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Dia do Exército, 19 de abril
ABRIL 2017
 
 
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 BATALHA DOS GUARARAPES
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No Brasil, o dia do Exército é comemorado em 19 de abril em homenagem à primeira batalha dos Guararapes ocorrida em 1648 nos montes Guararapes, localizado ao sul do Recife, no povoado de Prazeres, atualmente um bairro do município de Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife. Foi um conflito armado entre brasileiros e portugueses contra os holandeses, que invadiram o país por duas vezes. Houve ainda uma segunda batalha em Guararapes, em 18 de fevereiro de 1649.

As lutas travadas nos montes Guararapes determinaram o fim do domínio holandês no Nordeste brasileiro. Os holandeses foram derrotados nas duas batalhas (antes da primeira em Guararapes já haviam perdido o confronto na batalha das Tabocas), dando início à saída do território brasileiro.

A história das batalhas começou com a decisão da Holanda de invadir o Brasil. O objetivo era conquistar poder econômico, ao se apoderar da riqueza representada pelo açúcar e pau-brasil, e poder político, garantido e ampliado com as novas conquistas de terras, inicialmente no Nordeste brasileiro a partir de Recife, onde os holandeses se fixariam.

A decisão da Holanda foi o resultado dos sérios embaraços ao pleno desenvolvimento das atividades comerciais do país criados pelos monopólios comerciais exercidos pela Espanha e Portugal no século XVI. Para obter os instrumentos necessários que permitiram aos comerciantes holandeses desafiarem os dois reinos ibéricos, em 1621 criaram a Companhia das Índias Ocidentais. Coube a essa Companhia planejar e executar a invasão no Brasil.

O país foi escolhido após os holandeses analisarem a conjuntura internacional. Diante das informações obtidas, viram que o Brasil era uma área de grande expressão econômica (o açúcar era abundante e abastecia o mercado mundial), sem poderio militar que impedisse a entrada dos invasores.

Os holandeses invadiram o Brasil pela primeira vez em 1624, entrando pela Bahia. Mas foram expulsos em 30 de abril de 1625. A segunda invasão aconteceu em 1630 a partir de Pernambuco e só terminou em 1654 com a saída dos flamengos.

Em 12 de Junho de 1641 foi assinada uma trégua de dez anos entre Portugal e os Estados Gerais. O documento reconhecia tacitamente o direito de domínio da Holanda nos territórios conquistados no Brasil, África e Oriente, mas havia uma cláusula determinando que o tratado só entraria em vigor seis meses depois de ratificado pelos governos brasileiro e africano e, no Oriente, um ano depois.

Sem esperar pelo prazo, a Holanda usou as Companhias das Índias Orientais e Ocidentais, recém - criadas, para se apoderar de metade das terras da canela em Ceilão (hoje Sri Lanka); do norte do Brasil; de Luanda, Benguela e São Tomé, na África. Os portugueses instalados em solo brasileiro ficaram indignados com a atitude. A reação veio, primeiro, três anos depois, numa vitoriosa sublevação realizada em setembro de 1644 que recuperou o Ceará e o Maranhão. Uma nova luta ocorreu em maio de 1645, dessa vez com o objetivo de expulsar os holandeses do Recife.

Outro conflito travado entre os holandeses e os luso-brasileiros aconteceu em 3 de agosto de 1645, no monte das Tabocas, onde atualmente fica localizado o município de Vitória de Santo Antão, agreste de Pernambuco. A batalha das Tabocas terminou com a vitória dos portugueses do Brasil (comandados por João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros e Henrique Dias), tendo sido decisiva para a expulsão dos holandeses (comandados por Hendrick van Haus) nove anos depois.

O rei D. João IV de Portugal não queria uma guerra aberta com a Holanda porque temia ficar enfraquecido num momento em que a Espanha era seu grande problema. Isso fez com que agisse com cuidado. Discretamente, enviava alguns soldados e armas para os que lutavam contra o domínio holandês no Brasil. Mas a ajuda não era suficiente para conter os invasores, que no início de 1647 bloquearam a baía do Recife com uma armada de dezenove navios.

No fim do mesmo ano, o rei de Portugal compreendeu que a conquista da cidade pelos holandeses representaria o fim da presença portuguesa no Brasil e, conseqüentemente, da exploração das riquezas brasileiras, sem as quais Portugal não poderia continuar a guerra contra a Espanha. Numa decisão desesperada, Dom João enviou toda a armada portuguesa para a colônia.

Constituída por onze galeões, a armada era formada ainda por dez navios com cerca de dois mil soldados, comandadas pelo capitão-mor António Teles de Meneses. A armada portuguesa era mais fraca e qualitativamente inferior à armada holandesa que bloqueava a baía. Mas o medo dos holandeses beneficiou Portugal: ao serem informados de que uma grande armada portuguesa estava a caminho do Brasil para reconquistar a cidade, os governadores do Recife deram ordem a sua armada para regressar.

A primeira batalha dos Guararapes, ocorrida em 19 de Abril de 1648, foi notável feito militar do século XVII. Os exércitos locais eram compostos de 2.200 homens, divididos em quatro terços. Sem dispor de qualquer peça de artilharia, eram comandados pelos mestres-de-campo João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, pelo chefe dos índios, capitão-mor Filipe Camarão, e pelo governador dos pretos, Henrique Dias.

Os portugueses utilizaram a mesma técnica de combate testada nas guerras contra Espanha, no Alentejo. Os exércitos eram formados por terços de infantaria, constituídos de dois mil homens e subdivididos em companhias de duzentos homens cada uma, formadas por igual número de piqueiros (armados com um longo pique, espada, peitoral e celada) e arcabuzeiros (armados apenas do arcabuz ou espingarda de mecha com sua forquilha e uma adaga, sem qualquer armadura defensiva).

Enquanto que nas guerras na Europa esses exércitos marchavam em formação de grandes quadrados de cinquenta piqueiros em cada face, rodeados e flanqueados nos vértices por outros quadrados de arcabuzeiros, alternando assim as descargas de armas de fogo com as cargas de armas brancas, no Brasil essas táticas deram lugar à malícia e ao elemento surpresa, desenvolvidos pelos índios, e pela improvisação, respeitando a topografia e a vegetação do terreno. Além disso, havia a disposição dos combatentes e a inigualável técnica de utilizar a espada.

O governador das Armas Holandesas, Sigmund von Schkoppe (temido pela crueldade com que tratava seus adversários e pelo espírito de disciplina que impunha aos subordinados), saiu do Recife no dia 17 de abril de 1648 comandando um exército de 4.500 homens, divididos em sete regimentos, acrescidos de cerca de mil índios tapuias e negros carregadores. Numa outra versão, o exército era formado por 7.400 soldados, mais setecentos gastadores e negros. O objetivo era marchar em direção da Muribeca, povoação localizada entre o recém-criado Arraial Novo do Bom Jesus (hoje bairro dos Torrões) e a povoação de Nazaré do Cabo de Santo Agostinho, passando por Barreta (atual Boa Viagem).

Comandados pelos coronéis Johan van den Brincken, Guilherme de Hauthyn, Adolph van Els, Hendrick van Haus e Cornelis van der Brande, os batalhões dos exércitos holandeses no Brasil eram formados por quinhentos homens, divididos por fileiras de trezentos piqueiros e duzentos mosqueteiros, que se alternavam no desenvolvimento das batalhas.

As tropas invasoras se instalaram nos montes Guararapes, para onde o conselho de oficiais luso-brasileiros decidiu enviar um exército de 2.200 homens. Os soldados marcharam em busca das três colinas que se erguiam na margem do caminho onde as tropas holandesas teriam de passar para chegar a Muribeca ou ao cabo de Santo Agostinho. Mas trezentos homens foram escolhidos para ficar na guarnição do Arraial Novo, onde estava o conselho de oficiais. O exército chegou a Guararapes e se instalou numa planície ao pé do último monte, chamado de Outeiro, próximo de Muribeca. Escondidos entre a vegetação e o manguezal, com a finalidade de “não só reprimir o ímpeto do inimigo, mas ainda destruí-lo”, segundo relatos da época, os soldados deixavam para os holandeses apenas uma passagem de pouco mais de cem metros, entre o monte e um terreno alagadiço que o contornava. A estratégia foi fundamental para a vitória, no dia 19 de abril de 1648. A intuição e as decisões tomadas na batalha mostraram o avanço de mais de um século da estratégia militar luso-brasileira. Desde o início, os brasileiros foram sempre superiores aos holandeses, considerados uma das mais eficientes forças combatentes da Europa.

A vitória luso-brasileira reduziu a capacidade ofensiva terrestre e naval dos invasores. Era também o fim dos sonhos de lucro da Companhia, que viu fracassar a caríssima expedição que enviara a Pernambuco. No dia 20 de abril, Olinda foi reconquistada e os exércitos foram reforçados com as armas capturadas com o inimigo. Os soldados conseguiram também diminuir as incursões da esquadra holandesa no litoral. A conquista militar repercutiu em Portugal e os brasileiros passaram a ser mais admirados, respeitados e ajudados. Nas duas batalhas dos Guararapes se conseguiu restabelecer a unidade nacional do país. Mas as influências e marcas deixadas pelos holandeses estão até hoje gravadas no litoral pernambucano.