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Chico Mendes
 
 
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Foto: ANTONIO SCORZA / AFP.

No município de Xapuri, a 200 quilômetros de Rio Branco, capital do Acre, nasceu, em 15 de dezembro de 1944, Francisco Alves Mendes Filho, seringueiro que ganhou o mundo conhecido como Chico Mendes. Considerado uma das principais lideranças agrárias do país, ele mudou para sempre a história da Amazônia e lançou luz, pela primeira vez, sobre a necessidade de garantir direitos aos trabalhadores da floresta.

Chico cresceu em uma simples e pequena casa de madeira, com frestas entre as ripas, sem luz elétrica e água encanada, localizada na colocação (unidade produtiva do seringal) de sua família, dentro do Seringal Cachoeira. Ainda criança, Chico começou a trabalhar com o pai no chamado “corte de seringa”: atividade extrativista na qual os seringueiros raspam vincos lineares nos troncos das seringueiras para extrair dela sua seiva, que no caso dessa espécie de arvore é o látex, matéria-prima para a produção da borracha. O produto era vendido no estado bruto para grandes empresas, para ser utilizado na produção de pneus de carro à panela de pressão.

Os anos de trabalho pesado como seringueiro e a constante dificuldade de garantir renda para a família fizeram com que Chico Mendes percebesse que a atividade econômica de extração da borracha na Amazônia era pautada por relações de exploração. A maioria dos bens que as famílias seringueiras necessitavam para sua sobrevivência, como comida, roupas e remédios, deveria ser comprado do dono do seringal, que cobrava por eles preços muito altos, o que fazia com que os trabalhadores permanecessem sempre endividados. Além disso, havia um rígido regulamento de subordinação aos proprietários da terra e se os seringueiros os descumprissem eram punidos até com castigos físicos. Chico Mendes não concordava com essa realidade.


VIDA PÚBLICA

Como não havia escolas nos seringais, Chico não estudou. Ele aprendeu a ler apenas aos 18 anos com um suposto refugiado político chamado Euclides Távora, que estaria vivendo no seringal e que teria sido um dos principais responsáveis por sua formação. Aprender a ler foi muito importante na vida de Chico, pois o ajudou a conseguir um emprego como balconista em Xapuri, em uma casa aviadora (comércio que comprava e vendia borracha e mantimentos), onde começou a organizar o movimento dos seringueiros.

Na década de 1970, a produção da borracha na Amazônia havia entrado em crise e as famílias seringueiras ganhavam cada vez menos pelo seu trabalho. Como os seringais não rendiam mais dinheiro, o governo militar da época incentivou fortemente a ocupação das áreas pela agropecuária, facilitando a ida de fazendeiros do sul do país para os seringais. Muitos chegavam nas colocações de forma violenta, expulsando os seringueiros de suas casas, derrubando árvores e matando animais.

Chico Mendes e outras lideranças organizaram as famílias contra as invasões de terra e frente à violência dos fazendeiros optaram por usar como arma a paz e o diálogo: toda vez que ocorria uma invasão um grupo grande de seringueiros, incluindo mulheres e crianças, se deslocavam a pé até o local e conversavam com os empregados sobre por que não era correto invadir a área e derrubar a floresta. Corajosos, muitos deles, incluindo Chico Mendes, colocavam seus corpos na frente de árvores e casas que estavam sendo posta abaixo, na tentativa de impedir a derrubada e iniciar um diálogo. Esse movimento ficou conhecido como empate.

A mobilização cresceu tanto que, em 1975, os seringueiros fundaram o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, município acreano, onde Chico foi secretário. Dois anos depois fundaram o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Chico se tornou presidente da instituição e foi eleito vereador na cidade. No começo dos anos 1980, ele ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores pelo qual foi candidato a deputado por duas vezes, em 1982 e 1986, sem se eleger em nenhuma delas.

Chico também foi um dos mentores do chamado Projeto Seringueiro, um método de alfabetização de adultos inspirado nas propostas de Paulo Freire que previa ensinar centenas de seringueiros a ler e a escrever. Ele propôs a criação de um material didático próprio, alinhado a realidade da floresta, chamado de Cartilha Poronga, que trazia para as salas de aula elementos típicos da Amazônia, como as árvores castanheiras ou seringueiras.


REFORMA AGRÁRIA PARA OS SERINGAIS

Os empates davam resultado, mas se tornavam cada vez mais arriscados para as famílias. Por isso, os seringueiros começaram a se mobilizar para exigir que o governo assegurasse a permanência deles em suas terras. Nesse movimento, Chico Mendes organizou o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, realizado em 1985, em Brasília, que reuniu pelo menos 100 trabalhadores e consolidou a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros.

Foi nesse encontro que os trabalhadores cunharam uma proposta própria de reforma agrária: as Reservas Extrativistas. Baseados na legislação que assegura as terras indígenas, os seringueiros propuseram que o governo concedesse a eles terras públicas protegidas, que seriam utilizadas para garantir renda a partir da extração sustentável de recursos naturais.

Após o Encontro Nacional, a luta dos seringueiros começou a ficar conhecida em diversas partes do mundo e Chico Mendes passou a ser considerado uma figura problemática pelos fazendeiros, que almejavam acumular mais terras na região. O líder seringueiro já havia recebido ameaças de morte, mas elas foram intensificadas nessa época. "Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero Viver", chegou a dizer Chico aos colegas seringueiros.

Além das ameaças que se intensificavam, os seringueiros começavam a enfrentar um novo problema: as grandes obras executadas pelo governo federal na Amazônia, que incentivavam o desmatamento da floresta. Entre as mais criticadas estava o asfaltamento da BR-364 que ligava Porto Velho, em Rondônia, a Rio Branco, no Acre, e que provocaria o desmatamento de uma grande área de floresta intacta.

Em 1987, uma comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) foi a Xapuri e Chico denunciou a eles que projetos financiados por bancos estrangeiros estavam devastando a floresta e expulsando seringueiros. Para ampliar a denúncia, Chico Mendes conseguiu entrar em uma conferência de banqueiros em Miami, nos Estados Unidos, disfarçado de jornalista. Na hora das perguntas da imprensa, pediu a palavra e denunciou que a Amazônia e os povos da floresta corriam perigo no Brasil.

Ainda neste ano, Chico Mendes recebeu o prêmio Global 500, entregue pela Organização das Nações Unidas na Inglaterra e um ano depois recebeu a Medalha de Meio Ambiente da Better World Society, nos Estados Unidos. Chico deu entrevista aos principais jornais do mundo e diversos jornalistas e pesquisadores vieram até os seringais conhecer de perto a realidade dos trabalhadores da floresta, difundindo suas ideias e propostas internacionalmente. O cinegrafista inglês Adrian Cowell produziu o documentário Eu Quero Viver, onde mostrou a luta de Chico Mendes para proteger os trabalhadores da floresta e o meio ambiente.

Ao mesmo tempo que Chico ganhava relevância internacional, os empates começaram a resultar na prisão de seringueiros, as promessas de reforma agrária não se concretizavam e a proposta de criação das Reservas Extrativistas emperrava na burocracia federal. As ameaças contra a vida do líder seringueiro aumentavam cada vez mais em Xapuri, a ponto de o governo do Acre designar dois policiais para cuidarem de sua segurança.

Às 18h de 22 de dezembro de 1988, Chico saiu de sua casa para tomar banho no pequeno banheiro que ficava fora da residência. A pouco mais de oito metros dali, estava atocaiado o fazendeiro Darci Alves da Silva, armando uma emboscada para o seringueiro. Quando abriu a porta levou um tiro fatal no peito.

A notícia da sua morte causou enorme comoção social, não apenas entre os seringueiros, em diversas partes do Brasil e do mundo. Organizações nacionais e internacionais se mobilizaram pedindo justiça para a morte de Chico Mendes. A pressão foi tanta que o processo judicial relacionado ao assassinato de Chico ficou conhecido como “o julgamento do século”. Em 1990, Darci foi condenado por executar o assassinato a mando de seu pai, o também fazendeiro Darly Alves da Silva. Ambos foram condenados a 19 anos de prisão.

Neste mesmo ano, foi criada a primeira reserva extrativista do país: a do Alto Juruá, no Acre, que pôs fim a diversos conflitos agrários e concretizou o sonho de Chico, de assegurar terra para os seringueiros e garantir a preservação da floresta. Dois meses depois, foi finalmente demarcada, também no Acre, a reserva que leva o nome de Chico Mendes e congrega uma área de 970.570 hectares, abrangendo sete municípios e reunindo 10 mil pessoas. O Brasil tem hoje 89 reservas extrativistas, em 17 estados que juntas elas somam uma área de 14 milhões de hectares, o equivalente ao dobro do território da Irlanda. É este um dos principais legados da luta dos seringueiros.

“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade”, resumiu o próprio Chico Mendes sobre sua trajetória, pouco antes de morrer.


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