ENTENDER O MUNDO/ATUALIDADES
Gordura Trans e os dilemas da alimentação
AGOSTO 2014
 
 
Conheça
#FFFFFF
    ARTIGO      
 COMER, ALIMENTAR, NUTRIR
Imprimir Enviar Guardar
 
Que fome! Para muita gente, nesta hora, vale tudo, principalmente o que estiver mais acessível. A propaganda que chama atenção atrai famintos de plantão: uma bolachinha recheada para tapear a fome; um sorvete para aliviar o calor; um chocolate de sobremesa.

Vem um amigo e indica um lugar com custo baixo, sem taxa de entrega e cujo lanche é quase dois, e vem com fritas. Humm... No domingo preguiçoso, muita gente acaba em pizza. Isso sem falar no básico pão com margarina para os dias de correria ou falta de opção. Quase toda semana, quase todo dia. 

De vez em quando tudo bem. Será? Como dosar o que faz bem ou mal para a saúde quando o assunto é alimentação? O ato de comer é tão corriqueiro que parece sem importância. “Depois eu faço exercícios e queimo as calorias”, é o que muitos dizem. Mão não é bem assim.

Existe uma grande diferença entre comer e se alimentar. O hábito de comer pode ser caracterizado como um abastecimento do corpo ou mesmo uma ação para suprir uma vontade. Já a ação de se alimentar é vista como uma forma de tratamento de saúde para manter o corpo regulado, aproveitando os componentes de cada alimento ingerido, trazendo, assim, a terceira fase, denominada nutrição. Nutrir o corpo é bem mais complexo do que colocar qualquer porcaria no prato e se sentir satisfeito. Um organismo só é nutrido quando os ingredientes ingeridos tem qualidade. E isso tem muito a ver com as escolhas que se faz na hora das refeições.

Muita gente já viveu momentos em que o corpo pede socorro. A cada ano, pesquisas mostram como a alimentação humana está desregrada e desequilibrada. O consumo excessivo de alimentos industrializados tem sido apontado como um dos principais fatores desse desequilíbrio.

Foto: cortesia de Health Thoroughfare



LÁ VEM ELA
O assunto deste texto é gordura trans. Você já ouviu falar nela? Sabe de onde vem e quais os impactos dessa tal gordura no organismo? Então mergulhe nesse material e entenda um pouco mais sobre saúde, alimentação e, claro, qualidade de vida.

Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), as gorduras trans são um tipo específico de gordura formado por um processo de hidrogenação natural (ocorrido no rúmen de animais) ou industrial. Estão presentes principalmente nos alimentos industrializados. Os produtos de origem animal, como a carne e o leite, possuem pequenas quantidades dessas gorduras.

Segundo o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), na indústria, a gordura trans é utilizada principalmente para melhorar a consistência, a apresentação e o sabor dos alimentos e também aumentar o tempo de vida de alguns produtos, como margarinas, cremes vegetais, biscoitos, sorvetes, salgadinhos, produtos de panificação, alimentos fritos e qualquer outro alimento que contenha em sua preparação as gorduras vegetais hidrogenadas.

É utilizada para deixá-los mais crocantes, sequinhos, duráveis e, principalmente, mais apetitosos. Seu nome científico é ácido graxo transverso, mas ela é mais conhecida como gordura trans.

Na indústria alimentícia, muitas empresas têm investido em novos ingredientes para substituir a tal gordura trans. Isso não acontece de uma hora para outra. Tanto é que ainda existe muito produto que é lotado dela. Quer fazer um teste? Passe a olhar para os rótulos dos produtos que você consome. Você conhece todos os ingredientes? Tem tantos itens estranhos e de nomes difíceis que chega a dar medo de continuar comendo.

O LADO B
Diabete, derrame e infarto são algumas das doenças relacionadas ao consumo excessivo de gordura trans. São muitas pessoas no mundo sofrendo dessas doenças e, ainda assim, muita gente continua se alimentando muito mal. Sabe o famoso hambúrguer com batata frita e refrigerante? Pois bem, ele está no topo do ranking. Há quem diga que é um atentado à saúde. Essa combinação bombástica está ligada ao aumento do colesterol e tem assustado médicos e cientistas.

Ela é acusada de causar tantos malefícios à saúde que a mesma Anvisa determinou que a partir de 1º de agosto de 2006 todas as empresas devem especificar nos rótulos a quantidade de gordura trans de seus produtos. Portanto, se você quiser saber o quanto de gordura trans há nos alimentos, basta ler o rótulo. E essa atitude muito importante é pouco praticada pela maioria das pessoas.

Enquanto isso, o consumo de gordura trans vai aumentando. E com isso, a humanida vive doente. É colesterol alto – a gordura trans é a causa do aumento do LDL, o famoso colesterol ruim, e para piorar ela reduz o HDL (colesterol bom), motivo pelo qual deve-se consumi-la o mínimo possível. Para algumas organizações não-governamentais, como a Ban Trans Fat e a Trans Free América, a solução para a gordura trans seria bani-la totalmente da nossa alimentação diária.

O consumo exagerado de gorduras trans está diretamente relacionado a um maior risco de depressão. É o que aponta um estudo desenvolvido pelas universidades de Navarra e Las Palmas, da Espanha. Os pesquisadores analisaram o estilo de vida de 12 mil voluntários ao longo de seis anos e descobriram que os participantes que apresentavam consumo elevado de gorduras trans tinham até 48% de aumento no risco de depressão, quando comparados com participantes que não consumiam esses produtos. Os autores também notaram que quanto mais gorduras trans eram consumidas, maiores os efeitos negativos produzidos nos voluntários.

"Isso acontece porque o excesso de gorduras trans e saturadas em nosso organismo aumentam a produção de citocinas, moléculas pró-inflamatórias que podem desencadear o mau funcionamento dos neurônios", explicou o nutrólogo Roberto Navarro, da Associação Brasileira de Nutrologia, para o site Minha Vida. Ainda segundo o nutrólogo, as citocinas interferem na transmissão nervosa e podem diminuir a produção de serotonina, neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar - e baixos níveis dessa substância estão comprovadamente relacionados com a depressão.


FAST-FOOD
Em 2006, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) avaliou as cinco maiores redes de fast-food do Brasil (Bob’s, Burger King, Giraffas, Habib’s e McDonald’s) e concluiu que todas elas vendiam lanches altamente gordurosos e com sódio além da quantidade diária recomendada pelos médicos e nutricionistas.

As principais redes de fast-food mencionadas na pesquisa de 2006, feita pelo Idec, responderam dizendo que seus alimentos não são feitos para serem consumidos todos os dias. Elas também informaram que há em seus cardápios opções mais saudáveis que a famosa combinação hambúrguer e batata-frita. Hoje é comum realmente ver outras opções, mas parece que virou moda mesmo a combinação bombástica.

O maior vilão das redes de fast-food não é animal: é a batata frita. Apenas uma porção grande de batata-frita tem 5,9 g de gordura trans. Segundo os nutricionistas, o máximo de gordura trans que uma pessoa deve ingerir por dia é 2 g. Portanto, se somarmos a gordura trans da batata-frita àquela que também vem nos lanches e no sorvete teremos uma alimentação altamente carregada com um componente extremamente ruim para saúde.

O problema estava tão grave que a rede McDonald’s no Brasil comunicou oficialmente, em 2006, que iria reduzir os níveis de gordura trans para “próximo de zero” em todos os produtos que contenham fritura.


DIET E LIGHT
É muito comum hoje em dia ver pessoas fazendo dieta. O famoso regime, quando sem orientação adequado, pode se tornar o começo de uma prática alimentar maléfica para o organismo. Emagrecer é o objetivo. Mas os custos globais disso no corpo podem durar anos. Isso porque a gordura trans, que já foi provada por A+B que não faz bem, está presente até nos alimentos diet e light. Segundo o cardiologista Marcus Vinícius Malachias, da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia), “nem todos os alimentos light e diet fazem bem aos cardíacos. Alguns deles têm muita gordura saturada, sal e gordura trans”. O médico coordena a equipe que concede um selo de aprovação da SBC aos alimentos que comprovadamente são bons para obesos, cardíacos e hipertensos. Malachias afirma que até biscoitos cream cracker, torradas e barras de cereais, muito usados por quem faz regime, chegaram a ser reprovados pela SBC por sua quantidade de gordura trans ou saturada.

A BOA NOTÍCIA
A Anvisa abriu, em março de 2018, um processo para aumentar a restrição ao uso de gordura trans em alimentos industrializados e avalia até proibi-la. Nutricionistas afirmam que essa gordura foi inventada pelo homem em laboratório e não existe na natureza, portanto, o organismo não reconhece.

CONSUMO CONSCIENTE
Há uma noção entre alguns estudiosos de que o homem é aquilo que come. Assim sendo, cuidar da alimentação traz muitos benefícios à saúde e à longevidade. A prática de exercícios físicos é muito valorizada e deve estar aliada a uma alimentação que tenha mais itens naturais do que industrializados. Mas, ainda assim, faz parte da alimentação de muitos brasileiros se alimentar de produtos industrializados, tais como bolachas, salgadinhos, sorvetes, margarinas etc.

A leitura dos rótulos dos alimentos permite verificar quais contém ou não gordura trans. A partir disso, é possível fazer escolhas mais saudáveis, dando preferência àqueles que tenham menor teor dessas gorduras ou que não as contenham.

Segundo a Anvisa, o valor de gordura trans deve ser declarado nos rótulos de alimentos em gramas presentes por porção do alimento, conforme tabela. A porcentagem do Valor Diário de ingestão (%VD) de gorduras trans não é informada porque não existe requerimento para a ingestão dessas gorduras. Ou seja, não há um valor que deva ser consumido diariamente. A recomendação é que seja consumido o mínimo possível, ou não consumida.

A quantidade de 2 gramas por dia é a indicada pela Anvisa como quantidade máxima recomendada. Ainda segundo a Anvisa, é importante também verificar a lista de ingredientes do alimento, em que é possível identificar a adição de gorduras hidrogenadas durante o processo de fabricação do produto.


DICAS
Confira a seguir as 10 Dicas para uma alimentação saudável, extraídas do Livro A cozinha vegetariana de Astrid Pfeiffer, Editora Alaúde.

  1. Faça as refeições com calma: Seu organismo precisa deste tempo para processar os alimentos. Grande parte das enzimas digestivas (50%) são secretadas por estímulos sensoriais (visão, olfato, tato, paladar).
  2. Mastigue bem os alimentos: A digestão se inicia na boca com a trituração dos alimentos e ação da salivação. A mastigação deve tornar o alimento pastoso, facilitando o processo digestivo. Quando há ansiedade, o controle da ingestão de alimentos é prejudicado e, muitas vezes, comemos mais. Quando mastigamos bem, automaticamente estamos trabalhando com a ansiedade e promovendo a saciedade fisiológica (verdadeira). Então, não coma em menos de 20 minutos cada refeição.
  3. Líquidos x Refeição: Não ingira líquidos junto com as refeições. O líquido faz com que você não mastigue bem os alimentos e atrapalha o processo digestivo. Procure utilizar líquidos 30 minutos antes ou 60 minutos após as refeições principais. No entanto, se a refeição estiver salgada o ideal é ingerir água durante.
  4. Horários para as refeições: Tenha horário para suas refeições. Ele faz com que nosso organismo mantenha um ritmo, com estabilidade nutricional e hormonal.
  5. Alimente-se a cada 3 horas: Nosso cérebro precisa de aporte constante de glicose (carboidrato). A inconstância em receber esse nutriente, traz redução da nossa disposição, além de proporcionar perda de massa muscular. Além disso, comendo de 3 em 3 horas, a fome e a voracidade se mantêm sob controle, evitando episódios de compulsão alimentar.
  6. Alimentos integrais: Consuma alimentos integrais. Eles contém vários nutrientes que estão na película do grão. São excelentes para manter os níveis de glicemia (açúcar no sangue), têm fibras que servirão de alimento para as bactérias benéficas do intestino, ajudam no controle do colesterol e na saciedade.
  7. Consuma frutas e hortaliças: Ingira verduras, legumes e frutas. Eles são ótimas fontes de fibras, vitaminas e minerais. Contém também fitoquímicos (polifenóis, carotenóides, flavonóides, dentre outros) os quais são excelentes antioxidades (protetores das nossas células).
  8. Evite alimentos refinados: Os alimentos considerados brancos (pão, açúcar, trigo, arroz), além de não conter mais a sua película - onde estava a maioria dos nutrientes - também passam por um processo químico chamado de branqueamento. Neste processo, diversas substâncias químicas são adicionadas, com potencial efeito negativo para nosso organismo. Os alimentos refinados não alimentam nossas bactérias "boas". Assim, poderá favorecer o crescimento das bactérias patogênicas (ruins) e desequilibrar nossa flora intestinal.
  9. Ingira líquido: A ingestão de líquidos durante o dia faz com que nosso corpo se mantenha bem hidratado e ajude o organismo a transportar os nutrientes que precisamos. O melhor método que temos para verificar nossa hidratação é a cor da urina, a qual deve estar amarela bem clara.
  10. Evite os industrializados: Evite alimentos industrializados, processados e embutidos. Estes produtos contêm inúmeras substâncias químicas que não são reconhecidas pelo nosso organismo. O consumo desses alimentos em quantidade excessiva demanda trabalho do fígado para neutralizar corantes, conservantes, etc, e depois eliminá-los, muitas vezes com auxílio dos rins. Alguns produtos com potencial efeito cancerígeno podem ser recebidos pela ingestão desses produtos ou serem produzidos no processo de desintoxicação. Pode haver comprometimento do sistema imunológico e processos alérgicos devido à ingestão de produtos estranhos ao nosso organismo.


Para saber mais, leia também