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Augusto Pinochet
 
 
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Augusto Pinochet, presidente do Chile de 1974 a 1990. Fotografia de 21 de outubro de 1986. Foto: MARCO UGARTE/AFP.

Augusto Pinochet (1915-2006) foi um general que liderou um golpe militar no Chile em 11 de setembro de 1973, quando se tornou presidente do país. Pinochet governou o Chile até 1990, período marcado por intensa repressão política, tortura e mortes de opositores de seu regime ditatorial.

Nascido na cidade de Valparaíso, em 25 de novembro de 1915, Augusto José Ramón Pinochet Ugarte era filho de Augusto Pinochet Vera e Avelina Ugarte Martínez, de origens francesas. Em 1930, conclui os estudos em Valparaíso e em seguida, aos 17 anos de idade, ingressa na Academia Militar de Santiago. Ao final do curso torna-se segundo-tenente, iniciando sua carreira militar em um posto da cidade de Concepción.

Em 1943, aos 28 anos, casa-se com Lucía Hiriart Rodríguez, com quem teve cinco filhos. Nos anos seguintes dedica-se à carreira militar, subindo de patente várias vezes e ocupando cargos importantes. Em 1956 sai em missão no Equador, onde ficou durante três anos e pode se dedicar aos estudos de geopolítica, geografia militar e inteligência. Em 1966, adquire a patente de coronel, sendo nomeado comandante da IV Divisão das Forças Armadas.

Três anos mais tarde, em 1969, torna-se general e assume a chefia do Estado Maior do Exército do Chile. No dia 4 de setembro de 1970 Salvador Allende é eleito presidente do Chile pela Unidade Popular, organizada por socialistas e comunistas, fato que incomoda a ala conservadora da sociedade e do exército chileno.



GOLPE MILITAR

Em setembro de 1973, Pinochet foi nomeado comandante-chefe do Exército, quando o então comandante Carlos Prats, que se recusava a participar de qualquer golpe de Estado, se viu obrigado a renunciar. Apesar de ter declarado fidelidade a Salvador Allende, o general Pinochet, que até então considerado um general leal e apolítico, sendo inclusive membro do gabinete militar de Salvador Allende, chefiou a tropa que depôs o presidente e tomou o poder por meio de um golpe militar.

Assim, no dia 11 de setembro de 1973, o palácio presidencial La Moneda foi atacado durante três horas ininterruptas por forças do exército chileno. O ataque, que contou com o bombardeio da força aérea chilena, terminou com o suicídio do presidente Allende, que se negou a renunciar ou se render. Até 2011 as circunstâncias exatas de sua morte não haviam ficado claras, já que havia também a versão de que ele teria sido assassinado pelo exército. No entanto, uma autópsia feita em 1990 e outra em 2011 confirmaram a versão do suicídio.

Os Estados Unidos foram um grande apoiador do golpe e da instituição da ditadura no Chile, pois acreditavam que por meio da imposição de governos conservadores e ditatoriais era possível impedir o crescimento da influência de políticos e práticas vinculadas ao socialismo na América do Sul. No entanto, após mais de quarenta anos do golpe, a CIA ainda se nega a disponibilizar os documentos secretos dessa época.



DITADURA

Após o golpe foi organizada uma junta militar para governar o Chile e Augusto Pinochet foi apontado como representante do Exército. Em 17 de junho de 1974 Pinochet assumiu formalmente o cargo de Chefe Supremo da nação e em 1981 foi autoproclamado presidente da República do Chile para um mandato de oito anos, período do regime militar.

Ao longo de 17 anos da ditadura, seu governo perseguiu, principalmente, pessoas que se vinculavam a grupos de esquerda e/ou que haviam sido contrárias ao golpe.



CARAVANA DA MORTE

Após o golpe de Estado, Pinochet enviou um esquadrão do sul ao norte do país, a Caravana da Morte, para exterminar indivíduos contrários ao seu regime. A antiga coalizão Unidade Popular (união de partidos de esquerda que apoiavam o regime constitucional socialista deposto) foram os mais perseguidos pelo novo presidente, que mandou executar pelo menos 75 indivíduos, em sua maioria da Unidad Popular (UP).


A caravana era liderada pelo general Sergio Arellano Stark, viajando em um helicóptero para realizar as campanhas. O esquadrão foi ativado sob a justificativa de que os comandantes de províncias estavam sendo muito “amistosos” com seus prisioneiros. Assim, Arellano tinha a missão de unificar “critérios na administração da justiça aos prisioneiros”, recebendo ordens diretas de Pinochet. Porém, essa fachada escondia mortes por tortura e sangrentas dos seus adversários. Além da execução de oponentes, diversos oficiais foram punidos por não serem duros o suficiente com seus prisioneiros.



VÍTIMAS E MORTOS

Perseguição, prisões, torturas e mortes marcaram o regime ditatorial de Pinochet. Em 1977, o governo foi condenado pela comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, pela forma sanguinária e cruel com que tratava os presos políticos.

Em 1991, um ano depois do fim da ditadura de Pinochet, um relatório da Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação, ou Informe Retting (criado pelo jurista Raúl Retting), levantou 2.296 casos de desaparecimentos forçados e execuções. Um ano depois, foram creditados outros 899 casos qualificados de violações aos direitos humanos.

Foi criada em 2003 a Comissão Valech (presidida pelo bispo Sergio Valech) para levantar a identidade das pessoas que sofreram privação de liberdade e torturas por razões políticas durante a ditadura.

A Comissão Valech busca complementar o trabalho da Comissão Retting, que se concentrou em mortos e desaparecidos. Em 2011, o órgão apontou em 40 mil as vítimas de Pinochet, entre elas 3.225 mortos ou desaparecidos. O documento entregue pela Comissão atualizou outro relatório feito em 2004, e acrescentou 9.800 novas vítimas de torturas e prisão política, que se somam às 27.255 reportadas inicialmente, e 30 novos casos de desaparecidos e executados, que se acrescentam aos 3.195 certificados oficialmente até agora.



QUEIMA DE LIVROS

Além das mortes de civis, Pinochet contribuiu para o apagamento da cultura no Chile, já que ordenou a queima de dezenas de bibliotecas, ação que hoje em dia é considerada pelos historiadores como uma espécie de genocídio cultural. Em 1988, o próprio regime admitiu a queima de 15 mil livros, porém há estudos que sustentam que foi muito mais.


A queima ocorria com os livros considerados pelo governo como subversivos, como literatura de esquerda e outros livros que não se encaixavam na ideologia do governo do ditador, como livros de sociologia em geral, jornais e revistas. No dia 28 de novembro de 1986, as autoridades apreenderam 15 mil cópias da obra A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, de Gabriel García Márquez, que então foram incendiadas em Valparaíso. Além desse, cópias de um livro de ensaios do candidato presidencial venezuelano Teodoro Petkoff também foram colocadas na fogueira de livros.



ATENTADO CONTRA PINOCHET

No dia 7 de setembro de 1986, Pinochet escapou de um atentado armado em Las Achupallas, a 40 quilômetros de Santiago, quando regressava de sua casa de campo em El Melocoton. O ataque, que foi organizado pelo grupo guerrilheiro Frente Patriótica Manuel Rodriguez (FMPR), terminou com 5 mortos e 11 feridos.



POLÍTICA E ECONOMIA

A política e a economia do governo de Augusto Pinochet foram baseadas em planos e reformas de modelos neoliberais. O ditador fez uso de estudos defendidos por economistas chilenos conhecidos como Chicago Boys, provenientes da Universidade de Chicago, documento que continha os fundamentos do que depois ficaria conhecido como neoliberalismo.

A economia chilena teve altos e baixos acentuados durante os anos do governo militar, incluindo uma grande crise em 1982 que levou o governo a recuar em parte das reformas econômicas liberalizantes. Segundo os defensores de tais políticas econômicas, elas incentivaram o crescimento econômico da década de 1990. Já os críticos ressaltam que a política econômica de Pinochet foi diretamente responsável pelo crescimento da desigualdade social no Chile. Apesar de alguns bons números, as estatísticas mostram também números pouco milagrosos: entre 1972 e 1987, o PIB per capita do Chile caiu 6,4% em dólares constantes, de US$ 3.600 em 1973 para US$ 3.170 em 1993.



PLEBISCITOS E SAÍDA DO GOVERNO

Entre 1978 e 1980 Pinochet realizou plebiscitos para criar uma aparência de legalidade à sua ditadura e manter-se no cargo. Como havia ausência de liberdade de imprensa e de expressão, sua vitória de Pinochet era certeira. O plebiscito de 1979/80 foi um mero trâmite para legitimar e prolongar a ditadura. Em 1981, Pinochet impôs uma nova constituição que visava estender seu poder durante mais oito anos.

Em 1988, realizou um referendo para consultar a população chilena sobre a sua continuidade no poder. À época, enfrentava uma crescente oposição interna e externa e o plebiscito, que determinaria seu direito a concorrer a um novo mandato, abriu caminho para série de protestos populares contra o regime, que culminou com a campanha do "não" versus o “sim” no plebiscito.

O resultado final foi o de que 55,99% da população escolheu pela não continuidade do governo Pinochet e, assim, a ditadura chilena chegou ao fim após as eleições de 1989.

Depois de deixar o cargo de presidente em 1990, Pinochet continuou como comandante-chefe do exército e ocupou o cargo de senador vitalício. No entanto, abandonou ambas as funções por motivos de saúde em 1998. Nos últimos anos de vida, Pinochet foi preso por conta de acusações de corrupção e de crimes contra os direitos humanos. Nunca chegou a ser julgado.

Segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo de 2003, em entrevista a uma TV de Miami, nos Estados Unidos, também no mesmo ano, Pinochet disse que nunca mandou matar seus opositores e que não pediria perdão às vítimas do regime que chefiou. O ex-ditador declarou ser ele quem deveria receber um pedido de perdão pelo atentado que sofreu em setembro de 1986 e afirmou que se via como um “anjo bom” e que nunca quis matar ninguém porque antes de tudo é um cristão. Além disso, disse que "faria tudo de novo" e que, por sua causa, o país “foi para frente”. Por fim, afirmou ainda que não se sentia como um ditador, porque os ditadores sempre acabam mal e ele estava “em paz em seu lar no final de sua vida”.

Morreu em 10 de dezembro de 2006, em consequência de complicações de um ataque cardíaco.



CORRUPÇÃO

Em 2018 o Supremo Tribunal chileno condenou três ex-militares, Gabriel Vergara Cifuentes, Juan Ricardo Mac Lean Vergara e Eugenio Castillo Cádiz, por cumplicidade com Pinochet no desvio de US$ 17 milhões (cerca de R$ 73 milhões) para contas secretas do Riggs Bank, um antigo banco sediado nos Estados Unidos.

O Caso Riggs foi revelado em 2004, ocasião em que foram localizadas cerca de cem contas abertas em nome de Pinochet e de sua família no Riggs Bank e em outras instituições financeiras no exterior.

De acordo com as investigações, o esquema de desvios e de remessas ao exterior começou em 1981, quando Augusto Pinochet ainda estava no poder, e continuou após deixar o poder, quando passou a chefiar o Exército, durante oito anos. O ex-ditador chegou a ser processado pelo caso antes de sua morte, quando também se decretou prisão domiciliar por algumas semanas, porém não houve condenação antes de sua morte.

O patrimônio total deixado por Pinochet chegou a US$ 21,3 milhões. Deste valor, US$ 17,8 milhões são de origem ilícita, mas apenas US$ 1.621.554,46 podem ser confiscados dos herdeiros. O restante é resultado de crimes que já prescreveram.



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