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Irmã Dulce, a primeira santa do Brasil
 
 
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 CANONIZAÇÃO X BEATIFICAÇÃO
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Embora não se encontre na literatura católica nenhum documento que traga a definição ou demonstre a diferença entre a natureza da beatificação e da canonização de uma pessoa, é sabido que essa diferença existe. Para responder ao questionamento de forma católica, é necessário recorrer às bulas papais que decretaram uma e outra situação, de modo que a linguagem nelas utilizada esclareça a diferença entre os dois atos.

A beatificação é uma permissão de culto. Frágil enquanto sentença e que, geralmente, atende ao anseio de uma comunidade específica (um país, uma ordem religiosa etc.), porém, faltando ainda aquela nota de universalidade típica do ser católico. A canonização, por sua vez, é uma prescrição de culto, inclusive algumas bulas trazem a ordem expressa de culto e outras trazem anátemas para quem não aceitar a santidade decretada.

O núcleo da diferença entre um ato e o outro é o fato de que na beatificação não existe um pronunciamento explícito quanto à certeza de que a pessoa beatificada está na glória do céu. Já na canonização existe essa atestação pontifícia, tanto vida virtuosa quanto modelo de santidade, e a certeza de que aquela pessoa declarada encontra-se na Igreja triunfante.

A canonização é, portanto, um ato político, no sentido mais puro da palavra, ou seja, é um ato de influência social que visa o bem comum das pessoas. O catecismo da Igreja Católica, em seu número 828, diz que: "Ao canonizar certos fiéis, isto é, ao proclamar solenemente que esses fiéis praticaram heroicamente as virtudes e viveram na fidelidade à graça de Deus, a Igreja reconhece o poder do Espírito de santidade que está em si e sustenta a esperança dos fiéis, propondo-os como modelos e intercessores".

A canonização é uma sentença definitiva e irrevogável, na qual o papa afirma, utilizando-se do seu poder pontifício, que aquela pessoa viveu de forma extraordinária a graça do primeiro mandamento que é amar a Deus sobre todas as coisas e que, por causa disso, serve como modelo para todos aqueles que almejam viver a mesma graça. O papa Francisco atingirá a marca de 892 santos em seu pontificado.

Com a canonização de irmã Dulce, temos atualmente 37 santos canonizados e 51 beatos. Em breve serão beatificados o padre Donizetti (Tambaú, SP), com milagre já aprovado, e a venerável Benigna (Maria da Conceição Santos, a irmã Benigna Victima de Jesus, Belo Horizonte, MG), que já recebeu o Decreto do Martírio. Serão, portanto, 53 beatos. Além dos santos de altar, o Brasil tem ainda mais 14 veneráveis (sem contar o futuro beato Donizetti), que aguardam apenas a aprovação de um milagre para se tornarem beatos.


IRMÃ DULCE: HISTÓRIA E LEGADO
Irmã Dulce, cujo nome de batismo era Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, é recordada por suas obras de caridade e de assistência aos pobres e necessitados. Religiosa da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, a beata nasceu em Salvador, em 26 de maio de 1914. Desde cedo manifestou interesse pela vida religiosa. Aos 13 anos de idade, passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transformando a residência da família – na rua da Independência, número 61, no bairro de Nazaré – em um centro de atendimento. A casa ficou conhecida como "a portaria de São Francisco", por conta do grande número de carentes que se aglomeravam a sua porta.

Em 1933, a jovem ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, cidade de São Cristóvão, em Sergipe. No mesmo ano, recebeu o hábito e adotou o nome de irmã Dulce, em homenagem à sua mãe, que se chamava Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes e morreu quando a freira tinha sete anos, em 1921. No ano de 1935, já de volta a Salvador, dava assistência à comunidade pobre de Alagados, conjunto de palafitas que se consolidou na parte interna do bairro de Itapagipe. Nessa mesma época, começou a atender também os operários que eram numerosos naquele bairro, criando um posto médico e fundando, em 1936, a União Operária São Francisco – primeira organização operária católica do estado, que depois deu origem ao Círculo Operário da Bahia.

Vaticano
Cerimônia de canonização no Vaticano em 2018. Fonte: Filippo Monteforte / AFP.


OCUPANDO O GALINHEIRO
Em 1939, irmã Dulce invadiu cinco casas na localidade da Ilha do Rato, na capital baiana, para abrigar doentes que recolhia nas ruas de Salvador. Expulsa do lugar, ela peregrinou durante uma década, levando os seus doentes por vários locais da cidade.

Por fim, em 1949, irmã Dulce ocupou um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, após autorização da sua superiora, com os primeiros 70 doentes. A iniciativa deu origem à história propagada há décadas pelo povo baiano de que a freira construiu o maior hospital da Bahia a partir de um simples galinheiro. Já em 1959, é instalada oficialmente a Associação Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), e no ano seguinte é inaugurado o Albergue Santo Antônio.

Atualmente, a Osid é um dos maiores complexos de saúde com atendimento 100% gratuito do Brasil, com 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano a usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), entre idosos, pessoas com deficiência e com deformidades craniofaciais, pacientes sociais, crianças e adolescentes em situação de risco social, dependentes de substâncias psicoativas e pessoas em situação de rua.

Irmã Dulce é lembrada como "o anjo bom da Bahia" por suas obras de caridade e de assistência aos pobres e necessitados. Em maio de 2019, o papa Francisco anunciou a data de canonização de irmã Dulce: 13 de outubro de 2019. O pontífice assinou um decreto que reconhece seu segundo milagre e ela, finalmente, será proclamada santa. Em agosto deste ano, foi celebrado o aniversário de 86 anos que a freira recebeu o hábito das Irmãs Missionárias. Em 1988, irmã Dulce concorreu ao Prêmio Nobel da Paz. A indicação partiu do então presidente José Sarney e teve apoio da Rainha Sílvia, da Suécia. A religiosa não foi escolhida, mas ter o nome cogitado fez a obra de irmã Dulce ser reconhecida mundialmente.


DEVOÇÃO AO FUTEBOL
A morte da mãe obrigou o pai de irmã Dulce a ser mais presente, e ele escolheu o futebol para unir a família. Todo domingo, ele levava as cinco crianças para o Campo da Graça, principal estádio da Bahia na época. A garota se tornou torcedora ferrenha do Ypiranga. Na década de 1920, o clube conquistou o campeonato estadual cinco vezes e era o principal rival do Vitória. Irmã Dulce gostava tanto de futebol que, quando aprontava alguma travessura, era proibida de ver os jogos. Esse era, para ela, o pior castigo.

Irmã Dulce esteve perto de sofrer de novo o trauma de perder um parente querido ao fim de uma gestação: sua irmã teve uma gravidez cheia de complicações. Em 1955, ela fez a promessa de dormir em uma cadeira se a gestação terminasse bem, o que acabou acontecendo. Ela cumpriu a palavra. Só voltaria a dormir em uma cama 30 anos depois, quando sofria de problemas de saúde e foi convencida pelos médicos porque poderia piorar.

Irmã Dulce admirava a arte, principalmente de música. Gostava de forró e ainda tocava gaita. Além das obras sociais, ela fundou o Cine Roma em 1948, que além de filmes, recebeu shows. Foi no palco montado por irmã Dulce que Roberto Carlos fez seu primeiro show na Bahia, em 1965. No lugar, Raul Seixas e Waldick Soriano também se apresentaram.


RESPEITO E RECONHECIMENTO PELO PAPA JOÃO PAULO II
Como ocorria com boa parte dos católicos do Brasil, irmã Dulce era admiradora do papa João Paulo II. Ela já estava com problemas no pulmão na primeira vez que o pontífice esteve em Salvador, em julho de 1980, em um dia de muito vento e chuva. Mesmo assim, compareceu na missa campal celebrada por João Paulo II. Irmã Dulce foi chamada ao altar para receber uma bênção especial do papa enquanto era ovacionada pela multidão: "Ela merece, ela merece. Irmã Dulce, irmã Dulce", gritavam. Mas houve uma consequência. A religiosa contraiu pneumonia e passou os 20 dias seguintes internada.

O papa João Paulo II retornou a Salvador em outubro de 1991. Desta vez, ele foi até irmã Dulce. O encontro entre ambos não estava programado e o pontífice mudou a agenda para ir ao Convento Santo Antônio visitá-la. Ela já estava com a saúde bastante debilitada. Havia anos que sofria de enfisema pulmonar e sua capacidade respiratória chegou a ser reduzida em 70%. O papa pediu para seu carro parar no hospital de irmã Dulce e entrou no quarto que funcionava como UTI. João Paulo II segurou na mão da religiosa e foi reconhecido. Após o encontro, que durou alguns minutos, o papa se ajoelhou aos pés da escada que levava ao quarto de irmã Dulce e rezou. Na sequência, disse: "Esse é o sofrimento dos inocentes. Igual o de Jesus".

Irmã Dulce morreu no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos, no Convento Santo Antônio, ao lado de seus doentes. O túmulo da freira está na Capela das Relíquias, local para onde seus restos mortais foram transferidos após a exumação, em 9 de junho de 2010. A visitação está aberta durante todos os dias, das 7 às 18 horas. A capela fica no Santuário de Irmã Dulce, na avenida Dendezeiros do Bonfim, em Salvador.

Papa João Paulo II
O papa João Paulo II em passagem pelo Brasil em 1991, ano em que visitou irmã Dulce. Fonte: Derrick Ceyrac / AFP.


VISITAS POLÍTICAS
Como é sabido, irmã Dulce dedicou-se à assistência aos pobres. Mendigos e doentes eram acolhidos em um hospital, crianças abandonadas iam para um orfanato. Desempregados recebiam refeições, passagens de ônibus para voltarem à terra natal e uma cama para dormirem até a solução do problema. O escritor Paulo Coelho, então um jovem perdido em Salvador, após ter fugido de um hospital psiquiátrico, no qual fora internado pelos pais, recorreu a irmã Dulce. Entrou na fila e contou sua história. Irmã Dulce ouviu e, sem nada perguntar, escreveu: "Vale um bilhete de ônibus", e assinou. "O primeiro motorista que leu o que estava no papel mandou que eu embarcasse", disse Paulo Coelho.

Políticos e governantes visitavam irmã Dulce para conhecer sua obra ou por interesses próprios. Ela recebia a todos e sempre aproveitava a oportunidade para pedir pelos pobres. Antônio Carlos Magalhães (governador e prefeito de Salvador por vários mandatos) abre a lista, como governador e amigo pessoal. Era ele quem abria as portas para inclusões na agenda de visitantes de autoridades federais. Os presidentes Eurico Gaspar Dutra, João Batista Figueiredo e José Sarney levaram solidariedade e contribuíram com milhões de cruzeiros.

"Eu sou indigno de fazer outra coisa, senão lhe beijar os pés", disse Sarney em 27 de maio de 2014, durante sessão solene do Senado em homenagem ao centenário de nascimento de irmã Dulce. Em junho daquele ano, repetiu a declaração em entrevista a Graciliano Rocha (biógrafo de irmã Dulce, no livro A santa dos pobres). Amiga de Sarney, era a única pessoa, fora do governo, que tinha o número do telefone vermelho no gabinete do Palácio do Planalto. Irmã Dulce acionou o número muitas vezes.

Eurico Gaspar Dutra prometeu 6,5 milhões de cruzeiros, o equivalente a R$ 12 de milhões atuais para concluir as obras sociais de irmã Dulce por meio do Círculo Operário da Bahia (COB), com garantia do Banco do Brasil. Como o dinheiro não chegou, irmã Dulce cobrou o prometido quando o presidente voltou à Bahia. Ele pediu ao ministro da Educação, o banqueiro baiano Clemente Mariani, para atender a freira. O livro de Graciliano Rocha conta como foi a estratégia para anular uma dívida com o Banco do Brasil com dinheiro do governo.

Já o presidente João Batista Figueiredo visitou Salvador ciceroneado por Antônio Carlos Magalhães. Ficou emocionado ao ver a precariedade do Hospital Santo Antônio e prometeu ajudar irmã Dulce. A promessa foi cumprida trinta meses depois, em março de 1982, quando a freira reencontrou o presidente. "Já falei com Santo Antônio e ele me disse que o senhor só entra lá no céu se nos ajudar na construção do novo hospital", disse a freira. "Eu vou arranjar o dinheiro para a senhora, nem que eu tenha de assaltar um banco", respondeu Figueiredo. "Pois o senhor me avise, que vou com o senhor", pediu irmã Dulce. Figueiredo deu uma gargalhada. O Ministério do Planejamento liberou R$ 50 milhões de cruzeiros na semana seguinte (cerca de R$ 4,5 milhões) e quantia igual um ano depois, transferida pelo Fundo de Investimento Social.


CAMINHO DA CANONIZAÇÃO
A causa da canonização de irmã Dulce foi iniciada em janeiro de 2000. Com o início do processo, seus restos mortais, que desde 1992 estavam na igreja da Conceição da Praia, foram transferidos para a Capela do Convento Santo Antônio, na sede das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), também em Salvador. A validação jurídica do virtual milagre presente no processo foi emitida pela Santa Sé em junho de 2003. Já em abril de 2009, o papa Bento XVI reconheceu as virtudes heroicas da Serva de Deus Dulce Lopes Pontes, autorizando oficialmente a concessão do título de venerável à freira baiana. O título foi o reconhecimento de que irmã Dulce viveu, em grau heroico, as virtudes cristãs da Fé, Esperança e Caridade.

O voto favorável e unânime da Congregação para a Causa dos Santos, que levou ao título de venerável, havia sido concedido em 2008 e anunciado em janeiro de 2009 pelo colégio de cardeais, bispos e teólogos após a análise da Positio (documento canônico misto de relato biográfico e das virtudes e resumo dos testemunhos do processo). Os teólogos que estudaram a vida e as obras de irmã Dulce a definiram como a “Madre Teresa do Brasil”, pelas semelhanças do seu testemunho cristão com a Beata de Calcutá, sendo “um conforto para os pobres e um exame de consciência para os ricos”.

No dia 9 de junho de 2010 foi realizada a exumação e transferência das relíquias (termo utilizado para designar o corpo ou parte do corpo dos beatos ou santos) da venerável Dulce para sua capela definitiva, localizada na Igreja da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, situada ao lado da sede da Osid. A Capela das Relíquias foi construída na própria Igreja da Imaculada Conceição, erguida no local do antigo Cine Roma e do Círculo Operário da Bahia, construídos pela freira na década de 1940.


BEATIFICAÇÃO: MILAGRES RECONHECIDOS
Em outubro de 2010, a Congregação para a Causa dos Santos, por meio de voto favorável e unânime de seu colégio de cardeais e bispos, reconheceu a autenticidade do segundo milagre atribuído à irmã Dulce cumprindo, dessa forma, a penúltima etapa do processo de canonização: estágio que levaria à beatificação da religiosa no ano seguinte. O anúncio foi feito no dia 27 de outubro de 2010 pelo então arcebispo Primaz do Brasil, cardeal D. Geraldo Majella Agnelo, em coletiva realizada na sede das Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador.

O primeiro milagre ocorreu na cidade de Itabaiana, em Sergipe, quando, após dar à luz a seu segundo filho, Claudia Cristina dos Santos sofreu uma forte hemorragia, durante 18 horas, tendo sido submetida a três cirurgias na Maternidade São José. Diante da gravidade do quadro, o obstetra Antônio Cardoso avisou a família que apenas “uma ajuda divina” poderia salvar a vida de Claudia. Em desespero, a família da miraculada chamou o padre José Almí para ministrar a unção dos enfermos. O padre, no entanto, decidiu fazer uma corrente de oração pedindo a intercessão de irmã Dulce e deu a Claudia uma pequena relíquia da bem-aventurada. A hemorragia cessou subitamente.

O caso de Claudia foi analisado por dez peritos médicos brasileiros e seis italianos. Segundo o médico Sandro Barral, um dos integrantes da comissão científica que analisou o milagre, “ninguém conseguiu explicar o porquê daquela melhora, de forma tão rápida, numa condição tão adversa”. O milagre passou por três etapas de avaliação: uma reunião com peritos médicos (que deram o aval científico), com teólogos, e, finalmente, a aprovação final do colégio cardinalício, tendo sua autenticidade reconhecida de forma unânime em todos os estágios.


RECONHECIMENTO
Já no dia 10 de dezembro de 2010, o papa Bento XVI autorizou então a promulgação do decreto do milagre que transformava a venerável Dulce em beata, ou bem-aventurada. A autorização foi dada pelo pontífice ao prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Ângelo Amato, em audiência privada no Vaticano. Com o reconhecimento final do papa, abriu-se caminho então para a realização da Cerimônia de Beatificação de Irmã Dulce, evento ocorrido no dia 22 de maio de 2011, em Salvador. Na ocasião, a freira baiana passou a ser reconhecida com o título de "Bem-Aventurada Dulce dos Pobres", tendo o dia 13 de agosto como data oficial de celebração de sua festa litúrgica.

CANONIZAÇÃO
Em 13 de maio de 2019, o papa Francisco promulgou o decreto que reconhece o segundo milagre atribuído à intercessão de irmã Dulce, cumprindo-se assim a última etapa do processo de canonização da beata baiana. Em julho de 2019, durante reunião do Consistório, no Vaticano, o Santo Padre anunciou que irmã Dulce seria canonizada no dia 13 de outubro de 2019. Oficialmente, ela passa a ser chamada de Santa Dulce dos Pobres, a primeira santa brasileira desta época e terá como data litúrgica o dia 13 de agosto.

O homem agraciado com o segundo milagre da Mãe dos Pobres é José Maurício Moreira. Natural de Salvador, Maurício, aos 22 anos, teve o diagnóstico de um glaucoma muito sério, descoberto tardiamente e já em estado avançado. O tratamento, que durou dez anos, não foi suficiente para impedir que o nervo óptico – responsável pela comunicação com o cérebro – fosse destruído. Desse modo, na virada do ano de 1999 para 2000, ele ficou totalmente cego de ambos os olhos e assim permaneceu por mais de 14 anos.

Em 2014, já morando em Recife, Maurício teve uma conjuntivite muito grave e, sofrendo com fortes dores, pegou a imagem de irmã Dulce que pertencera à sua mãe, colocou-a sobre os olhos e, com muita fé, fez uma oração pedindo a intercessão do Anjo Bom para que aliviasse as dores da conjuntivite. “Ao acordar, comecei a ver a minha mão. Entendi que irmã Dulce tinha operado um milagre. Ela me deu muito mais do que eu pedi: eu voltei a enxergar”.

O segundo milagre validado pelo Vaticano passou por três etapas de avaliação: uma reunião com peritos médicos (que deram o aval científico), com teólogos, e, finalmente, a aprovação final do colégio cardinalício, tendo sua autenticidade reconhecida de forma unânime em todos os estágios. Uma graça só é considerada milagre após atender a quatro pontos básicos: a instantaneidade, que assegura que a graça foi alcançada logo após o apelo; a perfeição, que garante o atendimento completo do pedido; a durabilidade e permanência do benefício e seu caráter preternatural (não explicado pela ciência).

O processo de canonização de irmã Dulce é o terceiro mais rápido da história (27 anos após seu falecimento), atrás apenas da santificação do papa João Paulo II (nove anos após sua morte) e de madre Teresa de Calcutá (19 anos após o falecimento da religiosa).


CERIMÔNIA DE CANONIZAÇÃO
Irmã Dulce será canonizada pelo papa Francisco em 13 de outubro de 2019, em uma grande cerimônia na praça de São Pedro, no Vaticano. Essas missas abertas, em que a Igreja Católica reconhece novos santos, ocorrem todos os anos e seguem um ritual solene bem típico. Basicamente, é uma missa como aquela celebrada em todas as igrejas no domingo, mas com uma parte a mais: o chamado "rito de canonização". Essa parte diferente da missa costuma ser realizada logo no começo da celebração.

O papa Francisco será presenteado com uma parte do corpo de irmã Dulce. De acordo com a Arquidiocese de Salvador, os restos mortais da irmã Dulce serão levados em um relicário, que também contará com uma pedra ametista com formato de um coração. A arquidiocese também informou que isso é um ato comum no catolicismo. Neste ano, o líder da Igreja Católica doou para o patriarca Ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I um relicário com pedaços dos ossos de São Pedro. Irmã Dulce será a primeira mulher nascida no Brasil a ser declarada santa.


BAHIA EM FESTA
A arquidiocese de São Salvador criou a Comissão Arquidiocesana para a Celebração Pós-Canonização da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres com a tarefa de pensar uma grande celebração marcada para o dia 20 de outubro, na Arena Fonte Nova, às 16 horas. Os preparativos para a primeira missa que será celebrada no Brasil em honra a Santa Dulce dos Pobres já começaram. Cerca de 500 crianças do Centro Educacional Santo Antônio já estão ensaiando um musical que conta a história dos 60 anos das obras sociais da religiosa. “É uma emoção muito grande de graças, de bênçãos. Ter uma fundadora como santa é uma graça muito grande, são bênçãos de Deus. Eu não a conheci, mas cheguei na congregação no mesmo mês que ela faleceu. Pelos testemunhos e pela história é como se eu tivesse conhecido irmã Dulce. Eu bebo dessa fonte a cada dia aqui no hospital, é como se eu estivesse caminhando junto com ela. É um momento muito forte, de graça e de alegria”, afirmou a irmã Josinete Maria Costa, da congregação Filhas de Maria Serva dos Pobres, fundada por irmã Dulce.

OBRAS SOCIAIS IRMÃ DULCE
As Osids lançaram, na primeira semana de setembro de 2019, um kit para a celebração da canonização de irmã Dulce que ocorrerá na Arena Fonte Nova, em Salvador. Todo o conjunto é composto por um boné e uma camiseta que vão estar dentro de uma mochila. Eles foram confeccionados com a imagem da santa e as fitas do Bomfim, que relembram sua origem baiana. O kit é voltado para o público que vai assistir à celebração da canonização. Toda a renda obtida com as vendas do material será revertida para a campanha de requalificação da Unidade de Oftalmologia da Osid.

O evento dedicado à nova santa, com missas e apresentações culturais, contará com a peça teatral Império de amor, que faz parte da celebração, no Centro Educacional Santo Antônio (Cesa), núcleo de educação das Osid, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador.


“DOCE LUZ”
“Doce luz” é a letra da música em homenagem à irmã Dulce, que está sendo disponibilizada nas redes sociais da Osid e será interpretada no evento na Arena Fonte Nova. É uma composição Léo Passos e Chico Gomes:

Eu sinto seu cheiro de flor
Eu sei que você está aqui
Sua presença é de amor
Luz, das doces palavras
Luz, me dá confiança
Luz...
Luz que cuida de mim
Que acalma o meu coração
Me acolhe com seu abraço
Afasta a solidão
Luz que luta por mim
Que ampara e estende a mão
Que nunca duvida do amor
Quem em nome do sim
Não tem medo do não
Doce Luz
Eu sinto seu cheiro de flor
Eu sei que você está aqui
Sua presença é de amor
Doce Luz
Que nunca abandona um irmão
Conceda sua força de fé
Me guia, minha luz, pela escuridão
Se o fardo é pesado
Com amor tudo passa
Se a dor dilacera
Com amor tudo passa
Completo abandono
Com amor tudo passa
Se aperta a saudade
Com amor tudo passa
Se a porta se fecha
O amor escancara
Se há desespero, o amor leva calma
Se há solução
Com amor você acha
Estou onde o amor estiver
Pois se tem amor, tudo passa
Doce Luz
Eu sinto seu cheiro de flor
Eu sei que você está aqui
Sua presença é de amor
Doce Luz
Que nunca abandona um irmão
Conceda sua força de fé
Me guia, minha luz, pela oração.


PASSO A PASSO DA CANONIZAÇÃO
Antigamente, somente o papa podia promover uma causa de canonização, mas hoje em dia os bispos têm autoridade para isso. Portanto, em qualquer diocese do mundo pode-se iniciar uma causa de canonização. Para cada causa é escolhido pelo bispo um postulador, espécie de advogado, que tem a tarefa de investigar detalhadamente a vida do candidato para conhecer sua fama de santidade. Quando a causa é iniciada, o candidato recebe o título de Servo de Deus, que é o caso de irmã Dulce.

Primeiro passo
O primeiro processo é o das virtudes ou martírio. Esse é o passo mais demorado porque o postulador deve investigar minuciosamente a vida do Servo de Deus. Em se tratando de um mártir, devem ser estudadas as circunstâncias que envolveram sua morte para comprovar se houve realmente o martírio. Ao terminar este processo, a pessoa é considerada venerável.

Segundo passo
O segundo processo é o milagre da beatificação. Para se tornar beato é necessário comprovar um milagre ocorrido por sua intercessão. No caso dos mártires, não é necessária a comprovação de milagre. Irmã Lindalva passou a ser venerável em 16 de dezembro de 2006, quando o decreto do seu martírio como serva de Deus foi promulgado. Agora é aguardada a cerimônia da beatificação, já que ela é dispensada de milagre.

Terceiro passo
O terceiro e último processo é o milagre para a canonização. Este tem que ter ocorrido após a beatificação. Comprovado este milagre, o beato é canonizado e o novo santo passa a ser cultuado universalmente.

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