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Stephen Hawking morre aos 76 anos
 
 
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 UMA TEORIA DO TODO
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A física quântica descreve o mundo do muito pequeno. Na foto, o átomo e seus componentes

Durante a conferência na qual Hawking assumiu a cátedra Lucasiana de matemática da Universidade de Cambridge — a qual ele pronunciou com grande dificuldade em 1979 —, Hawking se mostrou convencido de que a física chegaria a seu fim num prazo de vinte anos. Uma vez terminado esse prazo, Hawking foi interrogado sobre essa questão e afirmou que mantinha a mesma aposta, mas que o relógio começaria a contar a partir do momento em que a pergunta havia sido feita. Essa não foi a primeira vez que um físico defende o final dessa disciplina.

No final do século XIX, muitos físicos acreditavam que as únicas coisas relevantes que poderiam ser feitas em física consistiam exclusivamente em chegar a novos decimais — aumentando desse modo a precisão — das constantes conhecidas. A física se via como um edifício sólido ao qual faltavam apenas alguns acessórios e, por esse motivo, muitos professores aconselhavam os alunos que estudavam física a transitarem nas ciências em que haviam campos mais extensos para serem investigados. Durante o século XX, tanto a física relativista como a física quântica fizeram voar em pedaços todos os conceitos fundamentais que sustentavam a aparentemente sólida estrutura clássica e os tais professores que desacreditavam da física acabaram ridicularizados.

Esse erro gigantesco não impediu outros físicos a fazer o mesmo equivocado prognóstico. O vaticínio mais famoso ficou por conta de Max Born (1882-1970), que, em 1920, afirmou que a física chegaria a seu final em apenas seis meses. Essas expectativas se viram frustradas quando logo em seguida à previsão de Born foram descobertas novas partículas e uma nova classe de relações entre elas. A abertura dos novos campos de exploração diminuiu consideravelmente as chances do surgimento de uma improvável teoria final e definitiva.

Apesar de todos os vaticínios equivocados do passado, Hawking acredita que a teoria final será formulada em breve. O sonho de todo grande físico é encontrar uma teoria definitiva que também recebe o nome de “teoria total”. Hawking dedicou boa parte de seus esforços na criação de tal teoria, a qual busca unificar as leis que regem o mundo do muito grande, o universo, com as lei que regem o mundo do muito pequeno, os átomos e as partículas que os constituem. Essa teoria removeria os fundamentos de todas as ciências já que nelas existem relações intrínsecas que permitem pensar na existência de um tronco comum.


A UNIDADE DO CONHECIMENTO
A questão final da física está muito ligada ao problema da unidade do conhecimento. Os fenômenos biológicos são explicados por processos químicos — a química orgânica não é mais que a química do carbono — e a química, por sua vez, se torna compreensível a partir das leis físicas que regem o comportamento das partículas.
Se for criada uma teoria capaz de explicar a formação das partículas elementares e as interações que ocorrem entre elas, será possível utilizar esse conhecimento em todas as ciências.

Quando aumenta a complexidade de um sistema, emergem características que não podem ser reduzidas a preceitos básicos. Para dar um exemplo muito simples disso: as propriedades da molécula da água não podem ser explicadas a partir dos átomos de hidrogênio nem dos de oxigênio que a compõem, mas pelo enlace entre esses dois átomos. Por esse razão, um biólogo não necessita conhecer com exatidão as leis da física, apesar de esses processos se darem sobre as leis da física. Do mesmo modo, as equações fundamentais não se referem ao comportamento de sistemas complexos, mais permitem que nós possamos entendê-los melhor.


PRINCÍPIO ANTRÓPICO
Uma das características das teorias existentes na atualidade é sua capacidade para determinar o valor de algumas constantes fundamentais. O problema se encontra no fato de que, se alguns desses valores fossem diferentes — por exemplo, a massa de próton ou a velocidade da expansão do universo —, não existiriam nem estrelas nem galáxias.

Essa constatação levou alguns cientistas a criarem o princípio antrópico, segundo o qual o valor das constantes é o que é pelo simples fato de nós existirmos. Esses valores não se deduzem, mas se escolhem — tal como explica Hawking — para que possamos criar modelos de universo compatíveis com a aparição da vida. Mais que um princípio científico, Hawking entende que esses fatores são um ponto de vista conformista e inaceitável para um cientista. Para ele, devemos encontrar uma teoria da qual se deduzam inevitavelmente o valor dessas constantes. Por essa razão, uma teoria unificada deve explicar “as condições do universo e dos valores dos distintos parâmetros físicos”.

Uma teoria com tais características deve ser capaz, ao mesmo tempo, de unificar as quatro forças fundamentais que existem na atualidade e convertê-las em diferentes manifestações de uma única realidade. Também deve conseguir deduzir tanto a teoria da relatividade como a física quântica.


FORÇAS DA NATUREZA
A física relativista e a física quântica — que são utilizadas na atualidade para o conhecimento do universo e do átomo, respectivamente — são irreconciliáveis, ainda que complementares. A relatividade permite entender a interação gravitacional, enquanto que a física quântica se aplica a outras três interações conhecidas: a força nuclear forte, a força nuclear fraca e a força eletromagnética. Ainda que possa parecer surpreendente, a força gravitacional é a mais fraca de todas as forças e atua sobre todas as partículas do universo. A força nuclear forte, por sua vez, explica, por exemplo, porque os prótons e os nêutrons se encontram condensados no núcleo atômico. É uma força de grande intensidade, pois do contrário os átomos não seriam estáveis.

A força nuclear fraca é a causadora de alguns processos de desintegração atômica cujos efeitos se encontram na radioatividade. A força eletromagnética, por último, aparece entre corpos dotados de carga.

O grande esforço dos físicos atuais está voltado para a criação de uma teoria que sintetize todas essas forças, de tal modo que se mostrem como diferentes expressões de uma única e mesma realidade mais básica. Para Hawking, tal teoria está prestes a surgir.