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Vacinação, a importância da informação
AGOSTO 2018
 
 
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 A IMPORTÂNCIA DA INFORMAÇÃO
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As vacinas são feitas a partir de algum micro-organismo, chamado de "antígeno". Foto: Rafe Swan/AFP Photo.

Hoje em dia, as vacinas são tidas como algo que faz parte dos cuidados com nossa saúde e a de nossos filhos. Existem campanhas e calendários de vacinação pré-estabelecidos que normalmente seguimos sem grandes conhecimentos ou questionamentos. Mas seria mais interessante se, além de seguir as orientações quanto a esse procedimento, nós também estivéssemos mais por dentro sobre sua importância, efeitos e necessidades.

Muitas vezes, nem mesmo os profissionais de saúde se informam de forma aprofundada sobre o tratamento que estão dispensando, e o foco acaba sendo em seguir protocolos, campanhas e metas de número de aplicações.


Como funcionam as vacinas
As vacinas são feitas a partir de algum micro-organismo, que é chamado de "antígeno" e que é introduzido no corpo humano a fim de fazê-lo produzir anticorpos e induzir uma resposta do sistema imunológico, protegendo-o, assim, da doença causada por este micro-organismo. Isso acontece porque o corpo reconhece que foi atingido por uma substância estranha e trabalha para metabolizá-la, neutralizá-la ou eliminá-la.

O benefício se dá porque, no caso de infecção por algum vírus, a cura significa também que o organismo adquiriu imunidade a ele. Dessa forma, o processo de vacinação tenta reproduzir esse efeito de imunização sem, no entanto, fazer com que o organismo passe pelo estresse da doença, que, em alguns casos, pode ser fatal.

Existe um efeito esperado da vacina, mas cada corpo tem sua forma particular de reagir a ela. Por isso algumas pessoas têm reações mais severas do que outras.


A origem da vacina
O britânico Edward Jenner (1749-1823) é considerado precursor da vacina, por ter observado, no fim do século 18, que pessoas que eram imunes à varíola em geral trabalhavam com a ordenha de vacas e já haviam se contaminado com a varíola do gado, que apresentava como sintoma a formação de pústulas, mas não levava à morte. Portanto, quando essas pessoas entravam em contato com o vírus da varíola que contaminava e não raro matava seres humanos, seus corpos já sabiam como reagir à doença e suas reações eram mais suaves. Dessa forma, em 1800, a varíola foi alvo da primeira vacina, e a doença foi erradicada em todo o planeta em 1980.

No Brasil, um nome importante para a implantação das vacinas é o do médico Oswaldo Cruz (1872-1917), que, nomeado diretor-geral da Saúde Pública, em 1903, coordenou campanhas de erradicação da febre amarela e da varíola no Rio de Janeiro. Sua iniciativa de tornar a vacina obrigatória no ano seguinte foi responsável pela chamada Revolta da Vacina, em que pessoas se recusavam a acatar a ordem, considerada nociva e invasiva.


Cuidados constantes
Por meio das vacinas, foi possível ajudar a controlar e até a erradicar doenças que afetavam uma grande quantidade de pessoas de diversas comunidades.

Muitas vezes, porém, apesar de uma doença ter sido erradicada em uma localidade, a vacina continua a ser administrada de forma preventiva. O Brasil, por exemplo, não apresenta casos de poliomielite desde 1989, mas mantém a vacinação, uma vez que, apesar de a doença já ter sido erradicada nas Américas, na Europa e na Oceania, ainda existem casos na África e na Ásia. Já o sarampo, a difteria e a rubéola foram controladas, mas ainda ocorrem em pequeno número.

Um caso que chamou a atenção foi o do sarampo na Europa. Em 1998, foi publicado, no Reino Unido, um estudo que afirmava que a vacina tríplice viral seria causadora de autismo. Diante disso, muitos pais decidiram não vacinar seus filhos, o que fez com que os casos de sarampo aumentassem significativamente. A tese não foi comprovada depois de vários outros estudos e testes e, inclusive, descobriu-se que havia sido encomendada para atender a interesses privados. Resultado: em 2011, a Europa tinha 30 mil casos de sarampo, enquanto as Américas apresentavam 1.300, sendo apenas 40 no Brasil.

Por isso, considera-se que a vacinação protege não só a pessoa como também a comunidade a que ela pertence, acarretando o chamado “efeito rebanho”. E, no mundo globalizado, os riscos e benefícios se estendem também a outros países. Quanto mais pessoas estiverem vacinadas, menos chances existirão de que um indivíduo contraia uma determinada doença e possa contaminar outros indivíduos. Além disso, crianças que frequentam escolinhas, por exemplo, acabam por receber os efeitos das vacinas de seus companheiros por meio de contatos por brinquedos, mão na boca, tosse e espirro.


Brasil
No Brasil, em 1973, o Ministério da Saúde criou o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que é reconhecido mundialmente por sua qualidade e por sua grande oferta de vacinas à população. Esta oferta, na década de 2010, chegou a 42 tipos de imunobiológicos usados para prevenção ou tratamento de doenças, entre os quais estão 25 vacinas, que, em sua grande maioria, são produzidas em território nacional.

O Ministério da Saúde realiza três campanhas fixas de vacinação por ano: uma contra a poliomielite, outra contra influenza e outra de atualização da caderneta. Estas campanhas são muito bem-sucedidas, chegando a contemplar quase 100% da população brasileira. Entre os sucessos alcançados estão a eliminação da circulação do vírus autóctone do sarampo, em 2000, e o da rubéola, em 2009.


Público-alvo
A maior parte das vacinas é ministrada em crianças, mas muitas ainda podem e devem ser ministradas em adultos. Tétano e difteria, por exemplo, precisam de reforço a cada dez anos. Outras vacinas, como a tríplice viral, que combate sarampo, caxumba e rubéola, ou as de hepatite A e B, ainda podem ser aplicadas em adultos, seja como reforço ou como primeira imunização.

Para as gestantes, existem vacinas que são recomendadas porque a contaminação pelas doenças que combatem poderia representar riscos ao bebê. Para elas, recomendam-se vacinas inativadas, como as de hepatite B, tríplice bacteriana acelular (difteria, tétano e coqueluche) e influenza. Idosos, por sua vez, precisam se proteger contra a gripe, a pneumonia e o tétano; e profissionais de saúde, assim como pessoas que viajam muito, também devem dar uma atenção especial às suas necessidades de vacinação por estarem mais expostos a riscos.


Críticas
Mas nem tudo são flores em relação às vacinas. Existem profissionais que se posicionam contrários ao sistema de vacinação e há até um movimento de pais antivacina, que é mais forte nos Estados Unidos. Os pais que questionam as vacinas se pautam por motivos religiosos, filosóficos ou até mesmo de saúde, perguntando se a prática não provocaria alergias e até mesmo doenças. Para estes, a relação custo-benefício das vacinas não as justifica, já que não existe medicamento que seja 100% seguro em todas as pessoas. Como cada organismo reage de um jeito à vacinação, alguns pais se sentem inseguros quanto a suas aplicações. Ao passo em que muitas doenças foram erradicadas, o número de doenças alérgicas vem aumentando. E há quem relacione isso a um excesso de vacinas.

Um dos questionamentos que se faz é o de que teria se desenvolvido uma indústria da vacina, com toda uma dinâmica que favorece os fabricantes, que, em geral, monopolizam o mercado sem grandes regulamentações. Embora sejam utilizados recursos tecnológicos de alto nível na elaboração de vacinas e que esta elaboração seja fiscalizada e tenha um alto padrão de segurança, não existe fiscalização para o seu mercado. Assim, um dos recursos utilizados para gerar lucro, por exemplo, seria o de aumentar o número oficial de doses necessárias para a imunização, o que muitos perguntam se de fato acontece.


Vacina contra o HPV
Um dos maiores alvos de crítica é a vacina contra o papilomavírus humano (HPV) em meninas pré-adolescentes, que já era comercializada desde 2006, mas que foi disponibilizada gratuitamente pelo Ministério da Saúde a partir de 2014 no Brasil.

Este vírus é o principal responsável pelo câncer de colo de útero, o segundo mais comum nas brasileiras, depois do câncer de mama. O HPV, que engloba mais de cem tipos diferenciados de vírus, é uma doença sexualmente transmissível (DST), embora esta não seja a única via de transmissão. É possível contraí-lo também por contato com a pele ou mucosa infectadas e até mesmo de mãe para filho durante o parto.

A precocidade determinada para a vacina, que engloba quatro tipos do HPV, nas garotas foi determinada principalmente porque acredita-se que, nesta idade, elas ainda não tenham dado início à sua vida sexual, o que amplia muito a possibilidade de imunização, uma vez que mulheres com vida sexual ativa muito provavelmente já entraram em contato com alguma forma do vírus, contando com o trabalho de defesa de seu próprio sistema imunológico. Fora isso, as meninas mais jovens produzem uma quantidade significativamente maior de anticorpos, o que ajudaria no processo. Após cinco anos, no entanto, é necessário um reforço.

Depois de sua introdução, alguns pais relataram graves problemas de saúde em suas filhas e até casos de morte. Além disso, há profissionais que afirmam que há poucas evidências científicas sobre sua eficácia e que há a suspeita de que a vacina aumente a incidência de outras doenças, como o diabetes tipo 1, por exemplo.


Ponderação
Os defensores da vacina, entretanto, alegam que não há dados suficientes para associar estas ocorrências à sua aplicação. Ademais, os críticos do movimento antivacina alegam que, ao deixar de vacinar um filho, os pais não só o estão negando um direito básico como estão colocando em risco a saúde de todos os que convivem com ele.

Um recurso para amenizar e observar melhor os efeitos é o da monovacinação, ou seja, a aplicação de uma vacina por vez. Assim, o organismo não é sobrecarregado e ainda é possível perceber como reagiu a cada uma especificamente. Outra medida importante é não vacinar a criança em caso de doença aguda ou crise alérgica. Portanto, é possível ser cauteloso em relação às vacinas sem abrir mão de seus benefícios. E as maiores armas são a informação e a atenção.


Para saber mais:
Oswaldo Cruz