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Jair Bolsonaro
 
 
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Jair Bolsonaro, eleito presidente do Brasil em 2019. Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil.

Jair Messias Bolsonaro é o 38º presidente do Brasil, após ter sido eleito em segundo turno nas eleições de 2018. Seu mandato tem a duração de 1º de janeiro de 2019 até 31 de dezembro de 2022. Bolsonaro é o oitavo presidente a governar o Brasil desde a redemocratização, ocorrida em 1985, tendo sido escolhido para o cargo com cerca de 57,8 milhões de votos. É também o décimo militar a ocupar o posto de chefe do Poder Executivo, tal como Hermes da Fonseca e Eurico Gaspar Dutra, sendo o terceiro a governar o país após um processo de eleições diretas. Tornou-se muito conhecido pelas declarações polêmicas e muitas vezes agressivas que fazia enquanto ainda era deputado federal, mantendo tal postura na presidência.


Vida pessoal
Jair Messias Bolsonaro nasceu em 21 de março de 1955, na cidade de Glicério, município do interior do estado de São Paulo, que conta com uma população de aproximadamente 5 mil pessoas. É filho de Percy Geraldo Bolsonaro (1927 - 1995) e Olinda Bonturi Bolsonaro (1927). Seu nome é uma homenagem ao lateral esquerdo da Seleção Brasileira de Futebol, Jair Rosa Pinto, que atuou como jogador entre o final da década de 1930 e a década de 1950. O segundo nome, Messias, é atribuído ao fato de sua gestação ter sido problemática e a mãe considerar um milagre o filho haver nascido saudável, o que a levou a chamá-lo apenas por esse nome.

Sua mãe era dona de casa e seu pai atuou, durante muitos anos, como “dentista prático”, o que significa que exercia a profissão de dentista mesmo sem ter a formação acadêmica na área. Em virtude dessa atuação, Percy Geraldo chegou a ser indiciado pelo exercício ilegal da profissão e preso, sendo libertado em 1975 e inocentado. No começo dos anos 1980, o pai de Bolsonaro chegou a ir para Serra Pelada, na época em que o garimpo se desenvolvia na região. Percy Geraldo também foi, durante muitos anos, observado por órgãos de inteligência do governo, como o DOPS, o SNI e o comando da Aeronáutica. Essa observação decorreu do fato de, em três ocasiões (1976, 1982 e 1988), Percy Geraldo candidar-se a prefeito de Eldorado, sendo derrotado em todas. No livro Os Presidentes – a história dos que mandaram e desmandaram no Brasil, de Deodoro a Bolsonaro (2019), Rodrigo Vizeu afirma que a relação entre Bolsonaro e seu pai não era amistosa, uma vez que brigavam muito por causa do alcoolismo do pai.

Durante a infância de Bolsonaro, sua família viveu em diversas pequenas cidades do interior de São Paulo, como Glicério, Ribeira, Jundiaí, Sete Barras e finalmente Eldorado, onde se instalaram em 1966. Passando por um período de dificuldades financeiras, em um núcleo familiar de oito pessoas, relata-se que Bolsonaro buscava ajudar na complementação da renda da família vendendo peixes que pescava ou frutas que colhia nas matas ao redor da cidade, também se empregando em serviços como o de descarregar caminhões. Bolsonaro já relatou que, em sua adolescência, fez um curso técnico de eletricista por correspondência antes de adentrar as forças armadas.

Dos 11 aos 18 anos Bolsonaro viveu na cidade de Eldorado, cidade do Vale do Ribeira, região que empobreceu com o aumento da produção de café no Oeste Paulista e que era dominada pela presença de Jaime Almeida Paiva, pai do deputado federal Rubens Paiva, sequestrado e morto pelo regime militar no ano de 1971, tal como apurado pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.

Jaime Almeida Paiva era proprietário de terras em Eldorado, sendo sua Fazenda Caratiá a principal fonte de renda e emprego da maior parte dos habitantes da cidade. Dr. Jaime, como era conhecido, atuava como “coronel”, organizando a vida econômica e política da região, tendo sido prefeito da cidade em duas ocasiões. Também ficou conhecido por ser contrário ao regime militar, que vigorava na época em que Bolsonaro e sua família ali viveram. Esta oposição fez com que Bolsonaro, enquanto ocupava o cargo de deputado, fizesse acusações de que a família Paiva teria colaborado com os grupos armados que lutavam contra o governo.

Eldorado também é conhecida por ser habitada por descentes de moradores de antigos quilombos. São onze comunidades que vivem de uma pequena agricultura, de artesanato e do turismo. Os habitantes dessas comunidades já foram alvo de declarações do presidente que geraram polêmicas no ano de 2018, quando afirmou que eles “não fazem absolutamente nada” e que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”, classificando os como improdutivos, tal como reproduzido pelo jornal Folha de S.Paulo em 3 de maio de 2018.

Ainda nesta cidade, Bolsonaro vivenciou outra experiência que seria decisiva para sua trajetória. Em 1970, o regime militar havia ampliado o controle e a violência sobre a sociedade brasileira, em particular após a entrada em vigor, em 13 de dezembro de 1968, do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Os Atos Institucionais foram elementos legais criados pelo regime militar para organizar a vida política do Brasil após o Golpe de 1964. Eram criados e colocados em funcionamento pelo Poder Executivo, sem a necessidade de aprovação pelo Congresso. Ao longo dos 21 anos de regime militar, 17 Atos Institucionais entraram em funcionamento, sendo o AI-5 o mais famoso e violento deles. Este Ato surgiu em meio a um contexto de profundas críticas ao regime, que se aguçaram após a morte do estudante Edson Luís e as passeatas que se seguiram. Em setembro de 1968, dias antes do feriado da Independência, o deputado Márcio Moreira Alves fez um duro discurso no Congresso, acusando os militares de serem torturadores e clamando à população que não fosse às ruas no dia 7 de setembro, como forma de mostrar a insatisfação com o governo. Ofendidos, os militares solicitaram a abertura de um processo contra o deputado, que deveria ser julgado em um tribunal militar. Diante da negativa do Congresso, o Poder Executivo, chefiado por Arthur da Costa e Silva, colocou em funcionamento o AI-5, criado pelo ministro Luís Antônio da Gama e Silva. Entre as várias determinações do Ato, estipulava-se o fechamento do Congresso, a possibilidade de cassação de direitos políticos de qualquer cidadão, a proibição de reuniões de cunho político, a suspensão do habeas corpus em crimes de natureza política, entre outras medidas.

O aperto do governo militar fez com que os grupos armados contrários ao regime tivessem uma atuação ainda mais incisiva no sentido de lutar contra a ditadura militar. Esses grupos vinham agindo desde antes da implementação do AI-5, tal como comprova o surgimento do Movimento Nacionalista Revolucionário, em 1964, ou mesmo o atentado de bomba ocorrido no Aeroporto de Guararapes, em Recife, em 25 de julho de 1966, quando se tencionava assassinar Arthur da Costa e Silva, então ministro do Exército e já cotado como candidato para presidente. O que ocorreu após o AI-5 entrar em vigor foi uma maior disseminação de tais grupos, entre os quais de destaca a Vanguarda Popular Revolucionária, liderada por Carlos Lamarca.

Lamarca era militar e desertou no final de 1969, passando imediatamente para o lado da luta armada antigovernamental. Em sua atuação como guerrilheiro, participou de assaltos a bancos e de sequestros, cujo objetivo era o estímulo à ação para a derrubada do governo. No Vale do Ribeira, Lamarca instalou-se na área rural com seu grupo, onde buscava dar treinamento militar a esses combatentes. Em 1970, perseguido pelas forças o Exército, Lamarca entrou em combate com os militares na cidade de Eldorado, ferindo e matando soldados e policiais. Após esse conflito, Lamarca ainda conseguiu se evadir, sendo perseguido e morto em setembro de 1971.

Esse combate ocorrido em Eldorado é dado como fato essencial para o ingresso de Bolsonaro nas forças armadas, que vivia na cidade naquele momento. A violência da luta armada contra o regime militar e a proporcional resposta dada pelo governo a essas guerrilhas teriam criado memórias que motivaram Bolsonaro a desejar participar do Exército. Para tanto, passou a estudar para o concurso de admissão da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), no qual foi aprovado em 1973, iniciando sua vida militar.


Nas Forças Armadas
Jair Bolsonaro ingressou na EsPCEx, em Campinas, no começo de 1973, mas ficou por pouco tempo na escola preparatória. A revista Época noticiou, em 19 de novembro de 2018, com base nos dados existentes no processo respondido por Bolsonaro no Superior Tribunal Militar, no final da década de 1980, que seu desempenho na EsPCEx foi relativamente baixo, com notas 51 em História e 53 em Português, obtendo médias melhores em Química, com 75, e Desenho, cuja nota foi 78. Ao final de 1973, após haver se desiludido com o Exército e ponderando que deveria entrar para a Aeronáutica, Bolsonaro prestou o concurso para ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, no Rio de Janeiro, adentrando nesta instituição na turma de 1974.

Na Aman, o desempenho acadêmico de Bolsonaro melhorou logo de início, quando ao final do primeiro ano suas notas lhe garantiram uma posição de número 49, entre 402 alunos de sua turma. Já em 1975, seu ranqueamento acadêmico caiu, mas começou a se destacar em meio às atividades esportivas, nas quais obtinha bom rendimento. No ano seguinte, na competição de pentatlo militar, chegou a obter o terceiro lugar individual na categoria, o que lhe rendeu elogios que constam na sua ficha de aluno. Em 1977, último ano na academia militar, terminou na posição 19 em um ranking de 68 alunos. Foi neste último período que passou a integrar a Brigada de Infantaria Paraquedista.

Após sua formatura, serviu em São Cristovão, em 1978, e posteriormente em Nioaque, no Mato Grosso, entre 1979 e 1981, quando atingiu o posto de tenente. Neste período, conheceu sua primeira esposa, Rogéria Nantes Nunes Braga, com quem teve seus três primeiros filhos: Flávio, nascido em 1981; Carlos, nascido em 1982; e Eduardo, nascido em 1984. No ano de nascimento de seu segundo filho, Bolsonaro entrou para a Escola de Educação Física do Exército, na qual se formou e ingressou no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, no Rio de Janeiro. No ano de 1983, Bolsonaro, enquanto passava férias na Bahia, decidiu garimpar, junto a outros colegas. Sem ter autorização para tanto, essa situação chegou a seus superiores, que anotaram em sua ficha que o soldado era ambicioso e imaturo. Em 1987, ainda cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, já no posto de capitão.

Sua saída da vida militar deu-se em 1988, quando passou à reserva após julgamento pelo Superior Tribunal Militar. Esse julgamento, que inocentou Bolsonaro, foi fruto de uma investigação denominada Operação Beco Sem Saída. A investigação buscava avaliar o envolvimento de Bolsonaro e outro oficial, o capitão Fábio Passos da Silva, com um plano de colocar bombas em quartéis no Rio de Janeiro como forma de protesto contra os baixos soldos recebidos pelos militares. Essa reivindicação de melhoria nos ganhos não era nova: em 3 de setembro de 1986, Bolsonaro escreveu uma carta à seção “Ponto de Vista”, da revista Veja, na qual descrevia e criticava a situação dos militares da Aman, e acusava o Exército de mentir sobre a razão da saída de mais de oitenta cadetes da academia. A versão oficial dizia que os afastados estavam envolvidos em casos de homossexualidade, consumo de drogas e indisciplina, mas Bolsonaro afirmou em sua carta que a razão real eram os baixos soldos, cujos reajustes acabavam sendo superados pela inflação.

Como consequência da publicação da missiva, Jair Bolsonaro foi preso, e permaneceu 15 dias detido por “ferir a ética”, gerar um clima de animosidade entre os militares e por ter levado a público assuntos que eram de competência particular das Forças Armadas.

O problema tornou-se maior quando, em 25 de outubro de 1987, a revista Veja publicou uma matéria na qual revelava os planos de alguns militares para instalar bombas em quartéis e unidades militares do Rio de Janeiro, como parte do protesto pelos soldos. Nesta reportagem, as declarações do capitão Bolsonaro acabaram levando à sua implicação como membro do grupo que planejava o atentado. A partir da publicação, abriram-se investigações oficiais, e o caso foi entregue ao Superior Tribunal Militar, que o julgou em junho de 1988, inocentando os acusados. Após esse incidente, Bolsonaro retirou-se da vida militar e adentrou o campo da política.


Vida política
Logo após passar à reserva nas Forças Armadas, Bolsonaro começou a desenvolver uma vida política, aproveitando o prestígio adquirido junto às patentes mais baixas dos militares. Em 1989, sua primeira legislatura foi como vereador da cidade do Rio de Janeiro, tendo sido eleito pelo Partido Democrata Cristão (PDC), partido no qual permaneceria até 1993. No curto tempo em que atuou como vereador, Bolsonaro apresentou sete projetos, entre eles o que previa transporte gratuito para militares em ônibus urbanos. Além dessa ideia, fez poucos discursos na Câmara e outras proposições de pouca importância no Legislativo do Rio de Janeiro, sendo apresentadas no seu primeiro ano de mandato. No segundo ano, Bolsonaro não apresentou projeto algum, pois já concentrava sua atenção na campanha para deputado.

Em 1991, assumiu seu primeiro mandato enquanto deputado federal, cargo no qual permaneceria até 2018, quando concorreu à presidência e foi eleito. A passagem de Bolsonaro pelo corpo legislativo federal foi marcada, em primeiro lugar, pela intensa mudança de partido. Eleito pela primeira vez pelo PDC, trocou-o pelo PPR (Partido Progressista Reformador) em 1993. Dois anos depois, migrou para o PPB (Partido Progressista Brasileiro, hoje Progressistas), no qual continuou até 2003, quando escolheu a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), permanecendo até 2005. Posteriormente, retornou ao antigo PPB, denominado então de PP (hoje Progressistas), defendendo a sigla até 2016. Entre este ano e 2017, integrou o PSC (Partido Social Cristão) e de 2017 a 2019 fez parte do PSL (Partido Social Liberal), agremiação pela qual se elegeu presidente da República. Em virtude de diversos conflitos por conta de divergências com o presidente da sigla, Luciano Bivar, e também por haver surgido indícios de práticas ilegais no partido, no que dizia respeito a repasses do fundo eleitoral, Bolsonaro abandonou o PSL em 12 de novembro de 2019, anunciando que criaria um novo partido, o Aliança pelo Brasil. Até o momento, Bolsonaro e apoiadores ainda buscam as quase 500 mil assinaturas que são necessárias para que seja aceito o registro do partido no Tribunal Eleitoral.

Enquanto deputado, Bolsonaro teve uma atuação discreta. Em seus 28 anos como parlamentar, apresentou 172 projetos, sendo que destes, apenas dois se transformaram em lei. O primeiro dizia respeito à isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para produtos de informática. O outro foi a autorização da produção e do uso da fosfoetanolamina sintética para pacientes diagnosticados com câncer. Esta decisão, em particular, gerou uma grande polêmica, pois parte da comunidade científica não endossava os benefícios que as pílulas de fosfoetanolamina poderiam trazer. Até mesmo o Supremo Tribunal Federal chegou a se manifestar sobre o assunto, suspendendo os efeitos da lei que autorizava sua produção e distribuição, no ano de 2017.

Para além destes, os demais projetos e proposições apresentados por Bolsonaro não tiveram grande repercussão. Analistas políticos, ao avaliar a atuação parlamentar do atual presidente, dizem que em seu tempo de deputado Bolsonaro teve sempre uma postura bastante conservadora, tal como no momento que apresentou um projeto de lei que visava suspender a utilização do nome social por travestis e transexuais em boletins de ocorrência e instituições escolares. Entretanto, sua postura de enfrentamento e agressividade muitas vezes o isolaram, não conseguindo nem mesmo o apoio da chamada “bancada evangélica”, de comportamento também bastante conservador. Citam-se ainda como exemplos da atuação de Jair Bolsonaro enquanto deputado a defesa de pautas ligadas aos interesses dos militares, o projeto para inclusão do nome do falecido ex-deputado Enéias Carneiro no livro dos Heróis da Pátria ou mesmo a autorização para aplausos após a execução do Hino Nacional.

Já seus discursos na Câmara dos Deputados tornaram-no mais conhecido do que suas proposições. Ao longo das quase três décadas em que permaneceu no parlamento, Bolsonaro notabilizou-se por discursos em que defendia os avanços da época do regime militar, negando que houvesse acontecido torturas no período, criticando a família Paiva ou posicionando-se contra a expansão dos direitos das mulheres e das políticas de gênero. Junto a isso, alguns momentos também foram marcantes neste período. No ano de 2011, em um programa de televisão, disse a Preta Gil que não temia que seus filhos se apaixonassem por mulheres negras, porque eles haviam “sido bem educados” e que não discutiria “promiscuidade” com a cantora. Em virtude disso, teve um processo aberto contra si em 2013, que acabou arquivado em 2015. Em 2014, em uma discussão com a deputada Maria do Rosário, Bolsonaro afirmou que não a estuprava porque “ela não merecia”. Essa fala fez com que o então deputado fosse condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça a pagar uma indenização à parlamentar, no valor de R$ 10 mil reais. Também foi indiciado por apologia ao crime de estupro e injúria.

Em 2016, na votação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, Bolsonaro fez seu voto prestando homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O coronel foi, durante o regime militar, chefe do Departamento de Operações de Informação – Centro de Operações e Defesa Interna (DOI-CODI), órgão de repressão política responsável pela prisão, tortura e morte de opositores do regime. De acordo com dados divulgados pela Comissão Nacional da Verdade, mais de 400 pessoas foram mortas ou desapareceram durante o regime militar, em operações que buscavam eliminar todos aqueles considerados dissidentes e perigosos à ordem nacional. Pela utilização de métodos violentos contra seus prisioneiros, Ustra foi o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça brasileira como torturador, em decisão publicada em 2012. O coronel recorreu da decisão, pois esta implicaria também a responsabilização por crimes e na indenização de vítimas. O militar faleceu em 2015 e, no ano seguinte, foi homenageado por Bolsonaro em seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, que na juventude participara da luta armada contra o regime militar, tendo sido presa e torturada.

Este foi o momento no qual a figura de Jair Bolsonaro passou a ter maior projeção nacional. Embora em 2002 tenha declarado apoio a Lula e a Ciro Gomes, criticando Fernando Henrique Cardoso por sua postura neoliberal, Bolsonaro tornou-se ferrenho defensor do sentimento de repulsa ao PT (Partido dos Trabalhadores), chamado de “antipetismo”. Suas falas atraíram para si a atenção de um público profundamente descontente com os rumos que o país tomava após a reeleição de Dilma Rousseff no final de 2014. Os escândalos de corrupção, aliados à crise econômica que se desenvolvia, fizeram com que políticos mais localizados à direita no espectro político começassem a ganhar peso, e a postura espontânea de Bolsonaro em suas declarações fizeram com que ele canalizasse para si a força dessa insatisfação.

A partir de 2016, o apoio a Bolsonaro foi se tornando mais forte, até que em julho de 2018 sua candidatura à Presidência, tendo o general Hamilton Mourão como vice, foi oficializada, com o lema: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. No período da campanha, participou apenas de dois debates, na Rede Bandeirantes e na Rede TV, e de uma entrevista na Rede Globo, ainda no primeiro turno. Defendendo suas conhecidas posições a respeito de diversos assuntos, a campanha de Jair Bolsonaro levou a uma intensa polarização político-ideológica no país, que ganhou peso significativo com o uso das redes sociais pela internet.

Em meio a esse clima de polêmica, no dia 6 de setembro de 2018, enquanto fazia uma visita à cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, Bolsonaro foi alvo de uma facada, desferida por Adélio Bispo de Oliveira. Muitas especulações surgiram em torno do atentado, pois Adélio já havia sido filiado ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), grande opositor de Bolsonaro. O que concretamente se apurou foi que Adélio agiu sozinho, por iniciativa própria, embora desde 2018 a Polícia Federal investigue suas mensagens gravadas no telefone celular. No final de 2019, Adélio, que se encontrava em prisão preventiva, foi considerado inimputável, ou seja, incapaz de responder por seus atos, e o juiz responsável pelo caso determinou sua internação na Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande.

Logo após o atentado, uma grande campanha contra Bolsonaro tomou conta das redes sociais, logo migrando para as ruas. Utilizando a hashtag #elenão, muitos eleitores colocaram-se na oposição ao discurso do candidato. Ao mesmo tempo, outras manifestações favoráveis a Bolsonaro começaram a ganhar força, em meio à grande midiatização de todo o processo da campanha e do atentado. Embora tenha causado grande comoção, o incidente contra o então candidato trouxe poucas mudanças nas intenções de voto, terminando Bolsonaro como primeiro colocado no primeiro turno das eleições, com 46% dos votos, e Fernando Haddad, do PT, com 28% os votos.

No segundo turno, a campanha de Bolsonaro concentrou-se em sua recuperação, e no grande uso das mídias sociais. Sua bandeira de governo baseou-se no discurso do fim dos privilégios, na redução do tamanho da máquina pública, na defesa da posse e do porte de armas, na criação de colégio militares, no fim da chamada ideologia de gênero e na criação de empregos por meio da flexibilização da legislação trabalhista. Também defendeu uma relação mais próxima com países como os Estados Unidos e Israel, afastando-se dos governos mais situados à esquerda, como Venezuela e Bolívia. Com a defesa de tais propostas, o apoio de grande número de artistas e personalidades públicas, embasado pelo discurso antipetista, Bolsonaro elegeu-se, em 28 de outubro de 2018, como 38º presidente do Brasil.


Na presidência


EUA x Coreia
Presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente, general Hamilton Mourão durante discurso no parlatório do Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Jair Bolsonaro fez sua primeira declaração pública, após ser eleito, por meio de uma apresentação ao vivo via Facebook. Apenas após esse discurso é que falou com a imprensa, com a qual o presidente mantém uma relação turbulenta, particularmente com a Rede Globo, a quem acusa de produzir fake news e de tentar desestabilizar seu governo. Desde o momento em que começou a ganhar destaque na corrida eleitoral para presidente, Bolsonaro mantém uma relação mais próxima com a Rede Record, de propriedade do pastor Edir Macedo. Embora se declare católico, Bolsonaro é casado desde 2007 com Michelle, que é evangélica e participa da igreja do pastor Silas Malafaia, aliado do presidente em causas como o repúdio ao ativismo LGBT. Michelle é sua terceira esposa, tendo se unido a Bolsonaro depois que ele terminou um relacionamento de 16 anos com Ana Cristina Siqueira Valle, com quem teve o filho Renan. Ana Cristina foi sua segunda esposa, após o divórcio de Bolsonaro com Rogéria, em 1991.

Michelle de Paula Firmo Bolsonaro é 27 anos mais nova que o marido, e está junto dele desde 2007, quando se conheceram em Brasília. Com essa esposa, Bolsonaro teve sua primeira filha, Laura, nascida em 2011. Em 2013, Michelle e Jair Bolsonaro realizaram uma cerimônia religiosa de seu casamento, com a benção dada pelo pastor Malafaia. Michelle envolveu-se pouco na campanha do marido, mas foi figura chave na cerimônia de posse em 1º de janeiro de 2019.

Antes que o recém-empossado presidente fizesse seu primeiro discurso como chefe do Poder Executivo, Michelle quebrou o protocolo da cerimônia e fez um rápido discurso em Libras, agradecendo a solidariedade para com a recuperação de Bolsonaro e mandando uma mensagem de que ampliaria o apoio do governo à causa dos surdos. Em seguida, o presidente fez seu primeiro discurso, observado por vários chefes de Estado convidados e por vários veículos de comunicação do mundo todo, no qual criticou a corrupção e o socialismo, afirmando que o Brasil libertar-se-ia “da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

As declarações feitas neste discurso foram recebidas com receio pela comunidade internacional, tendo alguns veículos da imprensa qualificado a fala do presidente como “populista” e com parcas referências à questão econômica, cujo comando foi passado ao economista Paulo Guedes, que passou a chefiar o Ministério da Economia, resultado da fusão dos ministérios da Fazenda, do Planejamento, da Indústria e Comércio e de parte do Ministério do Trabalho, o que o configura enquanto um “superministério”.

A criação dos “superministérios” é parte da estratégia de Bolsonaro para diminuir o tamanho da estrutura administrativa do governo. Além do Ministério da Economia, a pasta da Justiça (que reuniu outras partes do Ministério do Trabalho, o Conselho de Controle das Atividades Financeiras, a Controladoria Geral da União e o Ministério da Segurança Pública) e o Ministério da Cidadania (que agregou os antigos ministérios da Cultura, do Esporte, do Desenvolvimento Social e uma última parte do Ministério do Trabalho) também caminharam no sentido de se tornarem superministérios.

No campo da economia, o governo Bolsonaro tem tomado medidas de caráter neoliberal, ao colocar em pauta a discussão sobre a reforma da Previdência que, entre outros aspectos, previa a mudança para um regime de capitalização, no qual o contribuinte recolheria, ao longo da vida, todo o valor que posteriormente receberia, acabando com o regime de “pacto de gerações” vigente hoje. Neste regime, os que estão trabalhando contribuem para a Previdência, que repassa o valor aos aposentados, modelo que tem sido apontado como falho em virtude do envelhecimento da população brasileira. Além disso, outros tópicos, como o aumento da idade mínima para aposentadoria, ampliação do tempo de contribuição e uma nova forma de cálculo da aposentadoria foram apresentados. A discussão sobre a reforma iniciou-se em fevereiro de 2019, mas os protestos e a oposição de parlamentares fizeram com que sua votação demorasse, acontecendo em agosto na Câmara dos Deputados e apenas em 23 de outubro de 2019 sendo aprovada pelo Senado. No texto final, vários tópicos foram excluídos, entre eles o do regime de capitalização. No mês seguinte, o governo apresentou o Plano Mais Brasil, cujas medidas buscam evitar que novas crises econômicas como a iniciada em 2014 venham a acontecer. Para isso, foram lançadas medidas de contenção dos gastos obrigatórios do governo, revisão de benefícios fiscais, extinção de municípios com menos de 5 mil habitantes que não arrecadem ao menos 10% do que gastam, entre outras determinações.

Outro campo de atuação do governo Bolsonaro que tem sido alvo de polêmicas é a questão ambiental. Logo no princípio do governo, o presidente teve a intenção de unificar os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, mas terminou por recuar em sua proposta. Em seu primeiro ano de mandato, foram liberadas autorizações para o uso de 474 novos agrotóxicos, o que demonstra sua preocupação com o avanço do agronegócio. Também se registrou um aumento expressivo no número de focos de queimadas na Amazônia, o que levou Bolsonaro a vários embates: o primeiro, em julho, com o presidente francês Emmanuel Macron, que criticou as declarações de Bolsonaro sobre a questão ambiental no Brasil. O desentendimento tomou proporções maiores quando, em uma publicação no Twitter, Bolsonaro zombou da comparação física feita entre sua esposa Michelle e a primeira-dama francesa, Brigitte Macron. Em agosto de 2019, houve o atrito com o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, cuja credibilidade foi questionada por Bolsonaro após a divulgação de dados que mostravam o aumento dos incêndios na Amazônia. O diretor acabou por ser exonerado do cargo.

Em novembro, foi a vez do ator e ativista ambiental norte-americano Leonardo Di Caprio e a ONG WWF serem acusados de estimularem incêndios ilegais na Amazônia como forma de chamar a atenção para a causa e obterem ganhos financeiros com esta prática. O ator respondeu em uma nota que luta pela preservação do meio ambiente e que apoia governos e organizações brasileiras que se empenham na mesma causa.

O último embate na questão ambiental deu-se em virtude das declarações da jovem ativista sueca Greta Thumberg, condenando a morte de indígenas no Maranhão por estarem lutando pela preservação de suas terras. O presidente chamou a menina sueca de “pirralha” ao ser perguntado sobre a questão do assassinato dos indígenas, ao que a ativista respondeu usando a expressão como capa de seu Twitter.

Na área da educação, o primeiro ano do presidente também foi conturbado, com a nomeação do colombiano Ricardo Vélez para a pasta. De princípio, Vélez afirmou que haveria a necessidade de uma revisão nos livros de História, pois as crianças não estariam conhecendo a verdade acerca do passado. Ao exaltar o regime militar brasileiro, o ministro causou um desconforto junto às Forças Armadas, o que levou à sua substituição por Abraham Weintraub. Logo no início da sua gestão, Weintraub entrou em choque com as universidades federais, decretando um contingenciamento de despesas que levou ao congelamento de 30% das verbas das universidades. Somente em outubro de 2019 as verbas foram completamente liberadas às universidades. Outro ponto importante na área educacional veio da ministra Damares Alves, responsável pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ao se colocar contra a chamada ideologia de gênero, afirmando que meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Também causou polêmica ao falar sobre a questão da educação sexual, que precisa ser transformada, pois a maneira como era ensinada estava causando deturpação entre os jovens.

Em outros campos, a atuação e as declarações de Bolsonaro também têm causado polêmicas e indisposições. Exemplo disso são suas falas e ataques a jornalistas ou suas posições com relação à política indigenista, sendo contrário à demarcação de terras indígenas, tal como previsto na Constituição. Também já expressou seu pouco apreço aos descendentes de quilombolas, bem como à comunidade LGBT, declarando inclusive que era função do governo evitar que as crianças tivessem acesso ao chamado “kit gay” nas escolas. A problemática sobre o “kit gay” dizia respeito a um material, distribuído pelo Governo Federal, como parte de uma campanha contra a homofobia, e foi alvo de críticas por parte de Bolsonaro ainda em 2011, quando era deputado. A respeito da política externa, Bolsonaro tem buscado aprofundar as relações com os Estados Unidos, tendo inclusive declarado apoio aos norte-americanos quanto ao ataque que causou a morte de Qassem Soleimani, chefe da Al-Qaeda no Iêmen. Apesar disso, Bolsonaro havia buscado se aproximar dos árabes no final de 2019, em virtude do grande comércio estabelecido entre as regiões.

Ao final do seu primeiro ano de governo, Bolsonaro tem uma aprovação de 47,8% da população, ao mesmo tempo em que acumula uma desaprovação de 47%, o que demonstra que sua administração ainda não foi capaz de romper com a polarização aprofundada durante a campanha.


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