ENTENDER O MUNDO/BIOGRAFIAS
Donald Trump: o presidente celebridade
 
 
Entenda
    ENTENDA      
 EXCÊNTRICO
Imprimir Enviar Guardar
 
 
 
Donald Trump é eleito o 45º presidente dos Estados Unidos.
Ele sempre chamou a atenção, quer por sua fortuna, por seu jeito debochado ou por seu papel de celebridade, mas agora, é mais do que o bilionário excêntrico que a todo momento estava nas páginas dos tablóides de fofocas de todo o mundo.

O economista e empresário estadunidense Donald Trump (1946) é o 45º presidente dos Estados Unidos, eleito no dia 9 de novembro de 2016, pelo Partido Republicano daquele país, motivo pelo qual passou a ocupar as páginas de política de todos os principais jornais do mundo, boa parte delas buscando os motivos de uma vitória que os analistas políticos e as pesquisas eleitorais não previram.


Berço de ouro
Nascido em 14 de junho de 1946 na cidade de Nova Iorque, no estado de mesmo nome, nos Estados Unidos, Donald John Trump é o quarto filho do casal Fred Trump e Mary Anne Macleod. O casal teve ainda outros dois filhos, Fred e Robert, e duas filhas, Maryanne e Elizabeth.

O pai de Trump ficou rico atuando no ramo imobiliário, construindo ou recuperando imóveis para posteriormente alugá-los. Após alguns anos, o negócio da família, batizado de Elizabeth Trump and Son, tinha milhares de imóveis em seu portfólio de casas, apartamentos e prédios comerciais.

Embora a família fosse rica, o pai de Trump queria que o filho começasse de baixo e trabalhasse nas funções menos nobres dos negócios da família. Quando, aos 13 anos, o menino Donald recebeu uma advertência por mau comportamento na escola que freqüentava, seu pai o transferiu para a Academia Militar de Nova Iorque, uma escola militar privada. Trump declarou, em 2015, que o treinamento recebido na instituição militar era provavelmente maior do que aquele que muitos que vão para o exército recebem.

Depois de formado, passou dois anos em uma faculdade no Bronx, também em Nova Iorque, e a seguir foi estudar na Universidade da Pensilvânia, na Escola de Administração Wharton, pois esse departamento oferecia estudos relacionados ao mercado imobiliário que interessavam ao jovem futuro herdeiro dos negócios do pai. Trump obteve o bacharelado em Economia, na Pensilvânia, no ano de 1968.


Uma ajuda inicial que poucos podem ter
O jovem Donald, no entanto, não era a primeira escolha do pai para substituí-lo. O senhor Trump preferia que o primogênito Fred Jr. fosse o encarregado de tocar os negócios imobiliários da família quando decidisse se aposentar, mas os problemas de alcoolismo de Fred Jr., e sua decisão de tornar-se piloto em vez de seguir no ramo da família, fizeram o patriarca da família decidir por Donald como o novo comandante da empresa dos Trump. Fred Jr. morreria aos 43 anos, em decorrência de problemas de saúde relacionados ao alcoolismo, fato que marcaria profundamente Donald e o faria não consumir álcool ou cigarros sob hipótese nenhuma.

Antes de entrar para a empresa da família, porém, e logo depois de formado, Donald procurou criar sua própria empresa de negócios imobiliários. A ajuda que recebeu não é para qualquer um: seu pai lhe emprestou um milhão de dólares para que o jovem Trump pudesse dar o pontapé inicial na empreitada.

Além de atuar de forma isolada, Donald Trump trabalhava na administração da carteira de imóveis disponíveis para locação da empresa da família até que, em 1971, passou a dirigi-la pessoalmente. Aproveitou a mudança das cadeiras na empresa e a renomeou Trump Organization.


O império Trump
À frente dos negócios, Trump começou a mudar o foco principal da antiga imobiliária familiar: de unidades residenciais nos bairros de Queens e Brooklin, na cidade de Nova Iorque, passou a concentrar os negócios imobiliários em projetos maiores no bairro de Manhattan, o mais caro e luxuoso da cidade.

O primeiro deles foi a reforma de um antigo e decadente hotel, o Commodore, que Trump transformou em um hotel de luxo, o Grand Hyatt, em 1980. Três anos depois, Trump construiu aquele que seria o primeiro de muitos edifícios do mesmo tipo – grandes arranha-céus de uso misto, comercial e residencial – e o batizou de Trump Tower.

Localizado na Quinta Avenida, um dos mais prestigiados endereços de Nova Iorque, o edifício tem 68 andares. A esse primeiro arranha-céu, seguiram-se o Trump Place, o Trump World Tower, o Trump International Hotel, entre muitos outros. Anos depois, Trump levaria o mesmo modelo de negócios para cidades como Bombaim, na Índia, Istambul, na Turquia, e Manila, nas Filipinas.

Além de continuar com os negócios imobiliários, Trump passou a diversificar suas atividades empresariais e a investir no ramo de jogos de azar. Em 1988, comprou o cassino Taj Mahal, em Atlantic City, no estado de Nova Jersey. Três anos depois, o negócio foi à falência, mas Trump conseguiu um acordo com os credores e o casino voltou a operar. Mesmo com o fracasso inicial do negócio, Trump continuou a investir em cassinos e abriu outros depois do Taj Mahal.

O fracasso inicial no ramo do entretenimento não desencorajou Trump. Entre 1996 e 2015, ele foi o detentor dos direitos de comercialização de vários concursos de beleza, como Miss Universo, Miss Estados Unidos e Miss Teen USA. E continuou a diversificar seu portfólio imobiliário: investiu em campos de golfe, resorts e hotéis de luxo. Além desses negócios, ao longo dos anos, licenciou também uma extensa linha de produtos que vão de gravatas a água engarrafada, todas com a marca Trump.

Embora se veja – e se venda – como um gênio do mercado, entre 1991 e 2009, Trump pediu concordata quatro vezes em negócios relacionados aos hotéis ou cassinos. Em todos os casos chegou a acordos com os credores e abriu mão de boa parte dos negócios para quitar seus débitos.

Todos esses negócios fizeram de Trump um homem muito rico. Ele costuma declarar que sua fortuna está avaliada em 10 bilhões de dólares. A revista Forbes, especializada em negócios e responsável por divulgar uma lista anual com as pessoas mais ricas do mundo, avalia, porém, que o patrimônio de Trump é de cerca de 4 bilhões de dólares. Já a revista Bloomberg, também especializada em negócios e administração, avalia a riqueza de Trump em 2,9 bilhões de dólares. Quem quer que esteja com a razão, Trump é, sem dúvida, bilionário.


A vida familiar
Sorte nos negócios, nem tanto no amor. Donald Trump está em seu terceiro casamento, todos eles sempre com grande repercussão na mídia por conta dos divórcios envoltos em acusações de lado a lado.

Seu primeiro casamento, e o mais famoso e conturbado de todos, foi com a modelo e atleta tcheca Ivana Zelnickova, em 1977. O casal teve três filhos: Donald, Jr., Eric e Ivanka. Em 1990, o casal se separou após inúmeras brigas devido ao relacionamento extraconjungal que Donald mantinha com a atriz Marla Maples. O divórcio encheu páginas e mais páginas dos tablóides estadunidenses. Ivana acusou Donald de comportamento abusivo e Donald a processou exigindo 25 milhões de dólares de indenização, pois ela teria rompido uma cláusula do contrato de casamento entre ambos ao revelar detalhes íntimos do casal.

Três anos depois, em 1993, Donald casou-se com a antiga amante. O casal teve uma filha, Tiffany, e se separou em 1997. Um ano depois do segundo divórcio, Trump começou a namorar a modelo eslovena Melania Knauss. Os dois casaram-se em 2005. No ano seguinte, nascia o mais novo filho de Trump: Barron William Trump.


De empresário à celebridade televisiva
No ano de 2003, Trump, já famoso por ser bilionário, ter uma vida pessoal agitada e construir grandes edifícios, passou definitivamente à condição de celebridade, ao estrear um programa no canal estadunidense NBC chamado “The Apprentice”, um reality show no qual os participantes concorriam a uma vaga de trabalho nas organizações Trump. No Brasil, o reality foi apresentado com o título de “O aprendiz”.

O programa ficou conhecido pelo bordão criado por Trump e utilizado quando um candidato era eliminado da competição: “You’re fired!” – “Você está demitido!”, em inglês. “O aprendiz” durou 14 temporadas e, segundo Trump, ele teria recebido cerca de 213 milhões de dólares por sua participação no programa nesses anos todos. A NBC, canal estadunidense responsável pelo reality show nunca confirmou esses valores.


O candidato das polêmicas
A candidatura de Trump pareceu, à primeira vista, surpreendente, por ele ter construído sua vida fora dos palcos políticos, mas essa não foi a primeira vez em que ele pensou em chegar à presidência dos Estados Unidos.

Em 1987, Trump demonstrou pela primeira vez interesse em concorrer ao cargo e, em 2000, chegou a inscrever seu nome na lista de candidatos do Partido Reformista, um pequeno partido dos Estados Unidos, país mais conhecido pela divisão entre os partidos Democrata e Republicano. Embora tenha vencido as primárias partidárias nos estados da Califórnia e do Michigan, não conseguiu a indicação final do partido.

Depois da vitória de Barack Obama, em 2008, Trump passou a compartilhar das opiniões de um movimento local que ficou conhecido como “birther”, isto é, pessoas que alegam que Obama não poderia ser presidente dos Estados Unidos porque não teria nascido no país. Para os que acreditam que Obama é, de fato estrangeiro, ele teria nascido no Quênia, na África. Mesmo depois de Obama ter divulgado sua certidão de nascimento, que comprova que ele nasceu no arquipélago do Havaí, um dos estados que compõe os Estados Unidos, Trump manteve-se reticente a respeito da nacionalidade de Obama.

Essa seria uma das primeiras polêmicas do candidato Trump, mas não a última e, nem de longe, a mais embaraçosa. Ao longo da campanha, entre 2015 e 2016, Trump manteve uma plataforma com alguns pontos mais do que controversos. Entre os principais, ele advoga que mesquitas em território estadunidense deveriam ser monitoradas eletronicamente e que pessoas de religião muçulmana deveriam ser proibidas de entrar no país. Além disso, ele defende que as autoridades estadunidenses deveriam usar técnicas de tortura física – como afogamentos controlados – para obter confissões de possíveis terroristas e que todos os imigrantes ilegais – estimados atualmente em 11 milhões de pessoas – deveriam ser deportados dos Estados Unidos.

Confrontado com o cálculo de que uma iniciativa desse tipo custaria mais de 110 bilhões de dólares aos cofres públicos estadunidenses, Trump dá de ombros e diz que seu plano é viável. Juntamente com a deportação dos ilegais, Trump promete acabar com a cidadania por nascimento, isto é, filhos de imigrantes ilegais nascidos nos Estados Unidos, não teriam mais direito à cidadania estadunidense.

O ponto de sua plataforma que tem chamado mais a atenção do público eleitor nos Estados Unidos, no entanto, é o do seu desejo de construir um “muro grande, bem grande” entre os Estados Unidos e o México a fim de impedir a entrada de mexicanos no país, pois eles trazem, segundo Trump, “drogas, crimes e são estupradores”. O custo da iniciativa, estimado entre 2 e 13 bilhões de dólares, deveria ser pago, de acordo com o candidato Trump, pelos próprios mexicanos. Como se costuma dizer em inglês, adicionemos o insulto à injúria.


“Tornar a América um grande lugar novamente”
Todas essas medidas, segundo Trump, destinam-se, como ele disse em sua campanha, a fazer da América um grande lugar novamente. Para isso, além das controversas medidas de política internacional, ele defende a criação de um sistema de impostos mais simples, planos de saúde estaduais em vez do plano nacional aprovado por Obama, conhecido como Obamacare, e tratamento psiquiátrico para evitar novos episódios de atiradores que matam dezenas de pessoas de forma aleatória em várias partes dos Estados Unidos ao saírem atirando a esmo em locais públicos como cinemas, shoppings e escolas.

Sua reformulação do imposto de renda, por exemplo, tornaria a declaração daqueles que ganham menos de 25 mil dólares por ano (cerca de 80 mil reais anuais ou pouco mais de 6 mil reais mensais) mais simples. Nela, o contribuinte deveria apenas preencher o valor ganho durante o exercício fiscal declarado e escrever “Ganhei”. Segundo Trump, isso seria uma forma de dizer ao leão estadunidense que, dessa vez, quem se deu bem fui eu, pois o governo não poderá “morder” um centavo sequer do que eu tivesse ganhado naquele ano.

Esse tipo de medida deve ter atraído eleitores de baixa renda, e até mesmo parcelas da classe média estadunidense, parcelas em quantidade suficiente para eleger alguém que nunca ocupou um cargo público detentor da posição política mais poderosa do mundo. Se o pacote completo do candidato mais polêmico das últimas eleições presidenciais da América irá torná-la “grande novamente”, o lema de sua vitoriosa campanha, só o tempo dirá, no entanto.

Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz juramento ao lado da esposa, Melaine, durante a cerimônia de posse em 20 de janeiro de 2017. Foto: Mandel Ngan/AFP Photo.


LEIA TAMBÉM
Eleições dos EUA: complexidade democrática