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Monteiro Lobato, entre o avanço e a polêmica
FEVEREIRO 2016
 
 
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 LOBATO: TALENTO PARA DISCUSSÕES
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Monteiro Lobato foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX

O que torna clássica a obra de um escritor? As respostas podem e devem variar de acordo com o gosto do leitor, mas de um detalhe é difícil escapar: clássicos não perdem valor quando são revisitados. Ou seja, eles sobrevivem às gerações, e ao caminhar adiante, ganham outras interpretações, e seu valor somente aumenta.

No final de 2010 uma polêmica envolvendo um título de Monteiro Lobato suscitou discussões variadas. O Conselho Nacional de Educação (CNE) havia considerado como racista a maneira como a personagem Tia Anastácia era retratada na obra Caçadas de Pedrinho, que Monteiro Lobato havia publicado em 1933. A professora Nilma Lino Gomes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que redigiu documento ao Ministério da Educação, havia sugerido que não se selecionasse obras que descumprissem a premissa de "ausência de preconceitos ou estereótipos". Caso a obra fosse adotada, que tivesse uma nota sobre estudos atuais sobre a "presença de estereótipos raciais na literatura". Em um momento político marcado pelo zelo em relação aos termos politicamente corretos, parte da opinião pública encarou a sugestão como censura. Para certa parcela, uma possível adaptação da obra simplesmente causou arrepios. Todavia, não foi só isso: Monteiro Lobato havia se transformado em pauta nos jornais do país, 62 anos após sua morte. Durante toda a vida, como escritor, editor e articulista político, ele fora um dos nomes mais notáveis em debates polêmicos do país, além de praticamente estrear o gênero da literatura infantil no país.

José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté (SP) em 18 de abril de 1882. Moraria no interior até 1917. No ano seguinte comprou a Revista do Brasil, e publicou seu primeiro livro, Urupês. Com ele, fundou a Editora Monteiro Lobato. Suas obras para crianças começaram a aparecer em 1921, com A Menina do Narizinho Arrebitado, depois republicado como Reinações de Narizinho, a semente do que seria o conjunto de obras do Sítio do Picapau Amarelo. O estilo do escritor, que mesmo para com o público infanto-juvenil jamais subestimou a inteligência dos pequenos, é considerado pré-modernista, e sua própria editora, que apoiava novos nomes, chegou a publicar, por exemplo, obras de Oswald de Andrade, um dos mais relacionados ao movimento da Semana de Arte Moderna de 1922. Mas as ideias vanguardistas daquele grupo não agradavam a Lobato, que considerou aquela empreitada "mais um estrangeirismo". A editora homônima não teria vida longa, vindo à concordata em 1925. Ele mudaria-se para Nova Iorque, nomeado adido comercial, e viveu nos Estados Unidos entre 1927 e 1931. Lá observou o poder da indústria do petróleo e ao voltar para o Brasil, logo após o baque da quebra da Bolsa de 1929, estava convencido de que somente uma indústria de petróleo e de ferro potentes poderiam livrar o Brasil do subdesenvolvimento. Passou a criar campanhas à favor do petróleo nacional, criticando o governo de Getúlio Vargas que, à época, tinha caráter ditatorial. Em 1941 foi condenado a seis meses de prisão. Cumpriu três.

Levado ao status de causador de polêmicas naquele período, ele havia ao menos despertado a discussão sobre o patrimônio nacional. Quando, em Urupês criou o personagem Jeca Tatu, quebrava a noção romântica do camponês brasileiro moldando a imagem de um caipira doente, e que produzia pouco por conta dos males de saúde. Ao ambientar a turma de Pedrinho, Narizinho, Dona Benta e Tia Anastácia, entre outros, criou um universo ao mesmo tempo educativo e mágico, em que se propunha a ensinar, pela voz de Dona Benta, noções de história, geografia, matemática e outras matérias escolares. Há também uma visão irônica e bem-humorada de uma sociedade patriarcal e colonial, de ambições imperiais; vide os animais e criaturas de sítio, com títulos pomposos como o Marquês de Rabicó, de fato um leitão, e o sábio Visconde de Sabugosa, uma espiga de milho falante. Seus contos chegaram a ser publicados nos Estados Unidos também - e curiosamente, um de seus livros já havia voltado em cena em 2008, depois de Barack Obama ter sido eleito presidente daquele país. O nome do livro que Monteiro Lobato havia publicado originalmente em 1926 era O Presidente Negro. De olho no futuro através do “porviroscópio” (o livro se passa em 2228), Lobato previa, entre outras coisas, o surgimento de uma rede pela qual pessoas trabalhariam e se comunicariam à distância.

Em novembro de 2010 a polêmica por conta da "censura" a Caçadas de Pedrinho havia ganhado mais um capítulo quando o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Cavalcante, defendeu que o MEC revisse o parecer das restrições à obra em escolas públicas. O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse que iria pedir para o conselho rever o parecer. Naquele momento ele já via reclamações de educadores e especialistas. Haddad declarou que não via racismo na obra. A discussão vai mais longe quando se pensa no Estado - no caso, o governo federal - como moldador da educação das crianças na escola. Um controle excessivo para com a sociedade é um dos temores daqueles que enxergam o Estado como força paternalista em excesso. Entretanto, este seria apenas um dos pontos a se pensar. A qualidade da obra de Monteiro Lobato é inegável, mas este não poderia fugir do fato de ser um homem de sua época (e extremamente irônico, e por isso, por vezes incompreendido). Estaria certo, por exemplo, adicionar ou retirar cores e pinceladas de um quadro feito há muito? Por mais que os pesos e medidas sejam sempre diferentes, é difícil acreditar que alterações possam ser, no mínimo, respeitosas.

Mais uma vez, Monteiro Lobato nos convidou a pensar a respeito de nós mesmos.