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Clarice Lispector
 
 
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Clarice Lispector 1
Clarice Lispector (1920-1977). Foto: aclbraga/VisualHunt.com/CC BY-NC.

No ano de 2020, completam-se 100 anos do nascimento de uma das maiores escritoras não só da literatura brasileira, mas de toda a literatura em língua portuguesa. Esta é Clarice Lispector, escritora brasileira de origem ucraniana, que ficou conhecida por seus romances introspectivos, um estilo que tornava menos importante o encadeamento do roteiro e buscava aprofundar a narrativa no aspecto psicológico dos personagens. Em razão destas características, sua obra foi considerada quase impenetrável por muitos leitores, que precisam de uma atenção redobrada para acompanhar todo o fluxo de pensamentos desenvolvido em seus livros.

Sua obra, embora tenha se tornado clássica, foi recebida com certa estranheza quando do lançamento de seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, na década de 1940. Após esse livro, a escritora ainda escreveu pelo menos mais vinte obras, que a consagraram enquanto figura essencial da literatura do século XX, ao tratar de um protagonismo feminino e de sentimentos complexos, trazendo discussões filosóficas para suas páginas, e tendo sua obra traduzida para diversos idiomas.


O NASCIMENTO E A INFÂNCIA
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, na pequena cidade de Chechelnyk, localizada na província de Vinnytsia, na Ucrânia. Esse era um período bastante conturbado na região, em virtude das lutas que se desenvolviam durante a Guerra Civil Russa. Este evento foi uma consequência da Revolução Russa de 1917, evento marcado pela tomada de poder pelos socialistas, acabando com o czarismo e com o Império Russo. A Revolução Russa marcou um momento no qual a população do país, insatisfeita com as dificuldades econômicas internas, agravadas pela participação do país na Primeira Guerra Mundial, pegou em armas e avançou contra o governo do czar Nicolau II, da dinastia Romanov. Sua retirada do poder não gerou, imediatamente, as consequências que alguns grupos desejavam, o que levou a uma nova fase do movimento revolucionário, em outubro de 1917.

Com esta segunda fase da Revolução, os bolcheviques (socialistas) chegaram ao poder, instalando Lenin como nova liderança do país. Esse momento marca a desagregação do Império Russo, pois várias das nações que o formavam se tornaram livres nesse contexto. Entretanto, com as medidas tomadas pelo governo socialista dentro da Rússia, vários grupos começaram a se erguer como oposição aos bolcheviques, o que culminou na emergência da Guerra Civil Russa.

Esta guerra civil se prolongou de 1918 a 1921, e envolveu diversos blocos que lutaram entre si: o Exército Vermelho, defendendo os bolcheviques russos e as conquistas que esse governo havia alcança, o Exército Branco, formado por membros da antiga nobreza e pela burguesia liberal; o Exército Verde, formado pela junção de camponeses que buscavam defender a si e a suas terras contra Vermelhos e Brancos; e vários agrupamentos militares separatistas, que buscavam garantir suas independências em meio ao colapso do Império Russo.

Entre os grupos separatistas, estava o Exército Negro, organizado por Nestor Makhno, que lutou contra as forças bolcheviques e tentou assegurar que a Ucrânia permanecesse independente, além de criar um modelo de autogestão que envolveria todos os níveis de administração do país, por meio da representação direta. Durante um certo período, Makhno conseguiu garantir que a Ucrânia se mantivesse livre da influência russa, mas em 1921 as tropas makhnovistas foram derrotadas e seu país foi incorporado pela nascente União Soviética.

Com a anexação da Ucrânia pelos soviéticos, a situação dos judeus ucranianos não ficou nada confortável. Sendo mais de 1,5 milhão de pessoas na região, os judeus formavam 5% da população daquela república, e por não aceitarem a imposição da cultura ucraniana sobre seu povo, foram tratados como traidores, sofrendo diversas perseguições, tal como já ocorria na época czarista.

Esta perseguição, somada às dificuldades financeiras que se instalaram com a Guerra Civil Russa, fez com que Pinkhas Lispector, pai da escritora, decidisse que aquele era o momento de ele e toda sua família abandonarem o país e buscarem um novo lar. A família de Pinkhas já vinha se mudando constantemente, pois a situação dos judeus na Rússia era bastante complicada, sendo alvos constantes de perseguições. Enquanto a Guerra Civil Russa se desenvolvia, estas dificuldades pioraram, e, pelo fato de uma irmã de Mania, mãe de Clarice, morar no Brasil, a família decidiu que este seria o destino do casal e das três filhas.

Na complicada esteira dos acontecimentos que marcaram esta migração, a família saiu clandestinamente da Ucrânia para a Romênia, onde conseguiram vistos para emigrar para o Brasil. Passaram, na viagem, ainda por outros países, sendo que Clarice era ainda uma criança muito pequena quando os Lispector desembarcaram no Brasil, em janeiro de 1922. Foi neste momento que a escritora, que havia sido batizada como Chaya Lispector, teve seu nome mudado para Clarice. O mesmo aconteceu com seu pai, que passou a ser chamado de Pedro, sua mãe, que se tornou Marieta e sua irmã Leah, que se transformou em Elisa. Apenas Tânia Lispector teve seu nome preservado pela proximidade com os nomes correntes no Brasil.

Um dos elementos que marcaram a vida da família Lispector logo ao chegar ao Brasil foram as dificuldades financeiras. A família instalou-se primeiro em Maceió, capital de Alagoas, e Pedro tornou-se comerciante ambulante, além de ministrar aulas particulares de hebraico para sustentar a família. Pouco tempo depois, passou também a fabricar e comercializar sabão, com o auxílio do concunhado, o que amenizou as dificuldades financeiras. Em 1924, Clarice iniciou seus estudos no jardim de infância, mas a vida escolar na capital alagoana durou pouco. No ano seguinte, seu pai, buscando construir uma maior independência financeira, decidiu que a família iria viver em Recife.

Ao chegarem na capital de Pernambuco, os Lispector instalaram-se no bairro de Boa Vista. Este bairro encontra-se na área onde está localizado o Palácio da Boa Vista, edificado por ordem de Maurício de Nassau em 1643, quando os holandeses ocuparam o Nordeste brasileiro. A presença dos holandeses no século XVII permitiu uma maior liberdade religiosa para os judeus, que até aquele momento viviam no Brasil de forma relativamente reclusa, tendo que esconder suas práticas para não serem perseguidos pela Inquisição. Como a Holanda era um país de grande variedade religiosa, a instalação da tolerância foi um dos elementos que marcou o período de sua dominação no território brasileiro. Porém, com a expulsão dos invasores holandeses em 1654, a situação dos judeus retornou a seu anterior estado de perseguição, e muitos foram para o sertão, pois viver em regiões mais afastadas daria maior liberdade para suas práticas. Esta situação perdurou durante muito tempo, até que no final do século XIX e princípio do século XX o antissemitismo se difundia com grande força pelo continente europeu, fazendo com que muitos judeus buscassem a emigração como alternativa para suas vidas. Desta forma, o Brasil tornou-se destino de muitos destes refugiados, que passaram a viver em proximidade uns aos outros, tal como aconteceu no bairro de Boa Vista, em Recife. Por estar próximo de sua comunidade religiosa de origem, bem como de outros parentes que já haviam vindo ao Brasil, os Lispector se instalaram ali, e novamente Pedro tornou-se mascate, vendendo roupas.

Estátua Clarice Lispector
Estátua de Clarice Lispector na Praça Maciel Pinheiro, em Recife, Pernambuco. Foto: Abdias Jr/Visual hunt / CC BY.

Nesta nova cidade, Clarice estudou primeiro na Escola João Barbalho, uma escola pública no próprio bairro onde viviam. Posteriormente, com a mudança de endereço da família, a futura escritora passou a estudar no Colégio Hebreu-Iídiche Brasileiro, no qual Clarice obteve desempenho bastante bom, além de aprender hebraico e iídiche. Este período é marcado por dificuldades adicionais, pois Marieta Lispector, que desenvolvia uma paralisia progressiva de seu corpo, teve sua condição piorada, tornando-se incapaz de realizar suas atividades cotidianas já que não mais andava. Coube nesta situação a Elisa, irmã mais velha de Clarice, assumir as funções de cuidar da mãe e dos afazeres domésticos, assim como zelar pelas irmãs mais novas. Em setembro de 1930, Marieta Lispector faleceu, e ainda na atualidade permanecem dúvidas quanto ao seu real problema de saúde. Benjamin Moser, um dos maiores especialistas sobre a vida e obra de Clarice Lispector, sugere que sua mãe pode ter sofrido as consequências do avanço progressivo da sífilis, que Marieta teria contraído ao ser violentada durante os episódios atrozes da Guerra Civil Russa. Já Nádia Batella Gotlib, outra biógrafa, busca refutar esta tese ao afirmar que não existem quaisquer indícios que essa história tenha de fato acontecido, ao que Moser responde que tal acontecimento, que teria trazido uma vergonha enorme à família, realmente não seria tratado de forma aberta.

O que resta desta situação é que Clarice, buscando alegrar a difícil situação da mãe, começou a escrever, sendo sua primeira obra, Pobre menina rica, inspirada por uma peça teatral que a menina havia assistido. Este escrito, porém, desapareceu, restando apenas a citação a seu respeito. Benjamin Moser coloca este evento como fundamental para o surgimento da escritora, que retrataria muitas dores em suas obras, assim como mostraria grande simpatia pelas classes populares, em virtude das dificuldades que teve na infância. Também em homenagem à mãe, Clarice compôs uma peça para piano, instrumento que na época, junto às irmãs, estava aprendendo a tocar.

Ainda em Recife, em 1932, foi estudar no Ginásio Pernambucano, onde conviveu com muitos de seus primos, e desenvolveu de fato sua vontade de escrever, embora tenha dito, em sua última entrevista, na TV Cultura em 1977, que não fora durante a vida uma escritora profissional, pois não tinha o compromisso de entregar as obras ao público, somente produzindo quando sentia a necessidade. Destes primeiros momentos como escritora, sabe-se que Clarice produziu vários contos que foram enviados para a seção “O Diário das Crianças”, do jornal Diário de Pernambuco, mas que não foram publicados. Clarice diria depois que o fato que levou o jornal a não publicar seus contos foi o seu conteúdo, baseado mais na presença de sentimentos do que necessariamente sendo “contos de fadas”.

Por mais dois anos, até o final de 1934, a família viveria em Recife, quando Pedro Lispector, decidido a encontrar um futuro mais promissor para suas filhas, decide mudar-se para o Rio de Janeiro, onde poderia expandir seus negócios e encontrar bons casamentos para as meninas.


ADOLESCÊNCIA E VIDA NO RIO DE JANEIRO
Na então capital federal, a família passou por alguns bairros até se instalar na Tijuca, bairro que apesar da origem aristocrática, vinha passando por mudanças significativas desde a reforma urbanística iniciada pelo prefeito Pereira Passos em 1903. Instalados nesta região, Clarice estudou e concluiu o primeiro ciclo do curso ginasial, tendo relatado que este foi um período no qual teve um imenso contato com livros, lendo uma enorme variedade de obras, que transitavam dos romances cor-de-rosa até Dostoiévski, passando por Machado de Assis, Jorge Amado e Rachel de Queiróz.

Em 1936, iniciou seu curso complementar de três anos para que pudesse ingressar na universidade. Nesta época, Clarice também ministrava aulas particulares de português e matemática, obtendo algum ganho para o sustento da família. Foi um período marcado por algumas dificuldades, já que em 1937 Vargas instalou a ditadura do Estado Novo, cuja proximidade com os regimes totalitários da Europa trouxe elementos de antissemitismo para o país. Mas, na mesma época, em 1939, Clarice Lispector concluiu sua educação básica e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, começando também a trabalhar como secretária, além de traduzir alguns textos científicos.

No ano de 1940, dois acontecimentos marcam a vida de Clarice Lispector. Foi neste ano que seu conto “Triunfo” saiu publicado na revista semanal Pan. Ele traria algumas das características que marcaram toda a sua obra. Destaca-se a presença de uma protagonista feminina, que narra o fato de ser abandonada pelo marido e a busca por um recomeço baseado em sua força interior. Também o foco nas dificuldades dos relacionamentos amorosos já aparece neste conto, elemento que a escritora levaria adiante em muitas outras obras. Assim, vê-se que sua carreira literária se inicia então, mas outro evento também marcaria aquele ano. No mês de agosto, Pedro Lispector começou a se sentir mal, e ao consultar um médico, foi informado de que tinha problemas na vesícula biliar, sendo necessária uma pequena e simples cirurgia para resolver o problema. Entretanto, três dias após o procedimento, o pai da escritora faleceu, provavelmente em virtude de alguma complicação.

Após o falecimento do pai, Tânia, já casada com William Kaufmann, levou suas irmãs para morar com sua família. Neste momento, Clarice publicou outro conto, “Eu e Jimmy”, publicado na revista Vamos Ler!, novamente focando na temática das turbulências amorosas. Também mudou de emprego, saindo do escritório de advocacia no qual trabalhava e adentrando no campo do jornalismo, ao se tornar repórter e editora da Agência Nacional. Paralelamente, prosseguia em seus estudos de Direito, conduzindo um projeto sobre a legislação penal e o sistema penitenciário, embora, após sua graduação, Lispector não tenha atuado na área.

Após iniciar seu trabalho na Agência Nacional, a escritora desenvolveu uma profunda amizade com o jornalista mineiro Lúcio Cardoso, que a aproximou de círculos intelectuais do Rio de Janeiro, entrando em contato com Vinícius de Moraes e Rachel de Queiróz, entre outros. De 1941 a 1943, Clarice produziu muitos textos, tanto de caráter jornalístico quanto literário, embora alguns contos desta época não tenham sido publicados até depois de sua morte. Também de Cardoso veio a sugestão para o título do primeiro livro que a autora produzira, em um período de dez meses, no ano de 1942. Perto do Coração Selvagem, publicado em 1943, marcou a estreia de Clarice Lispector como romancista, trazendo em sua estrutura a presença da profundidade psicológica, que não se atenta primordialmente a uma sequência concreta de enredo, mas que busca explorar sentimentos e ideias dos personagens. Por isso, críticos afirmaram que a obra aproximava a escritora brasileira de autores como James Joyce e Virginia Woolf, embora Clarice tenha dito que não entrara em contato com esses escritores na época.


A VIDA APÓS 1943 E A SAÍDA DO BRASIL
O ano de 1943 foi de grande importância na vida de Clarice Lispector. Além de publicar sua primeira narrativa de maior fôlego, também foi quando se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem havia começado a namorar durante a faculdade. O casamento só ocorreu após a naturalização de Clarice Lispector como brasileira, depois de um longo processo iniciado no ano anterior. No final do ano, após a publicação de seu primeiro romance, ela e o marido partiram para Belém, no Pará, cidade para a qual Maury havia sido designado para ser representante do Ministério das Relações Exteriores.

Passaram seis meses na cidade, onde Clarice entrou em contato com diversas resenhas a respeito de seu livro, que de modo geral foi bem recebido pela crítica, embora os comentários de Álvaro Lins, a respeito da suposta influência de autores britânicos sobre sua obra, tenham-na deixado incomodada. Em meio aos poucos afazeres que possuía em Belém, Clarice queixava-se do tédio, ao mesmo tempo que buscava ler tudo o que pudesse e tenha escrito alguns materiais para a imprensa. No mês de julho de 1944, o casal retornou ao Rio de Janeiro, mas muito rapidamente seu marido foi designado como cônsul em Nápoles, o que fez com que o casal partisse para a Europa. Pouco tempo depois, no mês de outubro, o livro de estreia da escritora foi agraciado com o Prêmio Graça Aranha como melhor romance do ano.

Ao chegar na Itália, que ainda vivenciava a Segunda Guerra Mundial, Clarice se envolveu com o trabalho voluntário junto às enfermeiras de um hospital norte-americano. Ao mesmo tempo, continuou com seus escritos, terminando em novembro de 1944 o seu segundo livro, O Lustre, cujas características de fluxo psicológico, sem uma estrutura definida, apareceram de forma nítida. Mais uma vez, uma mulher é a protagonista, mas seu conteúdo volta-se, para além da solidão, também para a temática da morte.

Durante o período que viveu fora do país, Clarice manteve intensa correspondência com amigos brasileiros, demonstrando que sentia saudades do Brasil. No ano de 1946, O Lustre foi publicado, e Clarice teve a chance de retornar ao país por dois meses, em virtude do trabalho de Maury, situação que aproveitou para divulgar sua nova obra. Entretanto, voltou à Europa, passando pela Itália e indo se instalar na Suíça, para onde seu marido havia sido transferido. Durante o período em Berna, a escritora desenvolveu grande gosto pelo cinema, que frequentava como alternativa a uma vida por demais pacífica na cidade. Nesta passagem pela nação suíça, continuou escrevendo e colaborando com jornais do Rio de Janeiro, além de engravidar e ter seu primeiro filho, Pedro, nascido em 1948. Também nesse ano, dedicou-se a escrever seu terceiro romance, embora tenha tido dificuldades com o desenrolar da obra. Paralelamente, escreveu diversos contos, que eram publicados na imprensa brasileira.

Retornando ao país em 1949, Clarice consegue lançar seu livro A cidade sitiada, que não tem uma recepção muito calorosa da crítica. Sobre este livro e sobre O Lustre, lançado três anos antes, fizeram-se algumas considerações sobre a ausência de referências aos judeus, ao Holocausto ou à criação do Estado de Israel, uma vez que a autora provinha da cultura judaica. Entretanto, a ligação de Lispector com o judaísmo nunca foi um ponto de interesse central da crítica em sua obra, sendo este aspecto retomado somente em tempos mais recentes, tal como na biografia escrita por Benjamin Moser.


A DÉCADA DE 1950
Os anos 1950 marcam um período muito particular da vida de Clarice Lispector, com transformações bastante impactantes no nível pessoal, assim como um grande hiato na publicação de seus livros. Ainda escreveria uma coluna feminina no jornal antigetulista Comício, embora o tenha feito utilizando um pseudônimo, além de iniciar as notas de seu quarto livro, A maçã no escuro, que só lançaria na década de 1960.

Após retornar ao Brasil com o esposo em 1949, o casal permaneceu no Rio de Janeiro até 1950, época em que Clarice restabeleceu laços com antigos amigos e criou novas relações, mas essa situação duraria pouco: mais uma vez Maury Valente fora designado para uma missão no interior, desta vez na Inglaterra, para onde a família partiu. Esta estada na Europa foi pouco feliz para a escritora, uma vez que no final do ano estava grávida e sofreu um aborto espontâneo. Voltaria ao Brasil pouco tempo depois, em março de 1951, mas uma nova tragédia ocorreu, a morte por câncer de Bluma Wainer, ex-esposa do jornalista Samuel Wainer, com quem mantinha uma relação de amizade desde 1946.

No ano de 1952, mais uma vez Maury Valente foi designado para um trabalho no exterior, desta vez nos Estados Unidos, onde Clarice permaneceu por sete anos. Antes de partir, descobriu que estava grávida mais uma vez, tendo seu segundo filho, Paulo, nascido em Washington em 1953. Deste período, foram marcantes as amizades que Lispector desenvolveu com outros intelectuais que por ali também viviam, tal como Érico Veríssimo, além de manter contato com os antigos amigos brasileiros. Chegou a escrever diversas crônicas para a revista Manchete, que acabara de ser lançada, mas esses textos não foram publicados naquele momento. Escreveu também alguns contos, que lhe haviam sido encomendados por Simeão Leal, para compor um novo livro, que demoraria muito a ser publicado.

Entretanto, o período que passou nos Estados Unidos foi muito marcado pela divisão entre as atividades diplomáticas e os cuidados com os filhos, o que desgastou a escritora pelo fato de o marido estar em constantes viagens. Chegou a escrever uma história infantil, a pedido de Paulo, em 1956, que se transformou posteriormente na sua primeira obra do gênero. Enquanto isso, sofria com problemas na publicação de seus contos e de seu novo romance, não podendo tomar nenhuma medida a respeito em virtude da distância. Em 1959, não suportando mais a crise conjugal que se estabelecera, Clarice se separou de Maury e voltou ao Brasil com os dois filhos, conseguindo naquele momento estar mais próxima para agir na publicação de seu livro e de seus contos, além de escrever para a revista Senhor e também para jornais.


A MATURIDADE
A década de 1960 marcou para Clarice Lispector um período de intensidade do ponto de vista profissional, pois estes foram os anos em que muito produziu e publicou. Já no ano de 1960, seu primeiro livro de contos, Laços de Família, foi publicado, tendo recebido boa crítica. No ano seguinte, A maçã no escuro finalmente chegou às livrarias, após cinco anos pronto e atravessando inúmeras dificuldades para ser publicado. Em 1962, o livro seria agraciado com o Prêmio Carmen Dolores Barbosa de melhor livro do ano de 1961.

Clarice seguiu em uma grande produção de contos, colunas para jornais e revistas, ao mesmo tempo em que escrevia um dos livros mais densos de sua carreira, A Paixão segundo G.H.. Lançado em 1964, o livro aborda questões muito caras à discussão sobre a existência humana, focando na história de G.H., mulher que demite sua empregada e que, posteriormente, ao arrumar o quarto da antiga funcionária, encontra uma barata, que esmaga. Este é o momento da epifania da personagem, que busca a partir de então compreender sua própria existência no mundo. Esta epifania, retratada no livro, é uma das características mais marcantes da obra de Clarice Lispector: em suas tramas, as personagens vivem um mundo relativamente estável, até que algum evento quebre essa ordem, causando o tumulto interior. Desta busca pela compreensão e reorganização, nasce o instante da reflexão (a epifania), que encadeia muito do fluxo psicológico que atravessa o restante do texto. Ao final, sempre o equilíbrio é reencontrado, mas em uma ordem diversa daquela que inicia a narrativa, em um movimento profundamente dialético.

Também nesta década um evento de relevância capital tomou lugar quando, em 1966, Clarice adormeceu enquanto fumava, hábito que mantinha desde a adolescência. O cigarro aceso provocou um incêndio em seu apartamento, que foi notado por uma vizinha ao perceber a fumaça. O incêndio causou graves queimaduras na escritora, que ficou à beira da morte por alguns dias e quase teve sua mão direita amputada. Em sua recuperação, Clarice recebeu enxertos de pele na mão queimada, mas seus movimentos ficaram comprometidos até o final de sua vida, tendo que contratar uma enfermeira, Siléa Marchi, que se tornou sua auxiliar até seus últimos dias.

Apesar das dificuldades e do estado depressivo em que se encontrava, Clarice seguiu produzindo contos e crônicas, que publicava em jornais e revistas, além de ver seus livros infantis saírem a público, tendo O Mistério do Coelho Pensante sido premiado logo após sua publicação. Seguiu na produção de seus romances, e no final da década de 1960, posicionou-se contra o regime militar que se instalara no país, apesar de não sofrer nenhuma reprimenda ou punição durante o período. Também no final da década perdeu seu grande amigo e mentor literário Lúcio Cardoso, que faleceu em 1968 após uma série de derrames.


SEUS ANOS FINAIS
A partir dos anos 1970, novas mudanças se impuseram à rotina de Clarice. Tendo dificuldades para datilografar seus textos, passou a contar com a ajuda da amiga Olga Borelli para poder compor suas obras. Também deixou de escrever para o Jornal do Brasil, pois fora dispensada após a demissão de Alberto Dines de sua direção. Este fato fez com que a escritora intensificasse seu trabalho de tradutora, para complementar sua renda. Também participou de diversos congressos e viu sua obra cada vez mais tornar-se objeto de estudo, aproximando-se de seu público leitor.

Em âmbito pessoal, foi um momento de perdas, pois seu filho Paulo havia deixado a casa para morar sozinho, enquanto Pedro mudara-se para Montevidéu na companhia do pai. Também perdeu, em 1975, o amigo Érico Veríssimo, com quem mantinha longa relação. Fez diversas viagens, participou de eventos e lançamentos de livros, além de seguir trabalhando intensamente. Publicou diversas obras na década de 1970, como os livros de contos Felicidade Clandestina (1971) e A Imitação da Rosa (1973), além de romances como Água Viva (1973), e também outros livros infantis.

Em 1976, durante o casamento de seu filho Paulo, foi-lhe contado por uma tia que sua mãe também escrevia poemas, além de manter um diário. Clarice nunca havia tomado conhecimento destes fatos, o que a marcou profundamente mesmo sem conseguir ter acesso a esses escritos. Neste ínterim, trabalhou na escrita de A Hora da Estrela, seu último romance a ser publicado em vida. Este é o livro mais famoso de Clarice Lispector já que, ao narrar a história da datilógrafa nordestina Macabea, que se muda para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, a escritora produziu um romance com características de fluxo psicológico menos acentuadas, aproximando-se de uma prosa mais acessível ao público.

Em 1977, na única entrevista que concedeu para uma rede de televisão, Lispector chegou a anunciar a vinda da nova obra, mesmo sem dar maiores informações do que seria o enredo. Neste encontro, conduzido pelo jornalista Júlio Lerner, Clarice afirmou que uma das inspirações para a história teria sido uma visita sua a uma cartomante, achando que seria muito irônico morrer atropelada ao sair de lá com tantas coisas positivas ditas pela vidente. Também disse que a obra tinha 13 títulos, para ajudar o leitor a compreender suas intenções com o texto.

O romance foi lançado em outubro de 1977, pouco tempo antes de Clarice sentir-se mal e ser internada, momento no qual se descobriu um câncer de ovário em estado bastante avançado. Os tratamentos de quimioterapia e radioterapia eram inúteis naquele momento, pelo estado da doença, e a escritora permaneceu internada recebendo cuidados paliativos. Em 9 de dezembro de 1977, faleceu em consequência da doença, mantendo-se lúcida até seus últimos momentos. Como falecera em uma sexta-feira, não poderia ser enterrada no dia seguinte, em respeito à tradição judaica, o que fez com que seu sepultamento ocorresse no dia 11 de dezembro de 1977. Cerca de 200 pessoas compareceram a seu funeral, entre eles seus amigos Rubem Braga, José Rubem Fonseca, Nélida Piñon e Fernando Sabino, além de vários familiares. A autora encontra-se sepultada no Cemitério Comunal Israelita do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro.

Após sua morte, Um sopro de vida, seu último romance, foi publicado em 1978, mesmo ano que seu livro infantil Quase de verdade também chegou às livrarias., junto ao conjunto de crônicas Para Não Esquecer. Em 1979, uma coletânea de contos chamada A Bela e a Fera também foi publicada, sendo que em 1984 outro conjunto de crônicas, A Descoberta do Mundo, e, em 1987, o livro infantil Como Nasceram as Estrelas marcaram a chegada ao público das produções finais de Clarice Lispector. As entrevistas que produziu, bem como sua correspondência e seus artigos para jornal, foram publicados na década de 2000, quando também já circulavam biografias bastante importantes sobre a autora.

Apesar de a escritora ter falecido há mais de quatro décadas, sua obra permanece viva, sendo constantemente alvo de reinterpretações e estudos. A complexidade com que tratou de temas como o amor, a solidão e a busca pela autocompreensão deixou marcas inquestionáveis em toda a literatura brasileira, sendo que seus livros tem, na atualidade, conquistado um público mais amplo. A divulgação de sua obra fez com que seus escritos estivessem difundidos por mais de 30 países, alcançando ao menos 28 idiomas diferentes, o que mostra que seu pensamento tem consolidado como uma das maiores figuras da língua portuguesa de todos os tempos.

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Clarice Lispector. Foto: aclbraga/VisualHunt.com/CC BY-NC.


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