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Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho
 
 
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 UM GÊNIO DO MORRO
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Filho de um pintor de paredes e uma lavadeira, sua obra é um retrato da burguesia carioca

O maior escritor brasileiro veio do morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Era filho de Francisco José de Assis, um mulato carioca pintor de paredes, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, uma lavadeira e imigrante portuguesa da Ilha de Açores. O gênio mulato que atendia pelo nome de Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839. Foi menino pobre em uma sociedade que ainda vivia sob o terrível açoite da escravidão.

Machado de Assis freqüentou a escola primária em São Cristóvão e só. Cedo, ficou órfão de mãe. Foi então amadrinhado por Maria José de Mendonça Barroso, proprietária da chácara em que seus pais moravam. Depois, acabou obrigado a trabalhar, ainda na infância, para se sustentar. Venceu todas as adversidades e conseguiu alcançar a mais alta posição dentro da literatura nacional e mundial. Foi lâmina em toda sua vida. Cortou preconceitos e derrubou obstáculos gigantescos com a força da determinação e da inteligência.

Escreveu o primeiro poema, “Ela”, com apenas quinze anos, em 1855, e o publicou, em 12 de janeiro de 1855, no nº 530 do periódico Marmota Fluminense.

No ano seguinte, começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Lá, conheceu Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), autor do clássico Memórias de um sargento de milícias (1854). Tornou-se protegido de Manuel Antônio de Almeida.

Em 1858, Machado passou a colaborar regularmente na imprensa, principalmente a carioca, trabalho que ele faria até o final de sua vida. Rapidamente ganhou uma posição de destaque social dentro da monarquia escravocrata na qual vivia o Brasil.

Autodidata, o escritor conseguiu formar-se por conta própria na biblioteca do Gabinete Português de Leitura e aprendeu francês com a dona e o forneiro franceses da padaria do bairro onde morava. Tempo depois, o autor também aprenderia inglês e alemão por conta própria.

Em 1869, aos 25 anos, Machado de Assis teve seu primeiro livro, Crisálidas — um livro de poemas românticos —, publicado pela editora Garnier. A partir do qual tornou-se conhecido de muitos intelectuais cariocas, entre eles, José de Alencar (1829-1877), Francisco Otaviano (1825-1889) e o escritor francês Charles Ribeyrolles (1812-1860).

No mesmo ano, casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835-1904), com quem viveu até o falecimento dela. Sua esposa era irmã do poeta português Faustino Xavier de Novais (m. em 1869). Nos primeiros meses do casamento, Machado sofreu grave crise de epilepsia. No ano seguinte, publicou outro livro de poemas românticos Falenas. Nesse mesmo ano, obteve grande sucesso com a publicação de Contos fluminenses.

Em 1872, é publicado seu primeiro romance: Ressurreição. O livro começa com uma “Advertência”, na qual o autor escreve: “Não sei o que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo o que pensará dele o leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, que há dois anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer. A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar às graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu”. Assim, o gênio machadiano não ficava restrito à história narrada pelo livro. Mesmo em seus prólogos, ele surge, irônico e refinado.

O começo do trabalho de romancista é acompanhado pelo início de uma longa e bem-sucedida carreira burocrática. Em 1873, mesmo ano no qual ele publicou outro livro de contos, Histórias da meia-noite, foi nomeado primeiro-oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e subiu de posto, em 1881, quando se tornou oficial-de-gabinete do então ministro Pedro Luiz (1839-1884). Sua vida como funcionário público também foi cheia de sucessos: em 1888, recebeu a comenda da Ordem da Rosa; em 1889, foi nomeado diretor-geral da viação; e, em 1898, tornou-se diretor da Secretaria da Indústria do Ministério da Viação.

Nesse meio tempo, mais precisamente em 1875, Machado de Assis vive, na poesia, sua fase indianista e publica Americanas. Um ano antes, em 1874, ele publicara seu segundo romance: A mão e a luva.

Segundo o crítico literário Manuel da Costa Pinto, “partindo das teorias de Antonio Candido (para quem a produção ficcional traz as marcas de suas condições de circulação) e da ‘estética da recepção’ (na qual todo texto supõe um ‘leitor ideal’), ele mostra como Machado foi conformando sua literatura à idéia de que seus leitores empíricos eram, afinal, uma miragem. Em obras como Ressurreição e A mão e a luva, Machado está ‘empenhado em transformar o gosto dos seus leitores’”.


Obras da maturidade
Em 1876, é publicado o romance Helena. Dois anos depois, surge Iaiá Garcia, livro que marca o final da primeira fase do Machado romancista. Em seguida, o Machado poeta viveria uma fase parnasiana, que vai de 1879 até 1880. Nela, escreve e publica o livro de poemas Ocidentais. Depois, segundo o crítico norte-americano e professor de literatura inglesa e comparada na Universidade Princeton Michel Wood, começam a surgir “cinco obras indiscutivelmente maiores, e o mistério está na diferença entre os dois conjuntos. Os cinco romances maduros são Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908)”.

Nessas obras a literatura de Machado de Assis vive seu apogeu. Para o crítico John Gledson, essa fase da obra sofre com a força da doença grave e dos problemas de visão que então o afligem. Por isso são obras marcadamente pessimistas, cheias de ironia, mas também acompanhadas por uma certa graça, que apesar de soturna, dá aos textos a leveza da “pena da galhofa e a tinta da melancolia”, como o próprio autor escreveu no prólogo das Memórias póstumas de Brás Cubas.

Nessas obras, Machado, segundo Michel Wood, passa “da graciosa narração em terceira pessoa aos extravagantes trejeitos modernistas, incluindo a cronologia emaranhada, o comentário reflexivo, as digressões, narradores em primeira pessoa altamente inconfiáveis, alusões proliferantes, histórias omitidas ou interrompidas, páginas cheias de pontos, títulos idiossincráticos, referências constantes ao caráter livresco dos livros e apóstrofes provocativas a vários leitores imaginários”. As técnicas narrativas desses romances são tão avançadas para a época que, para se ter uma idéia, elas se parecem muito com as utilizadas por Nabokov (1899-1977) em seu Lolita.

Já o crítico brasileiro Roberto Schwarz, em seu livro Um mestre na periferia do capitalismo (1990), a respeito de Machado de Assis, parte — como John Gledson — para uma explicação biográfica quando afirma: “Talvez se pudesse imaginar que Machado havia completado a sua ascensão social, mas não alimentava ilusões a respeito, nem esquecia os vexames da situação anterior”.

Para Michel Wood, o grande lance das obras da fase madura reside no fato de o autor ser “ao mesmo tempo estético e político, um modo de espreitar as classes dominantes sem parecer divergir delas, um modo de fazer — como diz Schwarz a certa altura — com que se condenem por si sós, sem que saibam o que estão fazendo. De resto, para isso foram feitos os narradores inconfiáveis: há sempre uma condenação, ainda que nem sempre a condenação de uma classe inteira”.

Segundo o crítico Roberto Schwarz, “entre 1880 e 1908, Machado de Assis escreveu quatro ou cinco romances e algumas dezenas de contos de grande categoria, muito acima do que a ficção brasileira — incluída aí a produção anterior do próprio Machado (1839-1908) — havia oferecido até então. São livros que se afastam da mistura romântica de colorido local, romanesco e patriotismo, ou seja, da fórmula fácil e infalível em que o público leitor da jovem nação se comprazia. A diferença, que não é de grau, tem muito alcance e merece reflexão. No caso, a mudança não excluía as continuidades, de que precisava, embora as transfigurando (…) a ousadia se torna abrangente e espetacular, desacatando os pressupostos da ficção realista, ou seja, os andaimes oitocentistas da normalidade burguesa. A novidade está no narrador, humorística e agressivamente arbitrário, funcionando como um princípio formal, que sujeita as personagens, a convenção literária e o próprio leitor, sem falar na autoridade da função narrativa, a desplantes periódicos. As intrusões vão da impertinência ligeira à agressão desabrida. Muito deliberadas, as infrações não desconhecem nem cancelam as normas que afrontam, as quais entretanto são escarnecidas e designadas como inoperantes, relegadas a um estatuto de meia-vigência, que capta admiravelmente a posição da cultura moderna em países periféricos. Necessárias a essa regra de composição, as transgressões de toda sorte se repetem com a regularidade de uma lei universal. A devastadora sensação de Nada que se forma em sua esteira merece letra maiúscula, pois é o resumo fiel de uma experiência, em antecipação das demais regras ainda por atropelar”.


No conto, no teatro e na crítica
Machado de Assis foi um contista muito fecundo. Publicou mais de duzentos contos. Neles, o autor leva sua genialidade aos textos curtos. Produziu obras-primas como “Missa do Galo”, “O alienista”, “A Igreja do diabo”, “O espelho” e tantos outros.

Neste último o protagonista do conto, um rapaz que acabará de ser nomeado alferes da Guarda Nacional, a certa altura da história, recebe da tia o “privilégio” de ter em seu quarto um espelho, assim descrito: “‘Obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples...’ Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de d. João 6º”.

Para o crítico John Gledson, a razão pela qual Machado inseriu o “pedigree” do espelho no conto é a seguinte: “O Brasil de fato tornou-se um império independente sob a regência de d. Pedro 1º, filho de d. João, em 1822, mas esta era a primeira etapa do processo. Valendo-me da metáfora de Machado: pela primeira vez o país se viu no espelho”. Gledson chega a afirmar: “Não consigo imaginar nenhum outro motivo para a menção do pedigree”.

Assim, em um conto de Machado, o simples fato de um personagem jovem recém-nomeado alferes se olhar no espelho pode significar muito mais do que a mera compreensão superficial da descrição da cena. Isso eleva seus trabalhos como contista à qualidade de um dos maiores da língua portuguesa e da literatura mundial.

Ele explorou o gênero dos contos como poucos. Suas histórias curtas armavam-se quase sempre a partir de uma seqüências de sustos e surpresas pregados ao leitor. Ao mesmo tempo, ele destilava ironias e opiniões muito sedutoras e inteligentes. Seus contos também revelam personagens constantemente marcados pela dúvida, a indecisão, a loucura e o perfeccionismo. A linguagem é sempre impessoal, sutil, ágil, recheada de um humor corrosivo.

Sua obra para o teatro não é tão importante quando seus romances e contos. Porém, ela, além de também fazer um excelente recorte da sociedade carioca da época, ajudou o autor no desenvolvimento de seu trabalho ficcional, principalmente nas inegáveis similaridades com a arte cênica que encontramos em Dom Casmurro.

Já seu trabalho como crítico foi marcado pelo combate e muita vez pecou pelo excesso de subjetividade e pelo tom arbitrário. Seu ideal estético, contudo, é feito de maneira pertinente às formulas que encontramos em seus textos ficcionais.


Morte
Machado de Assis morreu no ano de 1908 em condições completamente diferentes daquelas em que havia nascido. O menino pobre, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, findou a vida reconhecido como um dos maiores nomes da literatura brasileira. Sua morte teve repercussão nacional. Segundo o crítico Alfredo Bosi, “primeiro ele viu o mundo de baixo para cima, depois, de cima para baixo”.

O escritor morreu em 29 de setembro daquele ano. Foi enterrado ao lado de sua companheira Carolina, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.