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Greta Thunberg
 
 
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Greta Ernman Thunberg ganhou visibilidade na mídia. A jovem sueca nascida em Estocolmo em 3 de janeiro de 2003 é conhecida como ativista ambiental. Em agosto de 2018, Greta faltava às aulas para protestar, exigindo mais ações para mitigar as mudanças climáticas por parte dos políticos de seu país. O local dos protestos era o lado de fora do parlamento sueco.

A jovem de 16 anos se transformou em uma ativista famosa ao iniciar um movimento chamado Fridays for Future (“sextas-feiras pelo futuro”, em tradução livre). O nome se deve ao fato de ela deixar de ir à escola, no nono ano em Estocolmo, às sextas-feiras, para protestar contra as mudanças climáticas do planeta. Greta queria, e conseguiu, chamar a atenção das autoridades para o grave problema.

O movimento acabou ganhando visibilidade internacional e estudantes de diversos países passaram a realizar greves escolares em prol das causas do aquecimento global. A atitude rendeu à Greta a indicação ao Prêmio Nobel da Paz, que ocorreu em 14 de março de 2019, um dia antes da greve mundial proposta por ela. Mas Greta acabou não sendo escolhida pelo Comitê Nobel da Noruega, que entregou a premiação ao primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, elogiado por seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional.

Greta Thunberg
Greta Thunberg, com 15 anos, do lado de fora do prédio do parlamento em Estocolmo, na Suécia. Ela estava em greve da escola contra a crise climática. Ela pretendia continuar em greve até o dia das eleições gerais, em setembro daquele ano. Fonte: Jessica Gow / TT News Agency / AFP.



SOBRE O NOBEL DA PAZ
O processo de seleção dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz é altamente secreto. O comitê responsável revelou que no ano de 2019 foram feitas 301 indicações. Os nomes de alguns candidatos são divulgados publicamente pelas pessoas que os indicaram. No caso de Greta, a indicação partiu de três legisladores noruegueses. A lista completa das indicações é divulgada 50 anos após a premiação. Embora todo esse sigilo, é comum que apostas sejam feitas pelo mundo, julgando os prováveis vencedores. Na noite anterior à premiação, Greta era a favorita nas casas de apostas do Reino Unido. Mas, segundo analistas que acompanham o prêmio, a jovem ativista tinha vários fatores atrapalhando sua premiação. A principal questão em jogo foi o debate em torno do tema pelo qual Greta levanta sua bandeira e a relação com a paz mundial. Não é consenso que haja relação direta entre mudanças climáticas e conflitos.

O chefe do Instituto de Pesquisa da Paz de Oslo, Henrik Urdal, não tinha incluído Greta em sua lista de prováveis ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, que ele publica anualmente. Ao jornal Washington Post, Urdal disse que “não há consenso científico de que exista uma relação linear entre mudança climática – ou escassez de recursos, de maneira mais ampla – e conflitos armados”.

Enquanto isso, especialistas defendem que, embora não exista uma relação direta entre mudança climática e conflito, existe um reconhecimento de que as mudanças no clima aumentam as tensões nas regiões, podendo desencadear instabilidade política, passíveis de promover conflitos. Um exemplo disso é a classificação feita pelo Pentágono, que avalia mudanças climáticas como “multiplicador de ameaças”.


NOBEL A ATIVISTAS
O Nobel da Paz já foi dado a ativistas em outros momentos. Em 2007, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e o ex-vice-presidente Al Gore venceram “por seus esforços para desenvolver e disseminar maior conhecimento sobre as mudanças climáticas provocadas pelo homem e para estabelecer as bases para as medidas necessárias para combater tal mudança”.

Em 2004, o prêmio foi concedido a Wangari Maathai, “por sua contribuição ao desenvolvimento sustentável, democracia e paz”. Em 1970, foi Norman Borlaug quem o recebeu ao ser considerado o “pai da revolução verde”.

Para o criador do prêmio, Alfred Nobel, o agraciado deve ser alguém que tenha promovido a “abolição ou redução de exércitos permanentes”, o que, conforme explicam alguns analistas que interpretam as premiações, exige uma conexão direta com paz e conflito.


BIOGRAFIA
A família de Greta vem do mundo das artes e do entretenimento. A mãe, Malena Ernman, é uma das principais cantoras de ópera do país e também conhecida por representar a Suécia no Festival Eurovisão da Canção de 2009. Malena é também cantora de música pop. O pai de Greta é o ator Svante Thunberg e os avós paternos são Olof Thunberg, ator e diretor e Mona Andersson, também atriz.

A jovem ativista foi diagnosticada com Síndrome de Asperger, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e mutismo seletivo. Um diagnóstico que poderia fazer dela uma menina menos ativa no que se refere a ambientes sociais. Mas não. Ela, inclusive, resolveu contar sobre isso por onde passa.

A Síndrome de Asperger recebeu este nome em função do pediatra austríaco Hans Asperger que, na década de 1940, descreveu algumas características, incluindo obstáculos na interação social e na comunicação não verbal, como dificuldades na leitura da linguagem corporal, por exemplo. Em 2013, o termo foi incorporado ao diagnóstico amplo de transtorno do espectro do autismo.

Greta foi diagnosticada aos 12 anos e, conforme informações do jornal britânico The Guardian, ela reconheceu que sua paixão pelo trabalho em combater a crise climática se deve, em parte, a sua forma singular de enxergar e se relacionar com o mundo.

Seu mutismo seletivo a faz, segundo ela mesma, falar “somente em momentos que são extremamente necessários” – e esta causa “é um desses momentos”, disse ela no TEDx Stockholm.

Embora reconheça algumas dificuldades por causa de seu diagnóstico, Greta diz que dependendo das circunstâncias, "ser diferente é um superpoder”.

“Eu tenho Asperger e isso significa que, às vezes, eu sou um pouquinho diferente do normal. E dadas as circunstâncias, ser diferente é um superpoder”, foi desta forma que a ativista de 16 anos, começou uma publicação em suas redes sociais.


NA MÍDIA
As mídias sociais são frequentemente utilizadas pela ativista para divulgar suas atividades e pensamentos. São milhares de seguidores acompanhando seus passos.

Mas, assim como diversos outros famosos, Greta também tem sofrido com as fake news disseminadas sobre ela. Informações falsas e fotos manipuladas foram divulgadas sobre a jovem que não deixa passar em silêncio. Aliás, sua honestidade é um dos motivos pelos quais incomoda muita gente.

"Como você deve ter notado, os haters estão mais ativos do que nunca: eles me perseguem, criticam minha aparência, minhas roupas, meu comportamento e minhas diferenças. Eles criam todas as teorias imagináveis de mentira e conspiração", escreveu Greta aos seus 2,3 milhões de seguidores no Twitter. Hater é um termo utilizado na internet para descrever pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem embasamento. Normalmente atacam famosos e celebridades em fóruns ou redes sociais. Os comentários podem ser considerados como cyberbullying (bullying virtual) e assédio virtual por conterem conteúdo agressivo ou ofensivo.

Greta já foi alvo de pessoas públicas e ainda assim segue confiante que sua bandeira é legítima. "Honestamente, não entendo por que os adultos escolhem passar o tempo zombando e ameaçando adolescentes e crianças por destacar os argumentos da ciência, quando poderiam fazer algo bom. Acho que eles devem se sentir muito ameaçados por nós", disse a jovem, um dia antes da Cúpula Climática da ONU (Organização das Nações Unidas), realizada em setembro de 2019. Greta participou também da abertura do evento, na sede das Nações Unidas, onde disse a líderes de 60 nações que sua infância foi roubada por "palavras vazias". Ela responsabilizou os adultos por não fazerem o bastante para proteger o meio ambiente.


DISCURSO
Ativista Greta Thunberg discursou na segunda-feira, dia 23 de setembro, na abertura do Encontro de Cúpula sobre Ação Climática. Confira discurso divulgado pela ONU News:

Minha mensagem para os líderes internacionais é de que nós estaremos de olho em vocês. Isto está completamente errado. Eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar na minha escola, do outro lado do oceano. E vocês vêm até nós, jovens, para pedir esperança. Como vocês ousam?

Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias. E ainda assim, eu tenho que dizer que sou uma das pessoas com mais sorte (nesta situação).

As pessoas estão sofrendo e estão morrendo. Os nossos ecossistemas estão morrendo.

Por mais de 30 anos, a ciência tem sido muito clara. Como vocês se atrevem a continuar ignorando isto?

Nós estamos vivenciando o começo de uma extinção em massa. E tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento econômico eterno.

Como vocês se atrevem?

Por mais de 30 anos, a ciência tem sido muito clara. Como vocês se atrevem a continuar ignorando isto?

E como se atrevem a vir aqui e dizer que estão fazendo o suficiente? Quando sabemos que as políticas e as soluções necessárias não são sequer vistas?

Vocês dizem que estão nos escutando e que compreendem a urgência (deste tema). Mas não importa quão triste e furiosa eu esteja, eu não quero acreditar no que dizem. Se vocês realmente entendem o que está acontecendo e continuam falhando em agir, vocês seriam um mal. E eu me recuso a acreditar nisso.

A proposta de cortar as nossas emissões pela metade em dez anos, apenas nos dá uma chance de 50% de ficar abaixo da marca de 1.5ºC e existe um risco de desencadear reações irreversíveis em cadeia que fogem do controle humano.

Cinquenta por cento pode ser aceitável para vocês. Mas estes números não incluem outros pontos como feedback, lacunas e um aquecimento adicional causado pela poluição tóxica do ar ou aspectos de equidade e justiça climáticos. Estes números também fazem com que a minha geração seja obrigada a ter que retirar centenas de bilhões toneladas de dióxido de carbono do ar, causadas por vocês, e usando tecnologias que sequer existem. Então, 50% simplesmente não é aceitável. Nós teremos que viver com as consequências. Para ter uma chance de 67% de continuar abaixo da marca de 1.5ºC do aumento global temperatura, no melhor cenário do (relatório) do IPCC, o mundo teria ainda 420 toneladas giga de emissões de dióxido de carbono para emitir, em 1º de janeiro de 2018. Hoje, este número já caiu para 350 toneladas giga.

Vocês estão falhando conosco. Mas os jovens já começaram a entender sua traição.

Como vocês se atrevem a pensar que isto pode ser resolvido sem mudar nada? Ou através de algumas soluções técnicas? Com os níveis atuais de emissões de hoje, o orçamento de emissões de dióxido de carbono acabaria inteiramente em apenas oito anos e meio.

Não haverá nenhuma solução ou planos apresentados com base nestes números que trago aqui hoje. Porque estes números são bem desconfortáveis e vocês não têm a maturidade suficiente para abordar este tema como ele realmente é.

Vocês estão falhando conosco. Mas os jovens já começaram a entender sua traição.

Os olhos de uma geração futura inteira estão sobre vocês.

E se vocês escolherem fracassar. Eu lhes digo: nós jamais perdoaremos vocês.

Nós não vamos deixar vocês fazerem isso.

É aqui e agora, que nós colocamos um limite. O mundo está despertando. E a mudança está chegando, quer vocês queiram ou não.

Obrigada.


Greta Thunberg
A organização estudantil Fridays for Future participa de uma coletiva de imprensa com Greta Thunberg na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em
dezembro de 2019, em Madrid. Fonte: Celestino Arce / NurPhoto / AFP.


DO OUTRO LADO
"É preciso deixar claro que esse discurso incomoda a direita por causa da ameaça de seus negócios. Mas o que Greta diz tampouco é novo", disse o deputado chileno Diego Ibáñez. Em entrevista a um jornal local, o parlamentar lembrou que o fenômeno Greta tem relevância na mídia "porque vem do mundo europeu e encontra certos cânones que são acionáveis pela mídia". Mas "o que Greta diz é o que o povo mapuche e os povos indígenas da América Latina vêm dizendo por mais de 200 anos".

Alguns críticos, como o colunista David Aaronovitch, do The Times, dizem acreditar que essas alegações como a de Greta são excessivas. "Quando analisamos o que Thunberg diz e o comparamos com o que a ciência diz, concluímos que ela exagera", diz ele.

A ativista Greta Thunberg também vem recebendo críticas na mídia sobre o grupo econômico que a lançou à fama mundial. Uma reportagem investigativa do jornal britânico The Times revelou que, por trás de Thunberg, existem diversas empresas, principalmente especializadas em lobby, acadêmicos e até um think tank fundado por um ex-ministro da Suécia "ligado às empresas de energia do país".

Segundo o Jornal, "essas empresas estão se preparando para a maior bonança de contratos governamentais da história: o esverdeamento das economias ocidentais. Greta, quer ela ou seus pais queiram ou não, é o rosto de sua estratégia política”.

Para o The Times, Greta não é apenas uma adolescente preocupada com o mundo deixado por adultos e com a inação dos governos. A reportagem afirma que existem poderosos interesses econômicos por trás dela e algumas empresas cujo modelo de negócios é produzir energia sem combustíveis fósseis, coletando milhões de subsídios do governo.

É por isso que, para muitos, Greta é uma “marionete” nas redes sociais.


O TEMA EM SI
E, apesar das opiniões contraditórias, cabe deixar destacada a importância dos temas levantados pela ativista: aquecimento global e mudanças climáticas. E mais: cabe lembrar que atualmente, somos todos corresponsáveis, enquanto humanos habitantes da Terra. "Não me escutem, escutem os cientistas!", repetiu incansavelmente a jovem ativista Greta.

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