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AIDS na África, um quadro grave, mas em transformação
NOVEMBRO 2016
 
 
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 AIDS NA ÁFRICA, A TRAGÉDIA SEM FIM
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A AIDS (sigla em inglês para “síndrome da imunodeficiência adquirida”) é a maior pandemia – epidemia que se alastra por diversas regiões geográficas – dos tempos modernos, comparável somente à peste negra que dizimou boa parte da Europa na Idade Média. A África, região onde a AIDS teria se originado, de acordo com alguns pesquisadores, é a região do mundo onde os devastadores efeitos da doença ainda mais se fazem sentir, provocando enormes prejuízos na indústria e no comércio por falta de mão-de-obra e pondo em risco o funcionamento normal de vários países daquele continente.

Segundo o último relatório da UNAIDS, agência especializada no combate à AIDS da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em julho de 2016, ao sul do deserto do Saara existem 25 milhões de pessoas com AIDS, ou 70% dos 36,7 milhões de infectados em todo o mundo, atualmente. Esse último numero representa quase a mesma quantidade de pessoas que já morreram em virtude da doença: cerca de 35 milhões das mais de 70 milhões de pessoas que contraíram o HIV desde que a doença foi classificada pela primeira vez, na década de 1980, morreram desde então. Desse total, cerca de dois terços, ou 24 milhões de africanos morreram infectados pelo vírus HIV.

Nos últimos 10 anos, no entanto, bilhões de dólares foram investidos com o objetivo de reduzir ao máximo o número de novos infectados e a mortalidade dos que já contraíram o vírus. Por conta disso, a UNAIDS anunciou que o número de mortes em decorrência da AIDS caiu 45%, em termos globais, e 38% na região oriental e sudeste da África e 10% na região ocidental e central do continente. A proporção de infectados no continente africano, no entanto, ainda é alta: no Zimbábue, um em cada dez habitantes; na África do Sul, um em cada oito; em Botsuana, um em cada seis.


O QUADRO HÁ 10 ANOS
Em relação ao continente africano, uma das grandes preocupações da ONU era a indicação de que a epidemia iria avançar nos próximos anos pela falta de programas educativos e de prevenção da doença nos países que compõem a região. Um estudo do Instituto Worldwatch estimava que se a epidemia continuasse crescendo no mesmo ritmo dos anos 1990-2000 iria causar a morte de toda uma geração e mudar a demografia futura do continente. Isso porque a contaminação reduziria as expectativas de vida, diminuiria a fertilidade e faria crescer a mortalidade, o que resultaria numa grande população masculina e num enorme contingente de crianças órfãs. Na África Subsaariana, a AIDS ainda é a principal causa de mortalidade.

AMEAÇA DEMOGRÁFICA
O relatório AIDS na África – Três Cenários até 2025, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em março de 2005, estimava que até 89 milhões de pessoas poderiam contrair o vírus HIV na África nos próximos vinte anos caso nada fosse feito para combater a epidemia da doença.

O estudo também analisou o impacto das políticas públicas e da ajuda estrangeira no continente. No indicador mais preocupante dentre os três cenários apresentados no documento, a ONU estimava que o crescimento do número de infectados corresponderia a 10% da população do continente africano, mas esse numero não se concretizou. Atualmente, cerca de 2% da população africana é portadora do vírus HIV.

O relatório previa que a única forma de evitar a morte de 16 milhões de pessoas e a infecção de 40 milhões de africanos nas próximas duas décadas seria se os governos dos países afetados desenvolvessem políticas públicas eficazes e os doadores internacionais dobrassem de valor suas doações para que esses recursos fossem investidos em saúde, educação e agricultura. Isso, no entanto, não reduziria o aumento do número de casos, mas poderia reduzir drasticamente a epidemia.

Nesse ínterim, uma boa notícia foi a então aprovação que a empresa sul-africana Aspen Pharmacare recebeu da Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana que regulamenta os alimentos e medicamentos no mercado dos Estados Unidos, para produzir remédios genéricos contra a AIDS. Assim, a empresa poderá obter recursos do fundo de ajuda contra a AIDS na África, no valor de US$ 15 bilhões, criado em 2002 pelo governo do presidente George W. Bush. A aprovação, que serve como um selo de qualidade, permite que a empresa sul-africana produza antirretrovirais e os venda a preços mais baixos. A grande maioria das pessoas contaminadas pelo HIV na África é de baixa renda.


A FALTA DE DINHEIRO
Segundo a ONU, seriam necessários cerca de US$ 3 bilhões para combater a doença na África Subsaariana, onde 24 milhões de pessoas já morreram em conseqüência da doença. Além disso, falta vontade política, principalmente nos locais onde o vírus está disseminado entre populações marginalizadas ou estigmatizadas, como prostitutas, viciados em drogas e homossexuais.

Em maio de 2005, representantes de vinte países africanos, numa reunião realizada em Roma, se integraram ao projeto “Dream”, cujo objetivo é oferecer tratamento para mulheres e crianças afetadas pela AIDS no continente. Promovido pela comunidade católica de São Egídio, o programa distribui tratamentos específicos contra a doença e monta infra-estruturas para o atendimento. O projeto, apesar de algumas interrupções causadas pelos conflitos civis, já era desenvolvido no Quênia, Tanzânia, Moçambique, Guiné Equatorial e Malauí.

Paradoxalmente, em 2006, a primeira-dama do Quênia — país de maioria cristã —, Lucy Kibaki, desaconselhou os jovens de seu país a usarem preservativos, recomendando, ao contrário, que os mesmos preferissem a abstinência sexual.

A primeira-dama disse em comunicado divulgado no site do governo que “aqueles que ainda estão nas escolas e faculdades não devem ter acesso a camisinhas”. A declaração, então afinada com a opinião do Vaticano, enfureceu os movimentos humanitários que tentam reduzir os dramáticos números da AIDS na África.

O Quênia foi um dos países africanos que registraram um declínio significativo no número de contaminações do vírus HIV na última década. No fim dos anos 1990, 10% da população estavam infectados com o vírus. O percentual caiu para 7% em 2003. Porém, como todas as pesquisas a respeito da doença apontam o uso de preservativos como uma das soluções, declarações como a da primeira-dama do Quênia representaram um enorme desserviço para o combate à doença. Muitos cristãos conservadores e líderes africanos continuam a pregar a abstinência e a condenar o uso da camisinha.

Segundo o médico brasileiro Drauzio Varella, “se examinarmos a questão da camisinha do ponto de vista da saúde pública, não há o que discutir: todos os estudos publicados demonstram que quanto mais preservativos são distribuídos à população, menor o número de mortes por AIDS. Se não há como contestar essa evidência científica, por que insistir na posição oposta, mesmo sabendo que mais gente vai morrer?” Para Varella, “toda iniciativa destinada a combater o uso do preservativo é crime contra a saúde do povo”.


DIFICULDADES E PRECONCEITO
Quais as razões do avanço calamitoso da praga? Primeiro, a ignorância sobre o contágio e os hábitos sexuais sem proteção dos africanos. As prostitutas do Quênia, ouvindo falar que a doença se transmitia pelo coito vaginal, passaram a oferecer o coito anal aos seus clientes, o que aumentou muito a possibilidade de contágio. Verificou-se também que um dos tratamentos experimentados pelas mulheres, o uso de uma pomada contendo o espermicida nonnoxynol-9, não afetava o vírus e, além disso, aumentava o risco de contágio, pois causava irritações e lesões na mucosa vaginal. Embora as prostitutas ofereçam preservativos aos clientes, muitos deles se recusam a utiliza-los.

Outro fator de estímulo para contaminações por HIV na África era a ausência de uma infra-estrutura de saúde adequada na maioria dos países atingidos, o que colaborava para a disseminação da doença. As estatísticas são bastante preocupantes. De acordo com o Banco Mundial, a média de despesa anual em saúde na região era de US$ 34 per capita, na década passada, enquanto nos Estados Unidos o gasto alcançava a cifra mais de 70 vezes maior de U$ 2.485.

A 13ª Conferência Mundial sobre AIDS, reunida no mês de julho de 2000, em Durban, na África do Sul, um dos países mais atingidos, não resultou em ações concretas, embora tenha chamado a atenção da mídia para o grave quadro africano. O estado geral de miséria da região tornava difícil a compra de remédios e a ausência de estruturas sanitárias adequadas impossibilitava sua distribuição eficiente às populações afetadas.

À época, uma posição controversa na conferência foi assumida pelo então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. Ele sustentou a teoria, aventada por alguns cientistas, de que a AIDS não é causada pelo HIV. Em consequência, combateu a utilização das terapias recomendadas pela maioria esmagadora da comunidade científica, recusou a administração da droga AZT às mulheres grávidas infectadas com o HIV para prevenir a transmissão de AIDS aos seus filhos e convidou vários cientistas “dissidentes” para compor uma comissão estatal de prevenção e combate à doença.

Na abertura da conferência, Mbeki afirmou que não se poderia atribuir toda a culpa apenas a um simples vírus e sustentou que a pobreza era o fator mais importante. Apesar das críticas da maioria dos delegados, não restava dúvida de que a miséria reinante aumentava a disseminação da moléstia e agravava a situação dos doentes. Dos cinco milhões de infectados à época na África do Sul, somente vinte mil recebiam tratamento, e o atendimento era precário, pois o país não tinha verbas para comprar remédios, nem a infraestrutura necessária para distribuí-los.

Entre outros absurdos, Thabo Mbeki já disse publicamente que duvidava haver qualquer relação entre o vírus HIV e a AIDS, além de dizer que nunca conheceu ninguém que tenha morrido vítima do vírus.

Mas a ignorância em relação ao assunto não para por aí. Em 2006, o ex-vice-presidente da África do Sul, Jacob Zuma, respondendo à acusação de estuprar uma portadora do HIV, disse em depoimento que tomou uma ducha após a relação sexual com a intenção de diminuir a chance de contrair o vírus causador da AIDS. O ex-vice-presidente da África do Sul acredita que o banho é “uma das coisas que minimizariam o contato com a doença”.

A maior dificuldade no combate à AIDS no continente africano é cultural. Os africanos consideram tabu a educação sexual e têm resistência a falar sobre sexo e aparelho genital, dificultando as campanhas educacionais de consciência e prevenção da doença. Duas exceções positivas iluminam o quadro geral: desde 1990, o então presidente de Uganda, Yowei Kaguta Museveni, liderou um programa nacional de educação sexual e prevenção da AIDS, que obteve grandes resultados no combate à disseminação da moléstia. O pequenino Senegal conseguiu obter a colaboração de seus líderes religiosos e isentou de impostos a venda de preservativos, realizando ao mesmo tempo uma grande campanha de conscientização sobre os meios de evitar o contágio. Como resultado, apenas 0,5% dos adultos senegaleses está infectado, uma proporção extremamente baixa para a região e até mesmo para outros locais.


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