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Cervantes, o Quixote das letras
 
 
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 UMA VIDA NADA FÁCIL
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Cervantes recebeu o pseudônimo de “el manco de Lepanto” após perder seu braço na batalha

Filho de um barbeiro — ofício então compatível com o de cirurgião e dentista —, escritor o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra nasceu no ano de 1547 em Alcalá de Henares e morreu em Madri a 23 de abril de 1616, tendo sido enterrado em uma vala comum. Sua vida difícil está incrustada em sua obra. Tanto que o criador do Dom Quixote chegou a escrever no prólogo do livro Viagem ao Parnaso: “Eu sou aquele que a invenção excede”, motivado talvez pela sua existência atribulada e cheia de desventuras.

Em 1551, acossada pelas penúrias econômicas e seguindo a Corte derrotada, Cervantes foi com sua família para a cidade de Valladolid e, em 1561, para Madri. Após alguns anos dos quais há pouquíssima informação — exceto os estudos que fez com Juan López dos Hoyos (1511-1583), catedrático de gramática, e alguns conflitos legais causados por dívidas —, em 1569 aparece registrado em Roma, onde durante um curto espaço de tempo trabalhou como ajudante de câmara de monsenhor Giulio Acquaviva (1546-1574), mais tarde cardeal. No final desse mesmo ano, Cervantes entrou para o Exército, na companhia de Diego de Urbina, do terço — antigo corpo de tropas espanholas do século XVI e XVII — de Miguel Moncada. Nessa companhia, e desde Nápoles, ele embarcou na frota que, sob as ordens de D. João d’Áustria (1545-1578), estava destinada a disputar com os turcos a hegemonia militar e comercial do Mediterrâneo.


A BATALHA DE LEPANTO
Em 1571, Cervantes participou da batalha de Lepanto, que afastou a ameaça turca que pairava sobre a Europa Ocidental através do Mediterrâneo, na segunda metade do século XVI. A vitória naval de Lepanto foi descrita por Cervantes como o maior acontecimento de todos os tempos. A batalha de Lepanto foi uma luta entre as forças cristãs da Santa Liga, comandadas por D. João d’Áustria, irmão de Filipe II (1527-1598), em 7 de outubro de 1571, e a esquadra otomana. A armada cristã compreendia cerca de duzentas galeras, oitocentas embarcações ligeiras e cerca de trinta mil homens. Era integrada por naves espanholas, venezianas e pontifícias, depois que o papa Pio V (1504-1572), alarmado com os progressos otomanos no Mediterrâneo Ocidental (conquista de parte da ilha de Chipre), formou uma liga de países católicos. A força muçulmana era comandada por Ali Paxá (1815-1871).

Durante a batalha, um disparo de arcabuz atingiu seu peito e outro inutilizou sua mão esquerda. Este fato serviu para que João d’Áustria aumentasse o soldo de Cervantes e, daí em diante, o futuro escritor fosse conhecido como “o maneta de Lepanto”. Após se curar em Mesina, foi reincorporado à milícia e participou em novas batalhas, como a de Navarino e Goleta de Túnez. Mais tarde, participou da guarnição em Cerdeña, Lombardia, Nápoles e Sicília.

Esse tempo foi decisivo para a formação de Cervantes, já que nela ele adquiriu um íntimo conhecimento da literatura italiana e dos ideais do Renascimento, que, na Espanha, baluarte do catolicismo e da contra-reforma, era algo quase impensável. Em 1575, de volta à Espanha, o navio em que viajava foi atacado por um barco turco a mando do corsário Arnauti Mamí, que o conduziu como prisioneiro para Argel, no intuito de pedir um avolumado resgate, pois quando os piratas turcos encontraram em poder de Cervantes umas cartas de recomendação de João d’Áustria, acreditaram que o espanhol era uma pessoa de grande condição social pela qual eles poderiam obter muito dinheiro. Dali Mamí, corsário de origem grega a serviço dos turcos, fez de Cervantes seu escravo pessoal.

O “maneta de Lepanto” e outros presos protagonizaram várias tentativas de fuga, sempre frustradas. Em todas as ocasiões, ante os tribunais turcos que o julgaram, Cervantes assumiu toda a responsabilidade pelos intentos e assim eximiu de culpa todos os seus companheiros. Ele acabou torturado e seu cativeiro tornou-se mais duro.
A família Cervantes, sempre na pobreza, não tinha como reunir o valor exigido como fiança (quinhentos reais espanhóis). Fray Juan Gil foi quem se dedicou a coletar dinheiro entre os mercadores cristãos de Argel e assim conseguiu completar a quantidade reclamada. Isso ocorreu precisamente quando o escritor já estava em uma galera prestes a ser levado como escravo para Constantinopla, onde provavelmente seria morto.


DE VOLTA À ESPANHA
Finalmente, em 1580, após cinco anos de cativeiro, Cervantes pôde voltar para a Espanha. Desse modo, quando contava 33 anos, chegou ao fim a sua “etapa heróica”. Retornava ao seu país de origem após onze anos de ausência, desprovido de sua mão esquerda e sem nenhum ofício que lhe permitisse ganhar a vida.

Entre 1582 e 1583, o escritor manteve relações com Ana Villafranca de Rojas, esposa de um tal Alonso Rodríguez, e com a qual reconheceu ter uma filha, Isabel de Saavedra. Segundo alguns de seus biógrafos, Isabel era filha natural de sua irmã Magdalena, e Cervantes a reconheceu para salvaguardar a honra familiar.

Sua família, no esforço para pagar a soma exigida por seus captores, havia caído na ruína total: seu pai estava velho e surdo; sua mãe trabalhava a duras penas; sua irmã Luisa havia tomado os hábitos de carmelita descalça; seu irmão Rodrigo se mantinha na milícia, e outras duas irmãs do escritor, Andrea e Magdalena, solteiras, “exerciam vida pouco honesta”, sem dúvida em decorrência da miséria em que viviam.
No ano seguinte (1584), Cervantes foi a Portugal, onde estava a corte de Felipe II, com a esperança de ser trasladado para a América como coletor de impostos, e assim pagar as dívidas de sua família. Após seu retorno, Cervantes começou a escrever A Galatéia, uma novela pastoril, cujo original vendeu por 1.336 reais e que foi publicado no ano seguinte. Ainda em 1584, Cervantes se casou com Catalina de Salazar e Palácios, natural de Esquivias, onde o novo casal viveu até 1587, ano em que Cervantes viajou para a Andaluzia como comissário real de Abastos, cuja missão era requisitar azeite e trigo para financiar a Armada Invencible, frota à qual Felipe II confiou em vão a destruição da Grã-Bretanha.

O exercício desse trabalho, por terras andaluzas e manchegas, causou muitas dores de cabeça para Cervantes. Também o colocou em contato direto com o povo simples, o obrigou a recorrer caminhos secundários, se alojar em locais muito pobres e tratar com ricos vulgares e perversos e fidalgos de aldeia.

Em 1590, ainda sob o manto da pobreza, Cervantes voltou a solicitar algum trabalho na América. Em 1592, acusado de vender trigo sem autorização oficial, Cervantes foi preso. Liberado sob fiança, em 1597, em Écija, e em 1602, em Sevilha, Cervantes voltou à prisão por dividas não pagas e outros problemas de dinheiro.


TEMPOS QUIXOTESCOS
A partir de 1604, instalado em Valladolid e a cargo de uma família integrada por mulheres — sua esposa, suas irmãs Andrea e Magdalena, Constanza, filha natural de Andrea, e Isabel, filha de Cervantes —, “o maneta de Lepanto” se dedicou a escrever O engenhoso fidalgo Don Quixote de la Mancha, cuja primeira parte foi publicada em 1605.

Em 1606, a corte se trasladou para Madri, e para lá se mudaram Cervantes e sua família de cinco mulheres. Em 1610, Cervantes apresentou uma solicitação para formar parte do séqüito da Corte do duque de Lemos, que havia sido nomeado vice-rei de Nápoles, mas suas aspirações se viram frustradas.

Informações indicam que, em Madri, Cervantes assistia algumas academias ou tertúlias literárias da Corte, entre elas, a do conde de Saldaña, pois em uma carta de março de 1612, Lope de Veja afirma que leu versos com os óculos de Cervantes “que pareciam ovos fritos, de tão malfeitos”.
O dinheiro ganho com o Quixote permitiu ao escritor publicar as Novelas exemplares, Oito comédias e oito entremezes, e Viagem ao Parnaso e, em 1615, a segunda parte do Quixote. A imensa fama literária que ele alcançara — não só na Espanha — não conseguiu tirá-lo da miséria.

Pouco se sabe dos últimos meses do criador de Dom Quixote. No começo de abril de 1616, ele ingressou na ordem dos Escravos do Santíssimo Sacramento, com cujo hábito seria amortalhado. Em 19 desse mesmo mês, um dia após ter recebido a extrema-unção, assinou a epístola dedicatória dos trabalhos de Persiles e Segismunda, dirigida ao conde de Lemos. Cervantes morreu em Madri, em sua casa da rua do Leão, esquina com a de Francos, a 23 de abril de 1616, seguramente atendido por sua esposa e sua sobrinha Constanza de Ovando. Sem dinheiro para pagar o velório e os ofícios fúnebres, ele foi sepultado no convento das Trinitárias Descalças da rua de Cantarranas — hoje, Lope de Veja —, onde seus restos nunca puderam ser identificados.

Entretanto, é possível reconstruir sua imagem mentalmente, pois o autor legou, além de uma obra magnífica, um auto-retrato, escrito no livro Novelas exemplares, no qual se lê: “Este que aqui vedes de rosto aquilino, de cabelo castanho, testa lisa e descarregada, de alegres olhos e de nariz curvo, embora bem proporcionado; as barbas de prata, que não há vinte anos eram de ouro, os bigodes grandes, a boca pequena, os dentes nem miúdos nem graúdos, pois não tem mais do que seis, e estes malpostos e pior dispostos, porque não têm correspondência uns com os outros; o corpo entre dois extremos, nem grande, nem pequeno; a cor viva, mais branca do que morena, as costas algum tanto encurvadas e os pés não muito ligeiros; este digo que é o rosto do autor de A Galatéia e de D. Quixote de la Mancha, e de quem fez a Viagem ao Parnaso, à imitação da de Cesare Caporali Perusino, e outras obras que por aí andam desgarradas, e talvez sem o nome do seu dono. Chama-se comumente Miguel de Cervantes Saavedra.

Foi soldado muitos anos e cinco e meio cativo, onde aprendeu a ter paciência nas adversidades. Perdeu a mão esquerda de uma arcabuzada na batalha naval de Lepanto, ferida que, embora pareça feia, ele a tem por formosa, por tê-la recebido na mais memorável e alta ocasião que viram os passados séculos e esperam ver os vindouros, militando sob as vencedoras bandeiras do filho do corisco da guerra, Carlo Quinto, de feliz memória”.

Cervantes foi um guerreiro na vida e um gênio da literatura mundial. Para o grande escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977), o autor espanhol “sobreviveu por 350 anos através das selvas e tundras do pensamento humano, e ganhou em vitalidade e estatura. Nós não rimos mais dele. Sua defesa é a pena, sua bandeira, a beleza. Ele representa tudo que é gentil, altruísta e galante”.

Segundo o escritor Ariano Suassuna, “certa vez, um mesquinho e invejoso inimigo de Cervantes disse que o grande escritor espanhol não deveria mais empreender obra nenhuma, porque estava ‘velho demais para isso’. Mas Cervantes era um guerreiro, um cavaleiro andante que, desde muito moço, colocara sua vida e suas forças a serviço de seu país e de seu povo.
Por isso não se abateu nem desanimou. Respondeu à maldade afirmando que o fato de estar velho, ao invés de prejudicá-lo, contava a seu favor, ‘porque não se age e pensa com os cabelos brancos e sim com o entendimento, que costuma melhorar, não piorar, com os anos’. Então, animoso como sempre, deu ao mesquinho invejoso a maior e melhor das respostas: concluiu o Dom Quixote, obra que, sendo nacional e popular, é o romance mais universal que já apareceu na história da arte humana”.


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