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Mandela símbolo da África do Sul livre
 
 
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Nelson Mandela durante uma das negociações com Mobutu Sese Seko e Laurent-Désiré Kabila

O racismo “é uma enfermidade da mente e da alma (...) mata muito mais que qualquer doença contagiosa. Desumaniza tudo que toca. A tragédia é que a cura está ao nosso alcance, ainda que não a tenhamos aplicado”. Essas palavras foram pronunciadas por Nelson Mandela em setembro de 2001, durante o Fórum de Durban (África do Sul), por ocasião da conferência realizada pela ONU contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância.

Nelson Mandela foi um ativista sul-africano e ex-presidente que ajudou a pôr fim ao apartheid e foi um defensor global dos direitos humanos. Membro do Congresso Nacional Africano (CNA) no início dos anos 1940, liderou os protestos pacíficos e a resistência armada contra o regime opressivo da minoria branca na África do Sul, um país racialmente dividido. Suas ações terminaram por colocá-lo na prisão por quase três décadas e fizeram dele o rosto do movimento antiapartheid, tanto dentro de seu país como internacionalmente. Em 1993, Mandela e o presidente de Klerk foram premiados conjuntamente com o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho para acabar com o apartheid. Em 1994 tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul, formando um governo multiétnico para supervisionar a transição do país. Depois de deixar a política em 1999, continuou dedicando-se à promoção da paz e da justiça social em seu país e em todo o mundo até sua morte em 2013, aos 95 anos.

O líder sul-africano havia sofrido os efeitos do ódio racial durante anos. Na África do Sul, desde 1948 até o final dos anos 1990, o racismo foi uma realidade política, respaldado em uma legalização absurda promulgada pelo governo. O apartheid, uma das leis mais discriminatórias da história humana, foi a pedra de toque de um Estado que por mais de quarenta anos humilhou a população negra, majoritária no país. A discriminação chegou ao extremo de separar as pessoas em brancos, asiáticos, negros e mestiços. Essa separação marcava o destino de uma pessoa por toda sua vida. Cada grupo racial tinha seus bairros, suas escolas, seus trabalhos, seus meios de transporte. Optar por um direito que não correspondia ao grupo ao qual a pessoa pertencia era algo impossível. A cor da pele era um estigma que sentenciava um futuro inamovível.

A população negra padeceu das leis mais discriminatórias do apartheid. Aos negros foram destinados os piores trabalhos, as terras menos férteis e os bairros menos urbanizados. Por isso não é de estranhar o surgimento de movimentos contrários à política racista do governo sul-africano. Todo esse quadro foi modificado quando Mandela chegou ao poder. Seu governo criou uma África do Sul multiétnica, democrática e livre. Mas não sem que houvesse muitas dificuldades e muita luta.


UM FILHO DA TRIBO TEMBU
Nelson Mandela nasceu Rolihlahla Mandela em 18 de julho de 1918, na pequena aldeia de Mvezo, às margens do rio Mbashe em Transkei, África do Sul, filho de Nonqaphi Nosekeni e Nkosi Mphakanyiswa Gadla Mandela. Na língua xhosa, “Rolihlahla” é mais comumente traduzido como “criador de problemas”.

O pai de Nelson Mandela, que estava destinado a ser chefe, serviu como conselheiro dos chefes de tribos por vários anos, mas perdeu tanto o título quanto a fortuna devido a uma disputa com o magistrado da colônia local. Mandela era apenas uma criança na época, e a perda de status do pai forçou a mãe a mudar com a família para Qunu, um vilarejo ainda menor ao norte de Mvezo. A aldeia ficava aninhada em um vale gramado e estreito; não havia estradas, apenas trilhas de caminhantes que ligavam as pastagens de gado. A família vivia em uma cabana e se alimentava da safra local de milho, sorgo, abóbora e feijão, que era tudo o que podiam pagar. A água vinha de nascentes e córregos, e cozinhavam ao ar livre.

Por sugestão de um dos amigos do pai, Mandela foi batizado na Igreja Metodista. Ele foi o primeiro membro da família a frequentar a escola. De acordo com o costume de dar a todas as crianças em idade escolar nomes cristãos, a professora de Mandela batizou-o como Nelson. Quando Mandela tinha nove anos de idade, o pai morreu de doença pulmonar, o que fez com que sua vida mudasse drasticamente. Ele foi adotado pelo chefe Jongintaba Dalindyebo, regente da tribo Thembu – gesto feito como um favor ao pai de Mandela, que, anos antes, havia recomendado Jongintaba para chefe. Mandela posteriormente deixou a vida despreocupada que levava em Qunu e viajou para Mqhekezweni, capital da província de Thembuland, a residência real do chefe. Embora não tenha esquecido sua amada aldeia de Qunu, rapidamente se adaptou ao novo e mais sofisticado ambiente, nas redondezas de Mqhekezweni.

Mandela recebeu o mesmo status e responsabilidades que os outros dois filhos do regente, o filho mais velho Justice e a filha Nomafu. Teve aulas em uma escola de apenas uma sala ao lado do palácio, estudando inglês, xhosa, história e geografia. Foi durante esse período que ele desenvolveu um interesse pela história africana. Com os chefes mais velhos que vinham ao Grande Palácio para negócios oficiais, ele aprendeu que os povos africanos viviam em relativa paz até a chegada das pessoas brancas. De acordo com os anciãos, as crianças da África do Sul haviam vivido como irmãos, mas os homens brancos tinham acabado com essa fraternidade. Enquanto os homens negros compartilharam terra, ar e água com os brancos, os brancos tomaram todas essas coisas para eles mesmos. Ao ouvir as histórias dos anciãos sobre o valor de seus antepassados durante as guerras de resistência, ele também sonhou em dar sua própria contribuição para a luta pela liberdade do seu povo.

Ao completar 16 anos, Mandela participou do ritual tradicional africano de circuncisão. A cerimônia de circuncisão não era apenas um procedimento cirúrgico, mas um rito de passagem para o ingresso na idade adulta. Durante o processo, o chefe Meligqili, principal orador da cerimônia, falou com tristeza sobre os jovens, explicando que estes tinham sido escravizados em seu próprio país, porque sua terra era agora controlada por homens brancos, e que eles nunca teriam o poder de governar a si mesmos. Mandela diria mais tarde que, embora as palavras do chefe não fizessem total sentido para ele na época, elas acabariam por formular sua determinação por uma África do Sul independente.

Durante o tempo em que Mandela ficou sob a tutela do regente Jongintaba, ele foi preparado para assumir um alto cargo, não como um chefe, mas como conselheiro. Como realeza de Thembu, Mandela completou seus estudos secundários em uma escola missionária Wesleyana, o Instituto Clarkebury Boarding e Wesleyan College.

Em 1939, Mandela matriculou-se na Universidade de Fort Hare, na época o único centro residencial de ensino superior para negros na África do Sul. Em seu segundo ano em Fort Hare, ele foi eleito para o Conselho Representativo dos Estudantes. Há algum tempo, os alunos estavam insatisfeitos com a comida e a falta de energia mantida pela SRC (Student Representative Council). Durante essa eleição, a maioria dos alunos votou por um boicote caso suas exigências não fossem atendidas. Alinhando-se com a maioria dos estudantes, Mandela demitiu-se do cargo. Vendo isso como um ato de insubordinação, o reitor da universidade, Dr. Kerr, expulsou Mandela pelo resto do ano e deu-lhe um ultimato: ele poderia voltar para a escola se concordasse em servir ao SRC. Quando Mandela voltou para casa, o regente estava furioso, dizendo-lhe inequivocamente que ele teria de se retratar de sua decisão e voltar para a escola no outono ou teria de se casar. Mandela então fugiu de casa e foi para Johannesburgo.


CONGRESSO NACIONAL AFRICANO
O Congresso Nacional Africano foi fundado em 1912 como uma organização de defesa da população negra e de resistência ao governo racista.

Mandela logo se tornou ativamente envolvido no movimento antiapartheid, juntando-se ao Congresso Nacional Africano em 1942. Dentro do Congresso, um pequeno grupo de jovens africanos se organizou, criando em setembro de 1944 a “Liga Juvenil do Congresso Nacional Africano” (ANCYL), presidida pelo próprio Mandela. O objetivo deles era transformar o CNA em um movimento de massa, obtendo o apoio de milhões de camponeses pobres e trabalhadores que não possuíam nenhuma voz no regime atual. Especificamente, o grupo acreditava que as táticas antigas do Congresso, envolvendo petições educadas, não estavam surtindo efeito. Em 1949, o CNA adotou oficialmente os métodos da Liga Juvenil que incluíam boicote, greve, desobediência civil e a não cooperação com o governo, com o objetivo da política de cidadania plena, com igualdade jurídica para os cidadãos negros, redistribuição de terras, direitos sindicais e educação gratuita e obrigatória para todas as crianças.

Em junho de 1951, Mandela foi encarregado da divulgação por todo o país da Campanha de Desafio às Leis Injustas. Essa campanha de desobediência civil teve início em 26 de junho de 1952 e foi um programa conjunto entre o CNA e o Congresso Indiano Sul-Africano (SAIC) contra seis leis injustas do apartheid, entre elas a lei do passe, segundo a qual todo negro deveria portar um documento para se deslocar, que poderia ser exigido por qualquer autoridade branca. Mandela e outras 19 pessoas foram acusadas de violar a Lei de Supressão do Comunismo segundo a qual qualquer pessoa podia ser considerada comunista e condenada ao exílio. A Campanha de Desafio às Leis Injustas levou Mandela à prisão. Ele cumpriu nove meses de pena e foi proibido de deixar Johannesburgo, de participar de atos públicos e de ocupar cargos políticos.

Como a atividade política implicava problemas para Mandela, ele passou a dedicar-se à luta contra o apartheid em seu trabalho como advogado. Uniu-se a outro político do CNA, Oliver Tambo (1917-1993), e fundou um escritório de advocacia – Mandela e Tambo –, o primeiro dirigido por pessoas negras na África do Sul. Uma de suas principais tarefas foi dar assistência legal a ativistas acusados de fazer oposição ao regime. Mesmo fora das manifestações políticas, Mandela seguiu tendo problemas com o governo racista da África do Sul.

Em 21 de março de 1960, a polícia matou 69 pessoas desarmadas em um protesto pacífico realizado em Sharpeville contra a lei de passe. Em seguida, o governo racista da África do Sul declarou ilegal o CNA e decretou estado de sítio. Em 11 de janeiro de 1962, usando o nome adotado David Motsamayi, Nelson Mandela deixou secretamente a África do Sul. Viajou pela África e visitou a Inglaterra a fim de obter apoio para a luta armada. Recebeu treinamento militar no Marrocos e na Etiópia e retornou à África do Sul em julho de 1962. Pouco depois, ele formaria o braço armado do CNA.

Em 9 de outubro de 1963, ele se uniu a outros dez camaradas em um julgamento por sabotagem, no que ficou conhecido como o Julgamento de Rivonia. Enquanto enfrentava a pena de morte, suas palavras ao tribunal no final de seu famoso discurso “Estou preparado para morrer”, em 20 de abril de 1964, tornaram-se imortalizadas:

“Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Eu tenho acariciado o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver e alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.”

Mandela já contava com uma popularidade surpreendente antes de ser preso em 1964, porém seu encarceramento o converteu em símbolo da luta contra o apartheid. Ele foi o líder da resistência negra por excelência e sua fama ultrapassou fronteiras. Recusou-se terminantemente a comprometer sua posição política para obter a sua liberdade. Apesar das tentativas do governo racista de enquadrá-lo como terrorista, a opinião pública não acreditou nas mentiras do regime, e Mandela conquistou a solidariedade internacional.


DE KLERK E A LIBERDADE
Bons ventos soprariam na África do Sul após agosto de 1989, quando o político branco Frederik Willem de Klerk, líder do Partido Nacional, foi eleito presidente da África do Sul. Durante seu governo, o Congresso Nacional Africano recuperou os direitos políticos, as leis do apartheid foram gradualmente revogadas e Nelson Mandela foi libertado em 1990, após 28 anos de cárcere.

Poucos dias após reconquistar a liberdade, Mandela conseguiu levar milhares de pessoas ao bairro de Soweto, em Johannesburgo, em sua primeira aparição pública. Seu discurso foi alegre e festivo. Nele, Mandela pediu calma aos sul-africanos, apoio ao governo de De Klerk e disse que os movimentos negros mais radicais deveriam moderar suas ações.

Em 1991, Mandela foi eleito presidente do Congresso Nacional Africano, o qual renunciou à luta armada. A opção de Mandela pela luta democrática e pacífica afetou sua vida particular. Sua segunda esposa, Winnie Mandela, então presidente da Liga das Mulheres do CNA, não aceitou as propostas do marido e seguiu na luta armada.

Em 1993, Mandela e o presidente de Klerk foram premiados conjuntamente com o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho para acabar com o apartheid. Devido, em grande parte, ao seu trabalho, as negociações entre negros e brancos sul-africanos prevaleceram: em 27 de abril de 1994, a África do Sul realizou suas primeiras eleições democráticas. Nelson Mandela foi empossado como primeiro presidente negro do país em 10 de maio de 1994, aos 77 anos, com de Klerk como primeiro suplente. De 1994 até junho de 1999, Mandela trabalhou para fazer a transição do regime de minoria ao governo de maioria negra.

Durante sua presidência, Mandela também se dedicou a proteger a economia da África do Sul do colapso. Por meio de seu Plano de Reconstrução e Desenvolvimento, o governo sul-africano financiou a criação de empregos, habitação e cuidados de saúde básicos. Em 1996, Mandela assinou uma nova constituição para o país, estabelecendo um governo central forte com base na regra da maioria e garantindo tanto os direitos das minorias quanto a liberdade de expressão. Depois de se retirar da política, ocupou-se da arrecadação de dinheiro para construir escolas e clínicas no coração rural da África do Sul por meio de sua fundação e servindo como mediador na guerra civil do Burundi. Além de defender a paz e a igualdade em escala nacional e global, durante seus últimos anos de vida, Mandela continuou comprometido com a luta contra a aids, doença que matou seu filho Makgatho em 2005.

Mandela foi diagnosticado e iniciou um tratamento contra um câncer de próstata em 2001. Em junho de 2004, aos 85 anos, ele anunciou formalmente sua aposentadoria da vida pública e voltou para sua aldeia natal em Qunu. Em 18 de julho de 2007, ele reuniu um grupo de líderes mundiais, incluindo Graça Machel, Desmond Tutu, Kofi Annan, Ela Bhatt, Gro Harlem Brundtland, Fernando Henrique Cardoso, Jimmy Carter, Li Zhaoxing, Mary Robinson e Muhammad Yunus para tratar de alguns dos problemas mais difíceis do mundo. Com o intuito de trabalhar na esfera pública e privada para encontrar soluções para os problemas do mundo, o grupo foi apropriadamente chamado de “Os Anciãos” (The Elders). Seu impacto se espalhou pela Ásia, pelo Oriente Médio e pela África, com ações que incluíam a promoção da paz e da igualdade das mulheres, exigindo um fim para as atrocidades cometidas, além de apoiar iniciativas para enfrentar crises humanitárias e promover a democracia. Em 5 de dezembro de 2013, aos 95 anos, Nelson Mandela morreu em sua casa em Johannesburgo. Pelas próximas décadas, ele vai continuar sendo uma fonte de inspiração para os ativistas de direitos civis no mundo inteiro.