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Gandhi, a força da não violência
 
 
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Gandhi era conhecido como o “mahatma”, que em indiano significa “a grande alma”

Mohandas Karamchand Gandhi, mais conhecido como Mahatma (“grande alma”) Gandhi, nasceu em Porbandar, em 1869, no seio de uma família da casta vaixá (comerciante) e vinculada à atividade política. Cursou direito em Londres e depois formou-se advogado na universidade de Mumbai.

Entre 1893 e 1914, com algumas breves interrupções, residiu na África do Sul, empenhado na defesa dos membros da comunidade indiana, vítimas da segregação racial. Em 18 de dezembro de 1913, Jan Smuts (1870-1950), chefe de governo sul-africano, firmou com Gandhi um acordo segundo o qual muitas das medidas discriminatórias contra os indianos foram revogadas.

De volta à Índia, em 1893, Gandhi empreendeu sua primeira atividade política: uma campanha a favor dos produtores de índigo do distrito de Champaran, ao norte de Bihar. Foi seu primeiro satyagraha (“abraço à verdade”), ação não violenta a serviço da verdade. Esse satyagraha projetou sua figura em âmbito nacional.

As formas de luta não violenta nutriam-se de algumas tradições hinduístas, mas também da Bíblia, em particular do “sermão da montanha”. Nesse período, Gandhi entusiasmou-se pelas idéias do romancista russo Leon Tolstoi (1828-1910), partidário de uma prática cristã baseada nos Evangelhos, pela exaltação do trabalho manual por parte do inglês John Ruskin (1819-1900) e pelos textos contestadores do norte-americano Henry David Thoreau (1817-1862), autor de A desobediência civil (1849).

Em 6 de abril de 1919, Gandhi empreendeu um novo satyagraha, dessa vez contra as leis Rowlatt de repressão às atividades subversivas, que, de fato, impunham a lei marcial em todo o território da Índia. Essa ação transformou Gandhi em líder do nacionalismo indiano. Não obstante, seu prestígio era muito superior ao controle efetivo que exercia no movimento. Várias organizações promoveram ações violentas que, entre outras represálias, resultaram na matança de Jalyanvalabagh, comandada pelo general Dyer (1864-1927), que mandou disparar contra uma multidão que protestava pacificamente. Com o rumo que tomaram os acontecimentos, Gandhi interrompeu a campanha.

Em 1920, Gandhi assumiu o controle efetivo da organização do Partido Nacionalista Hindu e fez com que o congresso adotasse um programa de não-cooperação, baseado no boicote generalizado às instituições coloniais e aos produtos europeus, em especial os têxteis. A essa medida somou-se uma convocação a favor da fiação e tecelagem manual. Tal resolução não só atendia a uma necessidade política e econômica específica, como também à filosofia do “gandhismo”, que manifestava hostilidade à indústria manufatureira e reivindicava princípios de higiene naturista na vida cotidiana. Ante o endurecimento da administração colonial e as prisões em massa de ativistas indianos, em 1922, o Mahatma comandou novo protesto e foi então encarcerado e condenado a seis anos de prisão. Dois anos depois, por problemas de saúde, foi libertado.

Esses avanços e retrocessos arrefeceram o entusiasmo do povo indiano e apenas os grupos independentistas partidários da violência, devido a seu grau de organização, mantiveram sua atividade, com o conseqüente recrudescimento da repressão governamental.


O CHAKRA
Gandhi decidiu dedicar-se inteiramente à educação popular. O chakra, ou seja, o torno para fiar, tornou-se o símbolo da nova etapa. A partir de 1928, no Partido do Congresso Nacional Indiano, motor do movimento nacionalista, ele se destacou junto à figura de Jawaharlal Nehru (1889-1964), homem identificado com a filosofia do Mahatma. Enquanto Nehru cuidava da política, Gandhi pôde dedicar-se inteiramente a sua campanha educativa e percorrer a Índia, compartilhando as condições de vida miseráveis das maiorias como se a elas pertencesse. Em todos os lugares deu exemplo de espiritualidade, pacifismo e austeridade.

Ao mesmo tempo, por seu prestígio internacional, encarregou-se das relações com o Reino Unido, numa instância acima das estruturas de governo locais. Em 1929, publicou um pedido de autonomia para a Índia e fixou como prazo 1º de janeiro de 1930. Ante a negativa do Reino Unido, lançou uma nova campanha de desobediência civil, dirigida basicamente contra o monopólio estatal da extração e comercialização do sal. De 12 de março a 6 de abril de 1930, sucederam-se numerosas manifestações públicas que, encabeçadas por Gandhi, confluíram para o povoado de Dandi, à beira-mar, onde, infringindo as disposições legais do monopólio, apanharam um punhado de sal. Durante essa manifestação, Gandhi foi duramente espancado pelos soldados britânicos e preso.

Como a desobediência civil se alastrava cada vez mais, em 4 de maio Gandhi foi convidado a iniciar as negociações com os representantes ingleses na Índia. O dirigente indiano negou-se a negociar de dentro do cárcere, ainda que suas condições de encarceramento fossem melhoradas, como propuseram as autoridades britânicas. Em janeiro de 1931, Gandhi foi libertado e, em setembro, teve início uma rodada de negociações que em pouco tempo resultou em completo fracasso. Gandhi foi novamente enviado à prisão, onde permaneceu um ano.


A ÚLTIMA CASTA
Posto em liberdade, Gandhi iniciou uma campanha em favor da casta mais pobre da Índia, composta principalmente de camponeses sem terra e completamente marginalizados.

A eclosão da Segunda Guerra Mundial obrigou o Reino Unido a reduzir seus conflitos coloniais a fim de poder concentrar seus esforços na luta contra a Alemanha nazista. Em razão dessa política, em maio de 1942 chegou à Índia sir Stafford Cripps (1889-1952), com a oferta de um estatuto de autonomia em troca da participação da Índia em sua própria defesa diante do avanço do Japão, aliado de Adolf Hitler (1889-1945). Gandhi recusou a proposta britânica, embora, em uma declaração conhecida como Quit India (Saiam da Índia), deixou clara a oposição do movimento independentista ao nazismo e ao facismo.

A política britânica dedicou-se a fomentar os conflitos entre as duas religiões majoritárias na Índia: o hinduísmo e o islã. Finda a guerra, Gandhi fez greves de fome cada vez mais prolongadas para conseguir a independência e estimular o diálogo entre hindus e muçulmanos a fim de evitar, como logo ocorreu, a divisão da Índia em dois estados (Paquistão e Índia), com base nas diferenças religiosas.

Essa divisão foi uma das maiores frustrações da vida de Gandhi, o qual pretendia que a independência da Índia fosse feita por uma região unida e não acompanhada por uma divisão tão problemática.

A ascensão ao governo britânico do Partido Trabalhista, presidido por Clement Attlee (1883-1967), criou melhores condições para as negociações tendo em vista a independência. O Reino Unido confiou ao lorde Mountbatten (1900-1979) a tarefa de pôr fim à presença colonial britânica na Índia. O representante da coroa levou a efeito os planos de aproveitar os conflitos religiosos e, em agosto de 1947, a Índia deixou de ser território britânico para se tornar dois estados independentes: a Índia e o Paquistão. Em um confuso episódio, em janeiro de 1948, Mahatma Gandhi foi assassinado por Vinayak N. Godse (1915-2001), membro do Rashtriya Svayamsevaj, um movimento fundamentalista hindu.


LEGADO
Gandhi deixou para o mundo o legado da não violência. Segundo o filósofo francês Jean-Marie Muller, fundador e diretor do Instituto de Pesquisas sobre a Resolução Não Violenta de Conflitos, com sede em Montreuil, na França, nós “somos governados pela idéia de que a violência é necessária, legítima e honrada. Só que a violência jamais trará uma resolução para os problemas humanos. Todos conhecemos o semblante de Gandhi, mas precisamos ir mais longe e estudar seu pensamento e sua ação. Isso deveria ser ensinado nas escolas”.

A filosofia de Gandhi defende que os conflitos dentro das relações humanas são inevitáveis, porém a forma de agir para superá-los quando eles ocorrem não precisa ser necessariamente violenta.

Para Gandhi a violência era algo bem maior do que apenas o uso da força ou da agressão física. O líder indiano acreditava que a violência podia ser algo como a agressão verbal, a humilhação, o preconceito ou o abuso de poder. O uso da força é apenas um tipo de violência. Segundo Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena, em São Paulo, “podemos provocar violências terríveis sem jamais atingir uma pessoa fisicamente. A agressão física é a última manifestação de todo um repertório de valores que permite desqualificar o outro e submetê-lo. Esse repertório tem de ser desconstruído por meio da cultura da paz”.


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