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Gutenberg, o criador da imprensa
 
 
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Gutenberg criou os tipos móveis na imprensa no século XV. O primeiro livro impresso foi a Bíblia

Johannes Gensfleish, mais conhecido por Gutenberg, nasceu na cidade alemã de Mogúncia, entre 1394 e 1399. O nome Gutenberg, que seria adotado por ele, foi tomado do nome da casa da família de sua mãe, onde passou a infância junto com o pai, Friele Gensfleish, a mãe, Else Wyrich, e dois irmãos. Descendia de família rica e assim que irromperam as lutas políticas em sua cidade natal, estabeleceu-se em Estrasburgo (atualmente na França).

O primeiro registro de Gutenberg nessa cidade é de 14 de março de 1434. Ele montou um ateliê de ourivesaria junto com dois sócios e especializou-se na lapidação de pedras preciosas e na manufatura de lentes e espelhos. Simultaneamente, sozinho, dedicou-se a investigar técnicas de impressão, que, à época, era englobada sob o rótulo de “novas artes”.

Segundo testemunhos de viajantes, entre eles Marco Pólo (1254-1324), desde o século VII a impressão era uma arte desenvolvida na China, já que imagens de Buda eram reproduzidas com pequenos carimbos de madeira e os textos impressos com a ajuda de matrizes.
No século XI, Bi Sheng inventou um sistema de imprensa com caracteres móveis. Certos documentos do fim do século XV situam em 1440 a invenção de Gutenberg, um procedimento de impressão com caracteres móveis, mas de maneira totalmente diferente da tradição oriental. Segundo esses testemunhos, às escondidas de seus sócios, Gutenberg não hesitara em retirar cem guldens (moeda dos Países Baixos) do cofre do ateliê para continuar, em segredo, suas experiências. Quando seus sócios no negócio de ourivesaria — os irmãos Georg e Klaus Dritzehn — perceberam o furto, abriram um processo judicial contra Gutenberg pelo uso indevido do dinheiro. Sabe-se que o juiz anotou que o acusado comprara chumbo “para fabricar peças que eram separadas e fundidas”. Gutenberg perdeu o litígio e teve de abandonar Estrasburgo.

Em 1449, após a ruptura com os irmãos Dritzehn, Gutenberg regressou a Mogúncia e começou a trabalhar no ateliê de Johann Fust, a quem se associou, fundando a firma Das Werk der Bücher (a oficina do livro). Essa empresa foi a primeira tipografia no sentido moderno do termo. Em 1455, Fust abriu um processo contra Gutenberg, acusando-o de não pagar os juros combinados e não devolver o restante do dinheiro que lhe emprestara para o projeto. A perda desse novo processo privou Gutenberg de seu material tipográfico e, provavelmente, de sua primeira obra impressa nesse mesmo ano: a famosa Bíblia latina em duas colunas, chamada de “42 linhas”.


A PRIMEIRA OBRA IMPRESSA
A Bíblia de 42 linhas tinha mais de 1.200 páginas e ainda hoje é admirada como um prodígio de beleza tipográfica: as letras são de tipo gótico, como os manuscritos medievais. A regularidade das letras, dos espaços em branco e das colunas é assombrosa para a época. A primeira edição teve uma tiragem de 120 exemplares em papel e vinte em pergaminho. Deles, conservam-se 33 e 13, respectivamente, os quais constituem um dos objetos mais venerados pelos bibliófilos.
Em 1457, Fust associou-se a Peter Schöffer, que trabalhara como aprendiz de Gutenberg, e imprimiu o Mainzer Psalterium (o saltério pode ser uma versão do Antigo Testamento ou um livro do coro que contêm só os salmos), com a ajuda de caracteres que haviam sido fabricados ao mesmo tempo que os da Bíblia de 42 linhas — para a impressão de uma obra ainda mais relevante: provavelmente um missal. O Psalterium é considerada a segunda obra de Gutenberg, embora traga os nomes de Fust e Schöffer.


OS TIPOS MÓVEIS
Alguns contemporâneos de Gutenberg, como o holandês Laurens Coster, trabalhavam havia tempo na confecção de caracteres móveis de madeira. Mas, por mais que tentasse, Coster não conseguiu tipos funcionais. Para que o procedimento ficasse completamente pronto, faltavam duas coisas: fabricar tipos móveis resistentes e construir a prensa de madeira. E foi isso o que conseguiu Gutenberg, cujos conhecimentos do trabalho com metais foram essenciais para construir os moldes que representavam as letras do abecedário. Para obter esses moldes, era necessário gravar primeiro a forma das letras com um punção, com o qual se fazia uma incisão num bloco de cobre. Depois, nessa incisão, vertia-se um liga de chumbo, antimônio e estanho. Quando a liga se solidificava, os caracteres das letras e sinais, já frios, passavam às mãos do tipógrafo. Este dispunha as letras em palavras, frases e linhas, que eram agrupadas em páginas para constituir uma fôrma (várias páginas armadas com o texto e os espaços em branco). Os tipógrafos eram em geral pessoas de grande cultura, que dominavam perfeitamente a gramática, o léxico e a ortografia. Dessa maneira, os moldes metálicos puderam substituir os primitivos de madeira, que eram muito mais frágeis e se quebravam sob o peso da prensa.

A prensa de Gutenberg era de carvalho e muito grande. Seu mecanismo era simples. A prensa em si era acionada com a mão por meio de um parafuso grosso — o fuso de lagar —, que fazia subir e baixar uma prancha de madeira chamada quadro. Essa prancha pressionava a fôrma entintada que se queria imprimir sobre a folha de papel estendida horizontalmente sobre uma plataforma — platina — solidamente fixada ao solo. Como a superfície do quadro era menor que a fôrma de papel, a operação de prensagem devia ser feita duas vezes. Em 18 de janeiro de 1465, Adolfo II de Nassau, arcebispo de Mogúncia, outorgou a Gutenberg um título de nobreza e o hospedou em sua residência de Eltwill, o que lhe permitiu avançar em suas experiências tipográficas. A distinção que o arcebispo lhe conferiu incluía diversas comodidades, como vestuário e alimentação.


A PRIMEIRA REVOLUÇÃO EDITORIAL
A prensa de Johannes Gutenberg foi recebida com entusiasmo em todos os centros culturais da Europa do século XV. Muitos de seus discípulos — Numeister, Keffer, Ruppel, Mentel, Pfister, Sweyenheim e Von Speyer, entre muitos outros — difundiram a invenção por diversos pontos do continente. Vidas paralelas, de Plutarco, a História, de Heródoto, e a Vida dos césares, de Suetônio, figuraram na plêiade de obras clássicas que a impressora de tipos metálicos móveis popularizou. Além da Bíblia de Gutenberg, calcula-se que no período compreendido entre 1440 e 1450 foram impressas mais de seis mil obras. O número de prensas aumentou rapidamente durante esses anos nas cidades alemãs. Na Itália, a primeira tipografia foi fundada em Veneza, em 1469, e por volta de 1500 a cidade já contava com 417. Em 1476, a tipografia chegou à Inglaterra pelas mãos de William Caxton. Na Espanha, Arnaldo de Brocar compôs a Bíblia poliglota em seis volumes, entre 1514 e 1517. Um jesuíta espanhol, Juan Pablos, fundou em 1536 uma tipografia no México. Em 1468, em pleno apogeu da tipografia, Gutenberg morreu, segundo a lenda, praticamente cego. Foi enterrado na igreja de Saint Francis. Sua invenção difundiu-se durante séculos tal como ele a concebeu, e de 1450 ao século XIX só foi preciso acrescentar pequenas melhorias ao modelo original, como as molas no mecanismo da prensa.

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