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Professor: um ofício que se reinventa
OUTUBRO 2017
 
 
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 TECNOLOGIA EM SALA
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Os avanços tecnológicos em sala de aula podem fazer o ensino mais interessante

Em um artigo para o site Educar para Crescer, o professor de física e educador da USP Luis Carlos de Menezes começa o texto explicando a origem da palavra professor, "(...) vem de ‘professar’, que, além de lecionar, significa declarar publicamente uma convicção ou um compromisso de conduta". Ou seja, os professores não só propiciam aos alunos o conhecimento exposto em um quadro negro ou em uma tela digital. Como parte fundamental na formação de indivíduos, são eles que demonstram, em um ambiente diferente daquele familiar, uma conduta social e ética para os seus pupilos. Trata-se de uma contínua exposição de convicções, e de conhecimento e procedimento. As relações estabelecidas na escola serão o molde para a vida na cidade, e em um ambiente de trabalho. Para nos atermos simplesmente a um exemplo, basta pensarmos na quantidade de informações e descobertas que uma criança passa a vivenciar em seu primeiro momento na escola. É na escola, e com o auxílio do professor, que passamos a conhecer novos objetos, novos nomes e processos de compreensão do mundo, dos animais e de tudo que nos cerca.

Alta velocidade
Não há dúvidas de que os alicerces da função do professor são importantes para o mundo em que vivemos. Entretanto, uma atividade tão antiga (leia também: Educação: uma perspectiva histórica) sempre passou por mudanças que transformaram a relação entre professor e aluno. O avanço tecnológico que modificou as relações entre as pessoas também passou a influenciar o ofício do professor, que tem passado por mudanças, explicadas de forma simples por Alan McMurdo, um diretor de um colégio bastante peculiar no norte da Inglaterra. Ele explica "Se as pessoas no médico fossem tratadas da mesma maneira que há 30 anos, seria um disparate. Não podemos esperar que a escola permaneça parada no tempo. Hoje em dia, as crianças tem grandes expectativas, agem de maneira múltipla e acessam novas tecnologias em um nível - e velocidade - com a qual os adultos conseguem somente sonhar. Então, se a educação quer se manter relevante para as crianças, precisamos nos adaptar, quer gostemos ou não." Ele é diretor da Monkseaton High School, escola do condado de Tyne and Wear, localizado no norte da Inglaterra. Em entrevista ao jornal The Telegraph, em 2009, também apresenta as técnicas de aprendizado da Monkseaton, tão inovadoras quanto peculiares. Em uma aula, os alunos brincam quicando bolas de basquete. Primeiro andando, e depois correndo. Quando o apito soa, os estudantes deixam as bolas e voltam para mesas e cadeiras na outra ponta do salão. Não é uma aula de Educação Física. Os alunos estão no meio de uma aula de ciências. Ao sentar, são apresentados a uma tela com slides sobre sistema nervoso, alimentação, hormônios, ciclo menstrual e outros assuntos, de maneira rápida. Dentro de oito minutos, estarão de volta ao basquete, e então mais oito minutos de volta às mesas. O método chamado de "speed learning", ou seja, aprendizado rápido, foi criado em Monkseaton, e provou-se um grande sucesso. As aulas foram moldadas a partir de pesquisas neurocientíficas que apontaram que aulas curtas e precisas, intercaladas com atividades completamente diferentes são mais eficientes para a concentração das crianças, muito mais do que aulas convencionais. Não existem livros ou lápis ou qualquer tipo de distração, somente a atenção dos alunos enquanto escutam e observam as aulas, apresentadas em telas de projetor.

Trata-se de uma tendência mundial, acompanhada pelo Brasil. Mesmo em escolas tradicionais, o professor sente a necessidade de se manter em pé de igualdade com os alunos, que já não se portam em sala de aula de maneira passiva. A nova relação entre aluno e mestre é muito mais de parceria do que uma simples transmissão de conhecimento, como se o professor estivesse em um pedestal indubitável. Isso significa que o professor deve manter seu papel de orientador em blogs, redes sociais e bate-papos. E por conta da rapidez que um aluno pode obter informações pela internet, a qualquer momento, é importante que o professor seja um mestre disposto a declarar que não tem todas as respostas, mas pode ajudar o aluno a obtê-la da melhor forma possível, ou seja, nas ciências.


Experiências asiáticas
Japão, Coreia do Sul e Singapura
Quando o Japão reformou seu sistema educacional após a 2ª Guerra Mundial, não estava estabelecendo somente novos rumos para um país destruído. Estava abrindo mão de uma cultura educacional militarista e ultranacionalista, e absorvendo ideais de liberdade e igualdade na educação. O crescimento econômico do país até a década de 1990 foi fruto da industrialização aliada à mão de obra qualificada. Com isso, a partir da segunda metade do séc. XX, o Japão obteve uma das mais bem educadas populações do mundo, com praticamente 100% das crianças no ensino fundamental obrigatório e um analfabetismo menor que 1% da população. É verdade que os Estados Unidos impuseram a reforma educacional do pós-guerra, mas restou uma diferença: ao invés de valorizar a independência do indivíduo, no Japão permaneceu a preocupação com o coletivo em primeiro lugar, detalhe primordial de um país arrasado pela guerra. Ficava claro que o desenvolvimento econômico passava pelas mãos de uma educação de alto nível.

O pós-guerra que separou as duas Coreias (1950-1953) e deixou um milhão de mortos, teve a educação como base para o crescimento da Coreia do Sul. Os recursos foram concentrados nos primeiros oito anos de estudo, obrigatórios e gratuitos até hoje. Metade do ensino médio é público, e as faculdades são todas pagas, mesmo as públicas. Todavia, mesmo no ensino fundamental a maioria dos professores tem mestrado em Educação, ganham por volta de R$ 10,5 mil por mês e são avaliados a cada dois anos. A eficiência do ensino é tamanha que a média dos alunos das escolas está sempre acima de oito, e por conta disso, quando os alunos sentem dificuldade para aprender, é o professor que é reprovado. À época da divisão entre as duas Coreias, um em cada três coreanos era analfabeto. Hoje, oito em cada dez chegam à universidade na Coreia do Sul. Essa alta produtividade educacional, por outro lado, pode representar uma cobrança enorme. A frase de um estudante é sintomática, “A Coreia quer homens perfeitos, esse é o problema”. Ao longo das paredes de uma escola, frases como “Economize um centavo, orgulhe seu país”, comprovam a cultura da economia. Sem dúvidas que os benefícios são maiores que as perdas.

Singapura tornou-se um importante centro industrial e de portos entre os países denominados "Tigres Asiáticos". A economia superaquecida da cidade-Estado é um chamariz para investidores estrangeiros, mas também um modelo de sucesso que inspira também colégios, e seus alunos ainda bem jovens. Lá, crianças de sete anos já passam a ter noções de economia e orçamento familiar, focadas para evitar desperdícios ou gastos desnecessários. Pedagogicamente, perpetua-se a ideia de que dessa maneira, as crianças poderão fazer escolhas inteligentes ao longo da vida, como comprar produtos que necessitam, e não porque estão na moda. Nas escolas, vê-se cartazes contando histórias de empresas de sucesso, e como chegaram lá.


Mão de obra
Em reportagem da revista Veja de março de 2009, a pedagoga Sílvia Fichmann, do Laboratório de Novos Cenários de Aprendizagem (LINCA), da Escola do Futuro da USP explica: “Um dos motivos pelos quais os professores resistem em utilizar a tecnologia é o receio de perder o posto de detentor único de conhecimento.” Possivelmente trata-se de um caminho sem volta que pode aproximar e humanizar cada vez mais não só o acesso ao conhecimento, mas também a relação no aprendizado, e com isso fazer com que o mundo acadêmico se torne mais próximo e interessante ao aluno. O desafio é combinar o tradicional ao novo: Não basta apenas um colégio dispor de diversos equipamentos modernos, se não há treinamento para seu corpo docente. A experiência de Monkseaton é interessante porque não se trata de uma experiência futurista, mas de metodologia.

Quando professores fazem as coisas de maneiras diferentes, novos caminhos são sempre mais bem sucedidos do que os métodos tradicionais. Descobre-se agora que o antigo método não era o melhor para as crianças aprenderem, e sim a maneira mais fácil de catalogar o conhecimento.