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Cidades olímpicas, o que acontece quando terminam os jogos?
JULHO 2016
 
 
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 OS BENEFÍCIOS, NA TEORIA
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Obter o direito de hospedar os Jogos Olímpicos é amplamente reconhecido entre importantes cidades do mundo como um dos prêmios mais valiosos na interminável competição. Sediar uma Olimpíada pode trazer prestígio e investimentos. A ambição dos projetos é notada, principalmente, quando se trata de regeneração urbana e reformulação da imagem que as cidades candidatas pretendem passar, sem deixar de levar em conta os custos humanos e financeiros envolvidos. Hospedar as Olimpíadas é muito caro, mas qualquer sede pode esperar consideráveis injeções de fundos a partir da venda de ingressos, patrocinadores, merchandising e direitos de transmissão. As equipes que trabalham nas candidaturas também podem prever um boom de construções e de turismo, além de um aumento do crescimento de empregos a curto prazo. Outros benefícios esperados são o aumento da economia urbana e reposição da cidade no mercado mundial do turismo, bem como serviços não diretamente ligados aos Jogos Olímpicos, como o transporte público e infraestrutura de serviços.

Tempos ingênuos
Os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna podiam ser classificados como pequenos festivais. Eles utilizavam instalações já existentes e instalações temporárias. Em 1896, os primeiros jogos modernos em Atenas, na Grécia, foram assim. As festividades de Paris, em 1900 ou de St. Louis, em 1904, eram na verdade apenas parte de eventos maiores naqueles tempos, como as feiras internacionais. A partir das Olimpíadas de Londres, ocorrida em 1908, os jogos passaram a ter estádios construídos principalmente para abrigá-los – como foi o caso do White City Stadium. Em 1924, para os jogos de Paris, surgiu o processo de construção de vilas olímpicas para abrigar jogadores e delegações dos países envolvidos. Mas ainda, os estudos registram que os efeitos no tecido urbano das cidades ainda eram pequenos. As Olimpíadas ainda não eram vistas como investimento ou negócio. Até mesmo os jogos em Berlim, em 1936, em uma Alemanha prestes a adentrar na Segunda Guerra, não foram tão impactantes, apesar da criação do Reichssportfeld, um complexo esportivo que naquele momento era o maior do mundo.

Somente em Roma, no ano de 1960, após a austeridade pós-Guerra, que o potencial das Olimpíadas como agente transformador urbano foi alcançado. O evento passou a representar uma possibilidade de reformulação de infraestrutura das cidades que o sediavam. A partir dos anos de 1980, com os Jogos de Los Angeles (1984) e Seoul (1988), esse viés ganhou ainda mais força. E uma análise de Jogos mais recentes pode trazer a noção mais aproximada do que as Olimpíadas podem levar a uma sede, do melhor ao pior.


As Cidades após as Olimpíadas nos Tempos Atuais
Os Jogos de Pequim, em 2008, deram à cidade o Cubo D’Água, exuberante instalação para os esportes aquáticos, que após os jogos transformou-se em um parque subutilizado. O Estádio Olímpico de Beijing, o Ninho do Pássaro, custou cerca de R$765 milhões, mas encontra-se sem destino certo, após os jogos. É um lugar que recebe jogos amistosos, shows de música e afins, e no inverno é transformado em um parque de neve, pouco popular entre turistas e habitantes. O legado dos Jogos Olímpicos para uma cidade pode ser uma chance de transformação que muitas vezes se torna um peso que os cidadãos arrastam ao pagar pesados impostos.

Atenas, capital grega e lar histórico dos Jogos Olímpicos, era candidata e sofreu quando a cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, foi escolhida para sediar a edição de 1996. A capital grega acabaria escolhida para sediar os jogos de 2004. O retorno das Olimpíadas ao solo grego era pressão certa sobre os organizadores. Esperava-se que fossem jogos que ficassem na história, e realmente ficaram, só que da maneira errada. Quatro anos após o encerramento dos jogos, 21 das 22 construções dos jogos já estavam abandonadas, como o complexo Faliron ou as piscinas olímpicas – e contribuintes ainda pagariam as contas dos Jogos por anos.

Em matéria ao jornal inglês The Guardian, Fani Palli-Petralia, ex-ministra grega do emprego e previdência social, comenta: “Não encontramos um plano para o desenvolvimento pós-olímpico para as instalações – quando uma cidade recebe os jogos, precisa de um plano para grandes mudanças, então decide-se o que o país precisa para os dias depois dos jogos. Aqui, isso não aconteceu”. O governo grego, que hoje sofre drasticamente com diversos problemas de ordem econômica, após suas Olimpíadas, havia declarado que tinha planos de vender as instalações. Isso não aconteceu. A questão olímpica tornou-se um sintoma, mas também mais um capítulo da crise e da dívida grega. Houve sim melhorias duradouras, como a construção de seu sistema de metrô, que fez surgir antigas ruínas subterrâneas. Mas Atenas é um exemplo a não ser seguido.

Sobre os jogos de Sydney, na Austrália de 2000, pode-se dizer que a história foi diferente. A cidade teve um dos melhores e mais bem organizados jogos entre as últimas edições. Mas o sucesso do evento em si não vingou para a cidade. O governo de New South Wales, estado onde fica a cidade, teve um resultado financeiro negativo de mais de 2 bilhões de reais. O Parque dos Jogos, centro dos jogos da cidade, corria o risco de tornar-se outro “elefante branco”. Assim como na Grécia, não houve planejamento, mas um plano de transformação tomou palco a partir de 2005, e o Parque Olímpico pôde renascer como um subúrbio habitacional. Quando o Comitê Internacional recusou Atenas, em 1996, centenário dos Jogos Olímpicos Modernos, escolheu como sede a moderna cidade de Atlanta, e prometeu-se muito.

O então chefe do comitê da cidade norte-americana, Billy Payne, havia previsto o “maior evento pacífico da história do século XX”. E um dos principais pontos a serem lembrados da Atlanta foi o caos no sistema de transporte da cidade, que quase paralisou os jogos. Motoristas de ônibus se perdiam e abandonavam o serviço no meio do evento, e o público se esmagava em trens para chegar às partidas e competições. Mas o legado dos jogos tornou-se um dos mais notáveis. Praticamente toda a conta dos Jogos de Atlanta foi paga por patrocinadores (um detalhe, a cidade é a sede da Coca-Cola) e isso fez com que os jogos saíssem com contas pagas ao seu final, apostando também na regeneração dos seus centros, como proposta olímpica. O estádio olímpico da cidade, por exemplo, tornou-se lar dos Atlanta Braves, time de baseball. A Universidade de Tecnologia da Georgia, sediada na cidade, já cuidava do Centro Aquático antes mesmo dos jogos começarem, e o adaptou para o uso de estudantes, clubes locais e escolas. A mesma universidade abriga estudantes na antiga Vila Olímpica.

O caso de Barcelona é o mais exemplar. A cidade é dona da experiência mais significativa de sucesso olímpico das últimas duas décadas. Os Jogos Olímpicos de Barcelona conseguiram transformar o significado da cidade como marca. Desde então capital catalã tornou-se um dos destinos turísticos mais populares do mundo. A Vila Olímpica remodelou a orla mediterrânea da cidade e o número de restaurantes, por exemplo, pulou de sete para mais de 70. Um novo porto foi construído, e sobre o vale que permeia a cidade, algumas das instalações olímpicas mais belas já construídas ganharam abrigo. Com a consagração de nomes como o tenista Rafael Nadal, e as vitórias do futebol espanhol nos últimos tempos (a hegemonia do clube Barcelona Sporting Club, o Barça, e a conquista da Copa do Mundo da África do Sul), não é pouco considerar aquela a cidade do esporte. A única instalação que teve pouco uso, desde então, é o Estádio Olímpico. Mesmo que os jogos tenham acelerado a especulação imobiliária para níveis pouco realistas para o padrão dos moradores locais, a cidade espanhola é uma das mais bem-sucedidas.

O Rio de Janeiro sediará os jogos em 2016, e o Brasil estimou gastos da ordem dos R$ 26 bilhões, divididos entre os governos federal, estadual e municipal e a iniciativa privada. No entanto, o que se viu foi um gasto muito superior que se aproximou dos R$ 40 bilhões, segundo a APO (Autoridade Pública Olímpica). Outro problema foi o do legado. A prefeitura não entregou várias obras que foram anunciadas quando a cidade ganhou o direito de sediar as Olimpíadas. Entre as obras que não ficaram prontas estavam a Linha 4 do Metrô (que liga Ipanema à Barra da Tijuca) e a limpeza da Lagoa Rodrigo de Freitas.


Ciclovia
A ciclovia Tim Maia, uma obra feita para as Olimpíadas sob o custo de R$ 45 milhões, acabaria desabando parte da pista. Com 3,9 km de extensão e uma pista de 2,5 metros de largura a ciclovia passou a ser utilizada pela população semanas antes do início dos Jogos Olímpicos.

No dia 21 de abril, uma ressaca do mar acabaria destruindo parte da ciclovia. Duas pessoas, que estavam na pista nesse momento, acabaram morrendo. O terrível acidente chamou negativamente a atenção do resto do mundo para os problemas e a crise que afetava a cidade e o Estado do Rio de Janeiro. A Ciclovia que fica ao lado da avenida Niemeyer e à beira mar havia sido inaugurada no dia 17 de janeiro de 2016. A investigações posteriores ao acidente apontaram que a empresa de engenharia Concremat, responsável pela obra, pertencia a Mauro Viegas Filho, avô do Secretário Especial de Turismo da cidade, Antonio Pedro Viegas Figueira de Mello. Em razão desse fato, o secretária acabaria afastado do cargo pela Justiça.