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Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho
 
 
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 UM AUTOR CLÁSSICO E ATUAL
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Machado de Assis é tido, consensualmente, como o maior escritor brasileiro

Atualmente, Machado de Assis é tido, consensualmente, como o maior escritor brasileiro. Sua obra é alvo de estudos tanto no Brasil quanto em outros países. Para se ter uma idéia de sua importância basta citar o famoso crítico norte-americano Harold Bloom, o qual afirma que Machado de Assis “é o maior literato negro, creio, da história da literatura universal”.

Também conhecido como “Bruxo do Cosme Velho”, Machado passou, nas últimas décadas, a ser reconhecido também mundialmente. Hoje sua obra está traduzida para o inglês e, além de Harold Bloom, críticos como Susan Sontag, John Gledson, Michel Wood e Alberto Manguel o colocam entre os grandes da literatura mundial.

Em 1990, apresentando uma nova edição das Memórias póstumas, em inglês, Susan Sontag (1933-2004) se dizia “espantada ao ver que um escritor dessa grandeza ainda não ocupa o lugar que lhe cabe”.

Sua obra, campo inesgotável de estudos, surpreendente pelo tratamento sofisticado dado à questão dos conflitos de classe, à corrosão das instituições e aos padrões culturais da época — uma sociedade escravista, patriarcal e decadente.

De certa forma, os romances, contos e os textos jornalísticos de Machado de Assis são um ótimo retrato da agonia do império na vida brasileira e o surgimento de uma República já carcomida por preconceitos e imensa desigualdade social.

O Bruxo do Cosme Velho construiu uma obra insuperável em seu conjunto, e, em função do experimentalismo de obras como Memórias póstumas de Brás Cubas, acima das correntes literárias de seu tempo. Segundo o poeta Manuel Bandeira (1886-1968), “nenhum escritor o sobrepuja na harmonia de todas as qualidades, que faz dele nosso clássico por excelência”. Já o crítico literário Alfredo Bosi afirma que “o ponto mais alto e mais equilibrado da prosa realista brasileira acha-se na ficção de Machado de Assis”. Assim, não é difícil entender porque seus livros têm ganhado cada vez mais atenção da crítica literária estrangeira.

Seus textos literários, marcados pela observação da vida exterior e de análise psicológica —recursos constantes no trabalho de famosos escritos atuais — dão à obra machadiana intensa atualidade. Sua literatura é arte atenta a pormenores e sutilezas. Com estilo limpo, cheio de humor e reflexão, suas construções formam as mais belas, inteligentes e interessantes páginas da nossa literatura.

A dúvida, a indecisão, o logro e a loucura são temas característicos de seus romances. O agravamento de sua doença, a epilepsia, mal que, latente na infância, acentuou-se por volta dos quarenta anos, talvez fosse o motriz desse ceticismo radical e incurável.

Sutil e reticente, Machado examina a precariedade da condição humana e destila, vagaroso e implacável, seu fel contra a vida e os homens. Seus personagens são sempre estranhos e contraditórios, alguns deles são de notável estatura e precisão literária, como é o caso de Capitu, símbolo da dissimulação; Virgília, imagem da inconseqüência e da leviandade; Flora, que morre vítima de sua própria contradição interior; Brás Cubas, a quem o absurdo da existência leva ao delírio; Rubião, condenado à loucura por pureza e ingenuidade; e o Conselheiro Aires, encarnação da finura, do humorismo sutil — flor sarcástica do pensamento de seu criador.

O último grande passo de Machado de Assis ao reconhecimento mundial foi sua entrada na obra Gênio: os cem autores mais criativos da história da literatura, de Harold Bloom.

Segundo Bloom, “quando li Memórias póstumas de Brás Cubas, na tradução inspirada de Gregory Rabassa, percebi sua grandeza e o examino em Gênio. Vejo nele uma ponta do ouvido trágico shakespeariano. Dom Casmurro, na igualmente inspirada tradução de John Gledson, revela a fina ironia desse autor. Em Brás Cubas, vê-se que ele é possuído até as entranhas pelo Stern [1713-1768] de Tristram Shandy, o que em nada diminui a sua originalidade, mas o liberta do jugo das pressões puramente nacionalistas. Fui definitivamente fisgado por Machado de Assis e leio cada uma das suas frases com júbilo. Considero-o um milagre, diante das circunstâncias em que viveu, neto de escravos num país em que a abolição só veio em 1888, uma prova da autodeterminação do gênio e da arte. Brás Cubas, ao observar que Moisés, suposto autor do Torá [livro sagrado dos judeus], fala de sua morte no final, inverte o procedimento da escritura. Narra do túmulo, do ponto de vista da eternidade, sobre a qual nada nos diz, pois nada há a dizer. Morre sem queixas ou remorso, apenas com o sentimento de que termina o jogo como vencedor. Como não teve filhos, não transmite um legado de misérias. O seu balanço é ‘o de uma negação a mais nesse capítulo de negatividades’. Oblívion — ou o esquecimento —, aquilo que também enfrentarei muito em breve, em Machado de Assis singularmente nos diverte e se converte em entretenimento”.