ENTENDER O MUNDO/BIOGRAFIAS
Cervantes, o Quixote das letras
 
 
Entenda Compreenda Enciclopédia Século XXI Teste
    ARTIGO      
 O ETERNO CAVALEIRO ERRANTE
Imprimir Enviar Guardar
 
 
 
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, estabelecida em 1789

A figura de Dom Quixote é associada no imaginário coletivo com a loucura, a fantasia, o ridículo, o exagero, a bondade e a nobreza de sentimentos. Mas, acima de todas essas coisas, sempre empenhado em “desfazer injustiças”, o Cavaleiro da Triste Figura encarna uma visão idealista que, a despeito da realidade, luta por valores fundamentais como a justiça e a solidariedade.

Sua história é influência certa em muitos outros escritores. Quase todos os autores que vieram depois de Cervantes pagaram algum tipo de tributo à obra-prima Dom Quixote.

Dessa enorme lista podemos sacar exemplos que vão desde o Policarpo Quaresma de Lima Barreto (1881-1922), até os personagens de Ítalo Calvino (1923-1985) e Paul Auster. Aliás, este último, em seu livro Trilogia de Nova York, constrói um personagem que afirma: “Na minha opinião, Dom Quixote estava pondo em prática uma experiência. Queria testar a credulidade dos companheiros. Seria possível, ele se perguntava, se apresentar de peito aberto diante do mundo e, com a maior convicção, cuspir as maiores mentiras e absurdos? (...) Em outras palavras, até que ponto as pessoas tolerariam blasfêmias se elas lhes proporcionassem diversão?”.

Montado em seu Rocinante, adarga (espécie de escudo de couro) ao braço, acompanhado pelo sensato Sancho Pança, o Quixote cavalga sem desmaios nem renúncias rumo à utopia. No final do século XX e início do XXI, quando algumas vozes proclamam o fim das ideologias e mesmo da história, o engenhoso fidalgo se mostra como uma promessa de futuro.

Contra a desesperança da pós-modernidade, a violência incontrolada e o individualismo fomentado pela desestruturação da sociedade tradicional, o Quixote não deixa de arremeter contra os moinhos de vento, cujos “braços de gigante” hoje são agitados por furacões nunca dantes imaginados.

No tempo de Cervantes, o ideal do homem renascentista trazia em si o sonho de um mundo melhor. Alguns séculos depois, porém, tal o modelo de progresso, de fé na ciência, de democratização da sociedade e o respeito às normas de convivência, bandeiras que, em 1789, a Revolução Francesa tentou sintetizar na Declaração dos Dereitos do Homem e do Cidadão, ainda esperam se cumprir. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as Nações Unidas proclamaram os direitos humanos como um compromisso universal, subscrito por todos os países.

Contudo, em meio a graves mudanças geopolíticas e, principalmente, em função do cada vez mais terrível poder de destruição das guerras, renascem de suas cinzas os velhos fundamentalismos, o racismo e a xenofobia, se aprofunda a diferença entre ricos e pobres e a miséria e a marginalidade campeiam por todo planeta. A própria vida de Cervantes representa uma rica parábola, na qual a batalha de Lepanto e a demolição da Armada Invencível, por um lado, e a criação literária por outro, marcaram os limites entre o desengano e a glória da dura vida de um dos maiores autores da literatura mundial.

A morte de Cervantes constitui um final pleno de simbolismo: pobre entre os pobres, sem deixar dinheiro algum para seus familiares, o autor do Quixote teve como herdeira toda a humanidade que o sucedeu. Essa foi, finalmente, sua imortal quijotada.