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Beth Carvalho
 
 
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 ELIZABETH SANTOS LEAL DE CARVALHO
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Ou simplesmente Beth Carvalho, foi uma cantora e compositora brasileira de samba.

Filha de João Francisco Leal de Carvalho e Maria Nair Santos, ela tinha uma única irmã, Vânia Santos Leal de Carvalho. Seus pais tiveram grande influência em sua formação artística. Da mãe, herdou o gosto pela cultura moderna. Quando adolescente, dedicou boa parte de seu tempo a assistir filmes da Nouvelle Vague, que foi um movimento contestatório do cinema francês nos anos 1960, cujas principais características eram: retratar o amor livre e a vida de personagens típicos daquele período. Também por influência da mãe, conheceu a música de artistas como: Elizeth Cardoso, Sylvia Telles, Dolores Duran e Doris Monteiro. Tais nomes representam um pouco da transição do samba para a bossa nova.


Beth Carvalho.
Foto: TVBrasil por VisualHunt.

Seu pai também teve grande influência na formação cultural de Beth Carvalho. O funcionário da alfândega e militante e defensor veemente de Getúlio Vargas e Leonel Brizola (o que lhe rendeu o apelido de “João das Guerrilhas”), sempre se interessou por política e música brasileira. Amigo de Silvio Caldas (o cantor e compositor brasileiro, cujo maior sucesso foi “Chão de Estrelas” (1937), em parceria com Orestes Barbosa), João Francisco Leal de Carvalho sempre teve a casa cheia de artistas. Foi por meio de Silvio Caldas que Elizabeth Cardoso foi uma vez a sua casa. Segundo a própria Beth Carvalho, foi nesse dia que ela decidiu que seria cantora.

Além das ilustres visitas, a própria família tinha uma veia artística. Sua avó Ressú tocava bandolim e violão, sua mãe tocava piano clássico e sua irmã cantava (chegou, inclusive a gravar alguns discos de samba).

Ainda sobre a sua formação, vale mencionar que Beth Carvalho fez balé ao longo de toda a sua infância e estudou violão ainda na adolescência (após ganhar o instrumento de sua mãe). Chegou, inclusive, a dar aulas. Morou em vários bairros do Rio de Janeiro e ia aos ensaios das escolas de samba com frequência, levada pelo pai. Podemos dizer que a cantora Beth Carvalho é fruto de todas essas influências: da arte moderna da Nouvelle Vague, dos artistas que iam à sua casa e dos ensaios das escolas de samba. Junta-se a isso, a paixão que adquiriu pela bossa nova, gênero que passou a gostar depois de ouvir João Gilberto.

Em 1964, seu pai foi cassado pelo golpe militar, devido à sua ideologia de esquerda, e acabou preso e demitido de seu emprego na alfândega. Curiosamente, esse triste caso de perseguição política sofrida pelo seu pai, fez com que Beth se inclinasse ainda mais para a música de maneira profissional. Sua família, que vivia de maneira confortável, precisou se virar. Para ajudar nas contas da casa, ela retomou as aulas de violão, dessa vez para quarenta alunos.

O interesse pela política de seu pai também teve muita influência na construção da artista Beth Carvalho. Ela se manteve sempre engajada em movimentos sociais, políticos e culturais brasileiros. Um exemplo foi a conquista, em parceria com o cantor Lobão (e outros artistas) da numeração de discos (algo inédito no mundo, naquele momento).

Em 1979, Beth casou-se com o futebolista Édson Cegonha, com quem teve sua única filha, a atriz e também cantora, Luana Carvalho. O jogador, que foi revelado pelo Bonsucesso, teve sua carreira marcada principalmente por clubes paulistanos, jogando nos três clubes grandes da capital: Corinthians, São Paulo e Palmeiras. Pouco tempo depois do nascimento da filha, eles se separaram.

O futebol sempre foi uma paixão de Beth Carvalho. Torcedora do Botafogo, poucas personalidades da música brasileira demostravam tamanho apego ao seu time como Beth. Sua família toda era botafoguense. Seu pai chegou a remar pelo clube. Após o título carioca de 1989, Beth Carvalho gravou uma música feita em homenagem ao clube, chamada Esse é o Botafogo que eu gosto (composição de Elias da Silva e Pedro Russo). Além disso, é ela que dá voz (juntamente com Ed Motta, Claudio Zoli e Eduardo Dusek) para o hino do Botafogo (composição de Lamartine Babo) no disco “Os Hinos dos Grandes Clubes Brasileiros”, editado pela revista Placar.


CARREIRA

Beth Carvalho iniciou sua carreira profissional ainda muito ligada à bossa nova, em meados dos anos 60. Em 1965, gravou o seu primeiro single com a música Por Quem Morreu de Amor (composição de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli). Neste mesmo período, ela gravou com o músico Taiguara, pela gravadora EMI-Odeon. Em 1966, participou do show A Hora e a Vez do Samba, juntando-se a grandes nomes do samba como, por exemplo: Nelson Sargento e Noca da Portela. Destaca-se ainda sua participação no movimento Musicanossa. O movimento, que surgiu em 1967, fundado pelo jornalista Armando Henrique e seu parceiro de músicas Hugo Bellard, visava reunir os grandes nomes da bossa nova. Foi nesse contexto que Beth pode gravar uma de suas primeiras composições, O Som e o Tempo, que integrou uma das coletâneas da Musicanossa. Outro ponto que foi fundamental no início de sua carreira diz respeito aos festivais. Beth participou de quase todos, dentre eles: Festival Internacional da Canção (FIC), Festival Universitário, Brasil Canta no Rio, etc.

Foi com a conquista do 3º lugar no FIC, com Andança (composição de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi), que ela ficou conhecida em todo o país. Andança é também o título de seu primeiro disco, lançado em 1969. A partir de 1973, ela passou a gravar um álbum por ano, emplacando uma série de sucesso como: 1800 Colinas, Saco de Feijão, Olho por Olho, Coisinha do Pai, Firme e Forte, Vou festejar, Acreditar, Mas Quem disse que Eu te Esqueço, etc.

Um dos aspectos que marcou a carreira de Beth Carvalho é a sua capacidade e desejo de resgatar e revelar compositores do samba. Ela fez isso em 1972, quando chamou Nelson Cavaquinho para a gravação de Folhas Secas e mais uma vez, em 1975, quando gravou As Rosas Não Falam, de Cartola. Com acesso livre nos principais pagodes do Rio de Janeiro (como o bloco carnavalesco Cacique de Ramos, que é um dos mais conhecidos e tradicionais blocos de carnaval do Rio de Janeiro), ela conhecia como poucos os chamados compositores do povo, e revelou artistas como: Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Bezerra da Silva, etc. Por tudo isso, ela recebeu o apelido de “Madrinha do Samba”. Além disso, ajudou a trazer novos ares para o samba, introduzindo em seus shows e discos instrumentos como o banjo, o tantã, o repique de mão, que até então eram usados apenas nos pagodes do Cacique.

A partir de então, sua carreira só cresceu, expandindo-se internacionalmente. Foram 51 anos de carreira, 31 discos, 2 DVDs e apresentações em diversas cidades do mundo. Falando de prêmios, ela recebeu seis Prêmios Sharp, 17 Discos de Ouro, 9 de Platina, um DVD de platina. Sua carreira foi mesmo marcada por homenagens, troféus e premiações. Em 1984, Beth Carvalho foi tema do enredo da Escola de Samba Unidos do Cabuçu, com o título “Beth Carvalho, a enamorada do samba”. A escola se sagrou campeã daquele ano e subiu para o Grupo Especial. Outro detalhe é que, como o Sambódromo havia sido inaugurado naquele ano, Beth e a Cabuçu foram as primeiras campeãs do Sambódromo. Em 1985, Beth também foi enredo para o carnaval, desta vez para a Escola de Samba Boêmios de Inhaúma.

Em 1997, um fato inusitado. Um dos seus grandes sucessos, Coisinha do Pai, foi tocada em Marte. A história foi a seguinte: a cada dia, eram enviadas várias músicas da Califórnia para Marte, com o intuito de “acordar” o robô Sojourner, para que ele começasse o seu trabalho. O robô fazia parte da missão Mars Pathfinder, desenvolvida pela Nasa (agência Espacial dos Estados Unidos). Em um desses dias, a engenheira carioca Jacqueline Lyra, que era funcionária da Nasa, escolheu o samba que foi eternizado na voz de Beth Carvalho (a versão que foi executada no espaço, porém, foi uma interpretação de Elba Ramalho e Jair Rodrigues).

Mesmo sendo assumidamente mangueirense, Beth Carvalho foi homenageada pela Velha Guarda da Portela, devido ao fato de ser a cantora que mais interpretou canções de compositores portelenses. Em 2002, recebeu, das mãos da viúva de Cartola, Dona Zica, o troféu Eletrobrás de Música Popular. Tendo seu histórico político, foi a responsável por entregar o título de Cidadão Honorário da cidade do Rio de Janeiro para o cubando Fidel Castro.
Rio de Janeiro - A cantora Beth Carvalho participa do ato Brasil pela Democracia, no Teatro Casa Grande, contra o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.


Os anos 2000 foram de muito destaque. A cantora recebeu muitas indicações a importantes premiações. Seu disco “Pagode de Mesa 2” (2000), que buscava reproduzir um pouco do clima do samba de mesa, foi indicado ao Grammy Latino, na categoria de melhor disco de samba. O disco “Nome Sagrado (2001) era vendido em bancas de revista e chamou à atenção pela ousadia, concorrendo ao Prêmio TIM de Música Brasileira como melhor disco de samba. Em 2003, em um projeto elaborado pelo jornalista Rodrigo Faour ela grava o disco “Beth Carvalho canta Cartola”. Cartola a considerava sua melhor intérprete e Beth foi a grande responsável pelo retorno dele aos holofotes.

Em 2004, Beth Carvalho grava o seu primeiro DVD, intitulado “Beth Carvalho – A Rainha do Samba”. O DVD lhe rendeu um disco de Platina e o CD que foi comercializado junto, recebeu um disco de ouro, além de mais uma indicação ao Grammy Latino como melhor álbum de samba, em 2005.

No carnaval de 2007, se envolveu em uma polêmica, justamente com a sua escola de samba de coração: a Mangueira. Devido ao seu problema de coluna, ela solicitou que pudesse desfilar em um carro alegórico. No entanto, no dia do desfile ela foi impedida de participar por Raimundo de Castro, alegando que Beth Carvalho não era baluarte (os baluartes do samba são considerados os pioneiros de uma escola de samba). O que mais a incomodou foi o fato dela ter desfilado no mesmo carro, no ano anterior. A partir de então, rompeu com a diretoria da escola (e não com a escola, afirmando que sempre seria mangueirense) e disse que só voltaria a ter uma relação mais estrita com um pedido de desculpas formal. Depois do carnaval de 2009, Ivo Meirelles, que havia assumido a presidência da escola recentemente, foi até a casa de Beth com a imprensa e fez o pedido de desculpas. Além disso, anunciou que ela iria homenagear Nelson Cavaquinho no enredo de 2011.

No ano de 2009, Beth Carvalho foi homenageada no Grammy Latino, em Las Vegas. A cantora foi a primeira sambista a receber o importante prêmio da cerimônia, chamado Lifetime Achievement Awards (Prêmios pelo conjunto de sua Obra). Esses tipos de premiações são concedidos por várias organizações, para reconhecer contribuições ao longo de toda uma carreira.

Em 2013, foi homenageada com o enredo “Beth Carvalho, a Madrinha do Samba” pela escola de samba paulistana Acadêmicos do Tatuapé, mostrando que a admiração por ela não se restringia ao território do Rio de Janeiro.

Em 2014, gravou um DVD com as participações especiais de Zeca Pagodinho e de sua sobrinha, Lu Carvalho. O DVD contém músicas da época do seu período de juventude, em que frequentava o Bloco Cacique de Ramos, bem como canções do CD “Nosso Samba Tá na Rua. Também em 2014, ganhou uma exposição no Imperator - Centro Cultural João Nogueira. Beth também foi convidada para fazer parte da curadoria da 25ª edição do Prêmio da Música Brasileira.

Beth ainda participou do DVD dessa 25ª Edição do Prêmio da Música Brasileira se juntando a nomes como: Dudu Nobre, Beatriz Rabello, Péricles, Xande de Pilares, Arlindo Cruz, Mariene de Castro, Zélia Duncan, etc.


PROBLEMAS DE SAÚDE E MORTE

Beth Carvalho passou a enfrentar alguns problemas de saúde no final dos anos 2000, quando chegou a cancelar a sua apresentação no réveillon, na praia de Copacabana, devido às fortes dores na coluna. O problema começou com uma artrose no fêmur que fazia com que a cantora andasse mancando, isso causou uma fissura no sacro, que é um osso localizado na base da coluna vertebral. Tudo agravou-se por uma neuropatia, causada por ela ter ficado muito tempo na mesma posição durante a cirurgia na coluna.

Em 2010, voltou aos palcos, mas precisou se submeter a uma cirurgia no ano de 2012. Ficou em um hospital por cerca de um ano e um mês, sendo que nas últimas semanas de internada, Beth teve uma infecção pulmonar em decorrência de uma infecção num cateter, e foi parar no CTI, tendo alta em agosto de 2013. Em setembro daquele ano, ela realizou um show no Vivo Rio. Todas essas condições levaram Beth Carvalho a fazer um show histórico em 2018. No espetáculo, realizado junto com o grupo Fundo de Quintal, Beth se apresentou deitada em uma cama, no show intitulado “Beth Carvalho encontra Fundo de Quintal – 40 anos de pé no chão”.

A “Madrinha do Samba” morreu no dia 30 de abril de 2019, aos 72 anos de idade. A artista estava internada desde 8 de janeiro daquele ano e teve o seu falecimento causado por uma infecção generalizada, sendo o seu velório realizado no Salão Nobre da sede do Botafogo. As principais personalidades do samba se manifestaram após a morte de Beth. A escola de samba da Mangueira lembrou da cantora em suas redes sociais, enfatizando a sua paixão pelas cores da escola. O Cacique de Ramos fez referência aos inúmeros artistas que Beth Carvalho ajudou a revelar. Ela também recebeu homenagens de políticos, como a ex-presidente Dilma Rousseff, bem como do Governo do Estado do Rio de Janeiro e da Prefeitura.

Rio de Janeiro - Velório do corpo da cantora Beth Carvalho no salão nobre da sede do clube Botafogo de Futebol e Regatas, time do qual Beth era torcedora.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.



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