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O que é obesidade
NOVEMBRO 2006
 
 
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 O QUE É OBESIDADE
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Atualmente, vários países tratam a obesidade como uma epidemia. Segundo o médico brasileiro Drauzio Varella, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que, em 2004, já existiam “no mundo mais de um bilhão de adultos com sobrepeso e trezentos milhões com obesidade”.

Segundo Varella, “por aumentar o risco de diabetes, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, doenças articulares, distúrbios psiquiátricos e de certos tipos de câncer, a OMS considera a obesidade uma das dez maiores ameaças à integridade da saúde no mundo e uma das cinco principais nos países industrializados”.

Varella afirma que “um estudo recente conduzido pelo Rand Institute concluiu que a obesidade está mais intimamente ligada ao aparecimento de doenças crônicas do que viver na pobreza, fumar ou beber. Os autores desse estudo calculam que o fato de ser obeso implica envelhecimento precoce equivalente a vinte anos”.

Os obesos eram antigamente tidos como pessoas preguiçosas e glutonas. Atualmente, a medicina entende os obesos como indivíduos portadores de genes que favorecem a obesidade quando colocados em um ambiente de fartura alimentar.

Segundo Drauzio Varella, “comer é um comportamento motivacional complexo que obedece à ação de vários hormônios (leptina, insulina, grelina, PYY etc.), a desejos conscientes, a fatores sensoriais como cheiro, gosto e estímulo visual, ao estado emocional e outros. O estímulo da fome é provavelmente tão intenso quanto o da sede”.

Para o médico, “graças à eficácia dessas ações bioquímicas, a espécie humana sobreviveu a cinco milhões de anos de escassez alimentar. No decorrer deles, nosso organismo aprendeu a disparar mensagens moleculares irresistíveis toda vez que emagrecemos: o metabolismo basal cai dramaticamente, e surgem estímulos potentes para consumirmos mais alimentos. Ao contrário, quando engordamos, os sinais opostos são quase imperceptíveis: não há aumento significativo do metabolismo basal, nem estímulo para aumentar a atividade física, nem perda de apetite. Indiferente aos padrões da moda, o corpo protege seus depósitos de gordura com unhas e dentes com o objetivo de manter ou retornar ao maior peso já atingido”.

O problema da obesidade reside, portanto, no simples fato de nosso corpo proceder dessa maneira: acumulando gordura. Foram milhares de anos de evolução onde era difícil para espécie humana conseguir alimentos em abundância. Isso construiu uma espécie de defesa em nosso organismo que come o mais que pode enquanto pode. Nosso corpo funciona como se estivesse se preparando para um grande intervalo de fome e falta de comida. Dessa maneira, como hoje, para muita gente, basta caminhar até a geladeira para conseguir uma boa quantidade de calorias, surge a epidemia da obesidade.

Uma mostra disso está no fato de que antigamente uma garrafa de um litro de refrigerante era a medida padrão para uma família de quatro pessoas. Hoje, o mesmo fabricante sugere 2,5 litros para as mesmas quatro pessoas, ou seja, além de se comer e beber cada vez mais, comemos e bebemos mais alimentos que não são saudáveis, como é o caso do consumo de refrigerante.

Segundo Varella, “a atual possibilidade de viver sentado e a disponibilidade de alimentos densamente calóricos são fatos novos, sem paralelo na história da humanidade. Num mundo sedentário, com alimentos deliciosos ao alcance da mão, considerarmos a obesidade um problema de caráter é pura ignorância. Perder peso é empenhar-se numa batalha contra a biologia da espécie humana. Só os obstinados são capazes de vencê-la”.


O que desencadeia a obesidade?
O fator desencadeante da obesidade é quase sempre a ingestão excessiva de calorias, mas as causas dessa doença, que nos países desenvolvidos apresenta elevada incidência, abrangem uma ampla variedade de condicionamentos de natureza emocional, cultural, genética e endócrina.

A obesidade é uma condição caracterizada por uma elevada relação entre a massa de tecido adiposo e a massa total do corpo, comparada essa relação com a que se observa no homem considerado normal. É descrita como doença por razões entre as quais se incluem o fato de pacientes obesos apresentarem média de sobrevida inferior à dos indivíduos não-obesos e a alta incidência de distúrbios cardiovasculares e de diabetes melito em pacientes com excesso de tecido adiposo. Representa ainda uma desvantagem em muitas situações da vida real e causa distúrbios de posturas relativamente graves, patologias da vesícula biliar e complicações na anestesia geral, na cirurgia e no parto.


Fisiologia do tecido adiposo
O tecido adiposo se constitui de células cujos vacúolos são cheios de triglicerídeos, que constituem as gorduras. É de ampla distribuição no organismo, principalmente na região subcutânea, perineal e mesentérica. A massa corporal de um homem normal de setenta quilos constitui-se, aproximadamente, de quinze quilos de triglicerídeos.

Os depósitos de gordura constituem grande parte das reservas energéticas do organismo, compostas também de carboidratos (como o glicogênio) e proteínas. Os triglicerídeos são armazenados após a ingestão do alimento e consumidos (depletados) nos intervalos das refeições, ou quando as solicitações energéticas são mais pronunciadas. Esse processo de depleção se denomina mobilização das gorduras e permite que o organismo sobreviva por longos períodos sem ingerir alimentos. Nele intervêm numerosas funções, como a secreção dos hormônios glucagon e insulina, o controle do fluxo sangüíneo no tecido adiposo por meio do sistema nervoso autônomo, ou a produção de outras substâncias, como a adrenalina ou a noradrenalina, importantes hormônios mobilizadores de gorduras.


Aspectos fisiopatológicos
Estudos de obesidade em animais de laboratório trouxeram valiosas informações, que permitem entender melhor a obesidade humana. Lesões bilaterais do hipotálamo, especificamente no núcleo ventromedial, acarretam obesidade em camundongos. Existem cepas de camundongos obesos e hiperglicêmicos que apresentam níveis plasmáticos acima do normal. Esses animais, mesmo com restrição alimentar, são incapazes de metabolizar gorduras de forma normal e catabolizam proteína num ritmo mais alto do que os camundongos normais, nas mesmas condições.

No homem, a obesidade é um problema ainda mais complexo, que envolve aspectos psicológicos primários ou secundários. Fatores de ordem genética desempenham importante papel em certos tipos de obesidade. Além disso, aspectos sociais, econômicos e culturais estão envolvidos. A obesidade no homem não raro está ainda relacionada com distúrbios metabólicos associados a problemas endócrinos. O nível plasmático de insulina, geralmente mais elevado em obesos, é, em muitos casos, normalizado após a redução de peso.


Diagnóstico e tratamento
Mais importante do que o simples diagnóstico da obesidade é a determinação de sua etiologia — ramo da medicina que estuda a causa das doenças. É de grande importância o conhecimento dos antecedentes do distúrbio e dos hábitos do paciente, assim como de suas características físicas e respostas a testes laboratoriais. Estudo psiquiátrico do paciente deve ser realizado com atenção, já que inúmeras vezes a obesidade é conseqüência de um desajuste emocional.

A prevenção e o tratamento da obesidade se baseiam num regime feito com alimentação adequada, prescrito por médico, intimamente associado à compreensão, por parte do paciente, da gravidade de seu quadro, e a uma colaboração consciente, que visa a transpor muitas das dificuldades encontradas no decorrer do processo. O tratamento médico, sem a colaboração do paciente, está fadado ao fracasso na grande maioria dos casos.

Hábitos adequados de alimentação e exercícios físicos moderados são indicados a todos os pacientes predispostos à obesidade, assim como a todos os indivíduos, ao atingirem a meia-idade, evidentemente excetuados os casos de contra-indicação médica.
Os dois pontos principais no tratamento da obesidade se baseiam nas leis fundamentais da termodinâmica — as quatro leis da termodinâmica que definem respectivamente a temperatura, o princípio da conservação da energia, a entropia e as limitações para a obtenção do zero absoluto de temperatura —, isto é, redução na quantidade de alimentos e aumento nos gastos energéticos.

O tratamento pode, em linhas gerais, dividir-se em duas fases: (1) eliminação de fatores etiológicos; (2) redução dos depósitos excessivos de gordura. Assim, no hipogonadismo — deficiência funcional das gônadas, as quais são as glândulas sexuais —, deve ser tratada a causa por meio de gonadotrofinas ou hormônios gonadais. No hipotireoidismo o emprego de hormônios tireoidianos é fundamental. Finalmente nos distúrbios psicológicos, uma correção da conduta alimentar deve ser estabelecida, antes de tentar a redução de peso.

A eliminação dos depósitos de gordura se obtém por diminuição da ingestão de calorias e por aumento do exercício físico, seja a prática de caminhada/marcha ou de um esporte. O emprego do hormônio tireoidiano, sob a forma de tireóide dessecada, facilita a perda de peso, por aumentar o metabolismo basal. Esse método só deve ser prescrito, no entanto, em casos de hipotireoidismo, a fim de trazer o metabolismo a níveis normais. O emprego de diuréticos se indica somente na presença de edema.

A restrição na alimentação é fundamental no processo de redução de peso. Aproximadamente 35 calorias por quilograma de peso constituem dieta adequada para uma pessoa de atividade moderada. É importante que o paciente receba um adequado suprimento vitamínico, assim como de sais minerais, em especial cálcio e ferro.

O paciente deve ser encorajado a desenvolver aptidões físicas e a praticar esportes. O apoio psicológico, por parte do médico, ou, em casos mais difíceis, do psiquiatra, é de fundamental importância.