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Qassem Soleimani
 
 
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 A MORTE DO HERÓI IRANIANO
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Qassem Soleimani.Foto: AslanMedia via Visualhunt.
No princípio de Janeiro de 2020, o general iraniano Qassem Soleimani foi morto pelo ataque de um drone norte-americano, enquanto estava no aeroporto de Bagdá, no Iraque. Acusado, por autoridades dos Estados Unidos, de instigar e coordenar ataques terroristas contra alvos norte-americanos na região, o general era tido como um herói em seu país, por sua distinta atuação militar, e sua morte foi responsável por aguçar as tensões entre Irã e Estados Unidos, provocando o receio que um conflito entre as duas nações, pudesse arrastar mais países pra uma terceira guerra mundial. Além do militar iraniano, outras importantes figuras como Abu Mahdi al-Muhandis, chefe das Forças Populares de Mobilização, milícia iraquiana apoiada pelo Irã, além do porta-voz da organização, Mohammed Ridha Jabri, também perderam a vida no ataque.

A trajetória de vida de Soleimani esteve ligada a alguns dos principais eventos que marcaram a história do Irã no século XX, particularmente no que se refere aos conflitos e transformações pelas quais o país do Oriente Médio passou ao longo deste período, e sua morte representou mais um ponto de atrito entre sua nação e os Estados Unidos, cujas relações seguem pouco amistosas desde a Revolução Islâmica de 1979.


DA INFÂNCIA À REVOLUÇÃO

O general Qassem Soleimani nasceu em 11 de Março de 1957, na pequena vila de Qanat-e Malek, na província de Kerman, que hoje tem uma população de aproximadamente 400 pessoas. Era filho de Hassam Soleimani e Fatemeh Soleimani, um casal de agricultores empobrecidos do sudeste iraniano. Ao terminar os estudos, Qassem Soleimani mudou-se para a cidade de Kerman, onde trabalhou na construção civil para auxiliar o pai no pagamento de suas dívidas, contraídas em meio ao programa de modernização do Irã no governo do xá Mohammad Reza Pahlavi. Esse xá, o último a administrar o Irã antes da Revolução, teve um longo governo, iniciado em 1941, com a deposição de seu pai, durando até 1979, quando foi derrubado pelas forças da Revolução Islâmica, liderada por Ruhollah Khomeini.

O início do governo de Mohammad Reza Pahlavi no Irã, começou ainda durante a Segunda Guerra Mundial, quando forças inglesas e soviéticas invadiram o país, pois temiam que o Irã se aproximasse da Alemanha nazista e fornecesse o seu rico manancial de petróleo. Por conta das pressões que Reza Xá havia feito para renegociar os termos do contrato de exploração de petróleo no país, realizado pela Anglo-Iranian Oil Company, o temor dos britânicos se ampliou, levando a esta ação e a deposição do governante.

Mohammad Reza Pahlavi assumiu o governo a partir deste evento e sua administração não seguiu linhas muito diferentes das estabelecidas pelo pai. De origem muçulmana mas com uma orientação secular, o governante buscou continuar com a modernização do país, afastando-se das lideranças religiosas. Neste sentido, uma das primeiras medidas que tomou foi a de banir o uso da vestimenta tradicional pelas mulheres muçulmanas, garantindo maior liberdade a este grupo. Até o final da guerra, Pahlavi garantiu a estabilidade do Irã, e após o término do conflito se voltou para o combate aos inimigos internos, como o Partido Tudeh e o grupo extremista religioso Fada’iyan-e Islam. Em meio a essas disputas, Mohammad Reza também se confrontou com a ascensão de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro oposicionista, cujas reformas acenderam um sinal de alerta entre os aliados ocidentais do Irã. Tal preocupação decorreu das ações de Mossadegh no sentido de nacionalizar a exploração de petróleo no país, o que contrariava o interesse de Inglaterra e Estados Unidos. Em 1953, estes países, (dois anos após a subida de Mossadegh ao poder), apoiaram um golpe que o depôs do cargo de primeiro ministro e fez com que Reza Pahlavi conseguisse retomar o controle pleno de sua nação. Todos esses eventos ocorreram antes mesmo do nascimento de Soleimani.

Em sua infância, aos com 6 anos de idade, ocorreu no Irã a chamada Revolução Branca, conjunto de reformas colocado em funcionamento pelo xá, cujo objetivo era modernizar o Irã através da reforma agrária, da concessão do voto universal, de um processo de privatizações, entre outros aspectos. Como enfrentou forte resistência do Parlamento, formado principalmente por proprietários de terra e membros do clero muçulmano, Reza Pahlavi não submeteu tais propostas à aprovação desta casa, mas sim a um referendo popular, o qual lhe garantiu uma esmagadora vitória. Entretanto, a partir deste momento, a oposição ao xá, liderada particularmente pelo aiatolá Ruhollah Khomeini (preso no próprio ano de 1963 e posteriormente exilado) começou a ganhar força, sendo muito estimulada pelos líderes religiosos, descontentes com a perda de sua influência no cenário político e cultural.

Posteriormente, já aos 18 anos, Soleimani tornou-se empreiteiro da Kerman Water Organization. Durante este período, tornou-se praticante de artes marciais, ao mesmo tempo em que frequentava constantemente os cultos religiosos liderados por Hojjat Kamyab, que teria sido responsável por instigar o jovem Soleimani a ideia de que era possível uma revolução islâmica no país.


O INÍCIO DA VIDA MILITAR

Durante a década de 1970, os protestos contra o xá Reza Pahlavi se avolumaram, em virtude da aproximação cada vez maior com o Ocidente, além das denúncias de corrupção e de gastos supérfluos do governo. Do seu exílio na França, Ruhollah Khomeini instigava a população a se colocar contra o governo de Mohamed Reza Pahlavi, o que gerava manifestações numerosas e repressões violentas por parte do governo. Entre Setembro e Dezembro de 1978, as mortes de manifestantes fizeram com que cada vez mais pessoas saíssem às ruas, e nesse contexto, os militares não se colocavam mais contra os que protestavam. Isolado politicamente, sem apoio militar ou popular, o xá acabou sendo expulso do Irã, e a liderança do país foi passada para o aiatolá Khomeini. Nesta nova administração, muitas das medidas modernizantes tomadas por Reza Pahlavi foram canceladas, retornando-se o uso das vestes tradicionais das mulheres, assim como punições físicas para quem desrespeitasse os princípios da lei islâmica. Também de imediato, foi criado o Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica, também conhecida como a Guarda Revolucionária Iraniana. Esta força militar, a mais poderosa dentro do Irã, é considerada pelos Estados Unidos uma organização terrorista, sendo criada como uma defesa do regime islâmico então recém-criado contra ameaças internas e externas. Na atualidade, seu efetivo conta com mais de 125 mil combatentes, extremamente bem equipados, atuando como forças terrestres, aéreas e navais, destacando o seu serviço secreto e o controle de diversas atividades econômicas no país, como obras de infraestrutura e de comunicações, o que lhes garante uma enorme fonte de financiamento.

Foi nesse grupamento que Qassem Soleimani iniciou sua vida militar, tornando-se membro da Pasdaran (“guardião”, nome através do qual a Guarda Revolucionária também é conhecida no Irã) ainda em 1979. Sua primeira atuação neste corpo militar foi em uma missão em Mahabad, na região noroeste do Irã, onde foi alocado para lutar contra separatistas curdos (ainda hoje, os curdos provocam graves tensões neste país, no Iraque e na Turquia, pois este povo reivindica para si a formação de um território e o estabelecimento de sua nação). No entanto, seria a partir de 1980 que a atuação militar de Soleimani se tornaria mais intensa, com sua participação na guerra entre Irã e Iraque.


A GUERRA IRÃ-IRAQUE

O conflito envolvendo iranianos e iraquianos se desenvolveu entre os anos de 1980 e 1988, iniciando-se com a invasão iraquiana ao Irã. Vários foram os motivos para que este conflito acontecesse, em primeiro lugar, a própria situação de convulsão social que passava o Irã após a Revolução. Isso sugeriu a Saddam Hussein, líder iraquiano, que seu avanço sobre o Irã poderia ser facilitado e, assim, garantir a posse das terras do Chatt Al-Arab, importante estuário localizado na região do Golfo Pérsico. Também pesou o fato de que, apesar de internamente combatidos, os rebeldes curdos foram apoiados pelos iranianos em suas revoltas no Iraque, no sentido de garantir a independência do Curdistão. Somado a isso, a própria questão religiosa, onde o governo iraquiano guiava-se pela perspectiva muçulmana sunita, enquanto o governo do Irã era de orientação xiita e pretendia exportar sua revolução, de cunho fortemente religioso, para o país vizinho.

Todos esses elementos somados fizeram com que, em Setembro de 1980, mesmo sem uma declaração formal de guerra, as tropas iraquianas invadissem o Irã, tendo porém, um avanço vagaroso e sendo posteriormente repelidas. Após isso, as forças iranianas tomaram a iniciativa e passaram a atacar o Iraque, em um movimento de avanços e retrocessos que se alongou pelos oito anos seguintes. Ao final do conflito, pelo menos 500 mil soldados morreram, além dos danos econômicos e ambientais gigantescos causados pelos ataques, uma vez que refinarias de petróleo e navios petroleiros se tornaram importantes alvos durante a guerra. Em termos de ganhos, nenhum lado atingiu os objetivos que pretendia, além disso, acumularam dívidas enormes e também uma grave destruição na infraestrutura dos países.

Durante este conflito, Qassem Soleimani participou inicialmente de forma discreta, uma vez que havia sido enviado para as frentes de batalha com a missão de garantir o suprimento de água para os soldados. Porém, de maneira voluntária, Soleimani passou a integrar as forças que estavam em combate, auxiliando tanto no treinamento de tropas quanto na realização de missões de reconhecimento. Mesmo que ao final da guerra não tenha o Irã sido vencedor, o envolvimento de Soleimani nesse evento teve impacto profundo na formação de suas ideias, e contribuiu para desenvolver sua rejeição à atuação norte-americana no Oriente Médio. Para compreender este posicionamento de hostilidade para com os norte-americanos, lembre-se que forças militares deste país tiveram participação na guerra ao proteger navios petroleiros iraquianos, ao mesmo tempo que apoiavam os ataques aos navios iranianos. Sua participação também fez com que Soleimani rapidamente ganhasse posições dentro da hierarquia militar, tornando-se general de brigada ao final do conflito. Na liderança de um batalhão, passou então a combater o tráfico de drogas na região sudeste do Irã, buscando eliminar a atuação dos cartéis que ali atuavam.


LÍDER DA FORÇA QUDS

Após o final da guerra entre Irã e Iraque, iniciou-se o que o jornalista Dexter Filkins chamou do projeto de longa duração dos iranianos para construir uma “esfera xiita de influência”, que se estenderia por todo o Oriente Médio, contrariamente ao projeto de poder sunita, encabeçado pelo Iraque. Nessa circunstância, a atuação de Soleimani foi de fundamental importância, em especial após assumir a liderança da Força Quds.

A Força Quds é um braço do Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica, especializado em ações militares não-convencionais e inteligência militar, tendo surgido em 1982, durante o conflito contra os iraquianos. Por se tratar de uma unidade de elite, que realiza também atividades de espionagem, seu tamanho real não é conhecido, estima-se um contingente de 2 mil pessoas até mais de 50 mil membros.

Soleimani tornou-se líder da Força Quds em 1998, e enquanto chefe deste destacamento, sua principal atividade era fomentar o treinamento de milícias muçulmanas que fossem aliadas dos objetivos do governo iraniano. Isso fez com que grupos em todo o Oriente Médio, assim como em outras regiões tal qual a América do Sul, ganhassem expertise em treinamento militar. Entre as várias ações desenvolvidas pelo grupo, credita-se à Força Quds participação na tentativa de assassinato do embaixador saudita nos Estados Unidos em 2011 (através da contratação de membros de um cartel mexicano de drogas), bem como sua intenção de bombardear as embaixadas de Israel e Arábia Saudita em Washington. Também na Índia, no Afeganistão, na Nigéria e no Quênia, a Força Quds é acusada de ataques e atentados.

Mais significativo, entretanto, que as acusações de terrorismo, foi o papel fundamental que Qassem Soleimani, à frente de três batalhões da Força Quds, desempenhou no Iraque em 2014. Naquele momento, os iraquianos sofriam com várias ofensivas do Estado Islâmico, e suas forças estavam enfraquecidas, mas o auxílio com treinamento e soldados vindos do Irã foi de grande importância para que o governo do Iraque não tombasse frente aos rebeldes.

Outro momento importante de atuação de Soleimani no comando da Força Quds, foi o apoio dado ao governo de Bashar Al-Assad para a resistência contra os oposicionistas que buscavam derruba-lo e tomar o poder na Síria. Este suporte consistiu em operações logísticas e de inteligência que deram condições para que a administração de Assad resistisse e não fosse deposta, como aconteceu com outros governos.

Todas essas ações, somadas a assassinatos de inimigos, ações de treinamento e equipamentos de grupos aliados, além do controle de uma rede de militantes que há muito tempo trabalha na eliminação da presença norte-americana na Iraque, fizeram com que a Força Quds e Soleimani fossem enquadrados como terroristas, chamando a atenção da inteligência norte-americana. Por tudo isso, a atuação de Soleimani à frente da organização, sempre foi marcada pela discrição, por isso, ficou conhecido como o “comandante das sombras”. Entretanto, após o envolvimento iraniano no conflito sírio, o nome do general tornou-se mais conhecido, sendo trazido a público pela mídia ocidental, embora em sua região de origem já tivesse o status de herói.


SUA MORTE E OS DESDOBRAMENTOS

Qassem Soleimani era peça fundamental na estratégia iraniana de estender seu poder sobre o Oriente Médio, bem como elemento de grande importância no balanço das relações de poder entre os países da região. Por mais que fosse conhecido por sua lealdade ao regime, Soleimani era, acima de tudo, um homem pragmático: isso fica claro quando, após o atentado de 11 de Setembro de 2011 às Torres Gêmeas, ofereceu ajuda aos norte-americanos. Seu objetivo com isso, mesmo que as relações diplomáticas entre os países estivessem cortadas desde 1980, era poder lutar conjuntamente contra um inimigo comum, o Talebã. Este movimento era combatido por Soleimani desde seu surgimento no Afeganistão, assim como qualquer outro movimento ou pessoa que pudesse por em risco as intenções e projetos iranianos.

Sua morte, no princípio de Janeiro de 2020, causou enorme comoção do povo iraniano, e logo após seu funeral, mísseis foram lançados do Irã em direção a instalações militares norte-americanas no Iraque. Porém, as hostilidades não se estenderam além disso, e o tão propalado temor de que um novo conflito mundial se iniciasse, não aconteceu. Mas, entretanto, é necessário compreender que a morte do general iraniano, se não atraiu as nações para um conflito aberto, redesenha as relações de poder na região, uma vez que Soleimani era o principal articulador de alianças, apoios, golpes e ataques. Sua morte fará com que novas lideranças venham a surgir, e a forma de atuação delas, embora não diferente no objetivo, dirá muito sobre o equilíbrio de poder na região, já muito abalada por conflitos e guerras.


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