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Stephen Hawking morre aos 76 anos
 
 
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Hawking era exemplo de determinação por resistir por muitos anos à esclerose lateral amiotrófica. Foto: JUSTIN TALLIS/AFP

A paixão por números é o que movia o cientista britânico Stephen William Hawking, nascido em 1942. Ela também se refletia em todos os âmbitos de sua vida. Quando Hawking falava do momento de seu nascimento, sempre dizia que nasceu trezentos anos após a morte de outro grande físico da história, o italiano Galileu Galilei (1564-1642). Para os amantes das coincidências, fica ainda mais interessante saber que nesse mesmo ano nasceu Isaac Newton (1642-1727). Em todo caso, no ano em que nasceu Hawking o Reino Unido se encontrava em guerra — Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Por essa razão, ele veio ao mundo na cidade de Oxford, apesar de seus pais serem de Londres. Foi o melhor refúgio que encontraram para se resguardar dos bombardeios nazistas, porque nem Cambridge nem Oxford se encontravam entre os alvos da força aérea alemã.

A imagem de Hawking era característica e já fazia parte do imaginário popular: uma pessoa que podia se comunicar mediante um sintetizador e com uma imobilidade quase total do corpo, vítima de uma doença cruel e devastadora, que paralisava todo o corpo, que o manteve enfermo, porém lúcido e consciente até o final de sua vida.


A INFÂNCIA
Sua infância foi como a de qualquer outro garoto inglês que viveu seus primeiros anos no final e no pós-guerra. Não se destacou em nenhuma matéria. Tampouco foi um dos melhores de sua classe. Desde muito jovem, manifestou, contudo, a férrea vontade de ser um cientista e de estudar matemática.

Frank Hawking, o pai de Stephen, considerava os estudos de matemática algo muito distante do mercado de trabalho e convenceu seu filho a cursar outra carreira. Além disso, desejava que Stephen cursasse o mesmo colégio onde ele havia estudado, o qual não oferecia aulas de matemática. Stephen cedeu aos requerimentos de seu pai e iniciou seus estudos em ciências naturais, em Oxford.


OXFORD E CAMBRIDGE
A passagem de Stephen por Oxford se caracterizou pela “postura antitrabalho”, como o próprio Hawking costuma dizer. Apenas estudava o necessário. Gastava a maior parte de seu tempo livre para se tornar um personagem popular. Era, por exemplo, o timoneiro das equipes de remo da universidade. O próprio sistema educativo da época fomentava tal atitude relaxada entre os estudantes, já que os mesmos cursavam três anos sem que tivessem de prestar qualquer tipo de exame. Depois desse período, tinham que enfrentar uma prova que avaliava os três anos letivos. Para Hawking, essa época foi triste e entediante, pois ele não encontrou nenhum tipo de estudo que realmente o motivasse. Ao mesmo tempo, tinha muitos problemas de concentração que o impediam dedicar-se criteriosamente aos estudos.

Na véspera do exame final Hawking perdeu a confiança em si e a nota que obteve oscilou entre razoável e acima da média. Somente após uma entrevista pessoal com os professores responsáveis pela prova ele recebeu uma nota acima da média, a qual era necessária para quem queria estudar em Cambridge, a melhor universidade inglesa na área de cosmologia. Durante os anos em Oxford, Hawking se deu conta de que queria, na verdade, dedicar-se aos estudos do universo.

Seu início em Cambridge não foi fácil. O famoso astrônomo britânico Fred Hoyle (1915-2000) não o aceitou como um de seus estudantes e ele então se viu obrigado a escolher como tutor o desconhecido professor Dennis Sciama. Posteriormente, Hawking reconheceria que esse foi um dos melhores acontecimentos em sua carreira acadêmica. Durante os primeiros meses ele sentiu muita dificuldade, pois seus conhecimentos matemáticos eram poucos devido à formação que havia tido.

Mas o maior problema que Hawking enfrentaria seria de outra ordem, e infinitamente mais grave. Àquela altura começavam os primeiros sintomas da doença degenerativa que acabaria por tirar do físico quase todos os movimentos corporais. Ele rapidamente suspeitou padecer de uma grave enfermidade, o que foi prontamente confirmado pelos médicos que o atenderam. Corria o ano de 1963. A doença que o atingira, conhecida como “esclerose lateral amiotrófica”, consiste na destruição paulatina das células que controlam os músculos do corpo. Por regra geral, a morte nesses casos ocorre quase sempre num breve período de tempo — entre dois a cinco anos — após ser descoberta a doença. Hawking se mostrou exceção.

A primeira reação do físico foi se trancar em seu quarto na faculdade. O doutorado deixou de interessá-lo e apenas a música e a ficção científica eram capazes de fazê-lo esquecer, mesmo que momentaneamente, a terrível situação na qual ele se encontrava.

Sobre esses momentos de sua vida Hawking afirma que: “antes de diagnosticarem minha situação, eu estava bastante entediado com a vida. Após deixar o hospital, tive um sonho no qual eu era executado. Logo percebi que poderia fazer muitas coisas interessantes se eu fosse o indultado daquela execução”. Segundo ele mesmo afirma, a partir dali passou a desfrutar cada segundo da vida.

Os médicos prognosticaram que Hawking teria apenas mais alguns anos de vida. Foi nessa época que Stephen iniciou uma relação com Jane Wilde, que mais tarde viria a ser sua esposa.

Hawking passou a enfrentar a vida com otimismo e sem olhar muito para o futuro. Outra coisa que o ajudou sobremaneira foi o fato de sua especialidade não estar vinculada a nenhum procedimento que não pudesse ser feito por sua própria mente, a qual a enfermidade não causara nenhum dano. Isso fez Hawking retomar a autoconfiança.

Mas também havia a parte prática, e ele tinha de ganhar dinheiro para formar e sustentar uma família. Retomou a tese com novos brios depois de tê-la deixado em segundo plano. O prazo que ele tinha para concluí-la estava se esgotando e ele ainda não havia encontrado um problema apropriado. Nesse momento, Sciama sugeriu que ele travasse conversas com um jovem e brilhante matemático britânico chamado Roger Penrose (nascido em 1931), que havia desenvolvido uma teoria matemática em torno da ideia de singularidade. Segundo esse autor, uma estrela que entra em colapso após cumprir seu ciclo vital, comprime-se de tal forma que alcança um ponto de densidade infinita e forma o que se conhece como buraco negro. A singularidade é o nome que recebe o momento em que a estrela alcança uma densidade infinita. Portanto, todo buraco negro está constituído por uma singularidade. Hawking usou essa ideia para explicar a origem do universo.

Em 1967, Hawking teve seu primeiro filho. Nessa época, sua condição física o obrigava já a ir com muletas para a universidade. Enquanto seu corpo deixava de responder, Hawking se fazia cada vez mais respeitado tanto pelos estudantes quanto por seus colegas. Suas grandes ideias e seu excelente senso de humor paulatinamente tornavam Hawking um mito. Entre suas ideias estava nada mais nada menos que a concepção do big bang.


CARREIRA METEÓRICA
A teoria de Hawking foi surpreendente e significou o início de uma carreira intelectual muito fecunda: ele considerava que no início do universo houve uma singularidade da mesma maneira que elas ocorrem nos buracos negros. Isso representaria o resultado de dois processos antagônicos: no buraco negro a matéria se contrai até formar uma singularidade; no big bang a singularidade é o ponto a partir do qual a matéria se expande para constituir todo o universo. Hawking afirma em seu livro Uma breve história do tempo como chegou a esta ideia: “Comecei a pensar em buracos negros enquanto me deitava. Minha doença transforma essa operação corriqueira em um processo bastante lento, de maneira que eu tinha muitíssimo tempo”.

Outro fruto do trabalho de Hawking consistiu em deduzir que um buraco negro não pode diminuir de tamanho, mas pode também se tornar ainda maior. A partir dessa ideia o cientista britânico conseguiu alcançar uma de suas maiores descobertas: um buraco negro tem um limite a partir do qual nada que o atravessar pode sair. Esse limite é conhecido como “horizonte de sucessos”. Qualquer coisa que seja apanhada pela gravidade de um buraco negro e cruze o “horizonte de sucessos” fica congelada durante toda a eternidade porque o tempo, nesse ponto, pára.

Um aluno de Hawking teve uma profunda intuição ao comparar o comportamento de um buraco negro com o da entropia (quantidade de energia ou calor que se perde num sistema físico ou termodinâmico quando ocorrem mudanças de um estado a outro desse sistema, degradação, por extensão, desordem de um sistema).

A entropia é o princípio termodinâmico que mede a desordem de um sistema — no caso de Hawking, o sistema é o universo — e segundo a qual a desordem é irreversível e cresce a cada momento. Quanto mais organizado um sistema, isso significa que menor será a sua entropia.

Segundo o aluno de Hawking, quando um objeto é capturado por um buraco negro isso aumenta o tamanho do próprio buraco negro e, por conseqüência, aumenta sua entropia, o que equivale a dizer que o buraco negro é, em si mesmo, uma entropia. Caso não fosse sempre assim, o universo tenderia a uma ordem cada vez maior, ao invés de caminhar para a desordem, na medida em que cada vez mais matéria está sendo engolida pelos buracos negros.

No começo Hawking se negou a considerar seriamente a tese desse estudante porque supunha que um buraco negro é como qualquer outro corpo do universo e, nesse caso, deveria emitir radiação. Essa teoria era contrária à própria definição de buraco negro segundo a qual nada do que cai em seu interior pode sair. O resultado que Hawking obteve depois de analisar a questão foi surpreendente: todos os buracos negros tinham de emitir radiação.

Tal resultado atentava aparentemente contra a lógica, mas tinham uma explicação. Um dos pilares da física quântica é o Princípio da Incerteza, segundo o qual não é possível conhecer ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula. Hawking observou que o que se conhece como espaço vazio não pode estar na realidade vazio porque isso violaria esse princípio quântico. No espaço vazio é necessário existir um mínimo de incerteza, o que significa que constantemente se criam partículas e suas correspondentes antiparticulas, as quais se destroem de imediato.

O “horizonte de sucessos” dos buracos negros constitui, segundo Hawking, um lugar privilegiado para que se criem tais partículas. O intenso campo gravitacional ao qual são submetidas ambas as partículas, impede que as mesmas se aniquilem.

Além disso, a partícula negativa cai no interior do buraco negro, enquanto a positiva costumava escapar em forma de radiação. Esse tipo de radiação recebeu o nome de “radiação Hawking” em honra de seu descobridor. Esse tipo de radiação é a causa até do desaparecimento dos buracos negros, tal como aponta Hawking em seu livro “Uma breve história do tempo”. Isso significa que os buracos não são tão negros como se costumava pensar, já que um corpo negro não pode emitir qualquer tipo de radiação. Ao emitir radiação, os buracos negros diminuem de tamanho, o que provoca um aumento na temperatura e, por conseguinte, um aumento na radiação.

Esse processo culmina com a explosão do buraco negro.

Os estudos de Hawking sobre os buracos negros o conduziram também a afirmar a existência de buracos negros minúsculos que apareciam no momento da formação do universo devido às condições extremas que as primeiras partículas enfrentaram. A enorme pressão que sofriam propiciou a formação de buracos minúsculos do tamanho de um átomo e que irradiam uma grande quantidade de energia.

Os êxitos de Hawking como cientista caminham ao lado de progressivos problemas físicos, os quais obrigaram o físico inglês a abandonar as muletas e passar a utilizar uma cadeira de rodas. Qualquer atividade exigia um intenso esforço. Isso fez Hawking ter o costume de destinar um quarto de sua casa a um estudante, o qual, por sua vez, ajuda o cientista em seus afazeres diários.

No final dos anos 1970, Hawking começou a sofrer sérias dificuldades para articular palavras inteligíveis a ponto de somente um pequeno círculo de pessoas, que participava mais diariamente da vida do cientista, conseguir entendê-lo. Esse problema obrigou Hawking a sintetizar todas suas ideias, dizendo-as com a menor quantidade possível de palavras.

Mesmo contando com uma saúde cada vez mais delicada, em 1979 Hawking ocupou a Cátedra Lucasiana da Universidade de Cambridge. Esse momento constitui um dos pontos mais altos da carreira desse físico britânico, pois assumia um posto que anteriormente havia sido ocupado por uma longa lista de celebridades, entre as quais o físico Isaac Newton (1642-1727).

A fama de Hawking crescia cada vez mais. O físico, inclusive, foi convidado pelo Vaticano a proferir uma conferência para o papa e vários cardeais. Hawking chegou a dizer que, durante uma conversa que ele travou com o papa João Paulo II (1920-2005), o então líder máximo da Igreja Católica Apostólica Romana disse ao acadêmico inglês que os cientistas não podiam estudar o big bang porque era um momento de criação divina. A conferência que Hawking proferiu no Vaticano tratou exatamente da ideia da existência do big bang sem necessidade do universo recorrer aos poderes de um criador onipresente.

Nesse momento, Hawking decidiu escrever um livro de divulgação para o maior número de pessoas possíveis. Escolheu uma editora popular e um editor sem formação científica, o qual não permitiu que fosse publicado algum parágrafo que o entediasse, com termos científicos demais. Quando o livro estava quase pronto, uma pneumonia quase o levou à morte. Hawking teve então de retirar a traqueia, a operação significou a perda total da capacidade de fala do cientista.

Após a cirurgia, Hawking passou a falar com a ajuda de um computador e um sintetizador. Com esse instrumento o físico voltou às suas atividades normais de professor e cientista. Hawking também conseguiu terminar o livro, o qual o transformou em um dos mais populares divulgadores científicos do mundo.

Stephen Hawking morreu aos 76 anos, no dia 14 de março de 2018.


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