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Gil Gomes
 
 
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 O GRANDE CRONISTA POLICIAL BRASILEIRO
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A década de 1990 foi um momento particular para a televisão brasileira. Com o processo de reabertura democrática em curso desde o final da década de 1980, os meios de comunicação experimentavam uma liberdade que havia sido em grande parte tolhida devido às limitações impostas pelo regime militar.

Nesta época de transformações e inovações, vários programas surgiam, e um se notabilizou pelo tom extravagante que assumiu desde o princípio: o telejornal Aqui Agora, transmitido, entre 1991 e 1997, e depois em 2008, pelo SBT nos finais de tarde durante a semana. Apoiando-se no sensacionalismo, o jornal sempre primou pelas reportagens policiais, estando sempre muito próximo das ocorrências. Nesse contexto, fez importantes coberturas do Massacre do Carandiru, em 1992, do assassinato da atriz Daniela Perez, no mesmo ano, assim como da morte de Ayrton Senna, em 1994.

Entre as figuras famosas que passaram pelo jornal, estão o hoje deputado Celso Russomano, o apresentador César Tralli, o cronista esportivo Roberto Cabrini, o ex-deputado Enéas Carneiro (falecido em 2007), bem como o cronista policial Gil Gomes.

Gil Gomes já era um importante jornalista, com mais de 20 anos de carreira nas rádios, quando foi convidado a integrar a equipe que realizaria o telejornal do SBT, cujo interesse era produzir um material jornalístico que pudesse concorrer os telejornais da Rede Globo, mas seguindo uma linha mais descontraída e popular. Neste sentido, as entradas no ar de Gil Gomes se tornaram famosas pelo seu tom de voz arrastado, suas frases curtas, seu vestuário chamativo e o gestual característico, que o próprio repórter explicou certa vez ter surgido por não saber o que fazer com a mão esquerda, enquanto a direita segurava o microfone. Por essas razões, tornou-se uma personagem muito imitada em programas humorísticos, embora tivesse toda uma séria carreira investigativa antes dessa fase.


INFÂNCIA, ADOLESCÊNCIA E O INÍCIO DA CARREIRA

Cândido Gil Gomes Júnior nasceu em 13 de Junho de 1940 na cidade de Sorocaba, mas muito cedo mudou-se para a capital paulista, indo com a família residir no bairro da Mooca, famoso pela grande presença de imigrantes italianos. Em virtude desta precoce mudança, muitas vezes o próprio jornalista afirmava ter nascido em São Paulo, quando na realidade era originário do interior. Era filho de um imigrante português, que havia chegado ao Brasil com quatro anos de idade. Gil narrou certa vez, em uma entrevista, que desde muito cedo, seu pai sentava-se a cama e lia para ele, autores portugueses como Eça de Queirós ou Alexandre Herculano, além de contar os grandes feitos lusitanos ao longo da história. Tinha admiração pela cultura portuguesa, e também por influência de seus familiares, tornou-se muito cedo torcedor da Associação Portuguesa de Desportos, time pelo qual torceu até o final da vida. Uma grande frustração, exposta pelo repórter, foi a de nunca ter visto seu time ganhar um Campeonato Paulista. O fato até ocorreu em 1973, em uma polêmica decisão da Federação Paulista de Futebol, que dividiu o título daquele ano entre a Portuguesa e o Santos. Isso ocorreu pois a decisão do título havia ido para as cobranças de pênaltis e o juiz encerrou antecipadamente, retirando da Portuguesa a oportunidade de realizar duas cobranças. Quando foi informado do erro, o árbitro tentou retomar as cobranças, mas já era tarde demais, pois os atletas da Portuguesa já haviam se retirado do estádio. Dessa forma, como maneira de reparar o erro, a FPF declarou as duas equipes como campeãs, mas isso nunca foi plenamente aceito pelo jornalista.

Quando criança, vendia balas e santinhos na porta de uma igreja, tornando-se mais tarde membro da própria congregação. Nesta época, sofria de gagueira, e o caminho que encontrou, aos 11 anos, para superar tal dificuldade, foi imitar os jornalistas esportivos que acompanhava pelas rádios. Superado a gagueira, e com a voz grave e potente, Gil Gomes começou a trabalhar como locutor nas quermesses da igreja que frequentava, despertando a paixão pela comunicação. Inclusive, foi em uma quermesse que Gil Gomes foi observado e convidado a integrar a equipe da Rádio Progresso, na qual ingressou como locutor esportivo. Começava então, sua carreira de radialista, tendo passado posteriormente por diversas outras emissoras, tanto na capital, quanto no interior do estado, como as rádios Capital, Tupi, Record e Globo, mas a emissora que mais marcou sua trajetória foi a Rádio Marconi de São Paulo.


RÁDIO MARCONI DE SÃO PAULO

A Rádio Marconi de São Paulo foi criada em 1962, tornando-se conhecida, na época, como a “rádio dos trabalhadores”. Era um período de intensas mobilizações populares e acirramento das tensões políticas, em meio ao governo populista de João Goulart e ao clima internacional da Guerra Fria. A Rádio Marconi se destacou nesse meio, e posteriormente teve jornalistas presos durante o regime militar, por conta das duras críticas que a emissora fazia ao governo da época. Em 1974, a Rádio Marconi teve sua concessão de operação em ondas médias cassada pelo Ministério das Comunicações, em meio ao clima de repressão política que ocorria no regime militar. Cinco anos mais tarde, em 1979, os representantes da extinta rádio entraram com uma ação na Justiça pedindo indenização pelos danos causados pelo fechamento da emissora, em uma ação possível em virtude da revogação do Ato Institucional número 5, que possibilitou o retorno da livre manifestação aos brasileiros. Esse processo correu até 1989, quando foi dado ganho de causa à rádio, que alegava perseguição política e com isso, o prejuízo pelo fechamento da mesma, mas o valor estipulado da indenização tornou-se outro problema. Em 2014, o Ministério Público Federal em São Paulo determinou que o valor estipulado de indenização, mais de 1,5 bilhão de reis, era improcedente e apontou falha técnica dos peritos que haviam analisado o caso. Ao final, ficou decidido que o valor a ser indenizado à rádio seria de 351 mil reais, uma vez que a licença da emissora fora cassada 36 dias antes de sua expiração, devendo esse valor cobrir o prejuízo dos equipamentos apreendidos e os danos morais, mas não abarcando os lucros cessantes com a cassação, uma vez que não há certeza de que a rádio continuaria a funcionar após o fim de sua licença.

Foi nessa rádio que, em 1968, de maneira casual, Gil Gomes foi informado sobre um caso de agressão sexual no próprio prédio onde trabalhava, e fez a cobertura do caso ao vivo, ingressando assim, no universo da reportagem policial. De acordo com relatos da época, esta cobertura feita pelo repórter levou a rádio a bater recorde de audiência. Nessa emissora, além de se iniciar como repórter policial, Gil Gomes também assumiu a chefia, sendo preso mais de 30 vezes, além de ver a rádio ser retirada do ar em muitas ocasiões pelas críticas que fazia ao trabalho da polícia, postura que não era tolerada pelo regime militar. Entretanto, devido à boa relação que possuía com os policiais, e por ter auxiliado na investigação e resolução de muitos casos, Gomes acabava sempre liberado da cadeia.

Pouco depois de iniciar sua carreira de repórter policial, Gil Gomes se confrontou com aquele que seria o caso mais marcante de sua vida: o assassinato de um menino de 5 anos chamado João Alexandre Alves Ferreira, morador de rua, cujo corpo foi jogado em um campo de mamonas, na Vila Carrão, em SP, no ano de 1969. Gil afirmava ter trabalhado nesta investigação ao longo de 10 anos, sem nunca ter conseguido concluir o caso. Dizia que sabia quem era o assassino, mas não tinha as provas que pudessem incriminar o suspeito, e não obteve o apoio da polícia para aprofundar as investigações, o que levou o caso a ficar inconcluso.


OS ANOS 70 E 80

Na década de 1970, Gil Gomes reinou absoluto nas rádios, tendo sido de 1972 a 1983, líder de audiência na cidade de São Paulo. Com seu programa matinal, no qual narrava de maneira bastante teatral os casos policiais que lhe chegavam às mãos, Gomes conseguiu ter, durante este período, uma média de quase um milhão de ouvintes por dia, que provinham das mais variadas classes sociais.

O horário das 7 às 11 horas da manhã eram cada vez mais invadido por programas policiais que se esmeravam em transformar pequenos delitos em grandes crônicas. Foi neste período que outro grande nome do rádio começou a despontar e fazer uma séria concorrência com Gil Gomes: o jornalista (e depois deputado) Afanásio Jazadji, que adotou também uma postura bastante característica para narrar os crimes que noticiava, utilizando termos ofensivos para se referir aos criminosos e zombando dos mesmos quando eram presos. Jazadji sempre deu a si, o crédito de haver cunhado o termo “trombadinha”, para se referir aos menores de idade que praticavam furtos nas ruas de São Paulo, e tornou-se um grande concorrente de Gil Gomes. A concorrência, de acordo com declarações de ambos, nunca os levou a se tornarem adversários, mas sim amigos. Jazadji narrou em uma entrevista, em 2018, que havia um acordo entre ele e Gomes: que ao final de cada mês, aquele que tivesse a maior audiência acumulada nos últimos trinta dias deveria ganhar um almoço ou um jantar pago pelo outro. Em agosto de 1983, Afanásio Jazadji bateu o recorde absoluto de audiência nas rádios, com mais de um milhão de ouvintes por minuto, número nunca mais superado em nenhuma transmissão. Por ocasião deste feito, Jazadji recorda que ao final daquele mês, Gomes reconheceu a derrota e disse que, deveria lhe pagar um almoço e um jantar, demonstrando a profunda relação de cordialidade desenvolvida entre os radialistas. Estes, ao lado de Ney Gonçalves Dias, figuram entre os três grandes nomes do jornalismo policial do rádio brasileiro.


A MIGRAÇÃO PARA A TELEVISÃO

Gil Gomes estreou na televisão no programa Aqui Agora, transmitido pelo SBT entre os anos de 1991 e 1997, quando atingiu grande sucesso, precisando ter duas edições diárias. O tom do programa seguia a linha criada pelo programa Cadeia, apresentado na Rede OM por Luiz Carlos Alborghetti, que também era radialista. A intenção da emissora, ao lançar o Aqui Agora, era de concorrer com o jornalismo da Rede Globo, mas adotando uma linha mais leve e popularesca, que contrastasse com a seriedade dos jornais da concorrente.

Neste contexto, a migração de Gil Gomes do rádio para a televisão era uma aposta na conquista do público já acostumado com suas narrações de crônicas policiais. No entanto, o jornalista sentiu-se um pouco desconfortável no início de suas aparições na televisão, pois dizia que o rádio dava maior liberdade para trabalhar com a imaginação do ouvinte, enquanto a televisão mostrava a imagem já pronta. Além disso, caracterizou-se pelo uso de camisas chamativas, além do gestual característico que fazia com a mão esquerda, que se tornaram suas marcas registradas, e muitas vezes imitadas.

Em sua atuação pelo jornal do SBT, Gomes participou da cobertura de muitos eventos importantes tal como a repressão à rebelião do Carandiru em Outubro de 1992. Em uma de suas últimas entrevistas, Gil Gomes relembrou este acontecimento, que sempre denominou como um massacre das forças policiais contra os detentos. O jornalista também afirmou que foi quem descobriu a proporção da chacina que havia acontecido, narrando que ao saber da rebelião, dirigiu-se ao presídio, onde não conseguiu grandes informações. Então, foi para o IML de São Paulo, local que comumente tinha acesso liberado, mas na ocasião, foi impedido de entrar e ficou intrigado com a situação. Optou por esperar em um estabelecimento comercial ao lado do IML para conseguir mais informações, no que foi bem sucedido ao se encontrar com um auxiliar de legista, que reclamava da imensa quantidade de trabalho daquele dia. Após pagar um lanche para este auxiliar e levar alimentação para os demais funcionários do IML, Gil Gomes conseguiu adentrar o lugar e, pelo que declarou, encontrou empilhados ao menos 250 corpos, sendo que vários já haviam saído anteriormente. A partir desta descoberta, a informação rapidamente se espalhou por diversos meios de comunicação, levando à Secretaria de Segurança a admitir que havia acontecido o confronto, mas que o número de mortos seria de 111 detentos, quantidade que o jornalista sempre atacou como incorreta e que apenas buscava diminuir o tamanho da tragédia que havia acontecido naquele presídio.

Naquele ano de 1992, ainda dois outros acontecimentos tiveram ampla cobertura do jornal: o assassinato da atriz Daniela Perez, aos 22 anos, por seu colega de profissão Guilherme de Pádua, evento que contou com uma cobertura bastante ativa do jornalista e, no mesmo dia, mas não ligado à crônica policial, a renúncia do presidente Fernando Collor de Melo, em uma manobra para tentar escapar do processo de impeachment. Dois anos depois, Gil Gomes fez a cobertura do acidente que levou à morte do piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna, acontecimento que causou grande comoção no país como um todo, levando o piloto inclusive a ser homenageado pela Seleção Brasileira de Futebol na conquista do tetracampeonato mundial naquele mesmo ano de 1994.


O FINAL DA CARREIRA E SEU FALECIMENTO

Gil Gomes permaneceu no telejornal até sua saída do ar em 1997, trabalhou na Rede Record, depois voltou ao SBT e encerrou sua carreira na televisão em 2005, quando se afastou para o tratamento do Mal de Parkinson. Gomes afirmou certa vez, em uma entrevista, que seu médico disse, que o desencadeamento desta doença poderia ter sido causado por um fator emocional, pois em fevereiro de 2000, o jornalista perdeu seu filho de 30 anos, vítima de uma forma grave de hepatite. Permaneceu longe das câmeras até 2014, quando apareceu em um programa do apresentador Geraldo Luiz, concedendo uma longa e importante entrevista, na qual fez um balanço de sua carreira.

Em 2016, voltou a trabalhar na televisão, contratado pela TV Ultrafarma, fazendo apresentação de programas e comentários diversos, embora já estivesse com a saúde debilitada. Gil Gomes foi tabagista durante muitos anos, chegando em um determinado momento a fumar quatro maços de cigarros por dia, o que pode ter colaborado para o desenvolvimento do câncer de fígado que o acompanhou em seus últimos anos de vida. Na noite de 15 de Outubro de 2018, o jornalista passou mal em casa e chegou a ser atendido por uma equipe do SAMU, foi levado ao hospital, onde faleceu na manhã do dia seguinte. Deixou viúva sua segunda esposa, Eliana, com quem teve duas filhas, além de um filho e uma filha de seu primeiro casamento. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, produziu uma enorme quantidade de crônicas policiais, que inclusive tornaram-se livros e fazem parte até hoje da memória da imprensa brasileira, que teve em Gil Gomes um de seus maiores nomes.


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