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Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho
 
 
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 ÉPOCA DE MUDANÇAS
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Mulato e pobre, o Bruxo do Cosme Velho nasceu sob o regime de uma monarquia escravocrata

Machado de Assis viu e viveu muita coisa. Entre elas, o fim do romantismo e o começo do realismo na literatura brasileira; a criação da Academia Brasileira de Letras; a mudança da Monarquia para a República; a abolição da escravidão; a Guerra do Paraguai (1864-1870) e a modernização da cidade do Rio de Janeiro.

Seu maior legado: escarafunchar almas cariocas que também viveram nesse período. Ele foi um dos mais importantes e refinados estudiosos da psicologia brasileira e um dos mais penetrantes analistas dos sentimentos da sociedade do Rio de Janeiro da belle époque. Segundo o crítico Otto Maria Carpeaux (1900-1978), Machado de Assis “não é exótico em relação à Inglaterra, e sim em relação ao Brasil. O caso é enigmático: um mulato de origens proletárias, autodidata, torna-se o escritor mais requintado da sua literatura, espírito cheio de arrière-pensées, que exprimiu menos em versos parnasianos à maneira de Fitzgerald, do que em romances satíricos à maneira de Thackeray [1881-1863]”.

Mestre do texto, Machado conseguiu entender e descrever como poucos o Rio de Janeiro dos oprimidos da sua infância no morro do Livramento e das elites cariocas com as quais ele conviveu e fez parte na idade adulta.

Em seus romances da fase madura os personagens são marcados pela ambigüidade das próprias personalidades e da cidade divida entre os pobres e escravos e os ricos e agregados. Sua literatura traz à tona esse mundo rasgado pelas diferenças sociais e econômicas que formou e forma a alma da sociedade brasileira.

Para Carpeaux, essa genialidade deve muito ao meio, pois “além da particularidade do gênio que resiste à análise, algumas razões de ordem política e econômica: o Império do Brasil de 1880 era semicolônia da Inglaterra vitoriana. Machado de Assis, proletário e half-breed, alto funcionário e presidente de uma Academia de Letras, é um grande escritor vitoriano. As memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro não têm que recear a comparação com Thackeray; falhas de coerência na composição novelística, que uma crítica de formação francesa apontaria, não são defeitos tão graves em romances de tipo inglês, se bem que em língua portuguesa (...) a base econômica da literatura vitoriana existia, pelo menos para pequenos grupos, também no Brasil e em toda parte onde a City canalizou para Londres e os midlands os juros das inversões e empréstimo do capital inglês.

A inteligência vitoriana é essencialmente a de rentiers, dependendo da estabilidade econômica que as belonaves de Sua Majestade Britânica garantiam. Daí se explica a estabilidade do ‘compromisso vitoriano’; e quanto mais o impulso inicial da revolução industrial diminuiu e os mercados conquistados nos estrangeiro saturaram, tanto mais se acalmaram as dúvidas. A prosperidade inglesa, baseada em economia utilitarista e ciência positivista aplicadas, parecia feita para toda eternidade, como o dogma da Igreja”.

Machado vivia, portanto, em uma cidade que, segundo o professor de ciência política da USP Paulo Sérgio Pinheiro, era marcada pela “escravaria recém-liberta, o Rio de Janeiro se civilizava, com a ajuda de um urbanismo despótico que limpava o populacho de toda a cidade”. Já para o professor de literatura brasileira da mesma Universidade de São Paulo, João Adolfo Hansen, Machado de Assis construiu seu estilo a partir das “ruínas de um tempo morto” e dos “resquícios arruinados de um mundo pré-moderno”: o Rio de Janeiro da belle époque.

Como o próprio Machado de Assis escreve em Esaú e Jacó, “O tempo é um tecido invisível, em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro”. Até o nada machadiano, que inevitavelmente tinha como espaço físico o Rio de Janeiro, não era pouca coisa. Por isso sua obra é imensa.

No clássico Formação da Literatura Brasileira, o crítico Antonio Candido diz: “Se voltarmos porém as vistas para Machado de Assis, veremos que esse mestre admirável se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores. A sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente, que compreendeu o que havia de certo, de definitivo, na orientação de Macedo para a descrição de costumes, no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio, na vocação analítica de José de Alencar. Ele pressupõe a existência dos predecessores, e esta é uma das razões da sua grandeza: numa literatura em que, a cada geração, os melhores recomeçam ‘da capo’ e só os medíocres continuam o passado, ele aplicou o seu gênio em assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores. Este é o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus, do seu alheamento às modas literárias de Portugal e França. Esta, a razão de não terem muitos críticos sabido onde classificá-lo”.