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Rina Lazo
 
 
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Rina Lazo Wasen, nascida na cidade de Guatemala (capital e maior cidade da República da Guatemala), em 23 de outubro de 1923 e faleceu na Cidade do México, em primeiro de novembro de 2019, foi uma pintora muralista guatemalteca. Ela iniciou sua jornada no mundo da arte como aprendiz do renomado artista mexicano Diego Rivera, com quem trabalhou entre os anos de 1947 a 1957, desenvolvendo projetos tanto no México como na Guatemala.


Rina Lazo em evento no Museu da Revolução Mexicana. Cidade do México, 2006. Foto: JORGE ARCIGA / NOTIMEX via AFP.



VIDA E FORMAÇÃO ARTÍSTICA

Filha de Artur Lazo e de Melanie Wasem, Rina Lazo estudou no colégio alemão até o segundo grau. Quando criança viveu em Cobán, onde manteve contato com o povo maia.

Os maias são um conjunto de povos nativos americanos do sul do México e da América Central. Normalmente, usamos esse termo para designar coletivamente os povos da região que partilham de alguma forma, uma herança cultural e linguística. Isso teve uma consequência direta em sua expressão artística.

Lazo iniciou seus estudos de maneira profissional em arte na Escola Nacional de Artes Plásticas "Rafael Rodríguez Padilla" - Academia Nacional de Belas Artes – (hoje, Escola Nacional de Belas Artes), ainda nos anos de 1940. Já em 1945, Rina Lazo conseguiu uma bolsa de estudos ofertada pelo então presidente Juan José Arévalo para estudar no México na Escola Nacional de Pintura, Escultura e Gravura, “A Esmeralda”. No México, estudou ao lado de Carlos Orozco Romero, Jesús Guerrero Galván, Alfredo Zalce, Frederico Cantu e Manuel Rodríguez Lozano, mas acabou virando a pupila de Diego Rivera. Foi na casa dos Rivera Kahlo que ela conheceu Frida Kahlo.

Frida Kahlo é considerada um ícone do movimento feminista e do movimento LGBTQ. Influenciada pela cultura popular mexicana, ela empregou um estilo de arte popular ingênua para explorar questões de identidade, pós-colonialismo, gênero, classe e raça na sociedade mexicana. Os ideais artísticos, sociais e políticos de Rina Lazo estão fortemente relacionados com os de Rivera e Kahlo que foi, uma militante do Partido Comunista Mexicano.

Foi por meio de sua relação com os Rivera-Kahlo que Rina Lazo conheceu o seu marido, Arturo García Bustos. García Bustos era um dos alunos de Frida e recebia a alcunha de “Os Fridos (Los fridos)”. Se destacou pela pintura, impressão e gravura (que estudou com o artista coreano Wan Jon Ja em Pyongyang). Ele e Lazo casaram-se em 1949, e permaneceram juntos por 60 anos, até que Bustos morreu. Eles viviam no bairro Coyoacán da Cidade do México em uma casa colonial chamada Casa Colorada. Essa casa era cercada por várias curiosidades. Alguns diziam que ela havia sido a casa de Malinche, (também conhecida como Malintzin, ou ainda, Doña Marina) ela, foi uma indígena da costa do que hoje é denominado Golfo do México, que auxiliou Hernán Cortés, um conquistador espanhol, conhecido por ter destruído o Império Asteca de Moctezuma II e conquistado o centro do atual território do México.

Além de supostamente ter sido casa de Malinche, foi um mosteiro, prisão e, em seguida, um hospital. Só aí, então, que virou lar do casal que viveu lá por mais de quarenta anos. Em 2006, abriram uma parte que passou a funcionar como uma Galeria. Eles e sua única filha, Rina García de Lazo - arquiteta, especialista em restauração – foram os responsáveis por gerenciar a chamada Galeria da Casa Vermelha.

Rina Lazo também foi professora de artes em várias instituições, como a Escola de Restauro do Instituto Nacional de Belas Artes e a escola de Belas Artes em Oaxaca. Além de universidades, também ofertou cursos na Casa do Lago, em Chapultepec, deu seminários e workshops no Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México, A casa da Cultura de Oaxaca, assim como em cidades como Guatemala, Leipzig e Pyong Yang.


CARREIRA

É impossível dissociar o início da carreira de Rina lazo à do artista mexicano Diego Rivera. Rivera, que tinha origem judaica (e que foi casado com a artista Frida Kahlo), foi um dos maiores pintores mexicanos. Sua grande contribuição para a arte são os murais. Segundo ele, a pintura tradicional de quadros feita em cavaletes estava extremamente relacionada à burguesia, pois em grande parte dos casos, aquelas pinturas acabavam fazendo parte de coleções particulares, sem que a população pudesse ter acesso a elas. Por isso, apenas os murais poderiam reconectar o povo mexicano às suas origens pré-colombianas (ao período anterior à ocupação espanhola). Essas considerações tiveram bastante influência nos trabalhos de Rina Lazo, que teve sua reputação também ligada aos murais e a causas sociais.

Podemos dizer então que Rina Lazo, ainda que tenha se dedicado à pintura de telas, que foram expostas no México e em outros países, obteve grande prestígio com sua arte ligada aos murais, o que a tornou a artista guatemalteca mais famosa em todo o mundo. Sua relação com o muralismo e com a arte mexicana fizeram dela, membro do movimento chamado “Muralismo Mexicano”.


MURALISMO

Surgiu no início do século XX, o muralismo é um movimento artístico que aparece no México e que conta com a participação de um seleto grupo de intelectuais artistas mexicanos. Dentre os principais nomes estão: o próprio Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros (1896-1974) e José Clemente Orozco (1883-1949). Com a revolução mexicana e a grande depressão gerada pela primeira guerra mundial, as pessoas a se juntavam em busca de transformações radicais na estrutura social, política e econômica da sociedade mexicana. Neste período, as classes média e baixa se uniram contra Porfirio Díaz. Diaz foi um veterano da Guerra da Reforma que lutou contra o Imperador Maximiliano e que após sair vitorioso do combate, estabeleceu-se à frente do regime político Mexicano por três décadas (período denominado: Porfiriato). A postura ditatorial de Diaz entrou em conflito com os interesses das massas, o que gerou um grande declínio de sua popularidade.

Quando Álvaro Obregón chegou ao poder, muitas mudanças foram implementadas. José Vasconcelos foi contratado como secretário de Educação Pública do México. Vasconcelos empregou muitos esforços na alfabetização do povo mexicano e, utilizou também a arte para esses fins. Ele patrocinou o Dr. Atl Gerardo Murillo, que fundou o Centro Artístico da Cidade do México. É com base nesse apoio dado aos artistas via Centro Artístico, que o movimento muralista ganhou força. Dada essa base política, Rina Lazo se tornou bastante crítica a respeito dos artistas modernos, que tendem mais para o comercial do que para as causas sociais. Acredita-se que, dada a história do México, o muralismo deve ressurgir.


OBRAS

Como já foi citado acima, a carreira de Lazo começa pouco depois que ela entra para La Esmeralda, quando Diego Rivera a contratou como sua assistente em 1947. Seu primeiro trabalho foi a obra intitulada Sueño de uma Tarde Dominical en la Alameda Central (Sonho de uma Tarde de Domingo na Alameda Central), situada no Hotel do Prado.

Durante o período que trabalhou com Rivera, Rina Lazo pintou inúmeros murais, adquirindo uma vasta experiência neste tipo de técnica. Os principais murais de sua época são: Cáracamo del Río Lerma, El agua, origen de la vida sobre la tierra (1951), o mural de pedra natural, no estádio olímpico, Ciudad Universitária (1952), dois no Hospital La Raza, El pueblo en demanda de salud and Historia de la medicina en México (1953), e um na Guatemala, La gloriosa victoria (1954) no Palácio Nacional de Cultura.

Esse último mural carrega uma polêmica, pois estaria fazendo uma referência à intervenção norte-americana por meio de guerrilha na Guatemala, a mesma que provocou a queda do Governo de Jacobo Árbenz. Segundo relatos, em 1954, houve um golpe de estado que abalou a Guatemala e que foi organizada pela CIA para derrubar Jacobo Arbenz Guzmán, o presidente democraticamente eleito da Guatemala. O governo Arbenz introduziu uma série de reformas que a inteligência americana considerou como atribuídos aos comunistas e de influência soviética, como a apreensão e expropriação de terras não utilizadas que corporações privadas retiradas há muito tempo, e distribuição dessas terras para camponeses. Este foi o primeiro golpe de estado, alegadamente, atribuído à CIA na América latina.

Agora, o trabalho de Rina Lazo não se restringiu aos murais de Diego Rivera. Ela realizou muitos murais, afrescos, murais em vinil e estuque na Guatemala, assim como em vários lugares do México. Uma das obras que executou antes de seu casamento foi um mural na Escola Rural de Temixco, com o intuito de reorganizar o Partido Comunista em Morelos.

Na sequência, fez o mural Tierra Fértil, em 1954, que foi baseado em imagens aéreas de Tikal. Tikal é o principal sítio arqueológico da Guatemala e surgiu no século 4 a.c. Lá, se encontram seis pirâmides, que chegam a 70 metros de altura, além de resquícios de palácios, estádios de pelotas (que era o esporte mais popular entre os maias) e esculturas sagradas. Outro trabalho concluído na Guatemala é Venceremos, de 1959, trabalho que foi muito bem recebido em seu país.

Entre os trabalhos marcantes de Rina Lazo estão as duas reproduções dos muralistas pré-colombianos em Bonampak, realizado em 1996. Os afrescos de Bonampak (assim como os de Chichén Itzá) são um dos grandes exemplos da arte maia, que se expressava muito na sua arquitetura, na escultura e, claro, na sua religiosidade. Os maias são conhecidos pelas suas construções monumentais (como a torre de Palenque, o observatório, astronômico de El Caracol, os palácios e pirâmides), que eram adornadas com elegantes esculturas e relevos, que, no final, ganhavam cores. O primeiro desses murais foi um pedido do arquiteto Pedro Ramírez Vázuqez e está no Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México.

Essas reproduções pré-colombianas abriram portas para a artista. A partir deles, ela fez painéis móveis para uma empresa de televisão, que pouco tempo depois, foram adquiridos pela própria filha de Rina Lazo e hoje se encontra na Casa Colorado.

Em 1995, ela criou outro mural para o Museu de Antropologia chamado de “Venerable Abuelo Maíz”. Essa obra é considerada uma peça de arte em todos os sentidos. Nela, a artista buscou integrar um conjunto de elementos estéticos, tais como: composição, mistura de cores, e domínio da técnica “el templo” (que é uma emulsão de ovo, verniz e azeite de linhaça), bem como buscou estudar a figura humana. Foi necessária também uma grande investigação histórica e etnográfica da cultura maia. A obra é baseada em três inspirações. Primeiramente, teve influência das histórias antigas de Quiché, também conhecido como o Livro do Conselho. Depois, também se nutriu daqueles murais de Bonampak (que ela já havia reproduzido para o próprio Museu de Antropologia). Por fim, serviu como fonte de criação, as memórias de infância de Rina Lazo na Guatemala. O mural é composto por cinco painéis retangulares e tem três partes principais em que nove cenas são apresentadas. A narrativa se desenrola como sendo o tempo religioso-mágico (o tempo sagrado), segundo a fenomenologia religiosa.

Apesar de Rina Lazo e seu marido terem aprendido muitas coisas com o casal Rivera-Kahlo e serem próximos, ambos normalmente não trabalhavam juntos, dada a diversidade de interesses.

Em 1997, trabalhou na concepção e na realização de um mural transportável de 2,7 metros por 7 metros chamado de Realidad y sueño en el mundo maya, magia y encuentro entre hombres y dioses, que foi inaugurado no Hotel Casa Turquesa em Cancun.

Já o seu trabalho em tela é menos conhecido. A sua primeira obra premiada é Por los caminos de la libertad, criada em 1944. De todo modo, suas obras foram expostas em Alemanha, Áustria, França, Estados Unidos, exposições que a tornaram a pintora guatemalteca mais famosa.


PRÊMIOS

Rina Lazo foi premiada não só pelos seus trabalhos em parceria com Rivera, mas também pelos seus próprios trabalhos. Recebeu o prêmio Emeretisimum da Faculdade de Humanidades da Universidade de San Carlos de Guatemala. Em 2004, recebeu a Ordem de Quetzal do governo da Guatemala. Estabelecido em 1936, tal premiação é concedida pelo Governo da Guatemala e reconhece oficiais de nações, organizações e outras entidades cujas obras artísticas, cívicas, humanitárias ou científicas merecem reconhecimento especial. Em 2005, recebeu a Medalha da Paz de seu país, e em 2010, recebeu um reconhecimento por parte do governo da Roménia.

Um livro sobre Rina Lazo foi escrito em 1998, chamado Sabiduría de Manos, organizado por Abel Santiago e que continha textos de: André Henestrosa, Henrique González Casanova, Maria Luisa Mendoza, Otto-Raúl González e Carmen de la Fuente. Além disso, possui uma série de homenagens em vários lugares, tais como o Museu Mural Diego Rivera.

A embaixada mexicana na Guatemala prestou-lhe homenagem com uma exposição de painéis do mural de Bonampak, no Centro Cultural Luis Cardoza y Aragón em 2010. Em 2011, ela e seu marido foram convidados para ir aos EUA para falar de sua trajetória com Diego Rivera. A partir de 1964, foi também membro do Salão da Plástica Mexicana.

Rina Lazo faleceu em 2019, de parada cardíaca, aos 96 anos de idade, no México, onde viveu desde a sua juventude.


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