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São Paulo: uma reflexão sobre suas faces
JANEIRO 2020
 
 
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 SÃO PAULO
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A Avenida Paulista, entre os bairros dos Jardins e a Bela Vista

No século XIX, no ano de 1898, um inglês chamado Ebenezer Howard publicou um livreto em que expunha ideias a respeito do crescimento desordenado da Londres de seu tempo. Com as chaminés da Revolução Industrial a todo vapor, a capital inglesa era a única cidade do mundo com mais de cinco milhões de moradores. O pré-urbanista inglês previa que o crescimento pelo qual a cidade passava causaria efeito somente negativo, e sonhava com “cidades-jardins”, menores e autônomas. Ao pensarmos a respeito do crescimento das cidades contemporâneas, trata-se somente de realismo a constatação de que as cidades-jardins de Howard jamais aconteceram. O crescimento desordenado da maior cidade do Brasil, São Paulo, é uma prova.

UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA
São Paulo completa 466 anos no dia 25 de janeiro. Maior cidade da América Latina, também são grandes os problemas que enfrenta. A cidade abriga hoje mais de 11 milhões de habitantes (CENSO 2011), e é a oitava cidade mais populosa do mundo. Surgiu a partir da fundação da Vila de Santo André da Borda do Campo, em 1553. O clima, mais frio do que aquele da região litorânea, fez com que os colonizadores portugueses se sentissem mais “em casa”. Além disso, a região era geograficamente bem protegida, pois ficava em uma colina cercada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Isso era importante devido à possibilidade de ataques de tribos indígenas mais violentas. Foi nesse local que os padres da Companhia de Jesus, entre os quais estava José de Anchieta (1534-1597), fundaram o Colégio dos Jesuítas, ao redor do qual se formou o povoado de São Paulo de Piratininga. Foi apenas em 1681 que o povoado se tornou o principal centro da Capitania de São Paulo, tornando-se oficialmente uma cidade trinta anos depois.

Não foi, desde o começo, um centro urbano relevante para um país que historicamente havia sido administrado de regiões costeiras, como Salvador (BA), ou o Rio de Janeiro, sede do governo imperial e depois capital da República. Em 1876, a população de São Paulo era de 30 mil habitantes. Foi de fato o café que impulsionou primeiramente a cidade. Então, em duas décadas já eram 130 mil habitantes. Na virada do século, a vocação da cidade para concentrar negócios já era evidente. Com seu crescimento, obras arquitetônicas que se tornariam símbolos surgiram. O Viaduto do Chá é de 1892. A Estação da Luz, 1901, e o Theatro Municipal, 1898. Pode-se dizer que a exploração do café, no fim do século XIX, desencadeou o crescimento vertiginoso que a cidade passaria a ter a partir de então. Estradas eram abertas, imigrantes chegavam, e a cidade crescia – tudo isso sem planejamento. Em apenas cinco anos, de 1895 para 1900, a população de São Paulo quase duplicou. A cidade passou a ser cenário de grande crescimento industrial, tecnológico e cultural. Foi nessa cidade que, em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, realizada no Theatro Municipal, que havia sido construído alguns anos antes com projeto do arquiteto Ramos de Azevedo (1851-1928). Em 1934 foi inaugurada a Universidade de São Paulo (USP), uma das instituições de ensino universitário mais respeitadas do país (vale a ressalva de que o campus do Butantã surgiu apenas na década de 1950). Ao mesmo tempo, a cidade passou a crescer em direção à periferia. Na década de 1950, o parque industrial de São Paulo começava a ser transferido para as cidades do entorno, que foram engolidas, formando a Região Metropolitana. Mais uma vez, não houve cuidado com o planejamento urbano.

A industrialização crescente e as guerras europeias da primeira metade do séc. XX trouxeram para o Brasil grande contingente de imigrantes de lá e do Japão. Como reflexo, a cidade se transformou também culturalmente. Entre 1870 e 1939 (ano em que começou a Segunda Guerra Mundial), 2,4 milhões de imigrantes entraram só no estado de São Paulo. Diversos bairros da cidade ganharam uma nova personalidade, por assim dizer, ao absorver as características culturais de seus novos moradores. Só com essa transformação poderiam ter nascido as cantinas italianas, ou o sotaque do bairro da Mooca; o comércio de tecidos do Bom Retiro; as diversas lojas e restaurantes orientais típicos da Liberdade, além do comércio da região da rua 25 de Março, que à época era ponto de venda dos comerciantes libaneses.


“A VIA QUE CONDUZIRÁ SÃO PAULO AO SEU GRANDE DESTINO”
A Alameda Joaquim Eugênio de Lima é uma das diversas alamedas perpendiculares à Avenida Paulista. Lima foi o engenheiro uruguaio que projetou a Paulista, e dono da profética frase acima. Transformada em um dos mais importantes centros financeiros e culturais do Brasil, tratava-se de um endereço residencial em sua jovem vida. No início do século XX, os barões do café iniciavam um processo de migração do interior do estado para a capital. Nos últimos anos do século XIX, era uma via com bondes e carruagens, ao longo de sua extensão de quase 3 km, com suas duas mãos divididas pelo jardim ao estilo de avenidas de capitais europeias. Em 1909 era a primeira via pública asfaltada do estado de São Paulo. O visual da avenida passou a mudar em 1916, quando surgiu o Parque Trianon. À sua frente, ficava um mirante que deu lugar ao Museu de Arte de São Paulo, o Masp, em 1950. Restou da ideia original o vão livre, de onde, em uma São Paulo de meados do século XX, ainda era possível ver grande parte do centro da metrópole, como o Vale do Anhangabaú e as construções adjacentes. Nesse momento passou-se a permitir a verticalização de edifícios na avenida, o que propiciou o início do fim dos casarões.



URBANISMO E PLANEJAMENTO
Não é difícil constatar que o projeto urbano em São Paulo é inexistente. Resulta do caos e da falta de planejamento. Nos bairros mais ricos, a cidade é um amontoado de estilos e de grades, portões, guaritas, segurança, cães. Uma espécie de cidade-forte. Fechada como se estivesse pronta para lutar contra uma invasão inimiga. Nos bairros pobres, o que se vê é a total falta de planejamento e, muitas vezes, a falta de elementos básicos como água encanada, esgoto, rua asfaltada e energia elétrica. Segundo o arquiteto Isay Weinfeld, quando se estuda “um quarteirão da cidade, você vê uns 80 tipos de vaso. Cada um combina com o prédio. A guarita parece um filhinho do prédio, é a cara da mãe. Não há um espírito público. Tudo tem a cara da pessoa que, com o passar do tempo, se fechou, por causa da violência, em casa”.

Portanto, nos bairros de classe média e nos bairros ricos, São Paulo se tornou um gigantesco bunker – espécie de fortificação militar. Historicamente, São Paulo já nasceu bunker. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), a fundação, quatrocentos anos atrás, de um:

“povoado de portugueses apartado doze léguas do litoral atlântico, em sertão quase ínvio – só acessível através de ásperas veredas, que até ao século passado seriam o tormento ou o espantalho dos viajantes – sugere problemas que transcendem o alcance de uma simples história regional. Em parte alguma das suas conquistas, certamente em lugar algum do Brasil, tinham os lusitanos formado um assento urbano tão longe da costa marítima ou dos rios navegáveis. O princípio que, expresso ou não, governa por essa época toda a sua expansão ultramarina, manda que as regiões de terra adentro não se povoem antes de assegurado o povoamento, a defesa e a posse da marinha. O contrário seria desampararem-se, com funesto efeito, às mesmas conquistas, sobretudo se em sítios infestados de inimigos e corsários.”


Saúde
Para o professor titular de pneumologia da Faculdade de Medicina da USP e chefe do Serviço de Pneumologia do Instituto do Coração e do Hospital das Clínicas, Francisco Vargas, o simples “ato de respirar em uma cidade como São Paulo tem implicações potencialmente catastróficas, pois a concentração de partículas de monóxido de carbono (carros mal regulados), a quantidade de fumaça (especialmente do cigarro), o número de ácaros e fungos (predominando no inverno, pelo ar frio e seco) podem desencadear moléstias cardiorrespiratórias em significativa parcela da nossa população”. Apesar disso, a cidade possui diversos hospitais modernos, bem como o Hospital das Clínicas da USP, a maior unidade de saúde da América Latina – trata-se de um centro de referência em ortopedia e traumatologia com equipes nas diversas especialidades como: joelho, quadril, pé, mão, coluna, paralisia cerebral, tumores ósseos e reimplantes de membros e próteses. Bem próximo, na Avenida Doutor Arnaldo, fica o ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), que oferece tratamento também gratuito, além de funcionar como centro de pesquisa e estudo clínico na área de Oncologia. Foi inaugurado em 2008, após um investimento de 270 milhões de reais em obras e equipamentos.

Diversão e arte
São Paulo é uma cidade cheia de surpresas. O morador pode se deliciar no mar de restaurantes da cidade, cerca de dez mil, ou participar de algum dos vários eventos que acontecem na metrópole. São aproximadamente setenta mil por ano, como a Mostra Internacional de Cinema, o Grande Prêmio de Fórmula 1, que acontece no autódromo de Interlagos, a São Paulo Fashion Week, a exposição de arquitetura e decoração Casa Cor, a Virada Cultural (maior evento de rua da cidade), ou as diversas bienais como a Bienal do Livro e a Bienal de Arte.

Aqueles que se interessam por museus também têm um vasto hall de opções. A colcha de retalhos oferece pontos de beleza arquitetural ou cultural, como o Museu do Ipiranga, o parque do Ibirapuera, o Terraço Itália, inúmeros teatros com programação incessante, como na efervescente praça Roosevelt (são cerca de 600 peças de teatro por ano, na cidade), e museus como o MAM, dentro do Ibirapuera, ou a Pinacoteca do Estado ou o Museu da Língua Portuguesa, instalado ao lado da Estação da Luz. Um passeio pelo centro da cidade reserva surpresas como, por exemplo, o Mosteiro de São Bento. De lá é possível ir a pé até a rua Álvares Penteado, onde está o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil). O prédio é de 1901 e foi restaurado para se tornar um centro cultural. Lá é possível ver mostras de cinema, teatro, exposições de arte e de fotografia. O abismo social em São Paulo é gritante, inegável.


Qualquer morador de São Paulo dirá que sim, trata-se de uma grande confusão que nem sempre funciona conforme o desejado. Mas o mesmo morador provavelmente concordará que as opções que a cidade oferece fazem dela uma das capitais mais vibrantes do mundo, e que desperta cada vez mais a atenção dos estrangeiros – não somente aqueles que vêm a negócio. Em 2010 foram 11,7 milhões de estrangeiros na cidade.


Uma espécie de reviravolta para grandes centros urbanos
Estudos econômicos recentes apontam que o sucesso para a sustentabilidade e as boas condições de vida da população não está em um “retorno para o campo”, ou a pulverização de centros urbanos menores. Pessoas mais próximas conseguem economizar dinheiro porque não precisam de tanto transporte ou mais pessoas para trabalhar, e dá-se mais valor à circulação de ideias. O economista Edward Glaeser, da Universidade de Harvard, mostra um bom exemplo de ambiente urbano vibrante, como apresentou a revista National Geographic Brasil, em edição de dezembro de 2011.

A ideia de Glaeser é exemplificada pela bolsa de valores de Nova Iorque. Operadores milionários trabalham em ambientes abertos, que favorecem a troca de informações. É mais vantajoso estar naquela suposta bagunça do que permanecer em escritórios isolados – ou seja, o conhecimento é mais valioso do que o espaço. Segundo Glaeser “as cidades bem-sucedidas ‘aumentam a recompensa aos inteligentes’, ao permitir que as pessoas aprendam umas com as outras. Nas cidades em que a população é mais instruída, até os menos letrados ganham melhor”. Outro pensador apresentado pela revista, David Owen, explica que moradores de cidades têm “um impacto relativo mais reduzido”: nas cidades, as vias pavimentadas, os esgotos e as linhas de transmissão elétrica são menos extensos e, portanto, demandam menos recursos. Prédios de apartamentos requerem menos energia para ser aquecidos e iluminados do que casas isoladas. Nas cidades, as pessoas usam menos os carros. Parte de seus deslocamentos pode ser feita a pé, e há uma quantidade de pessoas que frequentam os mesmos lugares, o suficiente para viabilizar transportes coletivos. Enquanto Londres crescia, nos séculos XIX e XX, foram preservados parques de fauna e flora nativa – que impediram um crescimento ainda mais desenfreado (de certa forma, Ebenezer Howard estava certo). Todavia, a malha metroviária e ferroviária é uma verdadeira teia de aranha, que cobre toda a cidade, fazendo de seus mapas uma espécie de labirinto funcional.


Silvio Santos
Foto: Joelfotos /Pixabay


Para saber mais:
www.prefeitura.sp.gov.br

viajeaqui.abril.com.br/

www.visitesaopaulo.com