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Cervantes, o Quixote das letras
 
 
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 UM MUNDO NOVO
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Felipe II, rei da Espanha que confiou a destruição da Grã-Bretanha à Armada Invencível

Na Idade Média, as novelas de cavalaria constituíram um modelo ideal de humanidade, próprio de uma época em que os senhores feudais e a Igreja eram os pilares da sociedade. Os cavaleiros encarnavam o arquétipo que unificava a fé em Deus com as virtudes então mais apreciadas: a fidelidade ao rei e o arrojo no combate. O Renascimento, que, de certa forma, substituiu a cultura medieval e abriu as portas à modernidade, forjou um novo arquétipo: o ser humano era então um ser complexo, contraditório, quase insondável.

Quando a Reforma questionou o poder do papado, a Espanha se converteu no baluarte do catolicismo. A Inquisição, que se encarregou de perseguir a sangue e fogo aqueles que a Igreja considerava hereges — entre os quais luteranos, judeus e mouros —, fez de tudo para que as novas idéias não desembarcassem na península. Contudo, os autos de fé e os tormentos não detiveram a história, já que o Renascimento impregnou sigilosamente a cultura peninsular.

Segundo o crítico e ensaísta Luiz da Costa Lima, “em sua burla da Ordem de Cavalaria, Cervantes condensa e atrai a sátira das instituições vigentes. Sua extrema habilidade consiste em fazê-la passar como se tratasse de algo inocente: as loucuras de alguém que crê em algo que ninguém pratica. Assim se mostra na própria cena em que é armado cavaleiro. O estalajadeiro finge-se de castelão e, nomeando os lugares em que realizara suas proezas, refere ‘barrios de la mala vida’ (Francisco Rico).

A sátira é bifronte: atacando as práticas literárias, questiona a gravidade contra-reformista; ambas deixam intacto o anônimo cotidiano, de cujo núcleo sequer se dão conta. Pela sátira de ambas, introduz-se o prosaico cotidiano, cuja tematização ganha em eficácia a partir da entrada de Sancho. O mundo é visto a partir de uma dupla ótica”.

Para o crítico, nessa dupla óptica contrastam “as visões do Cavaleiro da Triste Figura, magro e visionário, e o lavrador, farto de banhas e pobre de haveres, palmilha as múltiplas cenas do mundo (…) Sancho, conquanto fiel a seu senhor e conivente com suas loucuras, guarda o senso de realidade: a realidade é rude e ignorante como ele, embora desconheça sua boa-fé. Por isso, ao passo que todos reconhecem o desvario do Quixote, Sancho chega a pôr em dúvida as certezas que todos acatam”.

E prossegue: “(...) Assim sucede quando a burla da Ordem de Cavalaria atinge seu cume, com o divertimento que planejam o duque e a duquesa, no segundo livro: fingem cumprir o sonho de Sancho, tornando-o por alguns dias governador da ínsula da Barataria; e o do Quixote, desencantando uma Dulcinéia que só ele mesmo encantara. Ao longo da ficção encenada ao ar livre, que começa com a ‘caza de montería’, privilégio da nobreza, o personagem que deveria representar o demônio se distrai e comete o engano de invocar o nome de Deus. Em seu prosaico bom senso, Sancho conclui que aquele demônio só podia ser um bom cristão: ‘Agora tenho para mim que ainda no mesmo inferno deve haver boa gente’. Não sabe ele que assim abala toda a ordem do mundo. Sob a burla do Quixote e o contraponto do fiel escudeiro, o mundo codificado se põe de pernas pro ar. Como estranhar que, depois de Cervantes, o romance não prospere na Espanha contra-reformista? Uma pequena entrada na regra estabelecida em Trento explica o que pareceria enigmático ou ocasional. Sob o comando sobretudo de teólogos espanhóis, a Igreja tridentina, disposta a combater a praga protestante, considerara o livre arbítrio o princípio que deveria reger o Estado cristão”.

Cervantes representa ideais que ele havia conhecido diretamente no seio da cultura renascentista, na Itália, e sua obra máxima é testemunha disso. Por isso, Dom Quixote de la Mancha enlouquece lendo precisamente novelas de cavalaria, ou seja, vivendo uma realidade, mas olhando-a com olhos do passado. Todas as peripécias que ele vive em suas disparatadas aventuras são fruto do transtorno de sua razão, a qual já não serve mais para aquele mundo novo. A mesma Dulcinéia del Toboso, a dama de seus idealizados amores, não é mais que uma simples camponesa chamada Aldonsa Lorenzo. Ao lado do Caballero de la Triste Figura, Sancho Pança assinala a confrontação entre os delírios de seu amo e a realidade imediata. Dado que, por sua vida marcada pelos apertos econômicos e pelas questões judiciais, Cervantes conheceu a realidade em suas múltiplas e mais realistas facetas. Em sua obra ele plasmou situações onde os ideais cavalheirescos se desvaneciam ante o absurdo e o riso. Evidentemente, já não eram tempos para cavaleiros andantes, amores impossíveis e heroísmos individuais. A derrota da Armada Invencível com a qual Felipe II pensava destruir a Grã-Bretanha, potência emergente embandeirada com o capitalismo e o protestantismo, marcou o naufrágio da Espanha católica e imperial. A genialidade de Cervantes consistiu em expressar o choque entre um mundo que sucumbia e outro novo, no de todo conhecido, que começava a nascer.

O Dom Quixote é uma paródia às novelas de cavalaria e, portanto, uma crítica à época e aos costumes e ideais que estavam em seu ocaso.

Paradoxalmente, como gênero literário, os livros de cavalaria, que constituíram uma tradição européia que se praticou do século XII até o fim do XVI, e suas lendas e aventuras ainda hoje permanecem atuais, principalmente quando falamos da cultura de massa do mundo ocidental. Heróis como o cavaleiro Aragorn, de O senhor dos anéis, e mesmo o próprio Rei Arthur encarnam nos nossos dias, com grande sucesso nas telas de cinema, alguns ideais e alguns estereótipos das novelas de cavalaria.

As novelas de cavalaria surgiram na Europa da baixa Idade Média. Seu modelo era um fiel reflexo da sociedade de senhores e vassalos, e dos ideais da classe que empolgava o poder. Os livros de cavalaria também eram marcados por componentes mágicos e exóticos realçados pela descrição lírica de uma natureza idealizada e, por esse motivo, irreal.

Já o contexto do Quixote, segundo Harold Bloom, é o da “pobreza e da sujeira, exceto pelas casas dos nobres, que são redutos de racismo e zombaria onde Dom Quixote é sujeito a brincadeiras cruéis”. Para Bloom, “o romance de Cervantes (que inaugurou o gênero) é memorável por dois seres humanos belíssimos, Quixote e Sancho, e pela comunhão terna, embora irascível, entre eles”.

Enquanto nas novelas de cavalaria os temas característicos dessa literatura são utilizados como uma espécie de obrigação do gênero, ou seja, para um livro ser uma novela de cavalaria ele precisa de um amor cortês, da defesa da honra, da cega lealdade a um rei e, muita vez, de uma clara intenção religiosa. O cavaleiro de Cervantes, segundo Harold Bloom, “é corajosamente louco e obsessivamente corajoso, mas ele não se auto-ilude. Ele sabe quem é, mas também quem pode ser, se assim o quiser. Quando um padre moralizador acusa o Cavaleiro de ausentar-se da realidade e ordena que ele volte para casa e deixe de perambular, Quixote responde que, realisticamente, como cavaleiro errante, já corrigiu malfeitos, castigou a arrogância e esmagou monstros diversos”.

O Quixote de Cervantes não aceitava as formas da novela de cavalaria, ele as transformava em um passaporte para a liberdade e para a criação.