapáveis da realidade física.


Um ser humano melhor?
É justamente a “realidade física” que as tecnologias NBIC mais têm colocado em jogo. Os desenvolvimentos tecnológicos provocados pela revolução da microeletrônica, na segunda metade do século passado, levaram a possibilidades neste século que, até pouco, pareciam possíveis apenas em filmes de ficção científica. Entre elas, a modificação de partes do cérebro para aumentarmos nossa memória ou capacidade de raciocínio; a alteração da bioquímica do corpo para aumentarmos nossa resistência ao meio ambiente circundante; a mudança da aparência física a fim de nos tornarmos mais atraentes esteticamente e, o Santo Graal de muitos, o aumento da duração da vida.

Estudiosos desse fenômeno técnico-científico chegam a afirmar que estaríamos entrando em uma era trans-humana ou pós-humana. Afinal, como classificar um ser humano cujo cérebro, bioquímica, aparência e duração de vida foram modificados por meio da tecnologia? O que será “natural” e “artificial” em um corpo desse tipo?

Os defensores dessas possibilidades entendem que é razoável querermos ser “pessoas melhores”, isto é, pessoas mais capacitadas para os desafios que a vida traz, sejam eles de natureza biológica ou filosófica, mas será que essas tecnologias não apresentam dilemas de natureza ética que deveriam ser respondidos antes de embarcarmos em uma aventura tecnológica tão ousada?


Questões éticas
Se você chegasse ao topo do Monte Everest, no Nepal, o ponto mais alto da Terra, com seus 8.848 metros de altitude, com a ajuda de um helicóptero, que graça isso teria? Você teria realizado algum feito de valor? Ou teria apenas realizado uma atividade banal? Essa pergunta deriva de uma questão ética fundamental: a da relação entre meios e fins. Será que os fins justificam os meios ou existem meios que devemos evitar? Em outras palavras, não são apenas os fins que nós devemos justificar, mas também os meios utilizados para alcançar aqueles fins, pois o valor dos fins depende também do valor dos meios utilizados para obtê-los.

No exemplo dado acima, chegar ao topo da montanha mais alta do mundo não representaria um fim de grande valor se para alcançá-lo utilizássemos um “atalho” tecnológico como um helicóptero. Subir os milhares de metros que separam o alto do monte e o nível do mar apenas com roupas, botas e luvas adequadas para as baixas temperaturas e a neve que encontraríamos durante a escalada e alguns poucos equipamentos manuais como cordas e presilhas, no entanto, seria um feito de grande valor por conta do meio utilizado: apenas a nossa disposição, engenho e resistência físicas. Os avanços proporcionados pela tecnologia são, de certa forma, atalhos que utilizamos para vivermos mais e melhor. Os atalhos previstos pelas ciências NBIC, no entanto, produzem, além da questão ética relativa aos meios e fins, alguns outros dilemas éticos.

Imaginemos o seguinte quadro: na juventude, modificamos parte do nosso cérebro por meio de uma droga ou cirurgia que nos deixa mais inteligentes e com maior capacidade de armazenar dados e lembranças na memória. Na velhice, porém, aquela modificação é capaz de produzir uma grave deficiência que nos faz esquecer fatos relativos à memória recente. Durante muitos anos teríamos uma capacidade intelectual invejável. Nos últimos anos de nossa vida, no entanto, não nos lembraríamos do que teríamos feito no dia anterior. Depois dessa descoberta deveríamos continuar modificando os bebês para que fossem muito inteligentes e tivessem uma memória invejável durante boa parte de suas vidas?

Além disso, quem seriam os responsáveis por tomar essas decisões? Um governo local? Uma organização global? Quem teria acesso a essas tecnologias? Todos indistintamente ou apenas alguns poucos privilegiados que pudessem pagar por essas inovações tecnológicas?

Estaríamos “brincando de Deus”? Temos esse direito? Existe alguma característica essencial que nos define como seres humanos que deveríamos nos preocupar em preservar ao invés de alterá-la de modo artificial? Todas essas perguntas teriam de ser respondidas previamente para que pudéssemos tomar uma decisão a respeito da aplicabilidade de muitos dos avanços tecnológicos por vir.


Limites da tecnologia
A tecnologia, e seus contínuos avanços, nos ajudam diariamente a conduzir nossa vida de uma forma que nos permita alcançar mais objetivos com o menor esforço possível. Essa é uma grande utilidade da tecnologia, pois nossos recursos são limitados e deixaríamos de fazer muitas coisas se não pudéssemos utilizar meios tecnológicos relativamente simples como um elevador, por exemplo. Afinal, pouquíssimas pessoas morariam no décimo andar de um edifício residencial se fossem obrigadas a subir e descer as escadas todo dia, e não somente quando falta energia, por esse prédio não possuir elevadores.

O desenvolvimento tecnológico, no entanto, é limitado quer pela barreira imposta pela natureza física das partículas atômicas, a unidade fundamental da matéria, quer pela organização social dos povos e seus sistemas éticos e morais. Existem coisas que não teremos capacidade de produzir – é difícil imaginar o teletransporte de um série humano como algo mais do que uma fantasia produzida em filmes de ficção cientifica – e coisas que não teremos coragem de utilizar em larga escala, como a engenharia genética de fetos humanos.

Esses limites impõem, assim, a necessidade contínua de refletirmos sobre o porquê das novas invenções e desenvolvimentos tecnológicos e os objetivos que queremos alcançar por meio deles. Só assim saberemos, de fato, quais inventos e descobertas técnicas poderão ser caracterizadas como avanços no admirável mundo novo da tecnologia.


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