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Fungos: o que são, quais as doenças e tratamentos.
SETEMBRO 2016
 
 
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 A NOVA AMEAÇA?
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Muitos não sabem, mas os cogumelos são fungos também.

Cientistas e pesquisadores alertam que o uso em larga escala de fungicidas, isto é, substâncias utilizadas no combate a fungos na agricultura, pode estar levando ao desenvolvimento de resistência às drogas utilizadas no combate às doenças causadas por fungos e colocando em risco milhões de pessoas.

O alerta foi dado em agosto de 2016 por pesquisadores do Centro de Micologia Médica da Universidade de Aberdeen, na Escócia, recentemente aberto para estudar a crescente resistência aos fungicidas detectada por autoridades médicas britânicas nos últimos anos.


O que são fungos?
Fungos são organismos do reino Fungi com parede celular de quitina e que se nutrem por absorção. Os fungos existem em grande variedade na natureza e possuem as mais diferentes formas. Em geral, apresentam-se como microorganismos vivendo no solo, onde atuam como decompositores de matéria orgânica, e estão presentes em todos os ecossistemas. São mais conhecidos como mofo, designação genérica dada aos fungos que causam decomposição de pães, frutas e produtos vegetais.

Muitas pessoas não se dão conta, mas os cogumelos são fungos também. Além disso, embora muitos sejam agentes patogênicos, alguns fungos como a levedura e o fermento são utilizados na fermentação de bebidas, mais comumente, cervejas; e alimentos, em geral, queijos.


Doenças e tratamentos
A cada dia, uma pessoa aspira em média cerca de 100 aspergilos, um fungo filamentoso que produz uma substância tóxica de potencial cancerígeno, a aflatoxina. Em organismos saudáveis, o sistema imunológico se encarrega de eliminar esses fungos, mas em organismos debilitados por doenças prévias, eles podem se espalhar pelo corpo e invadir tecidos, a espinha e até o cérebro do doente. Essas infecções podem levar à morte do paciente. Calcula-se que um milhão de pessoas morram anualmente por infecções causadas por fungos, a metade delas no continente africano.

Uma outra fonte importante de doenças fúngicas são os criptococos, causadores da criptococose, doença que se caracteriza por abscessos nos pulmões, nos tecidos subcutâneos, nas juntas, no cérebro e nas meninges. Em sua forma mais aguda, pode provocar pneumonia grave e meningite e afetar o sistema nervoso central. Muitas vezes, o doente é curado, mas fica com seqüelas como perda de visão ou audição. Nem todas as enfermidades provocadas por fungos, no entanto, são tão graves assim. A grande maioria dos casos relaciona-se a doenças mais simples como alergias e micoses.

Uma das fontes mais comuns de doenças associadas aos fungos é o mofo, comumente presente em locais úmidos e escuros. O banheiro doméstico, por causa do vapor frequente dos banhos quentes, é um local propenso a desenvolver mofo. Esse mofo, se não for limpo do local poderá causar alergias respiratórias, asma, rinites e sinusites. Para evitar a proliferação de mofo, é importante deixar a luz solar entrar nas casas e permitir que elas sejam arejadas por meio de janelas ou portas abertas para que o vento circule durante algum período do dia nos ambientes internos das moradias.

Para combater as doenças causadas pelos fungos existem apenas quatro classes de medicamentos e ainda não se desenvolveu uma vacina contra doenças fúngicas.


A resistência aos antifungícos
Recentemente, médicos estadunidenses e europeus começaram a observar que os remédios comumente receitados para combater infecções fúngicas não apresentavam mais a mesma eficácia de algum tempo atrás. Intrigados com a observação, algumas hipóteses foram levantadas. A mais aceita, até o momento, é a de que fungicidas agrícolas e sua utilização em produtos como tintas e revestimentos utilizados em pinturas podem estar relacionados ao aumento da resistência de inúmeros fungos aos medicamentos até então utilizados com eficácia para combatê-los.

No Brasil, a pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Franqueline Reichert Lima alertou em 2014 que um importante antifúngico, o 5-flucitosina (5FC), não está disponível no Brasil. Segundo ela, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o 5FC seja utilizado em associação com a anfotericina B (AMB) no combate à criptococose.

O medicamento foi retirado da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), em 2006, sob a alegação de que seu uso de forma isolada pode levar ao desenvolvimento de resistência por parte do criptococos. Além disso, de acordo com a Vigilância Sanitária, responsável pelo controle do Rename, o 5FC causaria efeitos colaterais muito danosos e a substância poderia ser substituída facilmente por outro produto. A pesquisadora da Unicamp discorda e afirma que a literatura científica a respeito do combate ao criptococos não aponta para a solução indicada pelas autoridades brasileiras.


A busca de uma solução
Interessada em descobrir uma forma de combater o criptococos sem o uso do 5FC, Franqueline desenvolve pesquisas em busca de uma substância que possa substituir o remédio proibido pela Anvisa. Ela testou diferentes opções e combinações de medicamentos e substâncias e chegou à terbinafina, um antifúngico usado no combate às micoses de unha e de pele. Os resultados da associação da terbinafina com a AMB in vitro, isto é, fora do corpo humano, em tubos de ensaio de laboratórios, foram promissores, embora durante a pesquisa ela tenha percebido que a terbinafina parece não ser capaz de ultrapassar a chamada “barreira hematoencefálica”, responsável por filtrar o sangue que chega ao cérebro. Como o fungo pode afetar o sistema nervoso central, é fundamental que um possível substituto do 5FC seja capaz de ultrapassar essa barreira. Franqueline continua pesquisando alternativas nesse sentido.

Enquanto novas descobertas não surgem, é fundamental evitar a presença de fungos nas residências e locais de trabalho mantendo-os limpos e arejados e, de preferência com sol abundante em seus interiores.